A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

21

 
 
 
 
ALBANO MARTINS

 

Um lápis
de sombra
te escreve
e examina.

Albano Martins

(in "Os Patamares da Memória", 1989;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


***

Bloco Poético de Notas


- Selecção de JAG -





Luís Vaz de Camões


Já a vista, pouco e pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficavam;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam;
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam;
E, já depois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.

Assi fomos abrindo aqueles mares,
Que geração algua não abriu,
As novas Ilhas vendo e os novos ares
Que o generoso Henrique descobriu;
De Mauritânia os montes e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Deixando à mão esquerda, que à direita
Não há certeza doutra, mas suspeita.

(in Os Lusíadas, Canto V, 3 e 4)


*
(c. 1524-1580) Pouco se sabe sobre a vida agitada de Luís Vaz de Camões.
Considerado o maior vulto das letras portuguesas.
Autor da epopeia Os Lusíadas. Poeta e dramaturgo.
A influência da sua obra foi marcante na produção literária portuguesa.
«Camões assumiu e meditou a experiência de toda uma civilização cujas
contradições viveu na sua carne e procurou superar pela criação artística»


***

UM POETA DA MADEIRA


JOÃO DIONÍSIO




Uma a uma, como as crianças nos quintais


Uma a uma, como as crianças nos quintais,
as rosas de belas cores no poema,

eu cantava

e ritmo a ritmo, memória na cidade,
leves lá dentro.

Eu cantava mansinho.
A cor vermelha de rosas nos quintais.


Assim a cidade, assim de rosto frágil

Assim a cidade, assim de rosto frágil.

As crianças aí nos frutos deliciosos
os lábios até ao alto de uma flor.

Sobre. Sobre o mar, fio de emigração,
na rota e no rosto fora do movimento dos lábios.

E eu agora no rosto fresco e picante,
os olhos azuis nos luzidios riscos de aves na cidade.

Até ao alto de uma flor,
ao alto de uma rosa de ouro, na voz.

Assim a cidade, assim o seu rosto frágil.

(in "A Cidade de Álea", Edições Mic, Lisboa, 1981)

*

João Dionísio (João António Baptista Santos Dionísio), n. Funchal, em 1947. Advogado, está ao serviço da Secretaria Regional dos Recursos Humanos, no Governo Regional da Madeira. Vice-presidente da Direcção da Associação de Escritores da Madeira (AEM), é colaborador de vários jornais e revistas, estando integrado em diversas antologias poéticas regionais e nacionais, entre as quais "Poesia 71" (Editorial Inova, 1971), "O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses" (1989), "Poet'Arte 90" (1990), "Poesia da Ilha - Olhares Atlânticos" (1991), "Vers'Arte 91" (1991), todas dirigidas e organizadas por José António Gonçalves, assim como em "Poeti Contemporanei dell'Isola di Madera", dirigida e traduzida para o italiano por Giampaolo Tonini (Veneza, 2001). É também autor de "Os Açucares ou o Ruído do Silêncio" (1995), "A Comparação" (1996), "Uma Inquestionável Distância" (1999) e "Os Construtores da Memória" (2000).



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poemário

2004

(Assírio & Alvim)


- CANÇÃO -
(Yaquis)




Pequeno veado entre as flores,
para debaixo da grande flor da árvore grande,
esfregas os cornos,
curvando e volteando-os, esfregas, esfregas os cornos.

E ao longe, na Terra Florida, debaixo do Amanhecer,
páras debaixo de outra grande flor de outra árvore grande,
esfregas os cornos.
Pequeno veado entre flores,
páras debaixo da grande flor da árvore grande,
curvando e voletando-os, esfregas, esfregas os cornos.

(in "Poemas Ameríndios", poemas mudados
para português por Herberto Helder)


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IMAGINÁRIO


2004

(Assírio & Alvim)


FRIEDRICH HOLDERLIN




DE HIPÉRION PARA BELARMINO

Nunca conheci nenhum outro ser que fosse tão parco de necessidades, tão divinamente sóbrio.
Como a onda do oceano banha as costas de ilhas afortunadas, assim o meu coração inquieto se aproximava da paz dessa jovem mulher celestial.
Eu nada mais tinha para lhe dar a não ser a alma cheia de selvagens contradições, cheia de lembranças a sangrar, a não ser o meu amor sem limites com os seus mil cuidados, as suas mil esperanças agitadas; ela, porém, encontrava-se diante de mim na sua beleza imutável, sem esforço, na sua sorridente perfeição e todas as aspirações, todos os sonhos da condição mortal, ai! tudo o que nas douradas horas matinais o génio das altas regiões prediz encontrava-se cumprido nesta alma una, silenciosa. (...)


Friedrich Hoderlin

(1770-1843)

(in "Hipérion ou o Eremita da Grécia";
tradução de Maria Teresa Dias Furtado)


*

Diálogo poético Dalva Agne Lynch-José António Gonçalves




LUZES DO VÁCUO

(em resposta a Jag)


© Dalva Agne Lynch


Tormento em tormenta
Prece em grito
Porque não há estrelas
Além das que povoam
o Infinito...
Quanto a nós
Somos meros grãos
Poeira de Luz
Preenchendo os vãos
Entre a Beleza
E a Cruz...


Dalva Agne Lynch

(20.1.04)

*




A MUSA E O POEMA

a Dalva Agne Lynch

eu te saúdo rainha serena e benzo
a omnipotência da palavra trazida
pelo mensageiro da longa distância,
desse éden onde a tua voz impõe silêncios
e os frutos se espalham disponíveis
pela areia da poesia, arejando de sabedoria
o vácuo contínuo dos desertos no coração
do homem. rendo-me à salvaguarda dos dias
ao mistério das noites e absolvo todos os pecados
como se um deus invisível me outorgasse
a fruição desses poderes. à minha ilharga
alguns filósofos sustentam as tendas da sombra
em que se refresca o conhecimento fugaz
e etéreo que me ilumina o caminho. és rainha
e princesa da tua jornada, escultora e estátua,
poeta e verso, pintora e modelo, cantora
e cântico. és a razão da arte, a pedra escrita,
o veludo que se me apega ao corpo. a multidão
que me habita, o instigar do carrasco à utilização
do gládio. a ara do sacrifício supremo. a lírica
e o seu dilema. a musa e o poema. assim ocupo
a minha toca, a gruta onde se espraia a página
ainda imaculada, ameaçada pelo negrume
da tinta da escrita, sonhando com outros dias,
novas sensações, amores aquáticos, mãos
de plumas, asas de pássaro, bandos de rimas
vestidos de sonatas e alimentados a sinfonias.
e numa viagem demorada pelo lume de outras eras
desfaço-me na bruma da espera, destruindo
e reconstruindo as ruínas dos palácios inventados
como nuvens perdidas nos ventos
das suas próprias quimeras.

José António Gonçalves

(20.1.04)


 

Selecção e Montagem: JAG