O ritmo
do universo
cabe,
inteiro,
na pupila
dum verso.
Albano Martins
(in "Vocação do Silêncio 1950-1985", 1990;
"Agenda Poética 2000
- 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando
Pessoa, org. Beatriz Werget, 1999)
***
"Bloco Poético de Notas"
- Selecção de JAG -
Daniel Filipe
PAISAGEM
Ilha: pedaço de osso
à flor da pele do mar.
Esquírola viva, troço
de abóboda lunar.
Mar em azul inesperado.
Ilha, começo e fim do mundo
perpetuamente adiado
entre as algas do fundo.
Ilha, navio antes do oceano,
terra em pousio de sonho, rosto
de pedra com perfil humano,
ao vento sul exposto.
Daniel Filipe
(1925-1964)
(in "Pátria, Lugar de Exílio",
Editorial Presença, 1974)
***
"Poemário"
(Assírio & Alvim)
ARSENII TARKOVSKII
VIDA, VIDA
I
Não acredito em pressentimentos, nem agoiros
Me assustam. Não evito a calúnia
Ou o veneno. Não há mortes sobre a terra.
Todos são imortais. Tudo é imortal. Não há
Que ter medo da morte aos sete
Nem aos setenta. O real e a luz
Existem, mas não a morte ou a treva.
Viemos hoje à enseada,
E o cardume da importalidade veio
Quando eu puxava as redes.
Arsenii Tarkovskii
(1907-1989)
(in "8 Ícones", tradução de Paulo da Costa Domingos)
***
UM POETA DA MADEIRA
ISABEL AGUIAR BARCELOS
REMORSO
Quando acaricio as rosas,
uma pérola de sangue desliza dos meus dedos
feridos pelos espinhos.
Sinto o remorso destas flores
que deixam cair as suas pétalas mais singelas.
Como as minhas carícias não trazem nenhum consolo
afasto-me e, depois, olhando para trás,
observo a pose de profunda humilhação das rosas.
Ao chegar a casa,
desenho com um lápis de carvão
umas rosas altivas e orgulhosas dos seus espinhos.
(in "Cristais do Tempo",
ILHA 4, org. e direcção
de José António Gonçalves,
prefácio de Ernesto Rodrigues,
ed. C. M. do Funchal, 1994)
O clamor dos violinos
estremece
as moradas
da ausência.
Regressa aos mediúnicos pórticos
da sabedoria -
só as pedras
decifram os enigmas
das conchas.
(in "As Sandálias do Tempo",
prefácio de Urbano Tavares Rodrigues,
edição " Editorial Escritor", Lisboa, 1991)
perdi o meu pião
e estou muito triste por isso
foi ontem
quando a janela se abriu para dentro da casa
e o vento virou o tinteiro ao contrário
ficou só um texto na sua amnésia de texto
um pião perdido
sem que nada dele
me tivesse ficado nele
se numa amnésia de mim
eu quiser escrever a história de outro pião
já não podes vir brincar comigo
porque essas outras mãos que escreverem a história
não serão nem a lembrança das primeiras
(in "Nunca se Regressa ao Mesmo Lugar",
colecção Biblioteca "Uma Existência de Papel", 35,
edições/quasi, Vila Nova de Famalicão, 2003)
Isabel Aguiar Barcelos nasceu no Funchal em 1958. Licenciada em
Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras de Lisboa,
é professora de Português do Ensino Secundário, tendo primeiramente
dado aulas em Machico (Madeira) e, depois, na Amadora, radicando-se
no Continente. Em 1990 conquistou o "Prémio Revelação" da Associação
Portuguesa de Escritores (APE) com "Sandálias do Tempo", publicado
em 1991 pela "Editorial Escritor", com introdução de Urbano Tavares
Rodrigues. Integrou o "Contoário" (antologia de contos, ed.
Escritor,
1993), e editou, na "Preto no Branco", o conto "Revelações", com
desenhos
de Mário Rita (1994). Com "Cristais do Tempo", participou na "ILHA
4",
colectânea poética madeirense dirigida por José António Gonçalves
(com
prefácio de Ernesto Rodrigues e edição da Câmara Municipal do
Funchal,
1994), assinando ainda os livros "Anjos de Asas Verdes" (poesia,
1995),
"Viagens no País do Sonhos" (contos infantis, 1998), "O Mar na
Poesia
da América Latina" (antologia, com tradução de José Agostinho
Baptista,
Assírio & Alvim, 1999). Em 2001 obteve a Bolsa de Criação
Literária/Poesia,
do Ministério da Cultura, dando como resultado o seu novo título,
"Nunca
se Regressa ao Mesmo Lugar" (edições/quási, 2003
***
Um poema de
José António Gonçalves
ESPANTO
para Irene Lucília Andrade
Confirmo o espanto dos silêncios.
Confirmo
e afirmo o ardor iluminado,
do momento vago,
em que nada disso importa.
Confirmo, solenemente, a importância
de todas as janelas estarem abertas
e dos relógios marcarem, sempre,
as noites das horas certas.
Confirmo que as casas enchem de luz
o lugar dos alicerces
onde são imaginadas.
Confirmo o espanto dos silêncios
dos pequenos nadas.
Ou seja,
apenas isso.
José António Gonçalves
(in "Aventura na Casa dos Livros",
Colecção "Cadernos Ilha", 10,
Ed. Correio da Madeira, 2000)