É verde esta secura, como é verde
a raiz duma planta que secou.
Posso ter o corpo aberto
e não mostrar o que sou.
Albano Martins
(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -
EDUARDO BETTENCOURT PINTO
manhã de chuva
© copyright [eduardo bettencourt pinto]
O dia, escuro, tomba
sobre a relva húmida do olhar.
A mão que tensa escreve
torna-se numa pedra.
O que resta à viola das palavras
senão o último
dedilhar,
a acácia apertada entre os dedos,
setembro ao fundo,
o Nero a ladrar no quintal,
tu a fechares a porta do último dia.
Chove hoje na janela onde nasce
o outro lado do mundo.
As sombras dos pinheiros dançam
sob os pássaros,
aninhados num crepúsculo
de águas.
Estrangeiro em quatro estações
de esquecimento,
deixa cair na terra os joelhos das tuas
preces.
E volta, volta sempre
à casa onde o Nero, eterno, ladra
à tua espera.
Entre as altas e brancas figueiras da chuva.
(inédito)
Amigos com o Funchal ao fundo
©[Eduardo Bettencourt Pinto]
A voz da Dona Mercês saltava o muro, passava junto aos mamoeiros e
apanhava-nos sentados no chão, sob as árvores, a brincar com
carrinhos. O José Manuel então levantava-se e acudia, alígero, ao
chamar materno. Tinha pernas ágeis, meio escondidas nos calções
pelos joelhos. Se podia, voltava logo. Mas às vezes tinha que fazer
algum recado. O tempo, entretanto, corria e outros rios
circunstanciais atravessavam os seus passos. Acabava por desaparecer
como as andorinhas nos céus de terra da infância, solar e ardente, e
da qual emanava, adocicado, um aroma de frutos tropicais.
Não sei quantos anos levamos a crescer. De repente os nossos braços
têm ossos de homem, as mãos parecem mais distantes da terra, e a
nossa alegria já não é como o voo branco de um pássaro. Na galopante
passagem pelo labirinto dos dias, ficamos um pouco órfãos de nós
próprios. A memória, que averba no espelho do nosso corpo os vagos
sinais daquilo que fomos, torna-se aos poucos um incêndio de
rumores. O certo é que fomos deixando pelas cadeiras a roupa que
deixou de nos servir, e os pés se foram habituando, por fim, à
prisão dos sapatos. E assim caminhamos, anos mais tarde, sobre a
diáfana manhã do Funchal, calcando as exangues folhas dos jacarandás.
Tinha chegado no dia anterior à ilha dos poetas magníficos. E, como
a «velha criança» de Edmundo Bettencourt, «...morto de frio,/ passei
dias e noites sem a carícia duma fala,/ sem o aroma duma flor. » O
Sol, aurífero, aparecera na janela do meu quarto do hotel em
pequenas danças cintilantes. Perante esse mar que nasce nos melhores
poemas da ilha, parecia estar pousado na distância, levitando no
azul. Foi quando o telefone tocou. Do outro lado, a voz do José
Manuel.
Era Maio e o mar estava tão perto que as ondas quase batiam nos meus
olhos. Depois observei-o de longe, de relance, quando já íamos no
carro. Subimos tanto em direcção ao céu, que as nuvens pareciam
pousar no pára-brisas. Enquanto o José Manuel conduzia, via-o
sentado no chão do Tempo, ou seja, no meu quintal de Luanda.
O dia, claro e flamante, parecia um jardim de efusões. Rever um
amigo de infância é um regresso ao que já não somos. Uma alegria
triste, porque triste e irremediável foi a nossa compulsiva saída de
Angola. Pelo caminho, entretanto, falámos dos nossos pais, já
tombados na ausência indefinível. O carro gemia perante o desafio
das escarpas e as nossas vozes saltavam das janelas abertas como
lenços esvoaçantes. O mar, a dado momento, tornou-se um ponto
minúsculo e azul no retrovisor.
Quando chegamos a casa da mãe, já tínhamos falado do «cota» dos
vinhos, um velho que subia e descia a nossa rua aos ziguezagues e a
falar sozinho, e do «D».
Este era um vizinho austero, de olhos faiscantes e metálicos e uma
pele láctea de adolescente glabro. Vivia como um rato, rodeado por
vidros e caixas altas de madeira. Tinha uma vida tão secreta, que
nos pendurávamos no muro para tentarmos descobrir com que demónios
almoçava. Até que um dia a sua voz troou, ríspida e ameaçadora,
incendiando-nos de medo. Na verdade, o berro pareceu ter vindo do
interior das caixas:
— Se os apanho outra vez a espreitar, levam-me um tiro!
