E o verbo se fez cor, aurora
boreal, multímodo
girassol.
Com pétalas desenhas.
Caligraficamente.
Albano Martins
(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -
VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA
3 POEMAS
1
A um grego foi possível
Outrora sonhar divinamente as águas
De outro rio
Esse rio é homem de Heráclito
Ainda em sonho ignora
Quão diferente sobre si mesmo corre
o rio agora é noite
E o grego as naturezas escuta
Em toda a parte enquanto
Pensa o fogo harmonioso do passado
O que na cinza se escreveu
Perdido foi Éfeso
Artemis é essa inquietação segura
2
De astros coroada
Pelos aterros que a despojada lua
Insinuou até o fim
Sob outros sóis esfria perdida
Essa cabaça
Que à terra fatigada o corpo prende ainda
Os panos que sustentam
Há muito que ignoravam o terros dessa paixão
A Poseidon o escrutínio das partes
De estrela a estrela
Brilha agora no peito a enorme solidão
Sobre o abismo um só momento trai
Ó lírio amado
3
Venho de Elêusis a inefável
onde o arco de Hélios
Me revelou em sonho o rosto de Perséfone
No relastérion
Essa presença esquiva espero agora
Sem cessar sou jovem
A beleza persigo na terra com ardor
Das coisas feitas apenas sei
O que a um deus
Presságio algum proibe
Das coisas ditas o que a ouro debruam
As paisagens
Enquanto Perséfone escrutina
O trevo e a morte
(in "Vozes Poéticas da Lusofonia,
Câmara Municipal de Sintra,
org. Luís Carlos Patraquim, 1999)
*
Vergílio Alberto Vieira (n. 1950, nas imediações de Braga) formou-se
em Letras pela Universidade do Porto e lecciona, em Lisboa, desde
1993. Em 1999, reuniu a sua poesia no volume A Imposição das Mãos em
2000, parte da sua actividade crítica com o título A Sétima Face do
Dado. Mais recentemente publicou: O Voo da Serpente / poesia (2001),
A Biblioteca de Alexandria / ficção (2001) e Coágulos / poesia
(2002). É autor de vasta bibliografia na área infanto-juvenil, com
realce para "Do Cavalo Azul", com ilustrações de André Letria,
Caminho (2000). Integrou os júris do Grande Prémio de Poesia da APE,
do Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, do Prémio de Poesia do Pen
Clube Português, do Prémio Eixo-Atlântico de Narrativa
Galego-Portuguesa e do Grande Prémio do Romance e Novela da APE,
entre outros. Está representado na Antologia do Conto Português
Contemporâneo (Lisboa, 1984), na Antologia da Poesia Portuguesa
Contemporânea (Rio de Janeiro, 1999), Vozes Poéticas da Lusofonia
(Lisboa, 1999), Antologia da Ficção Portuguesa Contemporânea
(Budapeste, 2000) e Antología del Cuento Portugués del Siglo XX
(México, 2001). Pertence à actual Direcção da Associação Portuguesa
de Escritores. A colecção "Livros de Cordel", dirigida por José
António Gonçalves, publicou o seu opúsculo "A Ilha de Jade", com
poemas dedicados à Madeira, com o nº. 6, edição da Câmara Municipal
do Funchal (2000). Recentemente, realizou uma série de Oficinas de
Escrita em várias localidades do país, no continente e nas Região
Autónoma da Madeira, de que resultou o livro "As Palavras são Como
as Cerejas", Campo das Letras, 2001.
***
UM POETA DA MADEIRA
DALILA TELES VERAS
Paisagem
Regressar
porque se é partida e fuga
e sempre deixamos alguém à espera
É rocha e água este tempo
de areias difusas a paisagem
represada na garrafa
E o gênio à espera
à espera
de caridosas mãos que o desarrolhem
e o tornem eterno e faça-se a história
Que são os anos para quem
vive sob permanente encantamento?
