Meus versos podem ser tristes
e eu ter profunda alegria.
Aves nocturnas que buscam,
inquietas, a luz do dia.
Albano Martins
(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
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Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -
José Gil
rasgo
rasga os poemas no fio de cobre dos nervos
da tua lucidez pungente. traz o teu sono atrasado
em sombras que correm com o vento
do desejo. escreve, como as nuvens negras
desenham o céu da manhã sobre a cidade.
apenas corre as cortinas dos olhos verdes.
há um horizonte urgente, uma sede urgente, um corpo
urgente. um olhar verde e doce e segura a casa
como um rasgo de poemas em molhos,
livro em cordel que irrompe dos nervos
e da medula e da osteoporose dos velhos poemas.
as tuas palavras de poeta rasgam as últimas reservas
até à devastação da tua floresta negra e ácida.
rasga as letras uma a uma na claridade do fogo.
abre as lâminas e corre nua e tensa sobre o asfalto.
às vezes de um poema não salta nada ou apenas salsa,
salsinha branca, com coentros dourados. mais nada.
outras vezes é a vida que, de corda em corda,
o poema salva do suicídio
no surdo risco de um desabafo desordenado,
ortográficamente inescorreito.
rasga as notas violentas das cordas do violoncelo
e alterna o corpo azul no corpo preto e louro e
joga a incomunicável fantasia ao centro.
a cada solavanco entra no umbigo e perde
o côncavo olhar de marte.
rasga depois a luz e adormece na serra.
vê as estrelas.
(inédito. 29-10- 03)
às lagrimas por uma camisola
ao JAG
às lagrimas de uma camisola única e de águia
quantos a vamos vestir irmão josé antónio?
fora dos estádios, da relva clara, dos media, das flores,
o avançado de centro morreu a rir ao anoitecer
às lagrimas, às lagrimas, corações ao alto neste
espectáculo da vida. o meu irmão meireles assim
morreu, no seu emprego. a catarina também, na esplanada.
às lagrimas muita gente tem o coração assim fervendo.
uma catarse de um país para um picasso desenhar
na hungria, morremos todos naquele instante.
em directo, na alquimia.
josé gil
(inédito. 27.1.04)
*
JOSÉ GIL, Doutorando em Teatro e Educação do Espectador pela
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, é professor
Adjunto da Escola Superior de Educação - ESE - de Setúbal. Director
da Escola do Espectador e ex-fundador e director da IDEA -
Internacional Drama Education Association - , é criador dos
conceitos de Teatrotekas e Escolas do Espectador.Trabalhou nos
Teatros Nacionais de S. Carlos, D. Maria II e Trindade, onde chegou
a Encenador-Residente. Desenvolve o SEU MÉTODO DE ESCRITA CRIATIVA
na Escola do Espectador e um pouco por todo o mundo, através de
conferências e Workshops que realiza, destacando-se Sibiu, na
Roménia; Kisumo, no Quénia; Bergen, na Noruega; Freiburg, Colonia e
Frankfurt, na Alemanha, além de uma oficina extraordinária em
Washington - A Pós-Stanislavsky Actor’s Studio - Flying Like a Bird
Over de Stage. É actor profissional, encenador e poeta. Autor de
peças de teatro, roteiros e slogans publicitários, poemas e ensaios,
tem vários livros publicados. Recentemente esteve no Funchal,
participando de uma acção de dinamização cultural, com os poetas
Sónia Regina, Jorge Vicente, José Félix e José António Gonçalves,
promovida pela Associação de Escritores da Madeira.
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UM POETA DA MADEIRA
OCTÁVIO DE MARIALVA
FAUNESA
Deixa beijar as tuas pomas finas.
Deixar sorver a essência bela
que escorre dessas curvas peregrinas,
pois nada existe, sob o azul umbela,
mais doce às minha sensações divinas!
BUCÓLICA
No bosque. O Sol, qual lâmpada aureolada,
enche os lourais de luz
e a cornamusa, à beira de uma estrada,
solta um som que seduz.
Paz silvana.
É a hora em que o dia se descobre...
A Poesia, como a fada Viviana,
põe-se ao mirante do palácio nobre.
E apoiada no mármore dos pilares,
com ar níveo e sonoro,
aguarda o Sonho que virá, pelos ares,
coroá-la com rosas de ouro!
SEMICAPRO
Alcancei-a, afinal, entre os meus braços,
e, nos meus braços, era agora minha
a ninfa que parecia uma rainha
fugida de marmóreos paços.
O que eu corri! E quanta vez, esquiva,
rémula de medos,
se esondeu ela nos vinhedos,
dheios de cepa rediviva?
Depois... À sombra verde da latada,
a loira ninfa pousei.
E, ali mesmo, sem olhar a nada,
um poema inventei!
