Beber a
a pupila breve
e lábil. Soletrar
as sílabas dos lábios.
(in "Uma Colina para os Lábios",
1993; "Agenda Poética 2000
- 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando
Pessoa, org. Beatriz Werget, 1999)
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agenda XIS 2004
Kahlil Gibran
Sim. Sois um Oceano.
E apesar de os barcos fortemente ancorados
esperarem nas praias
a subida da maré,
como sucede ao oceano,
não podem adiantar as vossas marés.
Sois também como as estações.
E apesar de no vosso inverno
negarem a vossa primavera,
a primavera
que descansa no vosso interior
sorri no meio da sua sonolência
e não se ofende.
(Poema de abertura;
divulgação com o
jornal "Público")
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UM POETA DA MADEIRA
JAFGA
Porque o limite é verde
O limite verde
iniciava o plano inclinado
contíguo
ao triângulo atapetado de flores,
em cores
amarelas, roxas, brancas.
Delimitado pelo verde,
o limite é verde.
(in "Insana Monologia ou Monologia
da Paixão", 2001, Ed. c/apoio
da Câmara Municipal do Funchal)
JAFGA, pseudónimo de João Andrade
(1944, Funchal, 2000). Licenciado em
Direito pela Faculdade Clássica de Lisboa,
era advogado de profissão. Colaborou
no "Jornal de Loures" e integrou a
"Antologia de Poesia", Volume IX,
da Editorial Minerva.
Publicou "Ilha de JAFGA" (1998) e
"Naquela Noite sem Idade" (ambos
de poesia) e "Conta-me Histórias"
(contos), 2000.
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Um poema
inédito
de
José António
Gonçalves
DESCOBRI AS ERVAS
descobri as ervas crescendo
no beiral de uma casa velha
e estremeci
ali as águas límpidas desapareciam
num punhado de terra escura
em todas as primaveras
como me explicou meu pai
um dia de manhã ainda não tinha nascido o sol
a primavera era a vida contida num arco-íris
que sobrava dos invernos
na confusão das estações
era então que nos confortávamos
com o pão fresco sobre a mesa
e a mãe rezava porque tinha consciência
de que nem toda a gente
tinha o mesmo cheiro quente na cozinha
inundando o chão os tectos o ar
os olhos
e eu me torturava se seria verdade
que o pão só aparecia na mesa de algumas casas
e não nas de toda a gente
e aí eu lembrava-me que só na velha casa
nasciam ervas no beiral
habituei-me assim a contemplar
os telhados das outras casas
explicando a quem pergunta pela razão
desse ofício encantatório
que vivo procurando por pássaros perdidos
e escondo como estou apenas atraído
pelas ervas
José António Gonçalves
(inédito, 4.1.04)
JAG