Que é da existência
quando desfeita a paisagem?
(in "Madeira: Do Vinho à Saudade",
organização, edição e prefácio
de José António Gonçalves;
Colecção "Cadernos Ilha", 3, Funchal, 1989)
Paisagem marítima
Os guarda-sóis, cogumelos inúteis
espalham a cor, mais nada
Mulheres-lagartas untadas
deitam-se ao largo
fritando carnes e ócio
Na embalsamada paisagem
minhas lentes – único movimento
por vezo e ofício
fotografam o avesso
em invisível translação
Falsos haicais
entre dentes
as coisas dantes
emoções requentadas
nada além
do caminhar entre ramagens
e dos bolsos cheios de amoras
crescem as tentações
como pêlos
buço indesejável
folha madura estala
sábia, a terra a recolhe
húmus para a memória
(in "À Janela dos Dias - Poesia Quase Toda", Alpharrabio, 2002)
Meu Pai – Retrato Falado
Da palavra escrita, tudo ignora
acha que ler demais faz mal
à saúde e aos olhos
(à semelhança de Caeiro
acredita apenas no que vê e vive
nas árvores, nos pássaros, na Tv)
Elegeu, durante oito décadas
algumas (poucas) verdades
imarcescíveis
Também à maneira de Caeiro
não acredita em metafísica
(aliás, ignora solenemente o termo)
mas vez ou outra, elege um Menino Jesus
que tanto pode ser o seu médico
(compreende suas dores – sábio para sempre)
alguém que lhe fale em espanhol
ou aquele que lhe diga apenas o que deseja ouvir
Na memória auditiva
preservou frases imutáveis
válidas para todas as ocasiões
(tantas vezes repetidas
até serem transformadas em verdade)
Não acredita em fantasmas
nem que o homem chegou à lua
Odeia políticos e política
(o Presidente é o culpado por tudo)
No plano dos afetos
os pais e os irmãos
a primeira namorada
a companheira definitiva
os filhos e os netos
dois ou três amigos de infância
(nenhum na velhice – já morreram todos)
Algumas (poucas) paixões
:
fotografar
conduzir automóveis
criar passarinhos
vangloriar-se de seus (ingênuos) feitos
Não aceita que lhe falem da velhice
(nenhuma de suas mazelas, acredita,
dela é decorrente)
Um homem frugal
de pensamento concreto
(o que nós vemos das cousas são as cousas)
O mundo resume-se
à sua ética particularista e particularíssima
(o mundo – e o corpo – como vontade)
(inédito)
DALILA TELES VERAS
*
Dalila Isabel AgrelaTeles Veras, (n. Funchal, Madeira, Portugal,
1946). Reside, desde 1957, onde trabalha, em Santo André / SP /
Brasil. Animadora cultural, organiza cursos, seminários e
congressos. Participou, convidada pela UNESCO, no Colóquio Imprensa
de Língua Portuguesa no Mundo (Junho-1991, Paris), com a comunicação
"A Imprensa Alternativa no Brasil como resistência cultural". Fundou
o Grupo Livrespaço de Poesia (1983 a 1994). Foi editora na revista
literária LIVRESPAÇO ( 1992 a 1994, prêmio APCA 1993). Coordenou
oficinas de criação, entre as quais, Oficina da Palavra e Casa Mário
de Andrade (SP). Participou do Projeto "O Escritor nas Bibliotecas"
(1993/1994) e Poesia/96 da Secretaria Municipal de Cultura de
S.Paulo. Foi Directora e Secretária Geral da União Brasileira de
Escritores (SP) de 1986/88, 1990/92 e 1994/96. Dirige a Alpharrabio
Livraria Espaço-Cultura, em Santo André, onde promove constante na
divulgação da literatura e das artes, incluindo as Edições
Alpharrabio. Colabora com a imprensa cultural alternativa de todo o
país. De Maio de 1995 a Janeiro de 2000, manteve uma coluna fixa
semanal (VIAVERBO)* no Diário do Grande ABC, Caderno Cultura (Sto.
