A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

23

 
 
 
 
ALBANO MARTINS

 



Meus versos, gritos do vento nas ramagens,
são a minha própria alma angustiada
a reflectir imagens
duma lenda, em mim iniciada.


Albano Martins

(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


***

Bloco Poético de Notas

- Selecção de JAG -


FIRMINO MENDES






REGRESSO A CASA


Os lugares parecem mais sós, esquecidos pelos grandes sóis do Universo.
A terra está quente, por dentro; guarda todos os animais que dormem e
os milhões de sementes que esperam a chegada do equinócio de Março.

Os homens continuam a longa caminhada, enfrentam os ventos cortantes,
as tempestades de neve, o granizo que resvala das nuvens iluminadas
e toca a terra para acordar os seres do sono prolongado. Às vezes, o sol
espalha-se nas dunas e aparecem novos caminhos para o regresso a casa.


(in "A Terra e os Dias", Pedra Formosa, 2000)


*
Firmino Mendes, poeta premiado e conhecido pelos poemas seus
musicados e participantes nos festivais da Canção da RTP, é natural
de Guimarães (1949) e professor de Língua Portuguesa. Como autor,
tem diverso material publicado em jornais, revistas e em antologias.
Da sua obra destaca-se "Ilha sobre Ilha" (Prémio APE, 1993), "Fronteira
Animal" (1993), "Invocação de Ofícios" (1995), "Um Segredo Guarda o
Mundo" (1998) e "A Terra e os Dias" (2000).

***

UM POETA DA MADEIRA


MARIA AURORA HOMEM





2 poemas
de
"12 Textos de Desejo "


1.



a mão

a água a escorrer

na fissura dos dedos

dobrada angústia de espera



a mão



(a água arrepiada

na dobra da perna)



a mão

os dedos

a perna



2.



e fez-se um rio

esperança na viagem

dum mar de insuspeitado pranto



e o rio fez-se à margem

a alagar solidão

sofregamente frio



desesperadamente sôfrego

um rio sem caminho de mar




(in "12 Textos de Desejo",
Colecção Livros de Cordel,
Org. e Direcção de
José António Gonçalves,
CMF, 2003)



*

MARIA AURORA HOMEM (n. Beira Alta, 1939 e residente na Madeira desde 1974).
Docente do ensino secundário, é escritora, jornalista e animadora cultural.
Frequentou estudos superiores em Coimbra, após o que trabalhou na “A Capital”,
“Diário de Lisboa”, Emissora Nacional e na RTP (onde conquistou o “Prémio da Imprensa,
em 1968, com o “Girassol”). Recebeu, em 1988, uma menção honrosa do “Prémio Leacock”
e o “Prémio Baltazar Dias”, com o programa “Letra Dura & Arte Fina”, da RTP-M,
onde também apresentou “Pé de Página” e “Atlântida”. Colabora regularmente
na RDP-M e coordena a revista “Margem 2”, da Câmara Municipal do Funchal.
Pertenceu à primeira Comissão Instaladora da Associação de Escritores da Madeira
e foi co-fundadora da Associação Cultural das Ilhas Atlânticas (ACIA).
Está incluída em algumas antologias poéticas divulgadas na Madeira.
Obras: Raízes do Silêncio, 1982; Ilha a Duas Vozes (com João Carlos Abreu),
1988; Vamos Cantar Histórias (infantil), 1991; Juju, a Tartaruga (infantil),
1992; A Santa do Calhau (Contos), 1993; Cintilações (com aguarelas de Mellos),
995; Para Ouvir Albinoni (contos), 1995; Uma Voz de Muda Espera, 1995;
Discurs(ilha)ndo (crónicas), 1999; 12 Textos de Desejo, (poesia, 2003).


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poemário

2004

(Assírio & Alvim)

MÁRIO CESARINY





NAVIO DE ESPELHOS


O navio de espelhos


não navega, cavalga




Seu mar é a floresta


que lhe serve de nível



Ao crepúsculo espelha


sol e lua nos flancos



Por isso o tempo gosta


de deitar-se com ele



Os armadores não amam


A sua rota clara



(Vista do movimento


dir-se-ia que pára)



Quando chega à cidade


nenhum cais o abriga



O seu porão traz nada


nada leva à partida



Vozes e ar pesado


é tudo o que transporta



E no mastro espelhado


uma espécie de porta



Seus dez mil capitães


têm o mesmo rosto



A mesma cinta escura


o mesmo grau e posto



Quando um se revolta


há dez mil insurrectos



(Como os olhos da mosca


reflectem os objectos)



E quando um deles ala


o corpo sobre os mastros


e escruta o mar do fundo



Toda a nave cavalga


(como no espaço os astros)



Do princípio do mundo


até ao fim do mundo





Mário Cesariny



(1923)





(in A Cidade Queimada,


Assírio & Alvim, 2000)





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IMAGINÁRIO


2004

(Assírio & Alvim)

Sir THOMAS MALORY





...de "A Morte de Artur"


(...)"Sir Agloval", disse Artur, "por amor de Sir Lamorak, e por amor de seu pai, amanhã será armado cavaleiro. Agora dizei-me", disse Artur, "qual é o seu nome?".
"Senhor", disse o cavaleiro, "o seu nome é Percival de Gales."
E pela manhã o rei armou-o cavaleiro em Camelot. Mas o rei e todos os cavaleiros pensaram que muito e longo tempo tardaria antes que ele provasse ser bom cavaleiro. E assim, ao jantar, quando o rei se ia assentar à mesa, e a seu lado todos os cavaleiros consoante a sua coragem e valor, o rei mandou que ele se assentasse entre os cavaleiros menores: e Sir Percival assentou-se como o rei mandara.
E havia uma donzela na corte da rainha que vinha de alto sangue, e ela era muda e nunca falara uma palavra. E de súbito entrou no salão, e foi direita a Sir Percival, tomou-o pela mão e disse a alta voz, de sorte que o rei e todos os cavaleiros pudessem ouvir:
"Erguei-vos Sir Percival, mui nobre cavaleiro e cavaleiro de Deus, e vem comigo"; e assim ele fez.
E então levou-o ao lado direito da Sédia Perigosa, e disse: "Gentil cavaleiro, eis a tua sédia; toma-a, pois esta sédia a ti pertence e a nenhum outro".
Dito isto abalou e pediu um capelão. E depois de se haver confessado e recebido os sacramentos, morreu.
Então o rei e todos os cavaleiros mostraram grande contentamento com Sir Percival.

Sir Tomas Malory
(1408-1471)

(in "A Morte de Artur", II volume;
tradução de José Domingos Morais)


*

Um Poema
de
José António Gonçalves





RIMAS



a Fernando Pessoa





Nem tudo o que faço pode estar errado

quando transborda de mim o ritmo certo.

Por entre o tempo incolor averbado

sinto-o à distância sempre mais perto.



Podia ser apenas uma palavra aflitiva

o grito dado junto à montanha

- algures o despertar da sombra cativa

no lado negro da lua estranha.



Contra o mal nasce o cimento

como serpentes caçando os insectos.

Detesto os poemas circunspectos.

Então encho-os de água e de vento.



É assim que construo as casas

o empedrado dos meus pensamentos.

Derramo-os em finos segmentos

queimando o papel como brasas.





José António Gonçalves





(in "20 Textos para Falar de Mim",

Prémio Literatura Leacock/88,

Colecção "Cadernos Ilha", nº. 1,

Funchal, 1988)

 

Selecção e Montagem: JAG