A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

28

 
 
 
 
ALBANO MARTINS




Uma lâmpada acende-se
em pleno dia. A luz
é verde, casualmente
azul, às vezes
amarela, vermelha.
Às vezes, não; sobretudo
vermelha.

A cor dos miosótis
e do sangue.


Albano Martins


(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 


***



Bloco Poético de Notas

- Selecção de JAG -


URBANO BETTENCOURT






A UM CONSTRUTOR DE BARCOS QUE FOI MEU PAI


Os punhos que ergueste contra
um tempo de promessas

e a tua voz que não passou além

do cume dos nossos montes adormecidos,





MEU PAI: os barcos que fizeste
eram pequenos de mais para viajar

o teu sonho

a tua raiva

o teu cansaço




tu fabricante de viagens
amordaçadas

arquitecto de ilhas

naufragadas

MEU PAI: sei bem do tempo
em que os carangueijos roíam as raízes

da tua ilha - apodrecendo

e os barcos murchavam

na baía

(recordo que a viola perdeu

a voz num prego da parede.)

E daí

o teu barco de tédio e cansaço

único a não esbarrar

contra os muros das ilhas vizinhas.




(in 21 Poetas de Aqui e de Agora,
Angra do Heroísmo, 1972)



VIOLADÁFRICA



amigo a tua viola é o que resta
das papoilas e das rosas dum país
enches as noites africanas com acordes
de cravos e de cardos e lentamente uma serpente

de saudade
vai-se cercando o corpo
lentamente.

percorres a tua escala de ausência
na melodia em tom menor
com que se escrevem temas de exílio
solidão cansaço.

e o teu canto é um uivo agourento
e branco
atirado à lua
sob este céu que não foi nunca de Janeiro.




(In "Marinheiro com residência fixa", Lisboa, 1980)



*

Urbano Bettencourt nasceu na Piedade, Ilha do Pico em 1949. Frequentou o Seminário de Angra, que abandonou, vindo posteriormente a licenciar-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, depois de uma experiência de dois anos de guerra colonial na Guiné-Bissau. Professor do Ensino Secundário na margem sul do Tejo e em Ponta Delgada, e, desde 1990 Assistente Convidado da Universidade dos Açores, onde tem leccionado Literatura Portuguesa Clássica, Estudos Literários e Literatura Açoriana. Tem colaboração dispersa por jornais, revistas, rádio e televisão, para a última das quais adaptou, com José Medeiros, o romance Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. Obras: Raiz de Mágoa (poesia), Setúbal, 1972. Ilhas (narrativas), de parceria com Santos Barros, Lisboa, 1976. Marinheiro com residência fixa (poesia, narrativas), Lisboa, 1980. O Gosto das Palavras (ensaios), Angra, 1983. Naufrágios Inscrições (poesia, narrativas), Ponta Delgada, 1987. Emigração e Literatura (ensaio), Horta, 1989. O Gosto das Palavras II (ensaios), Ponta Delgada, 1995. Algumas das Cidades (poesia, narrativas), Angra, 1996.



***

UM POETA DA MADEIRA



JOSÉ VIALE MOUTINHO



PALAVRAS (PARA UM PANFLETO)


as palavras metem-se por baixo das portas

e são os versos (que medo) da insubmissão;

as palavras atacam os poderes atravessadas

nos dentes de uma boca que morde, fala, grita.



as palavras carregadas de sentido estão aqui,

estão nestes versos que te aparecem nas mãos,

como um pássaro de asas de lume e olhos grenat,

como um poema que não se conforma nos livros.



as palavras, cortantes, como essas lâminas, abrem

os pulsos dos anjos insensatos, erguem-se, foices,

ceifando as cabeças dos burros da cidade fechada,

as palavras preenchem os olhos vazios das pessoas.



as palavras distribuem-se como o poema volantes

nas vésperas de um primeiro de maio, em abril,

para que conste e sirva de aviso aos caducos,

para que em cada manhã sejam o pão e a estrela.



as palavras, acreditem ou não, meus caros senhores,

caem do céu nas nossas mãos e os olhos, doidos!,

não acreditam que os ventos as levem para longe,

as palavras escrevem-se para sempre nestas nuvens.