Há mais de vinte anos que não via a Dona Mercês. Incapacitada por
uma trombose, será que me ia reconhecer? Ademais, teria pela frente
um homem já de cabelo grisalho, de camisa branca e gravata, e não o
miúdo de calções e sandálias que tentara anos infindos ser pássaro
nas árvores do quintal e nos muros dos vizinhos. Ia ser um encontro
difícil.
Ao entrar apareceu a Siza, já mulher e mãe, irmã do José Manuel. No
abraço esmagamos uma rosa de silêncio entre os nossos corpos. Nessas
pétalas invisíveis, no chão, reverberaram palavras maduras. O
diálogo com a vida tinha-nos mudado o frescor lexical. Agora éramos
dois estranhos em busca da rua onde os nossos pés deixaram a marca
solar e insondável da nossa existência africana.
A Dona Mercês era agora uma senhora calada e triste, recostada no
sofá do esquecimento. As mãos, mudas de movimentos, repousavam no
colo. Senti uma comoção tão grande que, por momentos, a sua imagem
tornou-se difusa, extinguindo-se por instantes na névoa que me
obstruiu a visão. Diante de mim, vulnerável, cansado, ferido pelas
circunstâncias, estava um marco do meu passado.
Não reconheci na sua voz o tremor sibilino. Outrora voara sobre os
espaços da minha infância, magna, cantante, cheia de ternura
maternal.
— Lembra-se do José Eduardo, mãe? O filho dos senhores professores,
nossos vizinhos de Luanda?
A Dona Mercês reparou em mim fixamente. Qualquer coisa no meu rosto,
um breve sinal na areia da minha expressão, avivou-lhe a memória. A
pele da sua face enrugou-se, as mãos mexeram e o corpo inclinou-se
um pouco para a frente. Então esboçou um sorriso e meneou a cabeça
afirmativamente. Passei, como um vulto, nos seus intermináveis
labirintos, enquanto o Sol estendia devagar um capacho de claridade
junto à porta aberta da sua casa madeirense.
Quando voltei ao hotel, no Funchal, a noite já tinha encoberto o
mar. Ouvia-lhe apenas o rumor, uma coisa escura que parecia mexer-se
entre os reposteiros.
Só agora compreendia que a voz da Dona Mercês continha aquela
ressonância marinha, um inextinguível voo de ecos. Durante muitos
anos povoaram a minha infância e o meu imaginário, transpondo o muro
do meu quintal como se fosse uma gaivota no primeiro voo da sua
vida.
(inédito)
***
UM POETA DA MADEIRA
JORGE FREITAS
NÃO HÁ INCOERÊNCIA NENHUMA
Não há incoerência nenhuma
em construir um poema
com materiais próprios de construção.
Uma casa pode ser um poema.
Um poema pode ser uma casa.
Eu posso estar louco sem ninguém saber
e estar rodeado de loucos
que se têm por pessoas ajuizadas
a quem um poema
tem que ser de certa e determinada maneira de ser.
*
"não há poesia nenhuma nos versos
mas no que dos versos fica
depois de lidos".
Eu é que ponho na natureza
a beleza de poesia
que entendo.
É através de mim-poeta
que ela é bela.
Sem mim a natureza era alheia
a qualquer sentimento.
Amo-a como se ama a mulher
a quem se ama.
Mas o que seria da mulher amada
se sendo mulher
ninguém a amasse?
O que vale não é o que é
mas o que se quer.
Quero e creio na natureza
mas através de mim.
Claro que faço parte integrante
da natureza:
- Por isso que a natureza me é bela.
E pronto!
(15.5.43)
NOITE DE TREVAS
As terras foram cavadas, adubadas,
semeadas, alagadas de esperanças
e, finalmente,
do ventre da terra nasceu a luz
e houve sol para todos
e tanto
que mandaram acender o céu
como se não fosse noite de trevas.
(17.4.53)
À virginal candura pálida
Dos lírios
Prefiro a impura rosa.
As rosas, ao menos,
Cocótes como são,
No regaço de uma santa
Podem ser amor
E pão.
*
Passei a noite a sonhar sol.
Foi de mar o gosto que na boca
Me amanheceu o coração em sombra.
