A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

24

 
 
 
 
ALBANO MARTINS

 


As sílabas do verde soletradas
de ramo em ramo, no alfabeto das folhas.


(in "Entre a Cicuta e o Mosto"", 1992;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


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Bloco Poético de Notas

- Selecção de JAG -


JOSÉ GOMES FERREIRA






HOJE O LUAR

(O meu Dom João das mulheres feias e repelentes)



Hoje o luar colou-me nos pés
asas de cantar...

E apetece-me andar pelas ruas
a atirar escadas de corda
para as trapeiras
de frio no ar...

E entrar subtil pelos vidros partidos
nos esconsos de alma
com montes de trapos e de corpos
nos cantos suados...
E meter-me invisível nas camas de treva
com lençóis de teias de aranha,
pé ante pé,
entre cadáveres de desejos,
onde suspiram as tristes, as marrecas, as bexigosas e as famintas
com a carne transida de lágrimas e de soluços.
E apertar ao peito todos os corpos feios a repelirem-me de amor,
todas as peles já ásperas do barro da morte,
todas as desprezadas dos alçapões,
todas as expulsas pelos chicotes do sol,
nesta noite extraordinária
em que apetece subir pelo luar
até àquele ponto exacto do silêncio nas nuvens
em que o êxtase rasa de beleza igual
todos os bichos do mundo
fundidos no mesmo instante de terra e lua
- com um coração de astros
a latejar nas pedras.

(in "Ruas Desertas", 1946/47;
in "Felizmente as Palavras", APE, 2001)

*
José Gomes Ferreira, escritor, poeta e ficcionista, natural do Porto (1900-1985)formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na Noruega entre 1925 e 1929, após o que enveredou, em Portugal, pela carreira jornalística. Foi colaborador de vários jornais e revistas, tais como a Presença, a Seara Nova e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Esteve ligado ao grupo do Novo Cancioneiro, sendo geral o reconhecimento das afinidades entre a sua obra e o neo-realismo, tornando-se num representante do artista social, politicamente empenhado. A sua poética acusa influências tão variadas como a neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros. Tem variadíssima obra literária publicada, sendo de destacar os três volumes da sua poesia, reunidos sob o título de "Poeta Militante".


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UM POETA DA MADEIRA


LUÍS VIVEIROS





Luís Viveiros e esposa, Ana Paula Viveiros,

José Agostinho Baptista, JAG e Firmino Mendes,

num convívio de poetas (clicar a foto)





MORTE





Respiras a incontida narrativa dessa trama

por dentro do ardor que arde na magia

Mas há um nome cujo nomear em ti acorda

aquele que indefeso caminha sobre o abismo

um nome de ausência sempre presente

a crescer sem apelo no segredo da raiz

Quase único por ti procura por ti se expande







(in "Corpo Precário", "ILHA 3",

direcção, organização,

selecção e notas de

José António Gonçalves,

CMF, 1991)







CORAÇÃO ESCURO DAS COISAS



À memória de A. J. Vieira de Freitas





De campos devassados o vento sopra

percorre a frágil linha de lírios negros

caminha sobre as palavras do poema

até morrer no íntimo abandono

que envolve o sono da terra

De lívidas larvas sonolentas

uma luz germina pálida

no coração escuro das coisas








(in "Vogais de Verão",

"ILHA 4", direcção,

organização e notas

de José António Gonçalves,

prefácio de Ernesto Rodrigues,

CMF, 1994)



*



Luís Viveiros (n. Machico, Madeira, 1953 e reside em Lisboa

desde 1983). Começou a publicar na revista "Margem" (CMF),

vindo depois a participar em 1982-1983 num projecto de pesquisa

de instrumentos musicais tradicionais da Madeira e Porto Santo.

Participou na III Exposição de Poesia Ilustrada (CMF, 1989), na

"Poet'Arte 90" (AEM, 1990), "Vers'Arte 91" (AEM, 1991), "Olhares

Atlânticos" (AEM, na Biblioteca Nacional, Lisboa, 1991) e na antologia

"O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses", todas ela organizadas e

promovidas por José António Gonçalves, o qual também dirigiu as

colectâneas "Ilha 3" (1991) e "Ilha 4" (1994), onde está representado.

Obras: "Primeiras Angústias" (CMF, 1982) e "Poeira dos Dias"

(Instituto Piaget, 1998), estando a preparar novo livro.



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poemário

2004

(Assírio & Alvim)


MANUEL DE FREITAS




(Templo Funerário de
Nebhepetre-Montuhotep,
em Tebas - clicar)



DEPOIS DE TEBAS


Os mortos, como sabes,
não te podem ajudar.
Confundes-te com eles, fazes teu
tudo o que não disseram.
A cabeça da mãe, na fotografia,
abençoa o crime e a desavença.
Tem óculos, sorri, no jardim com gansos
que não passavam afinal de patos.

