A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

19

 
 
 
 
ALBANO MARTINS

 

Meus versos são a voz da minha voz, a margem
que há entre o sonho e a realidade.

(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990)




E se uma pomba
roçasse o ângulo
raso do poema
- prendê-la-ias?

Albano Martins

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


***

Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -


JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS


(7/12/37-18/1/84)


Ilustração: Henrique Tigo

Estado Velho
Ah! não há dúvida
vocês existem, vocês persistem
vocês existem com grémios e tribunais
medidas de segurança e capitais
plenários mercenários festivais
grades torturas verbenas
cativeiros de longas penas
com vista para o mar
para matar

Palhaço
lacrimogénio
capacete de aço

Vocês existem bordados a ponto de cruz
fazendo a guerra sugando o povo
sorvendo a luz com estoris, coktails, recepções
canastas e ralys
whisky, coktails, cherries
trapeiras, esconsos, saguões
discursos, salmão, lagostas
pão duro, desespero e crostas
sorrisos de hospedeiras
e assassínios de ceifeiras

Palhaço
lacrimogénio
capacete de aço

Vocês existem, baionetas e chá com bolos
cooperativas, clubes de mães
concursos de gatos e cães
cães de luxo para lamber
cães polícias - polícias cães
para morder
barracas de lata para viver
salários de fome para sofrer
trapos, suor e lodo
amáveis conversas de casaca
e sobre as nossas cabeças
a matraca

Palhaço
lacrimogénio
capacete de aço

Ah! Não há dúvida
vocês continuam ainda a existir
até ao raio que vos há-de partir

José Carlos Ary dos Santos

(assinalando os 20 anos da sua morte)

*

Oriundo de uma família da alta burguesia, conhecido no meio social e literário por Ary dos Santos, nasceu em Lisboa a 7 de Dezembro de 1937. Aos catorze anos, a sua família publica-lhe alguns poemas, considerados maus pelo poeta. No entanto, Ary dos Santos revelaria verdadeiramente as suas qualidades poéticas em 1954, com dezasseis anos de idade. É nessa altura que vê os seus poemas serem seleccionados para a Antologia do Prémio Almeida Garrett. É então que Ary dos Santos abandona a casa da família, exercendo as mais variadas actividades para seu sustento económico, que passariam desde a venda de máquinas para pastilhas até à publicidade. Contudo, paralelamente, o poeta não cessa jamais de escrever e em 1963 dar-se -ia a sua estreia efectiva com a publicação do livro de poemas " A Liturgia do Sangue".




Em 1969, ano que o próprio Ary dos Santos considerava ter marcado decisivamente a sua vida, inicia-se na actividade política ao filiar-se no PCP, participando de forma activa nas sessões de poesia do então intitulado "canto livre perseguido".

Entretanto, concorre, sob pseudónimo, ao Festival da Canção da RTP com os poemas "Desfolhada"e "Tourada", obtendo os primeiros prémios. É aliás através deste campo –o da música que o poeta melhor se tornaria conhecido entre o grande público.

Autor de mais de seiscentos poemas para canções, Ary dos Santos fez no meio muitos amigos. Gravou, ele próprio, textos ou poemas de e com muitos outros autores e intérpretes e ainda um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes do Padre António Vieira.

À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, onde era seu propósito reunir os melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz - Rua da Saudade, que pretendia fosse uma autobiografia romanceada.

O poeta deixou-nos a 18 de Janeiro de 1984. Postumamente, o seu nome foi dado a um largo do Bairro de Alfama, descerrando-se uma lápide evocativa na casa da Rua da Saudade, onde viveu praticamente toda a sua vida.

Ainda em 1984, foi lançada a obra VIII Sonetos de Ary dos Santos, com um estudo sobre o autor de Manuel Gusmão e planeamento gráfico de Rogério Ribeiro, no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro.



