A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

5

 
 
 
 
ALBANO MARTINS



Palavra: insone
borboleta
sonora.

(in "Com as Flores do Salgueiro",
1995; "Agenda Poética 2000
- 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando
Pessoa, org. Beatriz Werget, 1999)

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agenda XIS

(Aforismo)

Sou grande; contenho multidões.

Walt Whitman



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"Poemário"

(Assírio & Alvim)

Fernando Pessoa
(1888-1935)




AS ILHAS AFORTUNADAS

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
mas que, se escutamos, cala,
por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.
São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só o mar.

(in "Mensagem")

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UM POETA DA MADEIRA



ÂNGELA VARELA





A FALA DO CORPO



Passam as palavras emitidas - aproximam-se, misturam-se,

encaixam-se e caem.



O corpo, sob o transe da fala, cala.



A terra - ventre aberto - repasta-se. As nuvens

deitam-se fofas em cima dos picos. E a lua redonda

sobre a pele do mar.



O mar massa de óleo. Nuvens empastadas na tela.

Pastas de azul sobre os olhos.



O mar odre tenso. Bolhas à superfíce - sinais

de um olhar que se afunda.



O corpo, no espaço da noite, afunda-se.







(in "Corpo - Ilha", ILHA 4, org. e direcção

de José António Gonçalves, prefácio de

Ernesto Rodrigues, ed. CMF, Funchal, 1994)



Ângela Varela, natural da Camacha, ilha da Madeira,

é licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de

Letras de Lisboa, com a dissertação "O Poema em Prosa

na Literatura Portuguesa". Leccionou em Paris, Funchal e

Oeiras e na Escola de S. João do Estoril, onde se tornou

professora efectiva e foi, ainda, Leitora de Português na

Universidade de Estrasburgo. "Poema em Prosa" constituiu

a matéria da tese que preparou para o seu Doutoramento.

Publicou na "Colóquio/Letras" da Gulbenkian, Silex (Lisboa),

Nova Renascença (Porto), Atlântico (Madeira) e Nordès (Vigo),

"Diário Popular", "Diário de Lisboa" e "Diário de Notícias" (Lisboa

e Funchal). Participou em diversos seminários e conferências

com comunicações sobre Literatura (em particular sobre Eça

de Queiroz) e está incluída na obra "Incisões Oblíquas" (1987).



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Um Poema

de

José António Gonçalves



POEMA À ILHA





deixem-me aqui. branco. com os olhos cuidando o azul

do mar, ouvindo os gritos das aves agonizantes, acariciando

os rostos coloridos (docemente coloridos) das minhas mulheres

tristes. deixem-me aqui, neste abandono cinzento, neste lugar

de casas vermelhas, de presépios nos dedos, erguido nas minhas

mãos esguias (batendo as teclas suaves - enquanto a tinta se perde

na máquina). deixem-me aqui, sereno. ouçam comigo esta voz

de agonia, este grito de ave que vem de dentro de mim.

deixem-me aqui, velho, trôpego de gestos, ou levem-me

pelos prados, numa correria louca, como se esta fosse a última vez,

a última vez de abrir a boca amputada. a última vez de rasgar

a garganta rouca e de gritar: deixem-me aqui, branco, só, nesta ilha

verde, madeira de águas mansas e flores eternas. deixem-me aqui,

compondo esta solidão, este silêncio, mil vezes silêncio, à espera

de um poema ou de um barco, um rosto que viaje para longe

da minha presença vã, para longe da minha distância,

comigo dentro de mim.



José António Gonçalves





(in "O Esconderijo do Caruncho",

ILHA, obra colectiva, ed. "Poesia

2000", Funchal, Janeiro/1975)

 

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