A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

18

 
 
 
 
ALBANO MARTINS



A mão
desenha
o lápis.

Devagar.
Entre a cicuta
e o mosto.

Albano Martins

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


***

Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -





António Baticã Ferreira

O Mar

Olhai: o Mar tem influência singular
Sobre mim. Os animais aquáticos são tantos!
Valia a pena persegui-los no mar alto;
Valia a pena vê-los saltar através das ondas.

O Mar, esse mundo que os homens não habitam,
É imenso, tão belo e tão perfeito!
O Mar tem influência singular
Sobre mim. Eu bem queria ir ver as ondas:
Valia a pena olhá-las a correr
Loucamente; valia a pena
Ver qual delas primeiro entrava na baía.

Ah!, o Mar vasto, no entanto, aqui nos fala
Sim, fala-nos interiormente,
E nós compreendemos a sua língua:
É uma língua que se entende.

(Ah!, que impressão nos faz o Mar!)

( in Poesia & Ficção; centro Virual Camões)

*

António Baticã Ferreira nasceu em Canchungo (Guiné-Bissau), em 1939.
Licenciado em Medicina pela Universidade de Lausana.
Colaborou em diversas publicações. Poeta.

***

UM POETA DA MADEIRA




SÃO MONIZ GOUVEIA




sono de menino

ao Egas



carregarei teu fardo, as inúmeras perguntas

do realejo que chora, não por ritual ou por acaso,

mas carregarei teu sono como metal precioso

que jaz à espera dentro da terra.

afugentarei os garimpeiros de todas as partes,

vigiarei os cordeiros e as ovelhas como astuto pastor

e seu cão, trilharei veredas, e atrás dos arbustos estarei,

mãos entrelaçadas em morfeu, e a ti embalarei,

e encantarei.

sussurrarei às camélias que dispam de seus caules

apenas as pétalas, pois é demais, é demais o barulho

de pedra da rosa, ou mesmo da folha,

quando cai em teu leito.



(in "Lupus in Fabula", colecção "Livros de Cordel",

nº. 10, direcção de José António Gonçalves,

posfácio de Giampaolo Tonini, CMF, 2002)





teria dito teu nome



estarias lá naquela noite de lua cheia

depois da debandada dos pescadores

de lapas com manteiga

e peixe grelhado

acompanhado pelo famoso casal garcia

estarias lá embriagado

nessa noite em que meu pai

me ofereceu o jantar perto da praínha



foi o único dia em que o vi

sem o boné francês de emigrante em gouvieux



estarias lá naquela noite de lua cheia

depois da debandada das raparigas

estarias lá embriagado

com teu amigo

observado pelas estrelas



estarias lá na noite

em que ele disse

para viveres só tens de acreditar que és feliz



estarias lá na noite

em que ele entorpecido pela doença

soltou meu nome pela praia iluminada

e se fosses seu filho

ter-te-ia também chamado

por entre a brisa



ao José Agostinho Baptista





((in "A Musa das Pequenas Coisas", Colecção "Terra à Vista",

nº. 2, direcção de José António Gonçalves, ed. "Arguim-Madeira", "Prémio

"Camões Pequeno-Cidade de Machico/2001", Funchal, 2002)



*



São Moniz Gouveia (n. Madeira, 1967), a frequentar estudos superiores, reside

regularmente entre o Funchal e Pisa (Itália), tendo integrado a colectânea "Poeti

Contemporani dell'Isola di Madera", organizada por Giampaolo Tonini, em 2001.

Revelou-se com "11 Poemas de Crisálida", na "Ilha 4" (CMF, 1994), dirigida por

José António Gonçalves, tendo ainda participado nas obras colectivas "Poet'Arte 90"

e "Vers'Arte 91", entre outras. Tem colaboração dispersa em diversas revistas e

jornais ("JL-Jornal de Letras", "Islenha", "Margem", "Diário de Notícias" do Funchal,

"Tribuna da Madeira", entre outras). "Cartas para um Tenente" (com prefácio e

direcção editorial de José António Gonçalves) representou a sua primeira edição

individual, na Colecção "Cadernos Ilha", nº. 8, 1996, após o que publicou "O Templo

Móvel", na Colecção "Autores da Madeira" da Editorial "Campo das Letras" (2002),

"Lupus in Fabula" (Colecção "Livros de Cordel", nº. 10, 2002) e "A Musa das Coisas

Pequenas", Colecção "Terra à Vista", nº.2, "Arguim", 2002).




***

IMAGINÁRIO
2004

(Assírio & Alvim)






GAUGIN


(...) Ruá (grande é a sua origem) dormia com a mulher,
a terra tenebrosa, que deu à luz o seu rei, o solo, e depois
o crepúsculo, e depois as trevas. Ruá repudiou então essa
mulher. Ruá (grande é a sua origem) dormia com a mulher
chamada Grande Reunião, e esta deu à luz as rainhas dos
céus, as estrelas, e depois Faiti, estrela da tarde. O rei dos
céus dourados, rei único, dormia com a sua mulher Fanuí,
e nasceu dela o astro Fouruá - Vénus (estrela da manhã) -
o rei Fouruá que dá leis à noite e ao dia, às estrelas, à lua,
ao sol, e serve de guia aos marinheiros. Fez-se à vela para
a esquerda, Fouruá, e para o norte, e dormiu aí com sua
mulher, guia dos marinheiros, que deu à luz a estrela
vermelha, estrela vermelha que brilha à tarde com duas
faces. Estrela vermelha, o deus que voa para oeste,
prepara a piroga, a piroga do dia alto que singra em
direcção aos céus. Faz à vela ao nascer do sol. Ruá
caminha nos espaços. E dormia com sua mulher Urá
Tanaipá, nascendo dela os reis, o gémeos que estão
à frente das Pleîades. Eram de Bora-Bora e ao ouvirem
os pais dizer que iam separá-los, abandonaram a casa
paterna e foram justos para Raiatea, e depois para Huamê,
Eimeo e Otaiti. Mal partiram, a mãe inquieta começou a
procurá-los ms chegava sempre tarde a todas as ilhas.
Soube no entanto em Otati que eles ainda lá estavam e
se escondiam nas montanhas. Acabou por descobri-los,
mas fugiram à sua frente, até ao cume mais alto. Aí, lavada
em lágrimas, no instante em que se julgava prestes a
apanhá-los eles levantaram voo para os céus e ainda
lá se encontram, no meio das constelações. (...).

Gauguin
(1848-1903)

(in "Noa Noa"
tradução de Aníbal Fernandes)

*
Um poema
de
José António Gonçalves



A CULPA

a culpa não pertenceu a adão e eva.
a zoologia era incipiente e os homens
calavam bem fundo a ignorância da sua cruel
inexistência. se um pássaro havia, estava escondido.
falava-se em paraíso com anjos e espadas tiranas.
as maçãs eram inocentes. as cobras
enrolavam-se nas árvores para escaparem
aos olhares acusadores, com a consciência
pesada. os mares e os grandes lagos
estavam a leste das razões da escolha, entre eleitos
e condenados. a carne não pecava, por incompetência.
cumpria com o dever de não escapar ao chamado
da espécie. obscuras eram as marés. a lua
não ajudava. também ela era má como as cobras.
por isso aprendemos a arte da nudez. o amor
pelas coisas pecaminosas. simplesmente terrenas.
o sofrimento de sonharmos à distância
com a pureza das divindades.
cansados de olharmos para o céu.
como as cobras.

José António Gonçalves

(10.9.99/inédito)







 

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