André - SP), sobre literatura e cultura. Integra várias colectâneas
dentro e fora do Brasil. Obras: (Poesia) - "Lições de Tempo", SP,
1982, e 2a. edicão, 1983; "Inventário Precoce", SP - 1983; "Madeira:
do Vinho à Saudade", 1989, (Madeira) Portugal; "Elemento em Fúria",
Teresina, 1989; "Forasteiros Registros Nordestinos, plaquete, SP -
1991; "A Palavraparte", SP, 1996; "À Janela dos Dias - Poesia Quase
Toda", ed. Alpharrabio, (2002) e "Vestígios", Alpharrabio, 2003;
(Crónica) - "A Vida Crônica", S.Paulo, 1999; e "As Artes do Ofício",
S.Paulo, 2000". Outras: "Minudências" (Diário), Alpharrabio, 2000,
"O Mistério da Casa Velha", de Cora Coralina, Global Editora, SP -
1989, (Seleção e ensaio Introdutório) e ensaios em Suplementos
Culturais e Revistas como D.O.Leitura, Folhetim - Folha de S.Paulo,
Correio das Artes, Livrespaço, Raízes.
***
POEMÁRIO
NOVALIS
A
POSSIBILIDADE
DE
UMA
DOR
INFINITAMENTE
EXCITANTE,
EXISTE.
NOVALIS
(1772-1801)
(in "Fragmentos",
Tradução de Mário Cesariny)
***
IMAGINÁRIO
ANTÓNIO MEGA FERREIRA
(Xenofonte - Discípulo de Sócrates.
N. Atenas, -428/-354)
(...)
- Xenofonte narra, na Ciropeida, os trabalhos a que se
entregou Ciro, preparando os seus funerais. Esta passagem de
Xeno fonte sempre me causou horror: vejo o grande Ciro roído pela
doença, absolutamente certo da sua morte próxima, porém lenta,
entregue ao trabalho de encenar a sua própria posteridade. Não é
morte digna para quem usou intensamente a sua vida, elevando-se
acima do seu tempo. A sua vida ditará a sua posteridade, mas isso
nada tem que ver com os rituais ou com a vontade de quem se pre-
para para morrer. A única perspectiva que podemos ter sobre a
forma como vamos ser vistos mais tarde é-nos dada pela consciência
do poder que temos no momento da nossa morte.
Todos ficaram suspensos das suas palavras. Fez-se um silêncio
grave e ouviu-se no exterior da casa, o grito de uma ave. Depois,
César olhou em volta, estudando um a um os rostos dos convivas.
Lentamente, disse:
- Por mim, um grande homem só pode desejar uma morte
rápida e inesperada. Qualquer meio é bom para se atingir esse
resultado:
a guerra, um acidente, o assassinato. Mas é preciso que o efeito
seja
fulminante: um homem não deve ter tempo para pensar demasiado
na sua própria morte.
(...)
(in "A Expressão dos Afectos")
*
Um Poema Inédito
de
José António Gonçalves
A MORTE AO ESPELHO
um arrepio parecido com o sopro da morte
paira por sobre o silêncio
no adormecimento
do corpo
escuta-se um planar de asas
um canto gritante de hordas sem nome
um bailado concêntrico de guerreiros
obedecendo ao apelo
da fome
é impossível despertar do pesadelo
e o espelho perdeu a nitidez de qualquer reflexo
coberto por um manto de sangue
no retalhar de carnes e amontoar de ossos
esquecida a memória a voz a palavra
a importância do amor da casa
do cheiro do sexo
valeria a pena ao abutre revelar
no intervalo das suas macabras andanças
como abraçaria a companheira
e acariciaria no seu lar
os seus filhotes
se estes fossem crianças?
José António Gonçalves
(inédito, 10.09.99)