A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

25

 
 
 
 
ALBANO MARTINS




Árvores
que me doem
na garganta
- quem as arranca?
Quem as planta?



Albano Martins


(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


***



Bloco Poético de Notas

- Selecção de JAG -


DÓRDIO GUIMARÃES




Dórdio Guimarães (à direita)
com Natália Correia e o
pintor Bual (clicar)


(Um Inédito)


O dom da vida se imodera e precipita
com a ânsia tanta de se rever ao espelho
que denuncia o velho que me vou tornando.
Ocupo ainda o espaço que me foi dado,

descoheço os que vão chegando e já não
vejo os que ao meu lado me abandonaram.
Sou um estranho num mundo desordenado,
uma ave atrasada de seu bando, mas vivo

sem préstimo e sem comando, sem o fado
de súbito interrompido, menor ou corrido.
Ido passado que me agasta e resta, ida
aresta que me ilumina, lâmina e níquel.

Venho daquele tropel que me poupou a hora
da queda, trago a seda esvoaçante e nunca
rasgada em parte alguma, intacta figura
solitária. A lendária altura não me chamou,
o amor me doou.



(inédito, datado de 26.4.96, pertencente ao
dáctiloscrito "O Fogo e a Pomba", entregue
pelo autor a José António Gonçalves,
destinada a futura publicação)




ÚNICA


Em toda a vida foste sempre ilha,
nas hortênsias de teus olhos, nas camélias
dos teus lábios, nas garças das tuas mãos,
tinhas a pele das manhãs luminosas

e difíceis, das brumas das pastagens
e das lagoas meditativas, das furnas
escaldantes e nervosas, o dom desse nó
umbilical que vem da mãe circulatória.

A tua história, de águas rumorosas,
nasce e nunca nasce, parte e em nunca
se reparte, é um fruto, um peixe, uma missiva,
uma gruta viva cheia de revérberos

da saudade lumidária e viajante que se compraz
em outra ilha, estrela intacta de som,
rodeada de universos por todos os lados,
pulsando nos perfis do tempo, coração que chora
a frátria luz.


(in "Única", posfácio, notas e direcção
de José António Gonçalves,
Colecção "Memória das Palavras", 1,
Editorial Correio da Madeira, 1995)


*
Dórdio Leal Guimarães (Porto, 1938-1997, Lisboa), poeta, jornalista, ficcionista, realizador e argumentista de cinema e de televisão, editor e administrador de organismos culturais, dedicou a maior parte da sua vida à sua mulher, a escritora Natália Correia, companheira e musa de toda a sua produção artística e literária. Da sua filmografia (que reune duas centenas de títulos, excluindo aquela em que colaborou com seu pai, o realizador Manuel Guimarães), saliente-se a longa-metragem "Santo Antero", uma homenagem a Antero de Quental, 1979 e o telefilme "Soror Saudade", uma evocação de Florbela Espanca, 1983. Da sua bibliografia, realce para o "Tempo Imediato", com que se estreou como poeta em 1961, o romance "Alexandre Nevsky", 1972, os volumes "Paicina", 1976, e "Maicina", 1991 (de poesia e prosa) e "Única", editado na Madeira, o seu último livro, novamente escrito para a sua amada Natália (a sua "Cynthia até ao Fim do Mundo"), 1995.

***

UM POETA DA MADEIRA




EDMUNDO DE BETTENCOURT







CONSAGRAÇÃO



Tinham desaparecido

as casas da cidade.

E havia agora uma praça,

donde a população olhava o céu, à espera.



O avião chegou.

Vinha sobre uma nuvem branca,

que irradiava aromas,

a claridade e a música, pelos ares...



O aviador de fora e à frente,

conduzia-o

e andava no ar como no chão!



De repente o avião desceu

vertiginosamente!



Caía...



E embora não se ouvisse explosão,

em baixo

um fumo negro, imenso, com destroços,

e o fogo, começaram subindo

à altura em que o avião pairava antes.



A multidão,

rápida,

como as águas duma enchente,

escoou-se...