Entraste, pelo mesmo portão,
nas casas em que se prepara a peste
e não te atreverás sequer a escrever
o insuficiente livro da infância,

o cheiro, como dizer, das tangerinas.

Manuel de Freitas
(1972)



(in "Beau Séjour")




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IMAGINÁRIO


2004

(Assírio & Alvim)

ENRIQUE VILA-MATAS






...um erro juvenil...

(...)
Enquanto eu perdia tempo em Saragoça, o meu pai encontrava-se no seu leito de morte e, se tivesse regressado a tempo e lhe tivesse prometido ter filhos, ter-me-ia transmitido o nome secreto essencial, o nome secreto de Roma, esse nome que eu tão estúpida e alegremente troquei por um tão irrelevante e provinciano que, para cúmulo, nem parece fiável.
O nome secreto de Roma, por um erro juvenil exclusivamente meu, perdeu-o a humanidade para sempre. E os Massimo, por minha culpa, são hoje em dia uma espécie de família ostracizada, uma família com um segredo conservado durante séculos e que eu deitei pela borda fora num instante parvo, insuperavelmente imbecil. O nosso precioso segredo ficou agora suspenso no vazio do nada mais infinito.
(...)



Um escritor catalão
apaixonado pela Madeira.

Enrique Vila-Matas

(1948)

(in "Filhos sem Filhos";
tradução: José Agostinho Baptista)



*


Um Poema
de
José António Gonçalves




GIACOMO LEOPARDI E O SUAVE

DESPRENDIMENTO DO INFINITO



aproveitemos a pedra solitária à beira do caminho

e sentemo-nos, Leopardi, para descansar do esforço

da jornada que nos traz de Recanati para o mundo

onde Dante e Petrarca aprenderam a construir torres de marfim

e a pesquisar o odor da espuma solta pelo mar profundo



à distância, Roma e Florença empurram-nos, cândidas,

para o Sol atravessando os campos e beijando os pássaros

enquanto pensamos em flores, na lua e no compasso íntimo

das mais distintas estações, para esquecermos o frio do Inverno

de Milão, a riqueza recusada e a quentura breve do inferno



agora já não há remédio, os livros ilustram a casa

abandonada, as palavras ecoam um pouco por toda a parte

e a fuga aos muros sanguíneos revela-se impraticável.

regressemos então aos jardins do berço paterno, carregando o dia

em que foi possível saltar célere a cerca que por lá havia



não vale a pena dar importância à brancura iluminada do claustro

nem ao deus que não se recolhe à mesa dos homens

embriagado pelo seu acostumado ruidoso silêncio divino

como ave imponente percorrendo os céus com as suas asas

na serena reivindicação de absoluto dono do tempo e do destino



a tabuleta indica certeira para Pisa, como uma seta contratada

para se centrar no alvo, no coração onde a humanidade dança

e desconhece o sabor do orvalho em Nápoles, o verde calmo

das encostas, a doçura da brisa outonal, a cor do casario,

a conjugação do amor com a poesia ou da chuva com o estio



a viagem aponta para o que mora onde há lugar,

o resíduo de um lapso branco numa folha de papel

ou o viver atormentado nas vigílias claras de uma cama dura

sem que valha alguma coisa a carne fraca, a angústia, o sono,

a dor flagelada nos ossos, a fome trocada pela magia da literatura



a terra fica por debaixo dos pés e cheira ao pudor dos dilúvios

espera o momento de renascer na água e abraça todos os ventos

é cega como os olhos que leram muito nas noites húmidas e eternas

e sorri para os que a amam, alimentando as suas almas transparentes

com o pão de trigo fermentado no suor de povos enxutos de rezas



vem por aqui, persegue a marca das poeiras, pressente a erva

morta de uma nova estrada. recorda como Stendhal ao longe não aguarda

por vozes distantes de outras cidades, preenchendo devagar as tardes

com o rumor dos teus Cantos, divertido com o perfume dos trovadores

e derramando os teus versos como vinho na cabeça de sábios viticultores



a carga é pesada, chama Ranieri, Silvia, Fanny Tozzeti,

uma aleluia apaixonada, um ou dois padres jesuítas, um tratado

de filosofia, uma citação com sentido, um ensaio de filologia,

a oração junto ao túmulo de Tasso, o pó das antigas bibliotecas

e vamos dormir, quietos e puros, como só dormem os poetas



assim, cá estamos Leopardi, noutro areal, despido de barcos,

traçando rotas em mapas escondendo a morte, a loucura,

a alegria, o vácuo das manhãs, a juventude e o seu suave desprendimento,

como se um lençol cobrisse o que não é preciso ser dito

e mostrasse o teu rosto espelhado nas sombras do infinito



José António Gonçalves





(in "Giacomo Leopardi e o Suave Desprendimento do Infinito",

Colecção "Obras Completas de José António Gonçalves", nº. 1,

Prefácio de António Fournier, Foto de Teresa Brasão,

Editorial Correio da Madeira, Funchal, 1999)







 

Selecção e Montagem: JAG