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UM POETA DA MADEIRA


DAVID PINTO CORREIA




LUGAR VERTIGEM: PINÁCULO





(À Gilda e ao José António Gonçalves)





Na ilha falarei de amor sincero

apenas:

o dos súbitos uivos

nos canaviais de Setembro e nas ribeiras

riscadas no silêncio

de todas as invernias rituais.



Falarei de amor com certeza: o amor

insólito

não de agora mas da estação

de mágoa sincera das casas

emprestadas à rouca

voz magoada dos nevoeiros matinais.



Falarei falarei falarei súbito de amor

sempre

de amor também o do olhar

alado e sobranceiro: o lânguido

gesto

de flores já exangues brotando na face

fulva dos amantes

para sempre prostrados

fustigados

imensamente frágeis enfim

libertos

dos lentos movimentos

da ilha

nas túrgidas jangadas da morte.



DAVID PINTO CORREIA



(in "Onze Mais Um Poemas e Lugares",

col. Livros de Cordel, nº. 7, CMF, 2001)






*

David Pinto Correia (n. Funchal, 1939), é Doutorado em Letras (Literatura

Portuguesa) pela Universidade de Lisboa, onde é Professor Associado de

nomeação definitiva. Entre outras funções foi presidente da Comissão Instaladora

da Universidade da Madeira (com atribuições de Reitor). Tem vastíssima obra

no domínio da investigação, nomeadamente da cultura carolíngia, dirigindo ainda

várias publicações e colecções de índole editorial. Na poesia, publicou "Este Branco

Silêncio" (DRAC, 1991) e "11+1 Poemas e Lugares" (Livros de Cordel, CMF, 2001.



***
poemário


2004

(Assírio & Alvim)





SAFO

(625-580 a. C.)


Semelhante aos deuses me parece
o homem que diante de ti se senta
e, tão doce, a tua voz escuta,

ou amoroso riso - que tanto agita
meu coração de súbito, pois basta ver-te
para que nem atine com o que diga,

ou a língua se me torne inerte.
Um subtil fogo me arrepia a pele,
deixam de ver meus olhos, zunem meus ouvidos,

o suor inunda-me o corpo de frio,
e tremendo toda, mais verde que as ervas,
julgo que a morte não pode tardar.
(...)

(in "Rosa do Mundo -
2001 Poemas para o Futuro";
tradução de Eugénio de Andrade)

***

IMAGINÁRIO


2004

(Assírio & Alvim)



Mário Cesariny


(...) O fundamento de toda a experiência tem que estar
fora da experiência. E assim para a Poesia o Oásis e o
Deserto são as tenazes que a geram, já que a realidade não
se baseia só na substância das coisas, mas também no seu
caudal de relacionalidade. Tudo se define pelo diferente. E
para a Ideia da Totalidade duma Vida única nós acreditamos
na conjugação futura desses dois estados, na aparência tão
contraditórios, que são o Sonho e a Realidade. Acreditamos
numa Realidade Absoluta, numa SURREALIDADE, se é lícito
dizer-se assim. (...).


Mário Cesariny

(1923)

(in "A Intervenção Surrealista")

*


Um poema
de
José António Gonçalves




A CIBERNÉTICA

a cibernética assusta-me.
cansa-me. indica-me caminhos
inauditos. sem planeamento
de fuga. fico atado à lógica
dos poderes desconhecendo
o seu universo. descubro-a.
sem a descodificar. pistas
existem por todo o lado
para identificar a mensagem
robótica. então tudo se pacifica
no meu espírito. as explicações
são simples e voam de transparência.
até os pássaros se espantam
perante a ilusão de óptica.
sabemos que a coruja não dorme
e o robot permanece vivo e atento
no coração eléctrico da sua bateria.
rendo-me e calo-me.
sento-me. aguardando
pela memória do passado.
como se nele ressuscitasse
o segredo de um novo dia.

José António Gonçalves

(10.09.99/inédito)

 

Selecção e Montagem: JAG