As sílabas do verde soletradas
de ramo em ramo, no alfabeto das folhas.
(in "Entre a Cicuta e o Mosto"", 1992;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -
JOSÉ GOMES FERREIRA
HOJE O LUAR
(O meu Dom João das mulheres feias e repelentes)
Hoje o luar colou-me nos pés
asas de cantar...
E apetece-me andar pelas ruas
a atirar escadas de corda
para as trapeiras
de frio no ar...
E entrar subtil pelos vidros partidos
nos esconsos de alma
com montes de trapos e de corpos
nos cantos suados...
E meter-me invisível nas camas de treva
com lençóis de teias de aranha,
pé ante pé,
entre cadáveres de desejos,
onde suspiram as tristes, as marrecas, as bexigosas e as famintas
com a carne transida de lágrimas e de soluços.
E apertar ao peito todos os corpos feios a repelirem-me de amor,
todas as peles já ásperas do barro da morte,
todas as desprezadas dos alçapões,
todas as expulsas pelos chicotes do sol,
nesta noite extraordinária
em que apetece subir pelo luar
até àquele ponto exacto do silêncio nas nuvens
em que o êxtase rasa de beleza igual
todos os bichos do mundo
fundidos no mesmo instante de terra e lua
- com um coração de astros
a latejar nas pedras.
(in "Ruas Desertas", 1946/47;
in "Felizmente as Palavras", APE, 2001)
*
José Gomes Ferreira, escritor, poeta e ficcionista, natural do Porto
(1900-1985)formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na
Noruega entre 1925 e 1929, após o que enveredou, em Portugal, pela
carreira jornalística. Foi colaborador de vários jornais e revistas,
tais como a Presença, a Seara Nova e Gazeta Musical e de Todas as
Artes. Esteve ligado ao grupo do Novo Cancioneiro, sendo geral o
reconhecimento das afinidades entre a sua obra e o neo-realismo,
tornando-se num representante do artista social, politicamente
empenhado. A sua poética acusa influências tão variadas como a
neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa
dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, as suas
tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento
dos outros. Tem variadíssima obra literária publicada, sendo de
destacar os três volumes da sua poesia, reunidos sob o título de
"Poeta Militante".
***
UM POETA DA MADEIRA
LUÍS VIVEIROS
Luís Viveiros e esposa, Ana Paula Viveiros,
José Agostinho Baptista, JAG e Firmino Mendes,
num convívio de poetas (clicar a foto)
MORTE
Respiras a incontida narrativa dessa trama
por dentro do ardor que arde na magia
Mas há um nome cujo nomear em ti acorda
aquele que indefeso caminha sobre o abismo
um nome de ausência sempre presente
a crescer sem apelo no segredo da raiz
Quase único por ti procura por ti se expande
(in "Corpo Precário", "ILHA 3",
direcção, organização,
selecção e notas de
José António Gonçalves,
CMF, 1991)
CORAÇÃO ESCURO DAS COISAS
À memória de A. J. Vieira de Freitas
De campos devassados o vento sopra
percorre a frágil linha de lírios negros
caminha sobre as palavras do poema
até morrer no íntimo abandono
que envolve o sono da terra
De lívidas larvas sonolentas
uma luz germina pálida
no coração escuro das coisas
(in "Vogais de Verão",
"ILHA 4", direcção,
organização e notas
de José António Gonçalves,
prefácio de Ernesto Rodrigues,
CMF, 1994)
*
Luís Viveiros (n. Machico, Madeira, 1953 e reside em Lisboa
desde 1983). Começou a publicar na revista "Margem" (CMF),
vindo depois a participar em 1982-1983 num projecto de pesquisa
de instrumentos musicais tradicionais da Madeira e Porto Santo.
Participou na III Exposição de Poesia Ilustrada (CMF, 1989), na
"Poet'Arte 90" (AEM, 1990), "Vers'Arte 91" (AEM, 1991), "Olhares
Atlânticos" (AEM, na Biblioteca Nacional, Lisboa, 1991) e na
antologia
"O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses", todas ela organizadas e
promovidas por José António Gonçalves, o qual também dirigiu as
colectâneas "Ilha 3" (1991) e "Ilha 4" (1994), onde está
representado.
Obras: "Primeiras Angústias" (CMF, 1982) e "Poeira dos Dias"
(Instituto Piaget, 1998), estando a preparar novo livro.
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poemário
2004
(Assírio & Alvim)
MANUEL DE FREITAS
(Templo Funerário de
Nebhepetre-Montuhotep,
em Tebas - clicar)
DEPOIS DE TEBAS
Os mortos, como sabes,
não te podem ajudar.
Confundes-te com eles, fazes teu
tudo o que não disseram.
A cabeça da mãe, na fotografia,
abençoa o crime e a desavença.
Tem óculos, sorri, no jardim com gansos
que não passavam afinal de patos.