Depois nais nada;

isto é:

somento uma infinita escuridão por sobre

a qual a palavra perdão jamais será escrita!





Luar



Apenas o luar chegou,

desfez-se em asas no ar.

E toda a noite levou

a regressar devagar...



Em noites alvas, de lua,

não há nudez com vergonha.

À luz do luar, o barro

é o mármore com que sonha.



À luz do luar, as aves

nocturnas,breve, enlanguescem

e, ao seu crepúsculo da sombra,

mortas de sonho adormecem...



Os silêncios do luar são

aléns de notas agudas,

são gritos paralisados

em rictos de bocas mudas!



O luar rouba ao escuro

o que de dia é segredo.

À luz do luar podemos

ver respirar o arvoredo...



Canção ouvida ao luar

não terá ritmos perdidos

- é som vivendo no olhar

- luz que fica nos ouvidos.



À luz do luar a água

soluça todas as dores,

que à luz do luar a água

tem na cor todas as cores.



(in "Poemas de Edmundo de Bettencourt",
prefácio de Herberto Helder,
Assírio & Alvim, 1999)





*



Edmundo de Bettencourt nasceu no Funchal (Madeira) em 1889. Fundador da "Presença - Folha de arte e crítica", em 1927, Bettencourt abre espaço ao movimento que toma o nome da revista e que até 1940 haveria de marcar a literatura nacional. A par de Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, José Régio, Fausto José e Saúl Dias, entre outros, Bettencourt partilhou nos primeiros anos da revista o espírito do movimento e os valores fundamentais do "presencismo". Em 1930, publica "O Momento e a Legenda", a sua primeira e solitária obra em mais de trinta anos. O ano da primeira criação é também o ano da derradeira dissidência. Bettencourt, Branquinho da Fonseca e Miguel Torga - os três da "cisão de 1930" - abandonam a revista em divergência com o resto do grupo e, em particular, com João Gaspar Simões. Só em 1963, Bettencourt volta a evidenciar-se com a publicação de toda a sua obra. "Os Poemas de Edmundo Bettencourt" - integram além da "Memória e Legenda", "Rede Invisível", de 1930/31, "Poemas Surdos", de 1934/40 (Ed. Assírio e Alvim) e "Ligação" escrito entre 1936 e 1962 - são prefaciados por Herberto Helder. Durante os anos de abstinência dos escaparates, o poeta trava amizade com Artur Paredes e dedica-se ao Fado de Coimbra, revolucionando-o. Avesso ao folclore das tradições académicas, o poeta "preguiçoso" introduz na temática do Fado temas e letras de origem popular suscitando na altura forte controvérsia. Isso não o impediu de ser hoje uma referência incontornável na memória de Coimbra. Manuel Alegre, o deputado poeta, reconhece que Bettencourt constitui uma "grande figura do fado de Coimbra ao lado de Artur Paredes"; que "trouxe algumas das mais belas canções populares e um lirismo mais forte". E Alegre acrescenta: "Lembro-me que os cantores da minha geração queriam todos cantar como Bettencourt, uma oitava acima". Rui Pato, outro dos notáveis do fado de Coimbra, recorda Bettencourt como "o primeiro grande inovador"; "o percusor da linha que foi depois seguida por Zeca Afonso, ao introduzir no fado temas dos Açores, da Beira Baixa, de várias regiões". E "é também um poeta, um progressista que rompeu com a tradição seguida nos anos 20/30"; "aprendi a gostar de Bettencourt com José Afonso, que, aliás, lhe dedicou um dos seus discos de fado de Coimbra". Edmundo Bettencourt, que faleceu em 1973, tornou-se lendário em Coimbra. José Afonso considerou-o o maior cantor de sempre do fado de Coimbra. Cantor e poeta, este funchalense de nascimento, contemporâneo de Menano e de outros "históricos" como José Paradela D'Oliveira, Armando Goes e Artur Paredes, deu ao fado da Lusa Atenas uma colaboração erudita, gravando diversas obras do cancioneiro académico de Coimbra onde fez a "assimilação perfeita entre as expressões musicais rústica e urbana". Gravou inúmeros fados para a editora alemã Odeon que se mantiveram am catálogo até finais de 1940. Datam deste periodo os oito fados, gravados em Lisboa em 1928, que constam no segundo volume, "Fados de Coimbra, (1926-1930)" da colectânea "Arquivos do Fado", editada pela Tradisom. Em 1993, foi ainda editado um CD em sua homenagem, gravado por antigos estudantes universitários, como ele, naturais do Funchal. Segundo Herberto Helder, conforme o registaram no "Jornal Público, em 4 de Abril de 1996, Carlos Picassinos e Fernando Magalhães, "cabe a Bettencourt a honra de ser uma das pouquissimas vozes modernas entre o milagre do 'Orfeu' e o breve momento surrealista português".




