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A POESIA DOS CALENDÁRIOS |
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Janeiro |
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ALBANO MARTINS
Não tinhas nome. Existias como um eco do silêncio. Eras talvez uma pergunta do vento. Albano Martins (in "O Mesmo Nome", 1990; "Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária", Edições Universidade Fernando Pessoa, org. Beatriz Werget, 1999) *** Bloco Poético de Notas - Selecção de JAG - Ivan Junqueira O QUE ME COUBE Pois foi só o que me coube: o que eu quis e nunca houve, o sonho que se fez logro, como o daquele, o do Horto, que na cruz pendeu exposto. Foi só isto. E mais o açoite que me vergasta o aço do osso, o vinagre, o fel na boca, o céu ao reverso, torto, e Deus, déspota, deposto. Foi só o sabor que me soube: o da maçã, que era insossa, o do vinho (azedo) no odre e o do pão, estrito joio sem trigo nenhum no miolo. Foi só isto o que me trouxe a vida (essa morte em dobro a quem faço ouvidos moucos), além de uns parcos amores, de um Pégaso avesso ao vôo, de uma flébil flauta doce, do coro a chorar Lenora e de Apolo aquele torso a transmutar-se num outro. Foi só. Mais nada. Acabou-se. (inédito) * O poeta Ivan Junqueira, um carioca de Ipanema, com 69 anos de idade, é também um prestigiado ensaísta, crítico e tradutor, ocupando a cadeira 37 (que era de João Cabral de Melo e Neto) da Academia Brasileira de Letras, da qual é presidente desde há pouco mais de um mês (depois de ali ter exercido o cargo de secretário-geral). Foi estudante de Filosofia e de Medicina, jornalista do "Jornal do Brasil" e de "O Globo" e editor das revistas "Piracema" e "Poesia Sempre", respectivamente da Fundação Nacional de Arte e da Fundação da Biblioteca Nacional. Revelou-se na poesia em 1964, com "Os Mortos", destacando-se, depois, com "A Rainha Arcaica" e "O Grifo", entre outras obras, tendo recebido em 1981 o Prémio Nacional da Poesia do Brasil. *** UM POETA DA MADEIRA JOÃO CARLOS ABREU OS POETAS NÃO TÊM NOME Os poetas não têm nome. Nascem todos os dias alimentam-se de música constroem sonhos no tempo e neles permanecem conscientemente iludidos na inexistência de uma realidade. Os poetas são o que são todos aqueles que pensam dizem e cantam a vida erguendo-a como facho a arder na escuridão e plantando com o chilrear dos pássaros os caminhos de qualquer país. Poetas são as crianças da minha rua que não sabendo rimar nem fazer a quadra branca com ternura angelical dizem umas para as outras: dás-me um beijo dou-te uma flor... (in "Poeti Contemporanei dell'Isola di Madera", a cura di Giampaolo Tonini, Centro Internazionale della Grafica de Venezia, 2001) * João Carlos Nunes Abreu nasceu no Funchal em 1935. É o actual Secretário Regional do Turismo e Cultura do Governo Regional da Madeira. Recebeu como político, jornalista e escritor diversas distinções regionais, nacionais e internacionais. É o presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação de Escritores da Madeira. Recentemente fundou um centro cultural que reune grande parte do seu valioso espólio artístico (biblioteca, pintura, joalharia e outros objectos artísticos), a que deu o título de "Universo de Memórias". Como poeta estreou-se com "Da Iha & De Mim" (1980) e como prosador com "Dona Joana Rabo de Peixe" (1996), tendo dado à estampa já uma diversificada bibliografia. José António Gonçalves retratou o seu percurso humano, literário e cultural, na sua obra "O Sol na Gaveta" (2002). *** poemário 2004 (Assírio & Alvim) EUGENIO GERARDO LOBO Tronco de verdes ramos despojado, que outrora foste um abrigo sombrio e agora estás sob o janeiro frio tanto mais seco quanto mais molhado, ditoso és tu, que nesse pobre estado és mais feliz que eu neste em que porfio; infeliz eu, que triste desconfio de poder ser, como tu, inda invejado. Essa pompa que o frio debilita por aquela estação florida espera que aviva flores, troncos ressuscita. Cumpre o ano seu giro, e lisonjeira a primavera a todos visita; só meu amor nunca tem primavera. Eugenio Gerardo Lobo (1679-1750) (in "Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX"; tradução