Na cartilha maternal das borboletas aprendeste
a voar, e ali escreveste, na ardósia do vento,
os primeiros poemas.
Albano Martins
(in "Rodomel Rododendro" 1989;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -
IVO MACHADO
Graça dos imperfeitos
para o Carlos
pudesse
compreender a pedra e sua gramática
toda a linguagem do silêncio
haveria de comover. porque
na verdade
dela herdei fala e alento.
pudesse
enunciar os verbos
para compreender as declinações
dos afectos
seria alcançar a sublime graça
dos imperfeitos.
(Praia do Corgo, 18.9.02)
Outono
para o Miguel
se
transpondo os portais do laranjal
por onde o sol se demora
pudesse ver o mar do verbo
[com as falas possíveis]
os mendigos – num átomo – renegariam
às praças do mundo
e o outono seria um substantivo mais
apenas
por esses portais de silêncio mudo
os vendavais
seriam lápide morta um soneto mais
à farta do infindo alfabeto
dos laranjais do crepúsculo.
(inédito)
PEDRO,
ESTIVE EM COVADONGA
à memória de Pedro da Silveira
poderia ser
azul ou negro de abismos ou
sobras do grande incêndio
que os roncos cuspiram do ventre materno
da terra
poderia ser
rubro selvagem do sangue visigodo
ali derramado
poderia ser
recorte mais das cartas de navegação
– teu códice ou genética
poderia ser
espelho ínfimo do cosmos
onde tudo acontece
poderia ser
inferno [há-de ter sido] primeiro pela paz
só depois glória
e nada enxergaram como enxergo agora
– Pelayo e Munuza
poderia ser
alfa e ómega
poderia ser
nada ainda mas não
é o que é
– m e m ó r i a
Pedro de Pedra
balsa engolida na onda
poderia ser
Pedro, estive em Covadonga.
(Gijón, Astúrias, 10.5.03)
***
Ivo Machado nasceu na Ilha Terceira em Outubro de 1958. Estudou em
Angra do Heroísmo, Ponta Delgada e Lisboa. Em 1987 deixou as Ilhas
para se fixar no Porto. Publicou: Poesia – Alguns Anos de Pastor,
1981; Três Variações de Um Sonho, 1995; Cinco Cantos Com Lorca e
Outros Poemas, 1998; Adágios de Benquerença, 2001. Teatro – O Homem
Que Nunca Existiu, 1997. Novela – Nunca Outros Olhos Seus Olhos
Viram, 1998. O Compositor e Musicólogo Fernando Lopes-Graça musicou
em 1983 sete poemas do seu livro Alguns Anos de Pastor, intitulando
a obra de «Sete Breves Canções do Mar dos Açores», ocorrendo a
primeira Audição Absoluta em 1985, no Centro de Arte Moderna da
Fundação Gulbenkian, interpretados pela Mezzo-Soprano Dulce Cabrita
e pela Pianista Olga Prats. Estes poemas – bem como os de Antero e
Nemésio musicados pelo compositor – encontram-se reunidos na
colectânea «Lira Açoriana», editada em 1992, pela Direcção Regional
da Cultura do Governo Regional dos Açores. Escrita por encomenda da
Produtora Independente Cassefaz, em 1996, a peça de teatro «O Homem
Que Nunca Existiu», foi levada à cena, tendo a estreia, em Junho
desse ano, ocorrido em Lisboa. Alguns dos seus poemas estão
traduzidos para espanhol por João Botelho, Simon Harris e María
Tecla Portela; para inglês por Diniz Borges; e para eslovaco e
húngaro, por Ivan Štrpka e Peter Zsoldos. Está representado em
diversas Antologias e Colectâneas, das quais se destacam: Raiz –
Cadernos Colectivos, Ponta Delgada, 1979; Antologia Poética dos
Açores – Vol. II., Angra do Heroísmo, 1981; Antologia da Poesia
Açoriana Contemporânea, Pitt Meadows, 1995 – Lisboa, 1999;
Monográfico a Federico Garcia Lorca – Catorce Poetas, Granada, 1998;
Zakresl’ovanie do mapy Azory a ich básnici, Edição Kalligram,
Bratislava, 2000; Vejo-te Como Se Pode Ver Através Desta Chuva
Oblíqua, Porto, 2001.
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UM POETA DA MADEIRA
ANTÓNIO ARAGÃO
SONETO
Olha o espelho: a minha boca arde.
Trago o corpo à beira de todos os perigos.
Já não ouço os passos, já não tenho amigos.
