A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

9

 
 
 
 
ALBANO MARTINS

 



Escrevo contra o vento,
frente ao mar.
Volúveis,
as mãos sondam
a salina
intimidade
das águas.

Albano Martins


(in "Vocação do Silêncio 1950-1985", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)



***


"Bloco Poético de Notas"
- Selecção de JAG -


Ernesto Rodrigues

Soneto


Eu não sei, mulher, porque ainda me seduz
um cruzar de pernas sob o rosto de madona.
Tem o mar por fundo; e linda vem à tona,
qual primeiro gosto de quando me vi nos

seus enlevos. Não, mulher, canses quem, submisso,
de si deu potência, saber, crenças. Aliás,
reconheço nesse mistério em que estás
fugidia libertação, mas fatal. Disso

curar não, patrona vil. Quero-te dispersa,
no milagre de só riscares pla secura
de meus membros; onda que sinta como dura
violência de grão capaz de, bem depressa,

recobrir o vão oceano. Mas, agora,
eu não sei, não sei, como, neste fim de tarde
(um profundo azul ajudando-te a cruzar de
pernas), à maré fugir. Quem, deusa, me implora?

Ernesto Rodrigues

(in "Ilha Novas", Poesia, Colecção
Livros de Cordel, 2, Direcção de
José António Gonçalves, Edicção
CMF, Funchal, Madeira, 1998)

*
Ernesto Rodrigues, natural de Torre de Dona Chama,
1956, é Professor da Faculdade de Letras de Lisboa,
onde defendeu teses de mestrado e de doutoramento.
É crítico literário, poeta, romancista, e também tradutor.
Ex-jornalista (1979-1981), acaba de anunciar novo livro
no Círculo de Leitores, "Crónica Jornalística-Século XIX".



***

"Poemário"

(Assírio & Alvim)



Há flores de Zait no Jardim.
Corto e junto flores para ti,
Faço-te uma grinalda,
E quando ficares ébrio
E te deitares com esse sono,
Sou eu quem te lava os pés para lhes tirar o pó.


(in "Poemas de Amor do Antigo Egipto",
tradução de Paulo da Costa Domingos)

***

UM POETA DA MADEIRA

CABRAL DO NASCIMENTO





O MEU DIALECTO



O meu dialecto bárbaro ensinou-mo

A vez primeira, um professor caldaico.

Tem raízes de persa e do hebraico,

O dialecto bárbaro que eu domo!



Língua selvagem de esquimó, de gnomo,

Foi importada dum país arcaico.

Ando a aprendê-la num ensino laico,

Por sua causa já nem sequer como!



Ninguém decerto o meu dialecto sabe.

E nesta regra em que a excepção não cabe,

Sem eco vai-se a minha voz perdendo...



E é tão complexo e vago o meu dialecto,

Tão estranho, difícil, incompleto,

Que eu muitas vezes não me compreendo.



(in "Hora de Noa", 1917)





LÍNGUA PORTUGUESA



O idioma em que eu escrevo é quase língua morta.

Não durará por muito tempo, eu sei;

Sei - como um pai a quem desenganaram

E que, sereno de resignação,

Ergue ainda nos braços

O filho estremecido,

Ameaçado de todos os contágios,

Fustigado de todos os flagelos;

Um pai que sente a dor

Não já somente de o perder,

Mas a outra, maior:

Sobreviver!



(in "Digressão", 1953; in "Congresso de Cultura

Madeirense - Recital de Poesia", Associação

Académica da UMa-Universidade da Madeira,

selecção, coordenação e notas: José António

Gonçalves, Funchal, 28.12.90)



*

João Cabral do Nascimento (n. Funchal e f. Lisboa,

1897-1978), era licenciado em Direito e foi docente

do Ensino Técnico Profissional. Organizou e dirigiu

o Arquivo Distrital do Funchal. Fundou e orientou o

"Arquivo Histórico da Madeira" e pertenceu à Academia

Portuguesa de História. Fernando Pessoa elogiou a sua

primeira obra,"As Três Princesas Mortas num Palácio

em Ruínas" (1916), na revista "Exílio", considerando-o

como "um poeta digno" do movimento "Orpheu".

Traduziu e publicou a obra de, entre outros, R. L.

Stevenson, George Eliot, G. H. Wells, Henry James,

Pearl S. Buck. Deu à estampa volumosa bibliografia,

incluindo estudos históricos, ensaios, poesia e diversas

antologias de vários géneros literários. Toda a sua lavra

lírica, com destaque para títulos como "Cancioneiro"

(1932), "Digressão" (1953) e "Descaminho" (1953), acaba

de ser agora reunida na "Obra Poética", com chancela

das "Edições Asa", num trabalho de Mónica Teixeira,

prefaciado por Vasco Graça Moura.



***


Um poema
de
José António Gonçalves


EIS O DIA





eis o dia a luz a visão desesperada

um gesto cor de sangue pulsando o inadiável

o ventre quente ainda abominavelmente

revolto

da madrugada





o amanhã é a página riscada do poema

a voz que ecoa por dentro das casas

a seta presa ao alvo das tardes mornas

ou o indolente cansaço da descoberta

do dilema que habita todas a magias





valerá a pena dormir à força

deixar-se ir nas mãos de uma brisa cheirando a pinho

por entre labirintos de anjos e demónios negros

brincando no cimento que incomoda as montanhas

no despertar das águas onde se banham

as ninfas

e se aprisiona a bruxa das levadas





porém no acordar surge o milagre



eis o dia a rasgar as sombras os cobertores

as enseadas virgens o pesadelo no abismo

os amores desencontrados e loucos

no desfazer dos lençóis e dos suores

e tudo recomeça

até que acabe a revolta silenciosa

dos vulcões abafados

pela paisagem





José António Gonçalves





(in "Noites de Insónia",

Colecção "Livros de Cordel", nº. 1,

Ed. Câmara Municipal

do Funchal, Madeira, 1998)





JAG

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Selecção e Montagem: JAG