(inédito)



quinze



preparo-me para o regresso, revejo notas, roupas, afino o
olhar cansado, conto as moedas, apago o sol, bebo um
copo de água morna, o comprimido do coração
afoga-se-me na garganta, arrumo a cabeça, digo adeus

ao romance: as vozes do trabalho, são sempre vozes,
fazem-me vibrar as têmporas, esfrego as mãos secas,
começo a levantar-me, a apagar os silêncios, a boca
atraiçoa-me, o travo amargo é uma lâmina de carne,

nos bolsos procuro, em vão, um lenço branco limpo, para
dizer adeus só um lenço assim, ou uma lágrima, mas do
corpo apenas se afasta a mão fechada, a mão que faz o
cimento e afaga as chamas, a mão do finado, de cera,

fecho a janela, tanto tempo esteve aberta, corro a cortina,
apaga-se a encosta, desaparecem o penedo branco, as aves,
as árvores, os pratos sujos do almoço, o sol, as vacas, essa
sórdida incomodidade da contemplação: é o outono, afinal.


(in "Outono: Entre Máscaras",
Afrontamento, 2003)


JOSÉ VIALE MOUTINHO

*
José Viale Moutinho nasceu no Funchal, em 1945. É jornalista desde 1966. Actualmente vive da sua condição de escritor, em exclusividade, tendo já publicados mais de cinco dezenas de títulos. Com Cenas da vida de um Minotauro (2002) obteve o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores, e o Prémio Literário Orlando Gonçalves. Com No Pasarán! (2ª ed., 1998), sobre a Guerra Civil de Espanha, foi-lhe atribuído o Prémio Norberto Lopes, da Casa da Imprensa de Lisboa. Entre outras prestigiadas publicações em que participou, incluindo antologias (que também organizou, como recentemente "Saudades da Ilha - Evocações Poéticas da Ilha da Madeira", Asa, 2002), destacam-se as colectâneas dirigidas por José António Gonçalves, "Ilha 3" (CMF, 1991) e "Ilha 4" (CMF, 1994) e o opúsculo "Poemas Tristes", na Colecção "Livros de Cordel", (CMF, nº. 8, 2001). Grande parte das suas obras está publicada em castelhano, alemão, italiano, russo, búlgaro, asturiano, galego, catalão e húngaro. É autor de livros para crianças: Fernando Pessoa (2ª ed., 2000), O Cavaleiro de Tortalata (2001) e 365 Tradições Populares Portuguesas (Asa, 2002). Na ASA publicou o livro de poemas E Se a Manhã Fosse Outra? (2002), No País das Lágrimas e outros Contos (2003). Note-se que em 2003 venceu também o prémio "Edmundo de Bettencourt", atribuído pela Câmara Municipal do Funchal ao seu livro de contos "Já os Galos Pretos Cantam", já editado sob a chancela da "Caminho".
***



POEMÁRIO




T.S.ELIOT

 


(...)
E tinha valido a pena, depois de tudo isto,
Depois da geleia, das xícaras, do chá,
Entre porcelanas, a meio de qualquer conversa de nós dois,
Tinha valido a pena
Ter rematado o assunto com um sorriso,
Ter estreitado o universo numa bola
E fazê-la rolar, rumo a qualquer questão inevitável,
E dizer: "Sou Lázaro e venho de entre os mortos.
Voltei para vos contar tudo, vou contar-vos tudo" -
Se alguém, ajeitando a cabeça dela na almofada,
Dissesse: "Não era nada disso que eu queria dizer.
Não é isso, nada disso."
(...)