***




IMAGINÁRIO


2004

(Assírio & Alvim)






ANTÓNIO DACOSTA
(1914-1990)






MISERÁVEL MILAGRE



O caminho do poeta é um caminho viciado desde a origem e sem medida comum. Percorrê-lo equivale a rasgar a opacidade do seu próprio universo. E o que mais importa nesse caminhar no escuro é a ignorância do que está para lá do sabido, pois é preferível morder essa polpa suculenta do que roer uma verdade velha e relha que convém arredar ou anular.
Mas além dos caminhos, que são o que cada um pode ser, há as barreiras, algumas das quais se não podem transpor sem o salvo-conduto de uma tentação em boa e devida forma. Aliás, a aventura quando força certas portas não é recomendável a todos, e até só tem interesse na medida em que é consequente, isto é, na medida em que põe em causa o que anteriormente já estava em causa.
Henri Michaux é um poeta de tentações, e sempre estas o levaram a paragens de exploração difícil. A da "mescalina", descrita pelo poeta em Miserável Milagre, (...) como uma experiência de esquizofrenia, que o poeta não considera aliás perfeita. Trata-se de facto de uma experiência de ordem espiritual e não de uma tentativa de submersão artificial por mero prazer.
Michaux toma de tudo o que se toma muito pouco. Pouco vinho, pouco café, pouco fumo. O artificial não o tenta pois. Se o tentou aqui foi porque certos labirintos infernais o atraem e o explicam. Mas, a par deste aspecto de referência poética, há tudo aquilo de que Michaux se conseguiu aproximar no meio do tufão de oscilações que provoca uma droga cujos efeitos delirantes transformam, no dizer do poeta, a metafísica em mecânica. Por este lado, o testemunho de Michaux é altamente elucidativo para os especialistas da loucura, esse miserável milagre que põe em risco a perda total da razão.


O poeta Michaux, sobre quem
escreveu António Dacosta


(in "Dacosta em Paris)


*
Antônio da Costa,com o nome artístico Dacosta (que lhe pareceu mais adequado), nasceu em 1914 em Angra do Heroísmo, ilha Terceira, dos Açores e residiu parte do tempo em Lisboa, onde, além de pintar, também se dedicou à crítica de Arte. Depois de interromper as actividades por um longo tempo, em 1970 mudou-se para Paris, onde fixou residência e reiniciou a pintura de quadros. A primeira fase de seu trabalho esteve ligada ao Surrealismo; em seguida, passou para o Abstracionismo, estilo em que se situa a sua segunda fase. Também escreveu ensaios e ficção, tendo-os tornado públicos em diferentes géneros de publicação, incluindo a forma de livro, como "Dacosta em Paris", editado em Portugal pela "Assírio & Alvim" e a poesia, com realce para "A Cal dos Muros".

*

Um Poema Inédito
de
José António Gonçalves







O SENTIDO DO POEMA



para a Marisa Santos







Olhemos para a lua,

fixemos a sua intensidade

de luz e lembremo-nos

da importância do nevoeiro.





No coração das aves lê-se

a voz do impulso genuíno

que as faz ir em frente;

escrito no voo, no seu dilema,

reside o sentido do poema

que só a elas cala e consente.





José António Gonçalves



(inédito, Março, 2003)





 

Selecção e Montagem: JAG