OCTÁVIO DE MARIALVA
(in "Olimpo - 25 Poemas da Grécia",
Colecção Princípe D'Arcádia, DRAC, 1991)
*
Octávio de Marialva (pseudónimo literário de Octávio José dos
Santos), nascido em data imprecisa no Funchal (1898?-1990), foi uma
das figuras da cultura madeirense mais polifacetadas e interessantes
do século passado. A seu respeito escreveu Fernando Pessoa: "neste
poeta nato, por mais mais que se eleve a arte, não pode ela
desprender-se do entendimento e da sensibilidade, em cuja fusão
divina se criou e teve origem". Ferreira de Castro reconheceu nele o
conhecimento do "ritmo das mais perturbantes sinfonias". O seu"maior
talento" foi ter sabido "transpô-las para o verbo", sublinhou,
enquanto que os seus poemas, no dizer do severo critico João Gaspar
Simões, tinham "uma espécie de vibração heróica". O seu último livro
(póstumo), foi "Olimpo - 25 Poemas da Grécia" (DRAC, 1991).
Publicista e esotérico de reconhecidos méritos, foi técnico de
Trofologia e Mentalismo. Era uma personalidade que distribuía o seu
pensamento pelas mais variadas formas, do livro ao panfleto, à
plaquete, ao texto de jornal, seguindo uma vida frugal que também se
revia nas viagens, tendo conhecido (uma coisa fantástica para o seu
tempo), desde os Galápagos, a Atenas, Cairo, Costa Rica, Nova
Iorque, São Francisco, Colômbia e Antilhas, entre outros países e
cidades. A sua idade (dizem que ultrapassou facilmente cem anos de
existência, aplicando métodos naturalistas) era um segredo que ele
dominava com um sentido fetichista, muito defendido por um pequeno
grupo de seguidores que se lhe manteve fiel até à morte.
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POEMÁRIO
GASTÃO CRUZ
A MÚSICA
Sempre ali esteve, a música,
o mar, e as ondas
de pássaros caindo como chuva ao fim
da tarde,
o piano tão líquido ou batendo
em acordes sobre o aço, uma
ilusão transformando
o som sem som, em tudo semelhante
ao silêncio,
a orquestra expandindo-se ou o refluxo
limpo dos pianíssimos,
ali estava
o silêncio, equivalente
ao som do mar e da cortina
de oliveiras defendidas do crepúsculo
por um muro de branco a escuro
passando, adolescente
música
como um corpo rolando nu na areia do
dia
quando na outra margem
a nota alucinada da fábrica o enchia,
o silvo que erigia em dor
o sexo,
as ondas desse mar orquestrado por
braços que nadavam.
GASTÃO CRUZ
(1941)
(in "Rua de Portugal")
*
Gastão Cruz nasceu em Faro, em 1941. Poeta e crítico literário,
formou-se em Filologia Germânica pela Universidade de Lisboa. Foi
professor do ensino secundário e, entre 1980 e 1986, leitor de
Português no King’s College, em Londres. Como poeta, o seu nome
aparece inicialmente ligado à publicação colectiva Poesia 61. Como
crítico literário, colaborou em vários jornais e revistas ao longo
dos anos sessenta. Essa colaboração foi reunida em volume, com o
título A Poesia Portuguesa Hoje (1973), livro que permanece hoje
como uma referência para o estudo da poesia portuguesa da década de
sessenta. Ligado também à actividade teatral foi um dos fundadores
do Grupo de Teatro Hoje (1976-1977), para o qual encenou algumas
peças. Algumas obras: (Poesia) - A Morte Percutiva (1961), As Aves
(1969), Campânula (1978), As Leis do Caos (1990), As Pedras Negras
(1995), Crateras (2000), Rua de Portugal (2002); (Ensaio): A Poesia
Portuguesa Hoje (1973; 1979 – 2ª ed., revista).
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Um Poema Inédito
de
José António Gonçalves
O COMEÇO DOS DIAS
O problema da vida é o início
das imagens depois de elas tomarem
corpo numa paisagem
logo as queremos retocar
como um retrato dos antigos
escondendo as sombras as cicatrizes
os defeitos e depois podermos
guardá-los na nossa própria memória
em ondas de azul
onde já não damos vez
ao que foi apagado como se lá
nunca mais houvesse mais nada.
É essa a perícia da vida
no que resta depois da partida
no combóio que algures está sempre
à espera na estação por detrás da colina
nos olhos da pessoa que nos observa
junto à vidraça por dentro da pequena loja
ou nas páginas escurecidas de um livro
que esquecemos um dia na estante
ou numa mesa suja de um café.
Não há forma de voltar atrás
depois de tudo estar encaminhado
em direcção à bilheteira
onde não queremos adquirir a passagem
e justificamos os belos dias de sol
os acordes de uma flauta a meio da tarde
um poema dedicado a Keats
um sorriso de uma mulher desconhecida
ou um muro de tijolos vermelhos por acabar
numa álea esverdeada do jardim
da casa pintada com a cal branca do tempo
para podermos regressar ao princípio
do mundo incompleto como a Vénus de Milo
e ainda atordoado que nos chama.
Depois ficamos com medo de não acordar.
Escutamos apenas o nosso nome ao longe.
Uma voz que se distancia em vaivém
pendularmente.
Há sempre dias que começam assim.
José António Gonçalves
(inédito, 29.1.04.Funchal)