A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

2

 
 
 
 
ALBANO MARTINS


 

Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?

Como o direi?
Como o calarei?

(in "Vocação do Silêncio 1950-1985"
e "Agenda Poética 2000 - 50 Anos de
Vida Literária", Edições Universidade
Fernando Pessoa, 1999)
 


***
POEMÁRIO


Assírio & Alvim

A VIDA HUMANA

A vida é

I. FOLHAGEM verde, seca num momento,
ARAGEM leve, corrida de vento,
II. NEVÃO que no ar se desfaz,
PEGÃO em que nunca há paz.
III. FLOR que abre para logo morrer,
FULGOR que dura o tempo de ver.
IV. RELVADO que qualquer pé amassa,
VIDRADO que facilmente estilhaça.
V. BRUMA que à vista se some,
ESPUMA que a maré consome.
VI. FENO que é de pouca dura.
JOIO de que o vento não cura.
VII. COMPRA que ao fim lamentamos.
CORRIDA em que nos cansamos.
VIII. TORRENTE que voa fugaz.
BOLHA que logo se desfaz.
IX. SOMBRA que nos faz morrer.
ALFOMBRA para a cova fazer.

Georg Philipp Harsdorffer
(1607-1658)


João Barrento
(in O Cardo e a Rosa -
Poesia do Barroco Alemão,
tradução de João Barrento,
Assírio & Alvim)

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Um Poema de

José António Gonçalves


CAMINHARES





Lentos são os caminhares,

os ventos, os ares,

como as mãos que percorrem

corpos, peles e morrem

nos intervalos.





Os sussuros,

esses,

há que calá-los.



José António Gonçalves






(in "Aventura na Casa dos Livros",

Col. Cadernos Ilha, 10,

Ed. Correio da Madeira, 2000)



 

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