A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

30

 
 
 
 
ALBANO MARTINS



É verde esta secura, como é verde
a raiz duma planta que secou.
Posso ter o corpo aberto
e não mostrar o que sou.

Albano Martins


(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)

***

Bloco Poético de Notas

- Selecção de JAG -


EDUARDO BETTENCOURT PINTO






manhã de chuva

© copyright [eduardo bettencourt pinto]



O dia, escuro, tomba

sobre a relva húmida do olhar.

A mão que tensa escreve

torna-se numa pedra.




O que resta à viola das palavras

senão o último

dedilhar,

a acácia apertada entre os dedos,

setembro ao fundo,




o Nero a ladrar no quintal,

tu a fechares a porta do último dia.




Chove hoje na janela onde nasce

o outro lado do mundo.

As sombras dos pinheiros dançam

sob os pássaros,

aninhados num crepúsculo

de águas.



Estrangeiro em quatro estações

de esquecimento,

deixa cair na terra os joelhos das tuas

preces.





E volta, volta sempre

à casa onde o Nero, eterno, ladra

à tua espera.




Entre as altas e brancas figueiras da chuva.

(inédito)






Amigos com o Funchal ao fundo
©[Eduardo Bettencourt Pinto]




A voz da Dona Mercês saltava o muro, passava junto aos mamoeiros e apanhava-nos sentados no chão, sob as árvores, a brincar com carrinhos. O José Manuel então levantava-se e acudia, alígero, ao chamar materno. Tinha pernas ágeis, meio escondidas nos calções pelos joelhos. Se podia, voltava logo. Mas às vezes tinha que fazer algum recado. O tempo, entretanto, corria e outros rios circunstanciais atravessavam os seus passos. Acabava por desaparecer como as andorinhas nos céus de terra da infância, solar e ardente, e da qual emanava, adocicado, um aroma de frutos tropicais.


Não sei quantos anos levamos a crescer. De repente os nossos braços têm ossos de homem, as mãos parecem mais distantes da terra, e a nossa alegria já não é como o voo branco de um pássaro. Na galopante passagem pelo labirinto dos dias, ficamos um pouco órfãos de nós próprios. A memória, que averba no espelho do nosso corpo os vagos sinais daquilo que fomos, torna-se aos poucos um incêndio de rumores. O certo é que fomos deixando pelas cadeiras a roupa que deixou de nos servir, e os pés se foram habituando, por fim, à prisão dos sapatos. E assim caminhamos, anos mais tarde, sobre a diáfana manhã do Funchal, calcando as exangues folhas dos jacarandás.


Tinha chegado no dia anterior à ilha dos poetas magníficos. E, como a «velha criança» de Edmundo Bettencourt, «...morto de frio,/ passei dias e noites sem a carícia duma fala,/ sem o aroma duma flor. » O Sol, aurífero, aparecera na janela do meu quarto do hotel em pequenas danças cintilantes. Perante esse mar que nasce nos melhores poemas da ilha, parecia estar pousado na distância, levitando no azul. Foi quando o telefone tocou. Do outro lado, a voz do José Manuel.


Era Maio e o mar estava tão perto que as ondas quase batiam nos meus olhos. Depois observei-o de longe, de relance, quando já íamos no carro. Subimos tanto em direcção ao céu, que as nuvens pareciam pousar no pára-brisas. Enquanto o José Manuel conduzia, via-o sentado no chão do Tempo, ou seja, no meu quintal de Luanda.


O dia, claro e flamante, parecia um jardim de efusões. Rever um amigo de infância é um regresso ao que já não somos. Uma alegria triste, porque triste e irremediável foi a nossa compulsiva saída de Angola. Pelo caminho, entretanto, falámos dos nossos pais, já tombados na ausência indefinível. O carro gemia perante o desafio das escarpas e as nossas vozes saltavam das janelas abertas como lenços esvoaçantes. O mar, a dado momento, tornou-se um ponto minúsculo e azul no retrovisor.


Quando chegamos a casa da mãe, já tínhamos falado do «cota» dos vinhos, um velho que subia e descia a nossa rua aos ziguezagues e a falar sozinho, e do «D».


Este era um vizinho austero, de olhos faiscantes e metálicos e uma pele láctea de adolescente glabro. Vivia como um rato, rodeado por vidros e caixas altas de madeira. Tinha uma vida tão secreta, que nos pendurávamos no muro para tentarmos descobrir com que demónios almoçava. Até que um dia a sua voz troou, ríspida e ameaçadora, incendiando-nos de medo. Na verdade, o berro pareceu ter vindo do interior das caixas:


— Se os apanho outra vez a espreitar, levam-me um tiro!