de José Bento). *** IMAGINÁRIO 2004 (Assírio & Alvim) AUGUST STRINDBERG A MÃO DO INVISÍVEL Eu regressava da Estação do Norte, ferozmente alegre. Acabara de abandonar a minha mulher que ia ter, à terra longínqua, com a nossa filha doente. Consumava-se a imolação da minha alma! As últimas palavras - "Até quando? - Até breve" - ressoaram com o timbre das mentiras incomprováveis, mas um certo pressentimento me dizia que era para sempre. Oferecido e retribuído em Novembro de 1894, este adeus foi de facto o último, pois estamos em Maio de 97 e nunca mais vi a mulher de quem tanto gostava. Quando chego ao Café de La Régence, sento-me à mesa que era meu hábito ocupar com ela, formosa carcereira dia e noite a espiar-me a alma, a adivinhar-me os pensamentos secretos, a vigiar-me o curso das ideias, enciumada com as minhas aspirações ao desconhecido... Restituído à liberdade, vejo-me levado numa expansão súbita que me faz planar acima das ninharias da Grande Cidade, palco das lutas intelectuais onde acabo de ter uma vitória insignificante em si, mas que parece imensa e coincidente com um sonho de juventude alimentado por todos os literatos meus contemporâneos e compatriotas, e só por mim realizado: estar em cena num teatro de Paris.(...) August Strindberg (1849-1912) (in "Inferno"; tradução de Aníbal Fernandes) * Um Poema Inédito de José António Gonçalves O CASO RARO a mãe chegava punha a mão direita sobre a testa e chorava como vai ser e abria trémula a janela e chorava em silêncio olhando para a entrada de pedra viva da casa sombreada pelas folhas fartas dos ramos das pereiras-abacateiras em flor e agonizava na sua fremente dúvida como vai ser como vai ser mas não havia cartas nem cabo-gramas nem telefonemas nem recados da mercearia para acalmar o naufrágio que lhe invadia a alma durante anos dias meses a fio era o mesmo todas as tardes sempre à hora do sol-pôr ao som das badaladas da igreja chamando às avé-marias e os olhos inchavam com lágrimas do tamanho das gotas de orvalho que banhavam de manhã as azáleas cor-de-rosa que cresciam sozinhas abanadas pela brisa da primavera ou pelo vento amargo das invernias resistindo como a mãe para não gritar ou deixar-se ir no lento marulhar das chuvas guardadas no lado esquerdo do corpo onde dizem mora o amor nas falésias do coração a entrada para a casa nem com nevoeiro mudava na beira do caminho onde passavam os carros e vinham o leiteiro o pesquito com o peixe as freguesas da costura e os carteiros sem cartas para atormentar por mais um dia a mãe que levava as mãos ao peito e se dizia alcançada com um peso em cima de si e um torvelinho nos olhos de tanto espiar a porta esperando por notícias uma palavra uma mensagem de descanso para a tarde entre o cheiro das flores e dos frutos que pesavam nos arames da latada e do fritar dos chicharros para acompanhar o milho a marcar mais uma página do calendário quotidiano e um dia não se ouviu mais a mãe a murmurar como é que vai ser como é que vai ser já que tinha o rosto colado ao filho regressado da guiné ainda com o olor da guerra na farda e um esgar de descanso na boca deixe estar estou vivo mãe eu estou vivo dê-me mais um beijo só mais um beijo e sente-se que treme das pernas e ouço o bater do seu coração dentro de mim e nós todos estávamos no cais uns olhavam para os barcos outros para a algazarra dos militares abraçando noivas namoradas pais amigos e rindo-se de tudo como loucos enquanto eu desnorteado como se estivesse acordando de um sonho novo que não era o meu aos poucos só pensava que o mar estivera ali todo aquele tempo e eu nunca reparara como era azul um azul assim como o céu as nuvens o tecto da capela do Amparo e escrevi para o futuro num pedacinho de papel tenho de descobrir mais sobre o azul este azul e como não sabia onde tinha as mãos anotei em vez disso este azul mãe é um caso raro parece um fruto e a mim sabe-me a mel e aí lembro de ter escutado a meu irmão contando aos meus familiares em festa ninguém me agarrou e desmaiei José António Gonçalves (21.1.04) |
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Selecção e Montagem: JAG |
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