A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

6

 
 
 
 
ALBANO MARTINS



Na minha boca vives,
imponderável,
ó pérola.

(in "Uma Colina para os Lábios", 1993;
"Agenda Poética 2000
- 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando
Pessoa, org. Beatriz Werget, 1999)

***
agenda XIS

LI PO



As aves desapareceram do céu,
E agora a última nuvem escoa as suas águas.

Sentamo-nos juntos, a montanha e eu,
Até que só reste a montanha.

Li Po
(701-762, A.D.)

***
"Poemário"

(Assírio & Alvim)


Gomes Leal




OS REIS MAGOS

Nas torres, olhando os astros,
que viajam pelos céus,
os Reis Magos viram rastros
do avatar de um grande Deus.

Leram em livros profundos,
que a Caldeia e a Assíria têm,
que estava a descer dos mundos
um Deus a Jerusalém.

Cheios de assombro, à janela,
mudos ficam os seus lábios!
De pé olhando uma estrela,
velam noites os reis sábios.

Não querem mais alimento,
nem com rainhas dormir.
Não tomam ao trono assento!
Não mais volvem a sorrir!

Somente olham, sem cessar,
a branca estrela brilhante,
como o ceptro dominante
do rei que vai reinar.

(..)

(in "História de Jesus")

Gomes Leal
(1848-1921)


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UM POETA DA MADEIRA


A.J. VIEIRA DE FREITAS






PARÁBOLA



lenta, a hera corrói

a pedra musgosa verde



a pedra resiste

ao impulso das ventosas



a força é outra, não da pedra

mais dura e renitente,

mas da liberdade da hera

em crescer, crescer, até repor

a pedra no seu lugar



(26.Abril.1977)



depois vieram as cheias naquele janeiro remoto

quando rebentam as vinhas nas encostas

e o cheiro das carumas transcende

a própria terra molhada de resina



eram os cães que ladravam angustiados

a angústia dos homens que sofriam.



(2.Jan.77)





(in "ILHA 3", colectânea,

org. e ed. José António Gonçalves,

CMF, Funchal 1991)



António José Vieira de Freitas (n. Madeira, f. Lisboa, 1940-1982),
licenciado em Filosofia pela Universidade de Salamanca, poeta,
ensaísta, professor e deputado eleito à Assembleia da República,
publicou "A Palavra que Somos" (1971), "Habitar o Tempo"
(Moraes, 1975), "Erosão" (póstumo, 1982) e "14 Poemas Inéditos"
(Cadernos Ilha, nº.2, 1988). Coordenou a edição "Movimento -
Cadernos de Poesia & Crítica", nº.1, (com António Ramos Rosa,
Eugénio de Andrade, Pedro Támen, José Bento, José António
Gonçalves, José Agostinho Baptista, A. J. Vieira de Freitas e
Gualdino Avelino Rodrigues, 1973) e "Da Ilha que Somos"
(outro volume colectivo, CMF, 1977). Está incluído em várias
antologias, tais como "O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses"
(1988) e "Poet'Arte 90" (1990), patrocinadas pela Associação de
Escritores da Madeira, a qual pretende divulgar a sua "Obra
Completa", brevemente, numa iniciativa oficialmente apoiada.






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Um Poema Inédito

de

José António Gonçalves


AMOR DE OUTONO


para a Gilda, sempre




Esperei por ti, numa tarde de Outono

entre o silêncio e o amor calado.



Não havia pássaros nas árvores verdes

e tu sorrias, na memória dos sonhos por contar.



Hoje penso nas palavras, nas coisas infantis

que as ideias mataram com as folhas caindo.



Havia uma ilha, mar à volta dos velhos

e uma luz, ao longe, onde o Sol não podia chegar.



Amanhã será impossível acordar, junto das mãos

que não conheceram a Lua afagada pelo amor.



José António Gonçalves





(in "Aventura na Casa dos Livros",

Colecção Cadernos Ilha, nº.10,

Capa de Maurício Fernandes,

Editorial Correio da Madeira, 2000)


 

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