Há mais de vinte anos que não via a Dona Mercês. Incapacitada por uma trombose, será que me ia reconhecer? Ademais, teria pela frente um homem já de cabelo grisalho, de camisa branca e gravata, e não o miúdo de calções e sandálias que tentara anos infindos ser pássaro nas árvores do quintal e nos muros dos vizinhos. Ia ser um encontro difícil.


Ao entrar apareceu a Siza, já mulher e mãe, irmã do José Manuel. No abraço esmagamos uma rosa de silêncio entre os nossos corpos. Nessas pétalas invisíveis, no chão, reverberaram palavras maduras. O diálogo com a vida tinha-nos mudado o frescor lexical. Agora éramos dois estranhos em busca da rua onde os nossos pés deixaram a marca solar e insondável da nossa existência africana.


A Dona Mercês era agora uma senhora calada e triste, recostada no sofá do esquecimento. As mãos, mudas de movimentos, repousavam no colo. Senti uma comoção tão grande que, por momentos, a sua imagem tornou-se difusa, extinguindo-se por instantes na névoa que me obstruiu a visão. Diante de mim, vulnerável, cansado, ferido pelas circunstâncias, estava um marco do meu passado.


Não reconheci na sua voz o tremor sibilino. Outrora voara sobre os espaços da minha infância, magna, cantante, cheia de ternura maternal.


— Lembra-se do José Eduardo, mãe? O filho dos senhores professores, nossos vizinhos de Luanda?


A Dona Mercês reparou em mim fixamente. Qualquer coisa no meu rosto, um breve sinal na areia da minha expressão, avivou-lhe a memória. A pele da sua face enrugou-se, as mãos mexeram e o corpo inclinou-se um pouco para a frente. Então esboçou um sorriso e meneou a cabeça afirmativamente. Passei, como um vulto, nos seus intermináveis labirintos, enquanto o Sol estendia devagar um capacho de claridade junto à porta aberta da sua casa madeirense.

Quando voltei ao hotel, no Funchal, a noite já tinha encoberto o mar. Ouvia-lhe apenas o rumor, uma coisa escura que parecia mexer-se entre os reposteiros.

Só agora compreendia que a voz da Dona Mercês continha aquela ressonância marinha, um inextinguível voo de ecos. Durante muitos anos povoaram a minha infância e o meu imaginário, transpondo o muro do meu quintal como se fosse uma gaivota no primeiro voo da sua vida.

(inédito)

***

UM POETA DA MADEIRA



JORGE FREITAS






NÃO HÁ INCOERÊNCIA NENHUMA



Não há incoerência nenhuma
em construir um poema
com materiais próprios de construção.
Uma casa pode ser um poema.
Um poema pode ser uma casa.
Eu posso estar louco sem ninguém saber
e estar rodeado de loucos
que se têm por pessoas ajuizadas
a quem um poema
tem que ser de certa e determinada maneira de ser.


*

"não há poesia nenhuma nos versos
mas no que dos versos fica
depois de lidos".


Eu é que ponho na natureza
a beleza de poesia
que entendo.
É através de mim-poeta
que ela é bela.
Sem mim a natureza era alheia
a qualquer sentimento.
Amo-a como se ama a mulher
a quem se ama.
Mas o que seria da mulher amada
se sendo mulher
ninguém a amasse?
O que vale não é o que é
mas o que se quer.
Quero e creio na natureza
mas através de mim.
Claro que faço parte integrante
da natureza:
- Por isso que a natureza me é bela.
E pronto!

(15.5.43)


NOITE DE TREVAS


As terras foram cavadas, adubadas,
semeadas, alagadas de esperanças
e, finalmente,
do ventre da terra nasceu a luz
e houve sol para todos
e tanto
que mandaram acender o céu
como se não fosse noite de trevas.

(17.4.53)


À virginal candura pálida
Dos lírios
Prefiro a impura rosa.
As rosas, ao menos,
Cocótes como são,
No regaço de uma santa
Podem ser amor
E pão.


*

Passei a noite a sonhar sol.

Foi de mar o gosto que na boca
Me amanheceu o coração em sombra.

(1954)



(in "Alguns Poemas Insulares e Outros Textos",
Colecção Cadernos Ilha, nº. 7,
Direcção, Organização e Notas:
José António Gonçalves,
Funchal, 1995)


