Meus versos, gritos do vento nas ramagens,
são a minha própria alma angustiada
a reflectir imagens
duma lenda, em mim iniciada.
Albano Martins
(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -
FIRMINO MENDES
REGRESSO A CASA
Os lugares parecem mais sós, esquecidos pelos grandes sóis do
Universo.
A terra está quente, por dentro; guarda todos os animais que dormem
e
os milhões de sementes que esperam a chegada do equinócio de Março.
Os homens continuam a longa caminhada, enfrentam os ventos
cortantes,
as tempestades de neve, o granizo que resvala das nuvens iluminadas
e toca a terra para acordar os seres do sono prolongado. Às vezes, o
sol
espalha-se nas dunas e aparecem novos caminhos para o regresso a
casa.
(in "A Terra e os Dias", Pedra Formosa, 2000)
*
Firmino Mendes, poeta premiado e conhecido pelos poemas seus
musicados e participantes nos festivais da Canção da RTP, é natural
de Guimarães (1949) e professor de Língua Portuguesa. Como autor,
tem diverso material publicado em jornais, revistas e em antologias.
Da sua obra destaca-se "Ilha sobre Ilha" (Prémio APE, 1993),
"Fronteira
Animal" (1993), "Invocação de Ofícios" (1995), "Um Segredo Guarda o
Mundo" (1998) e "A Terra e os Dias" (2000).
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UM POETA DA MADEIRA
MARIA AURORA HOMEM
2 poemas
de
"12 Textos de Desejo "
1.
a mão
a água a escorrer
na fissura dos dedos
dobrada angústia de espera
a mão
(a água arrepiada
na dobra da perna)
a mão
os dedos
a perna
2.
e fez-se um rio
esperança na viagem
dum mar de insuspeitado pranto
e o rio fez-se à margem
a alagar solidão
sofregamente frio
desesperadamente sôfrego
um rio sem caminho de mar
(in "12 Textos de Desejo",
Colecção Livros de Cordel,
Org. e Direcção de
José António Gonçalves,
CMF, 2003)
*
MARIA AURORA HOMEM (n. Beira Alta, 1939 e residente na Madeira desde
1974).
Docente do ensino secundário, é escritora, jornalista e animadora
cultural.
Frequentou estudos superiores em Coimbra, após o que trabalhou na “A
Capital”,
“Diário de Lisboa”, Emissora Nacional e na RTP (onde conquistou o
“Prémio da Imprensa,
em 1968, com o “Girassol”). Recebeu, em 1988, uma menção honrosa do
“Prémio Leacock”
e o “Prémio Baltazar Dias”, com o programa “Letra Dura & Arte Fina”,
da RTP-M,
onde também apresentou “Pé de Página” e “Atlântida”. Colabora
regularmente
na RDP-M e coordena a revista “Margem 2”, da Câmara Municipal do
Funchal.
Pertenceu à primeira Comissão Instaladora da Associação de
Escritores da Madeira
e foi co-fundadora da Associação Cultural das Ilhas Atlânticas (ACIA).
Está incluída em algumas antologias poéticas divulgadas na Madeira.
Obras: Raízes do Silêncio, 1982; Ilha a Duas Vozes (com João Carlos
Abreu),
1988; Vamos Cantar Histórias (infantil), 1991; Juju, a Tartaruga
(infantil),
1992; A Santa do Calhau (Contos), 1993; Cintilações (com aguarelas
de Mellos),
995; Para Ouvir Albinoni (contos), 1995; Uma Voz de Muda Espera,
1995;
Discurs(ilha)ndo (crónicas), 1999; 12 Textos de Desejo, (poesia,
2003).
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poemário
2004
(Assírio & Alvim)
MÁRIO CESARINY
NAVIO DE ESPELHOS
O navio de espelhos
não navega, cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
A sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
E no mastro espelhado
uma espécie de porta
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
Mário Cesariny
(1923)
(in A Cidade Queimada,
Assírio & Alvim, 2000)
***
IMAGINÁRIO
2004
(Assírio & Alvim)
Sir THOMAS MALORY
...de "A Morte de Artur"
(...)"Sir Agloval", disse Artur, "por amor de Sir Lamorak, e por
amor de seu pai, amanhã será armado cavaleiro. Agora dizei-me",
disse Artur, "qual é o seu nome?".
"Senhor", disse o cavaleiro, "o seu nome é Percival de Gales."
E pela manhã o rei armou-o cavaleiro em Camelot. Mas o rei e todos
os cavaleiros pensaram que muito e longo tempo tardaria antes que
ele provasse ser bom cavaleiro. E assim, ao jantar, quando o rei se
ia assentar à mesa, e a seu lado todos os cavaleiros consoante a sua
coragem e valor, o rei mandou que ele se assentasse entre os
cavaleiros menores: e Sir Percival assentou-se como o rei mandara.
E havia uma donzela na corte da rainha que vinha de alto sangue, e
ela era muda e nunca falara uma palavra. E de súbito entrou no
salão, e foi direita a Sir Percival, tomou-o pela mão e disse a alta
voz, de sorte que o rei e todos os cavaleiros pudessem ouvir:
"Erguei-vos Sir Percival, mui nobre cavaleiro e cavaleiro de Deus, e
vem comigo"; e assim ele fez.
E então levou-o ao lado direito da Sédia Perigosa, e disse: "Gentil
cavaleiro, eis a tua sédia; toma-a, pois esta sédia a ti pertence e
a nenhum outro".
Dito isto abalou e pediu um capelão. E depois de se haver confessado
e recebido os sacramentos, morreu.
Então o rei e todos os cavaleiros mostraram grande contentamento com
Sir Percival.
Sir Tomas Malory
(1408-1471)
(in "A Morte de Artur", II volume;
tradução de José Domingos Morais)
*
Um Poema
de
José António Gonçalves
RIMAS
a Fernando Pessoa
Nem tudo o que faço pode estar errado
quando transborda de mim o ritmo certo.
Por entre o tempo incolor averbado
sinto-o à distância sempre mais perto.
Podia ser apenas uma palavra aflitiva
o grito dado junto à montanha
- algures o despertar da sombra cativa
no lado negro da lua estranha.
Contra o mal nasce o cimento
como serpentes caçando os insectos.
Detesto os poemas circunspectos.
Então encho-os de água e de vento.
É assim que construo as casas
o empedrado dos meus pensamentos.
Derramo-os em finos segmentos
queimando o papel como brasas.
José António Gonçalves
(in "20 Textos para Falar de Mim",
Prémio Literatura Leacock/88,
Colecção "Cadernos Ilha", nº. 1,
Funchal, 1988)