T. S. ELIOT

(1888-1965)

(in "A Canção de Amor de J. Prufrock":
Tradução de: João de Almeida Flor)

***


IMAGINÁRIO



MARÍA ZAMBRANO



PORQUE SE ESCREVE

Escrever é defender a solidão em que se está; é uma acção que
brota somente de um isolamento afectivo, mas de um isolamento
comunicável, em que, exactamente, pela distância de todas as coisas
concretas, se torna possível um descobrimento de relações entre elas.
Mas é uma solidão que necessita de ser defendida, que é o
mesmo que necessitar de justificação. O escritor defende a sua soli-
dão, mostrando o que nela e unicamente nela, encontra.
Se há um falar -, porquê o escrever? Mas o imediato, o que
brota da nossa espontaneidade, é algo pelo qual inteiramente não
nos fazemos responsáveis, porque não brota da totalidade íntegra da
nossa pessoa; é uma reacção sempre urgente, premente. Falamos
porque algo nos compele e a ordem que nos é dada vem de fora, de
uma armadilha em que as circunstâncias pretendem caçar-nos, e a
palavra livra-nos dela. Pela palavra tornamo-nos livres, livres do
momento, da circunstância assediante e instantânea. Mas a palavra
não nos recolhe, nem, portanto, nos cria e, pelo contrário, o muito
uso que dela fazemos produz sempre uma desagregação; vencemos
pela palavra o momento e depois somos vencidos por ele, pela suces-
são dos momentos que vão levando consigo o nosso ataque sem nos
deixar responder. É uma contínua vitória que, por fim, se converte
em derrota.
E dessa derrota, derrota íntima, humana, não de um homem
particular, mas do ser humano, nasce a exigência de escrever.
Escreve-se para reconquistar a derrota sofrida sempre que falámos
longamente.
(...)


MARÍA ZAMBRANO

(1904-1991)


(in "A Metáfora do Coração (e outros escritos)";
Tradução de José Bento)


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Um Poema Inédito

de

José António Gonçalves






NÃO BRINCO NEM CANTO





não brinco nem canto. sou louco e roubaram-me os olhos numa manhã escura, depois de me perder numa multidão. sei que senti uma carícia violenta como se uma mulher prisioneira tivesse encontrado, no meu rosto, a água para a sua sede, a fonte cristalina da sua liberdade. era uma fome crua e não havia sol. depois descobri anjos negros e disseram-me que dormia em los angeles. via-os surgirem, pelas paredes vermelhas, através dos meus dedos, como um cego. eles murmuravam e dançavam, enquanto os seus ossos apodreciam e as suas caveiras se tornavam verdes e sorridentes. mulheres coloridas, - é incrível como consegui me aperceber das suas cores, quando os meus olhos descansavam num banco, lambidos por um gato vadio, - tomaram conta de mim. fui aprendendo coisas, principalmente a tactear nas ruas sem fim nem princípio. tudo para mim era o tempo escapando no ruído das motos ou do vento. tudo eram vozes perseguindo passos ou passos procurando vozes, nos becos, nas casas, nas mulheres agasalhadas no deserto dos seus corpos, brancos como leite fresco. foram noites de sangue, de vinho e de ódio, aquelas que sonho hoje e que me furaram a pele em los angeles. recordo-as agora e sempre que as recordo é inverno, está frio, alguém morreu e chove. trago comigo, desenhada a azul no braço direito, uma mulata esquelética de dentes a bulir de pureza. trago comigo uns medalhões indiferentes, gozando a minha insígnia de combate: pão preto, quente, com café de cevada ou whisky barato. tenho mais anos reforçando o aço dos meus olhos jogados no parque, depois de observarem a língua dos cachorros sem dono, depois de beijarem a boca das ciganas nascidas nos meus cabelos, e sinto que quis demais de los angeles, da califórnia, da américa do meu carinho. sinto que desejei demais de los angeles e da minha pobreza em permanente viagem. sinto que afinal apenas forjei, andando aos encontrões pelas tocas da minha cidade eleita, a droga do meu afago. quem lembro hoje, neste momento, e não voou comigo em los angeles? quem cresceu comigo e não rastejou comigo, no chão duro de los angeles? sim amigos, eu sei, todos se confundiram com o poder das máquinas, com o perfume das flores, com o gume das facas, com a importância das barbas, com a ditadura da gasolina. todos se ocultaram, esqueceram as roupas de cabedal negro empoeirado e eu fiquei só, amaldiçoando as marcas do meu rastro. tudo foi a minha profissão de aprendiz e hoje não brinco nem canto. sou louco e vejo estampas com anjos negros, aos gritos nos dias brancos, deixando tinta encarnada pelo caminho.





José António Gonçalves



(inédito, Funchal)

 

Selecção e Montagem: JAG