Julho
A PRENDA DO DIA 9
a poesia dos Calendários
MADEIRA REGIÃO EUROPEIA 2004
Selecção e Montagem: JAG
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ALBANO MARTINS
(Serpentes de Água, de Gustav Klimt,
Osterreische Galerie Belvedere Vienna)
SERPENTES DE ÁGUA,
de Gustav Klimt
Também as cores
amanhecem, também elas
acordam com os galos
da madrugada e cantam
a explosão do sol. Algumas
são água pura. A outras
o pincel conferiu-lhes
o rubor que se esconde
na nervura
de certas folhas. Outras,
ainda, festejam
o nascimento
da alegria. Ou do amor,
tanto faz. Ou não fosse ele
uma festa. Podem
chamar-lhe Judith,
Salomé: apenas dizem
os outros nomes
da serpente.
(in «A Voz do Olhar»,
Edições Universidade
Fernando Pessoa, 1998)
Albano Martins
(1930)
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Bloco Poético de Notas
RAFAEL ALBERTI
CANÇÃO DE AMOR Amor deixa que eu parta,deixa que eu morra, amor.Tu
és o mar e a praia.Amor. Amor, deixa que eu viva,não deixes que eu
morra, amor.Tu és a minha luz oculta.Amor. Amor, deixa-me
olhar-te.Abre os olhos, amor.Meus olhos querem queimar-te.Amor.
Amor, deixa-me querer-te.Abre as fontes, amor.Meus lábios querem
beber-te.Amor. Amor, está a anoitecer.Dormem as flores, amor,e tu
estás a a amanhecer.Amor. O LIRISMO DO ALFABETO Sinto-me arrebatado
pelas letras,atacam-me, cegas, de noite,invadem-me:cercam-me durante
o dia,tomando-me de assalto os olhos,arrancando-me o sono e
projectando-oda sombra para a luz,da luz para a sombra,
inexoravelmente.Guerra sem fim e sem quartel,mortal e alegre a cada
instante.Rimbaud deu cores às vogais,mas cada letra - todo o
alfabeto -se expande numa cor, torna visível,até quase pode
tocar-se, o seu som.Eis aqui a armada invicta,as guardas avançadas
da palavra,torres maiúsculas,fortes capitães, que em batalha
contínua, entrelaçados,provocam desde há séculos todas as
comoções,ligeiras ou profundas,do ser, do pensamento.Pintura,
poesia, caligrafia e música- folhas, estrelas, flores - ei-las aqui,
num só ramo.O alfabeto é tudo.Na caligrafia, exaltada, ressoa cada
coisa.Dum extremo ao outro,percorre o mundo o lirismo do alfabeto.
Escutai.Todas as letras cantam nas antenas. O ANJO SOBREVIVENTE
Lembrai-vos.A neve trazia gotas de lacre, de chumbo derretidoe
disfarces de menina que matou um cisne.Uma mão enluvada, a dispersão
da luz e o lento assassínio.A derrota do céu, um amigo. Lembrai-vos
daquele dia, lembrai-vose não esqueçais que a surpresa paralisou o
pulso e a cor dos astros.Ao frio, morreram dois fantasmas.Três anéis
de ouro foram encontradospor uma ave e enterrados na neve.As últimas
palavras dum homem ensanguentaram o vento.Todos os anjos perderam a
vida.menos um, ferido, com as asas cortadas. (in «Antologia Poética
de Rafael Alberti»,Selecção e Tradução de Albano Martins,Campo das
Letras, 1998) RAFAEL ALBERTI (1902-1999)
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PITADA DE SAL
o que diz:
OCTAVIANO CORREIA
ONDE ESTÁS, ORIANA?
para Sophia
Para onde foste fada mágica
da minha infância
onde estás agora
Oriana
diz-nos para
que as crianças te encontrem
e de novo escutem a voz da
menina do mar
Onde estás
Oriana
diz-nos para
que as crianças voltem a ter
asas nos seus sonhos
Onde estás
Oriana
Oriana
Oriana
para onde levaste as tuas palavras
doces?
