A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

22

 
 
 
 
ALBANO MARTINS
 
 
 
Não tinhas
nome. Existias
como um eco
do silêncio. Eras
talvez
uma pergunta
do vento.


Albano Martins

(in "O Mesmo Nome", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


***

Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -



Ivan Junqueira



O QUE ME COUBE


Pois foi só o que me coube:
o que eu quis e nunca houve,
o sonho que se fez logro,
como o daquele, o do Horto,
que na cruz pendeu exposto.

Foi só isto. E mais o açoite
que me vergasta o aço do osso,
o vinagre, o fel na boca,
o céu ao reverso, torto,
e Deus, déspota, deposto.

Foi só o sabor que me soube:
o da maçã, que era insossa,
o do vinho (azedo) no odre
e o do pão, estrito joio
sem trigo nenhum no miolo.

Foi só isto o que me trouxe
a vida (essa morte em dobro
a quem faço ouvidos moucos),
além de uns parcos amores,
de um Pégaso avesso ao vôo,

de uma flébil flauta doce,
do coro a chorar Lenora
e de Apolo aquele torso
a transmutar-se num outro.
Foi só. Mais nada. Acabou-se.

(inédito)


*
O poeta Ivan Junqueira, um carioca de Ipanema, com 69 anos de idade,
é também um prestigiado ensaísta, crítico e tradutor, ocupando a cadeira
37 (que era de João Cabral de Melo e Neto) da Academia Brasileira de
Letras, da qual é presidente desde há pouco mais de um mês (depois de
ali ter exercido o cargo de secretário-geral). Foi estudante de Filosofia
e de Medicina, jornalista do "Jornal do Brasil" e de "O Globo" e editor
das revistas "Piracema" e "Poesia Sempre", respectivamente da Fundação
Nacional de Arte e da Fundação da Biblioteca Nacional. Revelou-se na
poesia em 1964, com "Os Mortos", destacando-se, depois, com "A Rainha
Arcaica" e "O Grifo", entre outras obras, tendo recebido em 1981 o Prémio
Nacional da Poesia do Brasil.

***

UM POETA DA MADEIRA


JOÃO CARLOS ABREU






OS POETAS NÃO TÊM NOME


Os poetas não têm nome.
Nascem todos os dias
alimentam-se de música
constroem sonhos
no tempo
e neles permanecem
conscientemente iludidos
na inexistência
de uma realidade.

Os poetas
são o que são todos aqueles
que pensam dizem
e cantam a vida
erguendo-a
como facho a arder
na escuridão
e plantando
com o chilrear
dos pássaros
os caminhos
de qualquer país.

Poetas são as crianças
da minha rua
que não sabendo rimar
nem fazer a quadra branca
com ternura angelical
dizem umas para as outras:
dás-me um beijo
dou-te uma flor...

(in "Poeti Contemporanei dell'Isola di Madera",
a cura di Giampaolo Tonini, Centro Internazionale
della Grafica de Venezia, 2001)

*

João Carlos Nunes Abreu nasceu no Funchal em 1935. É o
actual Secretário Regional do Turismo e Cultura do Governo
Regional da Madeira. Recebeu como político, jornalista e
escritor diversas distinções regionais, nacionais e internacionais.
É o presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação de
Escritores da Madeira. Recentemente fundou um centro cultural
que reune grande parte do seu valioso espólio artístico (biblioteca,
pintura, joalharia e outros objectos artísticos), a que deu o título
de "Universo de Memórias". Como poeta estreou-se com "Da Iha
& De Mim" (1980) e como prosador com "Dona Joana Rabo de
Peixe" (1996), tendo dado à estampa já uma diversificada
bibliografia. José António Gonçalves retratou o seu percurso
humano, literário e cultural, na sua obra "O Sol na Gaveta" (2002).


***

poemário

2004

(Assírio & Alvim)


EUGENIO GERARDO LOBO





Tronco de verdes ramos despojado,
que outrora foste um abrigo sombrio
e agora estás sob o janeiro frio
tanto mais seco quanto mais molhado,
ditoso és tu, que nesse pobre estado
és mais feliz que eu neste em que porfio;
infeliz eu, que triste desconfio
de poder ser, como tu, inda invejado.
Essa pompa que o frio debilita
por aquela estação florida espera
que aviva flores, troncos ressuscita.
Cumpre o ano seu giro, e lisonjeira
a primavera a todos visita;
só meu amor nunca tem primavera.

Eugenio Gerardo Lobo

(1679-1750)

(in "Antologia da Poesia Espanhola
das Origens ao Século XIX";
tradução de José Bento).


***

IMAGINÁRIO

2004

(Assírio & Alvim)


AUGUST STRINDBERG





A MÃO DO INVISÍVEL


Eu regressava da Estação do Norte, ferozmente alegre. Acabara de abandonar a minha mulher que ia ter, à terra longínqua, com a nossa filha doente. Consumava-se a imolação da minha alma! As últimas palavras - "Até quando? - Até breve" - ressoaram com o timbre das mentiras incomprováveis, mas um certo pressentimento me dizia que era para sempre.
Oferecido e retribuído em Novembro de 1894, este adeus foi de facto o último, pois estamos em Maio de 97 e nunca mais vi a mulher de quem tanto gostava.
Quando chego ao Café de La Régence, sento-me à mesa que era meu hábito ocupar com ela, formosa carcereira dia e noite a espiar-me a alma, a adivinhar-me os pensamentos secretos, a vigiar-me o curso das ideias, enciumada com as minhas aspirações ao desconhecido...
Restituído à liberdade, vejo-me levado numa expansão súbita que me faz planar acima das ninharias da Grande Cidade, palco das lutas intelectuais onde acabo de ter uma vitória insignificante em si, mas que parece imensa e coincidente com um sonho de juventude alimentado por todos os literatos meus contemporâneos e compatriotas, e só por mim realizado: estar em cena num teatro de Paris.(...)

August Strindberg

(1849-1912)


(in "Inferno"; tradução de Aníbal Fernandes)


*

Um Poema Inédito
de
José António Gonçalves





O CASO RARO

a mãe chegava punha a mão direita
sobre a testa e chorava como vai ser
e abria trémula a janela e chorava em silêncio
olhando para a entrada de pedra viva da casa
sombreada pelas folhas fartas dos ramos
das pereiras-abacateiras em flor
e agonizava na sua fremente dúvida
como vai ser como vai ser
mas não havia cartas nem cabo-gramas
nem telefonemas nem recados da mercearia
para acalmar o naufrágio que lhe invadia a alma


durante anos dias meses a fio era o mesmo
todas as tardes sempre à hora do sol-pôr ao som
das badaladas da igreja chamando às avé-marias
e os olhos inchavam com lágrimas do tamanho
das gotas de orvalho que banhavam de manhã
as azáleas cor-de-rosa que cresciam sozinhas
abanadas pela brisa da primavera ou pelo vento
amargo das invernias resistindo como a mãe
para não gritar ou deixar-se ir no lento marulhar
das chuvas guardadas no lado esquerdo do corpo
onde dizem mora o amor nas falésias do coração


a entrada para a casa nem com nevoeiro mudava
na beira do caminho onde passavam os carros
e vinham o leiteiro o pesquito com o peixe as freguesas
da costura e os carteiros sem cartas para atormentar
por mais um dia a mãe que levava as mãos ao peito
e se dizia alcançada com um peso em cima de si
e um torvelinho nos olhos de tanto espiar a porta
esperando por notícias uma palavra uma mensagem
de descanso para a tarde entre o cheiro das flores
e dos frutos que pesavam nos arames da latada
e do fritar dos chicharros para acompanhar o milho
a marcar mais uma página do calendário quotidiano


e um dia não se ouviu mais a mãe a murmurar
como é que vai ser como é que vai ser já que tinha
o rosto colado ao filho regressado da guiné ainda
com o olor da guerra na farda e um esgar de descanso
na boca deixe estar estou vivo mãe eu estou vivo dê-me
mais um beijo só mais um beijo e sente-se que treme
das pernas e ouço o bater do seu coração dentro de mim
e nós todos estávamos no cais uns olhavam para os barcos
outros para a algazarra dos militares abraçando noivas
namoradas pais amigos e rindo-se de tudo como loucos
enquanto eu desnorteado como se estivesse acordando
de um sonho novo que não era o meu aos poucos
só pensava que o mar estivera ali todo aquele tempo
e eu nunca reparara como era azul um azul assim
como o céu as nuvens o tecto da capela do Amparo
e escrevi para o futuro num pedacinho de papel
tenho de descobrir mais sobre o azul este azul
e como não sabia onde tinha as mãos anotei
em vez disso este azul mãe é um caso raro
parece um fruto e a mim sabe-me a mel
e aí lembro de ter escutado a meu irmão
contando aos meus familiares em festa
ninguém me agarrou e desmaiei


José António Gonçalves

(21.1.04)






 

Selecção e Montagem: JAG