A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

7

 
 
 
 
ALBANO MARTINS


Folheamos agora dicionários
cada vez mais breves.
De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há gerânios
pisados entre os dedos, dálias
virgens sufocadas
na epiderme.
As palavras
só conhecem o limbo, a rigorosa
película da sede.


(in "Uma Colina para os Lábios", 1993;
"Agenda Poética 2000
- 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando
Pessoa, org. Beatriz Werget, 1999)

***


agenda XIS


Kahlil Gibran




A beleza é eternidade
que se contempla num espelho.


Mas vós sois eternidade
e sois espelho.



Kahlil Gibran
(1883-1931)


***
"Poemário"

(Assírio & Alvim)


HELDER MOURA PEREIRA



NA POÇA LARGA onde as crianças chapinhavam, tão distraídas
e à vontade por a mãe não lhes ligar, só a ligar aos olhos do homem
que numa aventura a queria, ser mordido na orelha, baixar a boca
ao seu nível, tudo faria, a partir do momento em que uma
vez lhe dera o braço ao entrar para o hotel. Encontram-se
agora uns meses depois, com as crianças à volta, num clima
tipo pós-guerra, e de facto parece que se amam como num postal.

Os potenciais pais passariam como se fossem suspeitos de crimes
e as crianças escolheriam o gosto das adopções, talvez o gosto
imediato das escolhas instintivas abrisse um pouco mais o livro
das ideias humanas. Deixando para amanhã o que penso
e o que digo, apetece-me pôr esmola falsa em toda as caixas políticas.

Vem gente à porta oferecer candelabros, rosas soltas, moedas
de escudo antigos, armaduras decoradas a cifrões, meias para andar
no chão em casa. E eu compro tudo, fazem-me até mais barato,
e falo sobre a superfície do mundo e as crateras da lua. Se trazem
notícias das crianças, se estão bem no mundo delas, quando
se vai dar o pontapé de saída para o início do jogo das doenças.

Helder Moura Pereira

(in "Lágrima")



***

UM POETA DA MADEIRA


José Tolentino Mendonça




ANUNCIAÇÃO



1 só o ombro do anjo permite

a visão leve

da luz. o sinal



2 é na mulher. no rosto

claro que anuncia

o cortejo solene do sol

que lhe cresce

no colo



3 o mistério é



4 a flor do lírio

acesa toda se dar






DIÁLOGO DE MARIA QUANDO

SE HAVIA JÁ DESPEDIDO O ANJO





1 visitador do meu seio

interior a mim

como o júbilo

segura o olhar que vacila

ante a vastidão

dos tumultos



2 inscrição da alegria

súbita flor

que o vento descobre

entre as águas

ilumina os meus passos

na sombra larga

dos medos



3 agora que o rio se acolhe

à humilde exultação

da fonte



4 agora que a flor se abandona

à véspera esplendorosa

do fruto





O NATAL



em Ti a transparência do ouro

raro brilho

oculto no íntimo respirar

do sonho





José Tolentino Mendonça





(in "O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses",

antologia org. por José António Gonçalves,

Galardão de Mérito da Cultura/89, SRTC, 1989)





José Tolentino Mendonça (n. Machico, Madeira,

1965), sacerdote católico e docente da Universidade Católica

Portuguesa, foi colaborador do "Diário de Notícias" (Funchal)

e do "Jornal da Madeira", do JL-Jornal de Letras, Artes & Ideias,

e coordenou a revista de poesia "Salém". Está representado,

entre outras, nas antologias organizadas por José António

Gonçalves "O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses" (1989)

e "Poet'Arte 90" (1990) e na "Poeti Contemporanei dell'Isola

di Madera", coordenada e traduzida (bilingue) por Giampaolo

Tonini (Itália, 2001). Eis alguns dos livros que publicou: "Os Dias

Contados" (1990), "Longe Não Sabia" (1997), "A Que Distância

deixaste o Coração" (1998), "Baldios" (1999) e "De Igual para

Igual" (2001).



***


Um poema inédito
de
José António Gonçalves





NÃO POSSO BEBER-TE OS OLHOS


Não posso beber-te os olhos, como dizem
que faço, sempre que acordas de manhã,
no desalinho dos teus cabelos negros.
Estou proibido pela tarde ou pelo cinzento
das paisagens - e nem sei já se tudo isto é
verdade - no decurso dos mais estranhos invernos.
Não posso obedecer-te; não posso beber-te
os olhos, ou ousar a pecar-te com os meus,
no azul líquido do teu olhar, onde naufrago
ao ver-te acordar, no desalinho dos teus cabelos
negros. Como dizer-te tudo isto, no esconderijo
do meu silêncio, no calar do barulho do luar,
todas as noites, imaginando como despertarás,
com a dor atormentada das sílabas - que poderiam
encantar-te de madrugada - a rasgar-me a garganta.
Não, não sei como é, não tem qualquer explicação
este medo de beber-te os olhos de manhãzinha,
na quentura dos lençóis, com alguns pássaros verdes
cantando na janela. Ensina-me a soletrar palavras
escusas ao ouvido, depois do canto dos pássaros;
desses pássaros verdes, talvez azuis, ou brancos,
estou certo. Será o amor esquivo ao rumor do silêncio
sempre que acordas com o cabelo em desalinho,
interrogo-me. Ou penitencio-me, por amar-te
na contemplação da fundura marinha, imaginando
o naufrágio que vai no cerne do teu olhar.

Estou a deitar-me, outra vez.

Rezo para que acordes amanhã, sem que nasça
o dia. Tenho o teu nome para soletrar nos lábios
e uma pressa doida para adormecer. A cama é tua,
eu sei. Entra no meu sonho, não me deixes acordar
sem dizer-te que te amo no desalinho dos teus cabelos.
Não me deixes acordar. Nem beber os teus olhos.
Guardo o teu nome na boca para soletrar.
Estou a deitar-me. Outra vez. Sozinho.
Não me deixes beber o azul dos teus olhos.

José António Gonçalves

(6.1.04/inédito)


 

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