Túmidas
vogais soletram
o alfabeto da tarde. Indeclinável,
a pompa austera dos relógios.
(in "O Mesmo Nome", 1996,
p. 65, e "Agenda Poética 2000
- 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando
Pessoa, or. Beatriz Werget, 1999)
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
TONINO GUERRA
NUVEM DE PÓ
No Vale das Crateras, uma ou duas vezes em cada cem anos, um vento,
uma espécie de nuvem de pó, sopra do fundo da terra, e pelos funis
enxutos das crateras sobe, lambendo como a língua dos gatos, por
três dias, as casas e as faces dos habitantes daquele lugar. Então,
todos perdem a memória: os filhos deixam de reconhecer os pais, as
mulheres os maridos, as raparigas os namorados, as crianças os pais
e tudo se torna um caos de sentimentos novos.
Depois cessa o redemoinho dentro das crateras e, lentamente, cada
coisa volta ao seu lugar, não recordando ninguém o que, dentro da
nuvem de pó, aconteceu nesses três dias.
Tonino Guerra
(1920)
(in Histórias para uma Noite de Calmaria,
com tradução de Mário Rui Oliveira)
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Um Poema Inédito
de
José António Gonçalves
CHUVA DE BRUMA
Onde anda a minha amada
quando chove
e a procuro no turbilhão
das águas?
Confundo-a com as flores
na multidão da cidade
e reconheço-a em cada rosto
suado e colorido
colado
às vidraças sujas de um quarto
com vista para um beco
de bruma.
Perguntam-me pelo seu nome
e só então dou pelo esquecimento
de a chamar;
era de noite, não tinha necessidade:
ela vinha
e mesmo sem ser chamado
lá eu ia
e amava-a sempre sem palavras
até sermos nada
ou fazer-se dia.
Ninguém me ensinou a encontrar
a minha amada e não sei o seu nome.
Como se descobre outro amor
agora que morro aflitivamente
de fome das suas mãos
do ciciar sangrado dos seus lábios
debaixo de cada janela
e se ainda não estou saciado
da água da sua boca
da chama incendiada
da sua floresta de caruma?
Amanhã voltarei a procurar
a minha amada.
Exactamente nas mesmas sombras
e debaixo de uma chuva de bruma.
Eu sei. Enquanto olvido as ruas
vou rezar para que haja madrugada.
José António Gonçalves
(inédito, 3.1.04)