A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

27

 
 
 
 
ALBANO MARTINS


Um ponto azul
no branco
desta rota.

Nasceu agora
do ovo
do sol

uma gaivota.


Albano Martins


(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)

***

Bloco Poético de Notas


- Selecção de JAG -

CASIMIRO DE BRITO





Homenagem
à poeta
Fiama Hasse Pais Brandão




Um Poema para Fiama


Um rosto, um olhar regaço
foi a primeira visão. Um olhar paciente
esperando que palavras caiam
maduras. Há pessoas assim, vêm da sombra
e trazem luz com elas, luz branca, pessoas que são
uma espécie silenciosa de mensageiros da paz.
Uma companheira poética.

Na primeira vez deu-me um livro
e desse livro colhi a primeira frase, o título,
Em cada pedra um voo imóvel ‹ talvez
tivesse começado nesse dia
o meu hábito de ler quando deixo
de ler, colher uma pérola, ser escolhido
por ela e não precisar de ler mais nada, apenas
pegar na pedrinha e caminhar com ela
nas ruas ou nas praias,
transportá-la num lugar muito reservado
onde a mente e o coração se acasalam.

Oito sílabas perfeitamente acentuadas
no som e no sentido. Um ritmo discreto, quase obscuro
e um sentido enigmático que integra, desde a primeira fala,
o último sumário lírico, a mancha solar
do pó, a harmonia dos ossos, a narração
da frágil matéria do mundo. Um fragmento
da vida toda e da vida antiga.

Isto é aquilo, metáforas, o todo em todas
as coisas, em vários anéis que ora se concentram,
ora se descentram ‹ é essa a essência
da poesia: o voo na pedra, a água que significa ave
quando a sílaba é um diamante,
uma mancha de voz
por onde circula o sangue que despe os objectos,
o pulso, a memória que existe nas palavras.
Ou são conchas? Isso ela diz, clarividente.

A homenagem à língua, à literatura
é antes de mais um ofício
entre o real e o divino, arte breve
que se faz com o corpo e tem
corpo, "o corpo carnal
dos meus poemas", a matéria vagarosa
das coisas todas que são dadas no poema
e nele exigem estar.

Quando, muitos estações depois e quase sábia,
ela, como Hípias, se retirou dos negócios públicos
também eu coincidente me retirei.
Do velho tempo. E penso nela e louvo
o canto vivo que levou consigo, pedras únicas
com voo dentro
onde a narração do universo se consome
e nos saúda ‹ deslumbrado com os espelhos aprendi
que nada equivale à vidraça do mundo.


("Um poema para a Fiama", lido na Homenagem
no Teatro Nacional D. Maria II,
do
"Livro das Quedas", ainda inédito)



FUGA

Alto estou a teu lado

no verão deitado



Alto no esplendor de possuir-te

e trocarmos silenciosamente

os frutos mais fundos da morte



Como se navegasse um rio

por dentro

e na tua fragilidade encontrasse

a minha força



Um caminho rigoroso de silêncio



(in Mesa do Amor (1970);

In Ode & Ceia (Poesia 1955-1984),

Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1985)


*
Casimiro de Brito nasceu em Loulé, em 1938. Viveu a sua infância na região algarvia e frequentou a Escola Comercial de Faro. Depois de uma passagem por Londres, em 1958, fundou e dirigiu com António Ramos Rosa os Cadernos do Meio-Dia (1958-60), onde se revelaram os poetas do grupo Poesia 61. Fixou-se em Lisboa em 1971, desempenhando funções no sector bancário, depois de ter vivido três anos na Alemanha. Poeta, romancista e ensaísta, tem cerca de 40 livros publicados. Foi Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Escritores e é actualmente Presidente do Pen Club. Dedica-se hoje exclusivamente à escrita e continua a desenvolver uma intensa actividade como divulgador da poesia nacional e internacional. É co-director da revista luso-brasileira Columba e responsável pela colaboração portuguesa na revista internacional Serta. Entre outros prémios, recebeu o Grande Prémio de Poesia APE pelo livro Labyrinthus (1981) e o Prémio Internacional de Poesia Léopold Senghor (2002). Algumas obras: (Poesia): Poemas da Solidão Imperfeita (1958); Poemas Orientais (1963); Labyrinthus (1981); Ode & Ceia (1985); Subitamente o Silêncio (1991); Intensidades (1995); À Sombra de Bashô (2001); (Ficção): Um Certo País ao Sul (1975) - contos; Imitação do Prazer (1977) – romance; Pátria Sensível (1983) - romance; (Ensaio): Prática da Escrita (1977); Vagabundagem na poesia de António Ramos Rosa (2001); e Da Frágil Sabedoria (2001).



