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A POESIA DOS CALENDÁRIOS |
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Janeiro |
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ALBANO MARTINS
A mão desenha o lápis. Devagar. Entre a cicuta e o mosto. Albano Martins (in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992; "Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária", Edições Universidade Fernando Pessoa, org. Beatriz Werget, 1999) *** Bloco Poético de Notas - Selecção de JAG - António Baticã Ferreira O Mar Olhai: o Mar tem influência singular Sobre mim. Os animais aquáticos são tantos! Valia a pena persegui-los no mar alto; Valia a pena vê-los saltar através das ondas. O Mar, esse mundo que os homens não habitam, É imenso, tão belo e tão perfeito! O Mar tem influência singular Sobre mim. Eu bem queria ir ver as ondas: Valia a pena olhá-las a correr Loucamente; valia a pena Ver qual delas primeiro entrava na baía. Ah!, o Mar vasto, no entanto, aqui nos fala Sim, fala-nos interiormente, E nós compreendemos a sua língua: É uma língua que se entende. (Ah!, que impressão nos faz o Mar!) ( in Poesia & Ficção; centro Virual Camões) * António Baticã Ferreira nasceu em Canchungo (Guiné-Bissau), em 1939. Licenciado em Medicina pela Universidade de Lausana. Colaborou em diversas publicações. Poeta. *** UM POETA DA MADEIRA SÃO MONIZ GOUVEIA sono de menino ao Egas carregarei teu fardo, as inúmeras perguntas do realejo que chora, não por ritual ou por acaso, mas carregarei teu sono como metal precioso que jaz à espera dentro da terra. afugentarei os garimpeiros de todas as partes, vigiarei os cordeiros e as ovelhas como astuto pastor e seu cão, trilharei veredas, e atrás dos arbustos estarei, mãos entrelaçadas em morfeu, e a ti embalarei, e encantarei. sussurrarei às camélias que dispam de seus caules apenas as pétalas, pois é demais, é demais o barulho de pedra da rosa, ou mesmo da folha, quando cai em teu leito. (in "Lupus in Fabula", colecção "Livros de Cordel", nº. 10, direcção de José António Gonçalves, posfácio de Giampaolo Tonini, CMF, 2002) teria dito teu nome estarias lá naquela noite de lua cheia depois da debandada dos pescadores de lapas com manteiga e peixe grelhado acompanhado pelo famoso casal garcia estarias lá embriagado nessa noite em que meu pai me ofereceu o jantar perto da praínha foi o único dia em que o vi sem o boné francês de emigrante em gouvieux estarias lá naquela noite de lua cheia depois da debandada das raparigas estarias lá embriagado com teu amigo observado pelas estrelas estarias lá na noite em que ele disse para viveres só tens de acreditar que és feliz estarias lá na noite em que ele entorpecido pela doença soltou meu nome pela praia iluminada e se fosses seu filho ter-te-ia também chamado por entre a brisa ao José Agostinho Baptista ((in "A Musa das Pequenas Coisas", Colecção "Terra à Vista", nº. 2, direcção de José António Gonçalves, ed. "Arguim-Madeira", "Prémio "Camões Pequeno-Cidade de Machico/2001", Funchal, 2002) * São Moniz Gouveia (n. Madeira, 1967), a frequentar estudos superiores, reside regularmente entre o Funchal e Pisa (Itália), tendo integrado a colectânea "Poeti Contemporani dell'Isola di Madera", organizada por Giampaolo Tonini, em 2001. Revelou-se com "11 Poemas de Crisálida", na "Ilha 4" (CMF, 1994), dirigida por José António Gonçalves, tendo ainda participado nas obras colectivas "Poet'Arte 90" e "Vers'Arte 91", entre outras. Tem colaboração dispersa em diversas revistas e jornais ("JL-Jornal de Letras", "Islenha", "Margem", "Diário de Notícias" do Funchal, "Tribuna da Madeira", entre outras). "Cartas para um Tenente" (com prefácio e direcção editorial de José António Gonçalves) representou a sua primeira edição individual, na Colecção "Cadernos Ilha", nº. 8, 1996, após o que publicou "O Templo Móvel", na Colecção "Autores da Madeira" da Editorial "Campo das Letras" (2002), "Lupus in Fabula" (Colecção "Livros de Cordel", nº. 10, 2002) e "A Musa das Coisas Pequenas", Colecção "Terra à Vista", nº.2, "Arguim", 2002). *** IMAGINÁRIO 2004 (Assírio & Alvim) GAUGIN (...) Ruá (grande é a sua origem) dormia com a mulher, a terra tenebrosa, que deu à luz o seu rei, o solo, e depois o crepúsculo, e depois as trevas. Ruá repudiou então essa mulher. Ruá (grande é a sua origem) dormia com a mulher chamada Grande Reunião, e esta deu à luz as rainhas dos céus, as estrelas, e depois Faiti, estrela da tarde. O rei dos céus dourados, rei único, dormia com a sua mulher Fanuí, e nasceu dela o astro Fouruá - Vénus (estrela da manhã) - o rei Fouruá que dá leis à noite e ao dia, às estrelas, à lua, ao sol, e serve de guia aos marinheiros. Fez-se à vela para a esquerda, Fouruá, e para o norte, e dormiu aí com sua mulher, guia dos marinheiros, que deu à luz a estrela vermelha, estrela vermelha que brilha à tarde com duas faces. Estrela vermelha, o deus que voa para oeste, prepara a piroga, a piroga do dia alto que singra em direcção aos céus. Faz à vela ao nascer do sol. Ruá caminha nos espaços. E dormia com sua mulher Urá Tanaipá, nascendo dela os reis, o gémeos que estão à frente das Pleîades. Eram de Bora-Bora e ao ouvirem os pais dizer que iam separá-los, abandonaram a casa paterna e foram justos para Raiatea, e depois para Huamê, Eimeo e Otaiti. Mal partiram, a mãe inquieta começou a procurá-los ms chegava sempre tarde a todas as ilhas. Soube no entanto em Otati que eles ainda lá estavam e se escondiam nas montanhas. Acabou por descobri-los, mas fugiram à sua frente, até ao cume mais alto. Aí, lavada em lágrimas, no instante em que se julgava prestes a apanhá-los eles levantaram voo para os céus e ainda lá se encontram, no meio das constelações. (...). Gauguin (1848-1903) (in "Noa Noa" tradução de Aníbal Fernandes) * Um poema de José António Gonçalves A CULPA a culpa não pertenceu a adão e eva. a zoologia era incipiente e os homens calavam bem fundo a ignorância da sua cruel inexistência. se um pássaro havia, estava escondido. falava-se em paraíso com anjos e espadas tiranas. as maçãs eram inocentes. as cobras enrolavam-se nas árvores para escaparem aos olhares acusadores, com a consciência pesada. os mares e os grandes lagos estavam a leste das razões da escolha, entre eleitos e condenados. a carne não pecava, por incompetência. cumpria com o dever de não escapar ao chamado da espécie. obscuras eram as marés. a lua não ajudava. também ela era má como as cobras. por isso aprendemos a arte da nudez. o amor pelas coisas pecaminosas. simplesmente terrenas. o sofrimento de sonharmos à distância com a pureza das divindades. cansados de olharmos para o céu. como as cobras. José António Gonçalves (10.9.99/inédito) |
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Selecção e Montagem: JAG |
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