Entraste, pelo mesmo portão,
nas casas em que se prepara a peste
e não te atreverás sequer a escrever
o insuficiente livro da infância,
o cheiro, como dizer, das tangerinas.
Manuel de Freitas
(1972)
(in "Beau Séjour")
***
IMAGINÁRIO
2004
(Assírio & Alvim)
ENRIQUE VILA-MATAS
...um erro juvenil...
(...)
Enquanto eu perdia tempo em Saragoça, o meu pai encontrava-se no seu
leito de morte e, se tivesse regressado a tempo e lhe tivesse
prometido ter filhos, ter-me-ia transmitido o nome secreto
essencial, o nome secreto de Roma, esse nome que eu tão estúpida e
alegremente troquei por um tão irrelevante e provinciano que, para
cúmulo, nem parece fiável.
O nome secreto de Roma, por um erro juvenil exclusivamente meu,
perdeu-o a humanidade para sempre. E os Massimo, por minha culpa,
são hoje em dia uma espécie de família ostracizada, uma família com
um segredo conservado durante séculos e que eu deitei pela borda
fora num instante parvo, insuperavelmente imbecil. O nosso precioso
segredo ficou agora suspenso no vazio do nada mais infinito.
(...)
Um escritor catalão
apaixonado pela Madeira.
Enrique Vila-Matas
(1948)
(in "Filhos sem Filhos";
tradução: José Agostinho Baptista)
*
Um Poema
de
José António Gonçalves
GIACOMO LEOPARDI E O SUAVE
DESPRENDIMENTO DO INFINITO
aproveitemos a pedra solitária à beira do caminho
e sentemo-nos, Leopardi, para descansar do esforço
da jornada que nos traz de Recanati para o mundo
onde Dante e Petrarca aprenderam a construir torres de marfim
e a pesquisar o odor da espuma solta pelo mar profundo
à distância, Roma e Florença empurram-nos, cândidas,
para o Sol atravessando os campos e beijando os pássaros
enquanto pensamos em flores, na lua e no compasso íntimo
das mais distintas estações, para esquecermos o frio do Inverno
de Milão, a riqueza recusada e a quentura breve do inferno
agora já não há remédio, os livros ilustram a casa
abandonada, as palavras ecoam um pouco por toda a parte
e a fuga aos muros sanguíneos revela-se impraticável.
regressemos então aos jardins do berço paterno, carregando o dia
em que foi possível saltar célere a cerca que por lá havia
não vale a pena dar importância à brancura iluminada do claustro
nem ao deus que não se recolhe à mesa dos homens
embriagado pelo seu acostumado ruidoso silêncio divino
como ave imponente percorrendo os céus com as suas asas
na serena reivindicação de absoluto dono do tempo e do destino
a tabuleta indica certeira para Pisa, como uma seta contratada
para se centrar no alvo, no coração onde a humanidade dança
e desconhece o sabor do orvalho em Nápoles, o verde calmo
das encostas, a doçura da brisa outonal, a cor do casario,
a conjugação do amor com a poesia ou da chuva com o estio
a viagem aponta para o que mora onde há lugar,
o resíduo de um lapso branco numa folha de papel
ou o viver atormentado nas vigílias claras de uma cama dura
sem que valha alguma coisa a carne fraca, a angústia, o sono,
a dor flagelada nos ossos, a fome trocada pela magia da literatura
a terra fica por debaixo dos pés e cheira ao pudor dos dilúvios
espera o momento de renascer na água e abraça todos os ventos
é cega como os olhos que leram muito nas noites húmidas e eternas
e sorri para os que a amam, alimentando as suas almas transparentes
com o pão de trigo fermentado no suor de povos enxutos de rezas
vem por aqui, persegue a marca das poeiras, pressente a erva
morta de uma nova estrada. recorda como Stendhal ao longe não
aguarda
por vozes distantes de outras cidades, preenchendo devagar as tardes
com o rumor dos teus Cantos, divertido com o perfume dos trovadores
e derramando os teus versos como vinho na cabeça de sábios
viticultores
a carga é pesada, chama Ranieri, Silvia, Fanny Tozzeti,
uma aleluia apaixonada, um ou dois padres jesuítas, um tratado
de filosofia, uma citação com sentido, um ensaio de filologia,
a oração junto ao túmulo de Tasso, o pó das antigas bibliotecas
e vamos dormir, quietos e puros, como só dormem os poetas
assim, cá estamos Leopardi, noutro areal, despido de barcos,
traçando rotas em mapas escondendo a morte, a loucura,
a alegria, o vácuo das manhãs, a juventude e o seu suave
desprendimento,
como se um lençol cobrisse o que não é preciso ser dito
e mostrasse o teu rosto espelhado nas sombras do infinito
José António Gonçalves
(in "Giacomo Leopardi e o Suave Desprendimento do Infinito",
Colecção "Obras Completas de José António Gonçalves", nº. 1,
Prefácio de António Fournier, Foto de Teresa Brasão,
Editorial Correio da Madeira, Funchal, 1999)