***

UM POETA DA MADEIRA



CARLOS NOGUEIRA FINO



sabemos este ofício de voltar às águas
mas não o de esvair os olhos de silêncios

sabemos como abrir os poros
e dissolver as vértebras
mas não como encurtar uma distância tão íntima nos dedos
como a curva de um longo adeus imponderável

sabemos este cais
onde assentamos as árvores despidas
uma a uma
para que a íntima luz das ondas as penetre
com a raiz fugaz do inacessível

sabemos este ofício de ficar à tona
do fundo do que somos


(in "Contemplação do Olhar",
Colecção Cadernos Ilha, 6,
Direcção, Prefácio e Edição:
José António Gonçalves,
Funchal, 1992)




a que se aproxima subindo escadas invisíveis é
a minha amada
a que afaga a minha ânsia que nunca cicatriza

ela dispõe unguentos sobre a minha terra
e os lábios sobre as sombras que atravessam
o meu rio

ela é o musgo
e envolve num olhar perfeito as minhas árvores sonâmbulas
tocadas pelo ardor dos pássaros mortais

ela navega
erecta sobre os muros o murmúrio das sebes o lento
entardecer das fontes o eterno regressar das nuvens
aos redis

é o tecto de colmo o leito chão da noite

a minha amada
é a que fia persianas até cobrir os olhos de uma névoa
única
e canta enquanto as árduas estrelas se consomem

a que me beija os pulsos onde as sarças ardem
doendo como as rosas


(in "Maratona & Outros Poemas",
Colecção Livros de Cordel, 3,
Direcção e Organização:
José António Gonçalves,
Edição, CMF, 1999)

CARLOS NOGUEIRA FINO

*

Carlos Nogueira Fino (n. Évora, 1950, reside no Funchal desde 1959), é docente do departamento de Ciências de Educação da Universidade da Madeira. Obras publicadas: XXIII Poemas de Ilhamar, (Funchal, DRAC, prémio Leacock 1987); Simbiose (Funchal, DRAC,1988, ilustrações de Celso Caires); Este Cais Vertical, (Funchal, DRAC , 1989) Iniciação à Luz, ILHA 3, (Direcção e Org. José António Gonçalves, Ed. Câmara Municipal do Funchal, 1991); Contemplação do Olhar, (Colecção Cadernos Ilha, nº 6, Direcção, Org., Prefácio e Edição de José António Gonçalves, 1992); (Pre)Meditação, (Editora Signo, P. Delgada, Açores, 1992); Alquimias, ILHA 4, (Direcção e Org., José António Gonçalves, Prefácio de Ernesto Rodrigues, Ed., Câmara Municipal do Funchal, 1994); Segundo Livro de Ishtar, (Editora Limiar, Porto, colecção Os olhos e a memória, nº 66, 1994); Arco e Promontório, (Ed., Câmara Municipal do Funchal, 1997, prémio cidade do Funchal/Edmundo de Bettencourt de poesia, 1996); Poema do Alto do Milénio, (incluído na revista Limiar de poesia, nº 10, 1998); Inquietação da Água, (Editora Limiar, Porto, Colecção Os olhos e a memória, nº 77, 1998); Maratona & Outros Poemas, (Colecção Livros de Cordel, nº 3, Direcção e Org. de José António Gonçalves, Ed., Câmara Municipal do Funchal, 1999); O Deus Familiar, Colecção Autores da Madeira, Campo das Letras, 2001.


***



POEMÁRIO



PETER HANDKE



(..)
Duração, meu sossego.
Duração, lugar do meu descanso.

Impulso temporal da duração, tu rodeias-me
de um espaço descritível
e a descrição cria o espaço que se lhe segue.