Meu coração parou mesmo ao cair da tarde.
Faço com as mãos o tamanho do medo.
Pago bilhete. Dão-me um lugar sentado.
Mas quero ir para qualquer lado
embora me digam que ainda seja cedo.
A alma suja deixo-a como está.
Limpo-me apenas por baixo dos sovacos
e não visto afinal nenhum dos casacos
exactamente porque talvez não vá
para nenhuma parte e sem nenhum sentido,
como um cão já farto de andar perdido.
*
A VIRGEM
um avião em teus seios desocupados
um guindaste em tua boca alerta
um passo de arco-íris corre
teu pulso – dá-me teu bilhete
oh como voo te gosto de viajar!
um motor faz entre tuas coxas
hossana! é sangue o côncavo do teu lugar
(Inédito, 1959)
POEMA PRIMEIRO
(fragmento inicial)
assim começo desviado asco no rosto
no avesso da noite porosa e adversa
onde me alarmo e recuso secreto
o corpo salpicado súbito de saques
a beber o vazio da sombra na concha liberta
à beira do poço e dos seios ofendidos
(no ar o gosto à pedra do teu gosto)
com tantos medos na poeira casta
e uma semelhança escapada gente
a nascer-me choro preto
(nós sem finalidade aqui cobertos de perfis
neste engano de ter um nome e um susto)
pobre de morrer meu tão pouco de pátrias
rico de espadas
coagulado de ouvidos
ou musgo dos hálitos
ameaça parida abismo
sinónimo de ficar vasto de saliva
(tua e minha saliva transfigurada de vertigens)
escuro maior
sepulcro germinal
(teu corpo lunar líquido e corrosivo
e o princípio químico das tuas mãos exactas
assim nasço corrupto de sinais e distância
por agora prurido de palavras
sono gerado extenso de fragmentos
nesta noite suspensa dos ossos matinais
(querida quero-te tanto de te querer
mansa viagem de sal aberta espuma
que sou para ti? terra dominada
vasta de ausência coberta de mim
corpo a florir o peso das cidades)
e regresso claríssimo aos confins dos objectos
apalpo o pólen e as cartilagens
e vejo o peixe na casa de quando estavas
(depressa sem tempo de gostar
ficam-me teus beijos nas arestas de viver)
somente o cadáver ocasional em torno de ser azul
fértil no bafo fechado a cimento
do espaço acusado na rede dos braços
há passos ardidos à beira dos instantes
repetem-se diâmetros no tempo
(in "Poema Primeiro", 1962)
*
António Aragão (n. S. Vicente, Madeira, 1924), é licenciado em
Ciências Histórico-Filosóficas. Realizou estudos em Etnografia em
Paris e de Restauro de Arte em Roma. Artista plástico multifacetado
(com exposições de pintura concretizadas em Portugal e no
estrangeiro), distinguiu-se ainda na historiografia, na
investigação, na dramaturgia, no romance e na poesia. Foi um dos
colaboradores, com Herberto Helder e Jorge Freitas, da colectânea
"Arquipélago" (Eco do Funchal, 1952), sendo, com o primeiro, um dos
responsáveis pela introdução do experimentalismo poético em
Portugal. Foi Conservador do Arquivo Distrital do Funchal e
proprietário, em Lisboa, de uma galeria de arte e editora. Foi
colaborador de imprensa, na Madeira e no exterior. Integrou as duas
prestigiadas antologias, como a de Poesia Erótica e Satírica
(Natália Correia, 1965), Poesia Concreta em Portugal (1973), o
Surrealismo na Poesia Portuguesa (1973), Poesia Visual Europeia
(1976), Novíssima Poesia Portuguesa (Melo e Castro e Maria Alberta
Menéres, 1979) e co-fundou os cadernos da "Poesia Experimental" (1 e
2, 64/65). É autor de uma inúmera bibliografia, da qual se salienta
"Poema Primeiro" (1962), "Mais exacta mente p(r)o(bl)emas (1968),
"Poema Azul e Branco" (1970), "Um Buraco na Boca" (romance, 1971),
"Desastre Nu" (teatro, 2º. prémio nacional do Teatro, 1980). Alguns
dos seus poemas foram seleccionados por José António Gonçalves para
o CD "O Canto dos Poetas Madeirenses", com Ivo Caldeira, Edição
Comemorativa do I Aniversário da Rádio/TSF/Madeira, Funchal, 1999.
***
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
CERTA VOZ NA NOITE, RUIVAMENTE...
Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada
Em sons cor de amaranto, às noites de incerteza,
Que eu lembro não sei d'Onde - a voz duma Princesa
Bailando meia nua entre clarões de Espada.
Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;
E bêbada de Si, arfante de Beleza,
Acera os seios nus, descobre o sexo... Reza
O espasmo que a estrebucha em Alma copulada...
Entanto nunca a vi mesmo em visão. Somente
A sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim
Não lhe desejo a carne - a carne inexistente...
É só de voz-em-cio a bailadeira astral -
E nessa voz-Estátua, ah! nessa voz-total,
É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim...
Lisboa 1914 - janeiro 31.
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
(1890-1916)
(in Poemas Completos)
*
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
THOMAS BERNHARD
(1931-1989)
...o doente pulmonar e o doido...
(...)Tal como, em última análise, os psiquiatras arruinavam
sempre o Paul, mas as suas próprias energias levavam a que ele se
pusesse de novo em pé, também a mim os médicos de doenças pul-
monares me arruinavam sempre, mas as minhas próprias energias
punham-me de novo em pé; tal como, em última análise, os mani-
cómios o marcaram, como eu tenho de dizer, a mim foram os hos-
pitais de doenças pulmonares que me marcaram, como julgo; tal
como os doidos o instruíram em longos períodos da sua vida, a
mim instruíram-me os doentes pulmonares; tal como ele por fim
evoluiu na comunidade dos doidos, eu evoluí na comunidade dos
doentes pulmonares e a evolução entre os doidos não é muito dife-
rente da evolução entre os doentes pulmonares. Os doidos ensina-
ram-lhe de modo determinante o que era a vida e a existência, a
mim os doentes pulmonares, com a mesma determinação, como a
ele a loucura, a mim a doença pulmonar, e o Paul tornou-se por
assim dizer um doido, porque um dia perdeu o domínio de si pró-
prio, como se pode dizer, tal como eu me tornei doente pulmonar,
porque também um dia perdi o domínio de mim mesmo. O Paul
endoideceu, porque subitamente se manifestou contra tudo e natu-
ralmente foi por esse motivo deitado abaixo, tal como eu fui um dia
deitado abaixo, porque, como ele, me manifestei contra tudo, só
que ele ficou doido pela mesma razão que levou a que eu me tor-
nasse doente pulmonar. Mas Paul não foi mais doido do que eu
próprio sou, porque eu sou pelo menos tão doido como o Paul foi,
pelo menos tão doido como as pessoas dizem que o Paul foi, só que
eu, para além da minha loucura, vim a ser também doente pulmo-
nar. (...)
(in "O Sobrinho de Wittgenstein";
Tradução: José A. Palma Caetano)
***
Um Poema Inédito
de
José António Gonçalves
(acrílico s/título: Adão Rodrigues)
A CRÓNICA DOS
PARALELEPÍPEDOS
os paralelepípedos da minha cidade
converteram-se em fantasmas de betão
e andam brincando às ruas na memória
dos jovens do meu tempo
sentem-se perdidos na escuridão sem idade
sempre com um bilhete de autocarro na mão
e nem fazem palavras cruzadas - têm na história
o passatempo guardado na mesa de cabeceira
dos jovens do meu tempo
trazem cigarrilhas baratas escondidas na carteira
no lugar onde dantes guardavam as notas do dinheiro
esqueceram-se do prazer de sermos o primeiro
a chegar aos lugares a ocupar no balcão a cadeira
dos jovens do meu tempo
se alguém lhes pede um cigarro dizem que não fumam
e mostram os bolsos vazios como a pedir desculpa
saem a horas para o emprego e nada os catapulta
a faltar em casa a rever na tv os filmes sobre o vietnam
dos jovens do meu tempo
e todos os dias pisam os mesmos paralelepípedos
que estão por debaixo do alcatrão cobrindo a estrada
penteiam-se endireitam a gravata compram insípedos
o jornal igual ao lido no trabalho e já não sabem nada
dos jovens do meu tempo
um dia deitam-se com os óculos na ponta do nariz
perguntam à mulher se ela sempre fizera o jantar
e desvalidos deixam-se cair sem um grito e ela alar-
mada a interrogar-se o que fazer - sentia-se a mais infeliz
dos jovens do meu tempo
nem todos fomos ao funeral e uns contavam sobreviventes
entre próteses internamentos lares vesículas e uns by-pass
alguém perguntava pelos paralelepípedos e outros pelos dentes
e desaparecemos no nevoeiro sem um adeus - era o desenlace
dos jovens do meu tempo
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(inédito, 31.1.04)