*
José Jorge da Felicidade de Freitas (n. e f. Funchal, 1921-1960), cursou o Liceu de Jaime Moniz e foi empregado de uma agência de viagens. Figura polifacetada, foi poeta, prosador, cartoonista e colaborador de imprensa, para além de promotor de edições literárias e agente cultural. Presidiu à Academia Funchalense (41-42), participando nas Tertúlias Ritziana e "Sem Título", nos anos cinquenta. Vinte anos depois do seu falecimento foi publicamente homenageado, a 10 de Julho de 1980, com um evento integrado na Feira do Livro, promovido pela publicista açoriana Maria Mendonça, com uma conferência sobre a sua Vida e Obra proferida pelo poeta e jornalista José António Gonçalves, actual presidente da Associação de Escritores da Madeira, responsável pela recuperação do seu espólio literário. Deixou colaboração esparsa por periódicos madeirenses, tendo usado até diversos pseudónimos com os quais ludibriou os Serviços de Censura. Promoveu a colectânea "Arquipélago" (com Herberto Helder, António Aragão e outros, 1952), o volume satírico "Areópago" (1952), escreveu uma "Carta Aberta" (polemizando com A. Aragão, 1954) e integrou, de novo com Herberto Helder e Carlos Camacho, o volume "Poemas Bestiais" (1954). Deu à estampa duas plaquetes, "Alguns Poemas Insulares" (1954) e "Tela em Branco" (1958; 2ª. ed., 1980).

***



POEMÁRIO


Assírio & Alvim


2004





ISHIKAWA TAKUBOKU


O vento nos pinheiros
Sussura noite e dia
Nas orelhas do cavalo de pedra
No templo da montanha
Onde ninguém reza.


ISHIKAWA TAKUBOKU

(1886-1912)

(in "ROSA DO MUNDO
- 2001 Poemas para o Futuro";
Tradução: José Alberto Oliveira)

*

 


IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim
2004


MIGUEL ESTEVES CARDOSO






AMORES DECLARADOS

Fazer um registo de propriedade é chato e difícil mas fazer uma
declaração de amor ainda é pior. Ninguém sabe como. Não há
minuta. Não há sequer um despachante ao qual o premente assunto
se possa entregar. As declarações de amor têm de ser feitas pelo pró-
prio. A experiência não serve de nada - por muitas declarações que
já se tenham feito, cada uma é completamente diferente das anterio-
res. No amor, aliás, a experiência só demonstra uma coisa: que não
tem nada que estar a demonstrar coisíssima nenhuma.
É verdade - começa-se sempre do zero. cada vez que uma pessoa
se apaixona regressa à suprema inocência, inépcia e barbárie da
puberdade. Sobem-nos as bainhas das calças nas pernas e quando
damos por nós estamos de calções. A experiência não serve de nada
na luta contra o fogo do amor. Imaginem-se duas pessoas apanhadas
no meio de um incêndio, sem poderem fugir, e veja-se o sentido que
faria uma delas virar-se para a outra e dizer: "Ouve lá, tu que tens
experiência de queimaduras de primeiro grau..."
Pode ter-se sessenta anos. Mas no dia em que o peito sacode
com as aurículas a brincar aos carrinhos-de-choque com os ventrícu-
los, Deus nosso Senhor carrega no grande botão "CLEAR" que
mandou pôr na consola consoladora dos nossos corações. Esquece-
-se tudo. Que garfo usar com o peixe. Que flores comprar. Que
palavras dizer. Que gravata com que raio de casaco hei-de usar?
Sabe-se nada. Nicles.
(...)

MIGUEL ESTEVES CARDOSO
(1955)

(in "Os Meus problemas")


***

Um Poema Inédito

de

José António Gonçalves





CATARSE DE AMOR





O homem é o único

animal

que quando sofre

um desgosto

de amor

até nem leva a mal

e escolhe calar-se.



Os outros animais

como não podem

desabafar

então

em questões

de coração

entram na catarse

da luta.



O amor

é o único

sentimento

que vale

uma disputa.



Uma flor amarela

espalha o seu

pólen

ao vento brando.



Ao longe

eis senão quando

a pétala de uma azálea

vermelha

o aceita.



Se fosse um homem

a padecer

tamanha maleita

largaria o coração

num regato

e partiria até à fonte

com a água na boca

na pista

do desacato.



Não falo por

experiência.

Nestas coisas

de amor

sou apenas

um contador

de histórias

sem ciência.



Isto é,

não busco glórias,

não sei onde ponho

as mãos calosas

nem guardo

suspiros.



Sou um ser pacato,

um ente mais calmo

do que o sono

dos vampiros.



Com as

mulheres vaporosas

apenas sonho;

se algo me tenta

canto

os versos

dum salmo;

nunca desato

em pranto

e até

não sei bem

o que isso

quer dizer.



O amor

de verdade

confesso:

arde.



É algo

de possesso

com perfume

de rosas

e come-se de colher.



O amor?

Tem um paladar a romã,

o vício da maçã

e corpo de mulher.



Penso

sempre nesse odor.

Nesse modo de viver.

Gosto de falar

de amor

antes

de adormecer.





JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES




(inédito, 30.1.04.Funchal)

 

Selecção e Montagem: JAG