(1954)
(in "Alguns Poemas Insulares e Outros Textos",
Colecção Cadernos Ilha, nº. 7,
Direcção, Organização e Notas:
José António Gonçalves,
Funchal, 1995)
*
José Jorge da Felicidade de Freitas (n. e f. Funchal, 1921-1960),
cursou o Liceu de Jaime Moniz e foi empregado de uma agência de
viagens. Figura polifacetada, foi poeta, prosador, cartoonista e
colaborador de imprensa, para além de promotor de edições literárias
e agente cultural. Presidiu à Academia Funchalense (41-42),
participando nas Tertúlias Ritziana e "Sem Título", nos anos
cinquenta. Vinte anos depois do seu falecimento foi publicamente
homenageado, a 10 de Julho de 1980, com um evento integrado na Feira
do Livro, promovido pela publicista açoriana Maria Mendonça, com uma
conferência sobre a sua Vida e Obra proferida pelo poeta e
jornalista José António Gonçalves, actual presidente da Associação
de Escritores da Madeira, responsável pela recuperação do seu
espólio literário. Deixou colaboração esparsa por periódicos
madeirenses, tendo usado até diversos pseudónimos com os quais
ludibriou os Serviços de Censura. Promoveu a colectânea
"Arquipélago" (com Herberto Helder, António Aragão e outros, 1952),
o volume satírico "Areópago" (1952), escreveu uma "Carta Aberta"
(polemizando com A. Aragão, 1954) e integrou, de novo com Herberto
Helder e Carlos Camacho, o volume "Poemas Bestiais" (1954). Deu à
estampa duas plaquetes, "Alguns Poemas Insulares" (1954) e "Tela em
Branco" (1958; 2ª. ed., 1980).
***
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
ISHIKAWA TAKUBOKU
O vento nos pinheiros
Sussura noite e dia
Nas orelhas do cavalo de pedra
No templo da montanha
Onde ninguém reza.
ISHIKAWA TAKUBOKU
(1886-1912)
(in "ROSA DO MUNDO
- 2001 Poemas para o Futuro";
Tradução: José Alberto Oliveira)
*
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
MIGUEL ESTEVES CARDOSO
AMORES DECLARADOS
Fazer um registo de propriedade é chato e difícil mas fazer uma
declaração de amor ainda é pior. Ninguém sabe como. Não há
minuta. Não há sequer um despachante ao qual o premente assunto
se possa entregar. As declarações de amor têm de ser feitas pelo
pró-
prio. A experiência não serve de nada - por muitas declarações que
já se tenham feito, cada uma é completamente diferente das anterio-
res. No amor, aliás, a experiência só demonstra uma coisa: que não
tem nada que estar a demonstrar coisíssima nenhuma.
É verdade - começa-se sempre do zero. cada vez que uma pessoa
se apaixona regressa à suprema inocência, inépcia e barbárie da
puberdade. Sobem-nos as bainhas das calças nas pernas e quando
damos por nós estamos de calções. A experiência não serve de nada
na luta contra o fogo do amor. Imaginem-se duas pessoas apanhadas
no meio de um incêndio, sem poderem fugir, e veja-se o sentido que
faria uma delas virar-se para a outra e dizer: "Ouve lá, tu que tens
experiência de queimaduras de primeiro grau..."
Pode ter-se sessenta anos. Mas no dia em que o peito sacode
com as aurículas a brincar aos carrinhos-de-choque com os ventrícu-
los, Deus nosso Senhor carrega no grande botão "CLEAR" que
mandou pôr na consola consoladora dos nossos corações. Esquece-
-se tudo. Que garfo usar com o peixe. Que flores comprar. Que
palavras dizer. Que gravata com que raio de casaco hei-de usar?
Sabe-se nada. Nicles.
(...)
MIGUEL ESTEVES CARDOSO
(1955)
(in "Os Meus problemas")
***
Um Poema Inédito
de
José António Gonçalves
CATARSE DE AMOR
O homem é o único
animal
que quando sofre
um desgosto
de amor
até nem leva a mal
e escolhe calar-se.
Os outros animais
como não podem
desabafar
então
em questões
de coração
entram na catarse
da luta.
O amor
é o único
sentimento
que vale
uma disputa.
Uma flor amarela
espalha o seu
pólen
ao vento brando.
Ao longe
eis senão quando
a pétala de uma azálea
vermelha
o aceita.
Se fosse um homem
a padecer
tamanha maleita
largaria o coração
num regato
e partiria até à fonte
com a água na boca
na pista
do desacato.
Não falo por
experiência.
Nestas coisas
de amor
sou apenas
um contador
de histórias
sem ciência.
Isto é,
não busco glórias,
não sei onde ponho
as mãos calosas
nem guardo
suspiros.
Sou um ser pacato,
um ente mais calmo
do que o sono
dos vampiros.
Com as
mulheres vaporosas
apenas sonho;
se algo me tenta
canto
os versos
dum salmo;
nunca desato
em pranto
e até
não sei bem
o que isso
quer dizer.
O amor
de verdade
confesso:
arde.
É algo
de possesso
com perfume
de rosas
e come-se de colher.
O amor?
Tem um paladar a romã,
o vício da maçã
e corpo de mulher.
Penso
sempre nesse odor.
Nesse modo de viver.
Gosto de falar
de amor
antes
de adormecer.
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(inédito, 30.1.04.Funchal)