OCTAVIANO CORREIA
(1940)
(inédito)
*
Octaviano Correia, nascido no Lubango, Angola (1940), reside
há mais de vinte anos na Madeira, sua segunda «Pátria» e terra-
-natal da sua mulher. Hoje, com os filhos e netos, dedica-se de
corpo e alma à literatura e ao jornalismo nesta ilha, integrando
a direcção da Associação de Escritores e coordenando um suple-
mento cultural num diário local. Escreve para crianças e não só,
tendo conquistado alguns prémios internacionais com a suas
obras mais significativas, nomeadamente na Feira Internacional
do Livro de Leipzig e também na Região (Galardão da Cultura, da
Secretaria Regional do Turismo, Cultura e Emigração, 1990). As
suas obras mais recentes foram «O Monstro das Sete Cabeças e
as Meninas Roubadas» (DRAC), «Histórias Com Gente Dentro» e
«CoisaSimplesmente» (Contos, 1996). Tem novo livro infanto-
-juvenil no prelo.
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UM POETA DA MADEIRA
JOSÉ VIALE MOUTINHO
3 POEMAS DO NOVO LIVRO
"SOMBRA DE CAVALEIRO ANDANTE"
DA INFÂNCIA EM ALMENDRA
à memória de meus avós Elvira e José Augusto
da pequena casa com vinha, poço, sobreiros
raquíticos e flores secas, resta uma
fotografia de família e um cão na lembrança,
algumas árvores mortas à beira da estrada
e penedia pintada de musgos, velhos sardões,
um sarilho, de quebrar costelas, no poço,
as terras dos campos vizinhos, mesmo
algumas revistas do texas jack e sombras
no mirante de pedra, à curva dos caminhos,
vigiava os figos lampos dos passantes,
à noite erguiam-se no horizonte as luzes
das duas terras de sobreviventes: meda, urros,
no largo das amoreiras, onde estava tudo,
também os meus se aproximavam do fim,
dispostos nas suas casas, cercando os bancos
de granito, onde nunca me sentei por recear,
AMADEO
decerto não estava, nem o parente
nem o nojo, ou um qualquer pânico
que o segurasse na alba de paris,
talvez morto cedo de mais para
ser, além de um experimentador,
aquele génio que não cabia em
manhufe e se afogaria no tâmega,
EM CASA
ah sempre dizemos as amargas palavras
que se colam nas paredes dos quartos,
no ecrã do televisor, nos livros velhos,
no que se esconde sob as mesas, na água:
são os temas das gravuras que acompanham
as paredes do lar até à rua pelo corredor,
escrito a lápis no coração e no lingual,
o óleo venenoso sobre as mãos amarradas,
aqui está outra garrafa de cerveja quente,
o pão duro de quanto construímos, o jornal
de sábado passado, apenas vinte dias de jazz,
alguns blues salvos do esquecimento na rádio,
dispomo-nos acres frente a frente no jogo
coberto de palavras fora do alcance do vento
e da lua cheia, com os seus enigmas e vozes
à varanda, sobre a viela, seus olhos sinistros,
(in "Sombra de Cavaleiro Andante",
Antologia Poética 1975-2003,
Prefácio de Vasco Graça Moura,
Edições Asa, 2004)
JOSÉ VIALE MOUTINHO
(1945)
*
José Viale Moutinho (Funchal, 1945). Escritor, jornalista no Diário
de Notícias e investigador de temas literários e linguísticos,
particularmente ligados a escritores portugueses do séc. XIX, tendo
recuperado epistolografia e textos inéditos ou esquecidos de Camilo
Castelo Branco, Trindade Coelho, António Nobre e Joaquim de Araújo,
entre outros. Um dos assuntos a que se tem dedicado é o da Guerra
Civil de Espanha (1936-1939). Participou no movimento português da
Poesia Experimental e em exposições de Arte Postal. É autor de
numerosos textos em catálogos de Artes Plásticas, de obras de
literatura Infantil, crónica, ensaio e organizador de volumes
colectivos. Tem publicação dispersa em revistas e jornais, traduziu