A verdade é que
a duração não é uma vivência colectiva.
Não constitui nenhum povo.
E, apesar disso, no estado de graça da duração
acabo por não ser simplesmente só eu.
A duração é o meu desprendimento,
ela deixa-me sair e ser.
Animado pela duração,
sou também aqueles outros
que, já antes do meu tempo, estiveram no Lago de Griffen,
que hão-de girar, depois de mim, em torno da Porte d'Auteuil,
com os quais terei ido
à Fontaine Sainte-Marie.
Apoiado pela duração,
eu, ser efémero, levo sobre os meus ombros
os meus predecessores e sucessores,
uma carga impressionante.
Por isso tinha a duração de se chamar uma graça,
e não têm também as suas imagens e sons
o brilho e o timbre mais adequados?:
a chuva que cai, ao fim da tarde, nas poças de água matutinas,
a neve que o vento faz entrar no bule,
os letreiros sempre iguais nos camiões das empresas de transportes,
que passam com estridor na ponte da auto-estrada sobre o rio Salzach.
(...)


PETER HANDKE
(1942)

(in "Poema à Duração";
Tradução de:
José A. Palma Caetano)


***


IMAGINÁRIO




JOSEPH CONRAD

(...)
No primeiro dia estiveram muito activos, entretidos com mar-
telos, pregos e algodão vermelho, a colocar cortinas para tornarem a
casa habitável e bonita, decididos a instalar-se confortavelmente na
sua nova vida. Uma tarefa impossível para eles. Atacar com eficácia
mesmo os problemas meramente materiais exige mais serenidade e
constância do que geralmente se imagina. Nenhuns outros dois
seres podiam estar mais impreparados para esta luta. A sociedade,
não por causa duma qualquer ternura mas devido às suas estranhas
necessidades, tinha cuidado destes dois homens, proibindo-lhes
pensarem autonomamente, terem iniciativa, fugirem à rotina; e isso
sob pena de morte. Eles só com máquinas é que sabiam viver. E
agora, privados da tutela dos homens dos lápis atrás da orelha ou
dos homens com galões dourados na manga, eram como condena-
dos a prisão perpétua que, libertados ao fim de muitos anos, não
sabem o que fazer da sua liberdade. Não sabiam que uso dar às suas
faculdades, já que ambos eram, por falta de prática, incapazes de
pensar por si próprios.
(...)


JOSEPH CONRAD
(1857-1924)

(in "Histórias Inquietas";
Tradução de Carlos Leite)


***


Um Poema Inédito
de
José António Gonçalves



ANTES DA ILHA HAVIA UM SOL


Antes da ilha havia um sol abraçando o mar, a força
de um vento soprando por cima das ondas, um verde
de avencas cheirando a entardeceres e um punhado
de corsários atravessando cordilheiras, como quem
sobe penhascos, buscando castelos naturais de pedra,
atraídos por canções de amor, brancas como o Ilhéu da Cal.


Antigamente as palmeiras não se distraíam nos largos
da Vila Baleira, com o som dos murmúrios dos beijos
dos namorados noctívagos, nem as gaivotas lutavam
pelo saciar da fome em terra, loucas no rasto dos navios.
Não se falava do acaso natural do tempo, nem se usavam
hábitos de marinheiro para desculpar os esconderijos
de amores e copos, nem se mirava a química das estrelas
para ocultar as paixões pelas feiticeiras de cada porto
ou o assombramento das alquimias na luz das descobertas.


O areal alvo da praia parecia lava vulcânica no cair da tarde
e aquecia os pés dos meninos e dos velhos na cura dos corpos
enquanto as mães moldavam a espuma lunar de outras marés,
no espelho das lanchas cansadas, escondidas nas sombras
das dunas, com os olhos fechados pelo calor das viagens,
na esperança de que não haja nada a chegar de manhã ao cais
para incomodar os picos, o eco das palavras e o silêncio,
as mãos quietas na carícia estática da espera pelos pássaros.

Os cavalos mascaram-se de pégasos logo que as noites vêm
amadornar os sonhos de outras vidas, troteando pelos céus
onde falta a chuva porque antes da ilha havia um sol a matar
as flores, a lamber o sal das águas despidas de cor, paradas
nas litanias do mar, nas sardas das mulheres de olhos escusos
e nos rochedos das escarpas, onde o milho se recusa a nascer
e o linho não cresce como os cânticos perdidos dos pescadores.
Os profetas chegam de madrugada com as aves e nas suas asas
jogam peixes azuis, búzios, rimas, ventos para agitar os moínhos
e lá desaparecem pelos bares, como marujos carregando dilemas,
temendo retornar às suas casas e se deitarem, de novo, sozinhos.

José António Gonçalves

(inédito, lido no recital
do II Encontro Internacional
de Poetas na Ilha
do Porto Santo, 06.09.00)

 

Selecção e Montagem: JAG