romances, ensaios e peças de teatro. Obteve vários prémios
literários e de jornalismo, nomeadamente o Prémio Júlio Pereira de
Matos, da Casa da Imprensa, o Prémio de Reportagem DN e Prémio
Norberto Lopes, da Fundação Norberto Lopes/Casa da Imprensa. Na
Galiza foi-lhe atribuído o prestigiado Pedrón de Honra em 1995, e,
no ano anterior, na Alemanha, foi finalista do Prémio Europeu de
Conto. A sua obra foi traduzida em diversas edições estrangeiras,
nomeadamente para asturiano, castelhano, galego e catalão, italiano,
alemão. Poesia: Urgência (1966), Atento Como Um Lobo (1975), Crónica
do Cerco (1978), Quarteto de Viagens e Paixões (1980), Correm Turvas
as Águas deste Rio (1983) Auto-Retrato Parecido com Fantasmas
(1983), Os Túmulos (1984) O Rude Tempo(1985), Piano Bar (1986),
Máscaras Venezianas (1987), Retrato de Braços Cruzados (1989), As
Portas Entreabertas (1975/85) (1991) Caderno de Entardecer (1996), O
Amoroso (1997), Nomes de Árvores Queimadas (1997). Ficção: Natureza
Morta Iluminada (1968), No País das Lágrimas (1972), O Jogo do Sério
(1974), Histórias do Tempo da Outra Senhora (1974), Cabeça de Porco
(1976), Apenas uma Estátua Equestre na Praça da Liberdade (1978),
Romanceiro da Terra Morta (1988), Arqueologia da Terra Prometida
(1989), Pavana para Isabella de França (1990), Hotel Graben (1998).
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POEMÁRIO
Assírio&Alvim 2004
ALEXANDRE O'NEILL
O BEIJO
Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, aescarceéu.
Ainda palpitante voa um beijo.
Donde teria vinda! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?
É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.
E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
(in «Poesias Completas»)
ALEXANDRE O'NEILL
(1924-1986)
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POEMA INÉDITO
DE
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(Eva Gonzalo: «Bruma»)
A NAVE
A nave de bruma percorrendo os céus
somos nós os pobres pássaros desprotegidos
numa louca busca pelo paraíso de Deus
um dia escondido sob a pele em brasa
nas chamas vorazes do inferno de Dante
disfarçado de sentidos
Queima-nos a carne o denso nevoeiro
e mortifica a dor suportável com novas penas
e serve de combustível para prosseguir a viagem
até lugares nunca desenhados em qualquer mapa
mas com as suas claras rotas invadindo o sangue
no coração que torna as almas pequenas
Existem vozes que nos acompanham e sabem
entoar conselhos e organizar válidas promessas
enquanto se disfarçam de nuvens com a forma
de folhas de avenca e de ciprestes antigos e sábios
enlaçando-nos a consciência ao olhar o caminho
levando-nos mais longe por portas e travessas
O seu destino é indescortinável e ali tão perto
transfigura-se em paisagem de cores estonteantes
como se um espelho límpido reproduzisse a terra
por aberturas de luz em direcção a jardins de flores
perfumadas e de lagos transparentes de perfeição
e é aí que abre-se o coração por instantes
e depois continuamos a jornada
sem olhar para trás nem para os lados
elfos e ogres fadas e feiticeiros poetas
e guerreiros navegantes de mares sem fim
apagando da memória mais uma miragem
de um qualquer desconhecido
deserto
onde me perco
sempre que procuro
por mim
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(Funchal.08.07.04.inédito)
JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
Consulta aos números anteriores:
http://www.terravista.pt/mussulo/1701/indice.html
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm