A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Junho

15

 
 
  


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ALBANO MARTINS



(Bisonte - Caverna de Altamira, Espanha)


BISONTE


Terá sido dos seus cascos
que nasceu Andrómeda, a deusa
de alvos coturnos. Como ela,
preso à rocha e, como ela,
medindo de olhos baixos
o tempo subterrâneo
e transmarino. E terá sido
nos seus cornos
petrificados como serpentes
no cio que Medusa
se reconheceu perfeita,
igual a si. Mas dela
e do seu rosto
ambíguo apenas resta
o sonâmbulo perfil
desenhado pela lenda.
Na pedra
desta gruta alguém
pintou a história
como um animal sem data
e sem contornos. Um animal
bicéfalo.


(in «A Voz do Olhar»,
Edições Universidade
Fernando Pessoa, 1998)

Albano Martins

(1930)

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Bloco Poético de Notas


JOSÉ AUGUSTO SEABRA





SOMBRAS DE NADA


«Ah, cada ser ou cousa é sombra vaga»
(Teixeira de Pascoaes)


Este nada de nada
diluído em soluços
de sombra é como cada
minúsculo percurso
de ruga abrindo um sulco
do nada até ao nada



Adoecia a mágoa, adolescia
magoada a de sombra, maculada
entre a mágoa de ser que magoava
e a mágoa de nada que doía
ensombrecendo a mágoa de mais mágoa
se adolescendo a mágoa adoescia



Quando o corpo desenha
toda a sua metade
de sombra, donde vem
aquela frialidade
que a chama não sustém?



De que rugosa
forma? Arredondada
sombra
de que vazio
corpo?



Só de íris
contornada
a sombra
ensombrecida
a íris
derramada:
penumbra
de que nada?



Como se inclina
a sombra
da retina:
como se i
lumina



Por lápides
de sombra
grifamos
morte e morte.
Que grânulos
sem nome?



Em que sombra tecias teu cuidado
tão sempre sem sossego ou alma sem
a sombra doutro corpo serenado
caindo lado a lado
do corpo mal represo
e trespassado?



Se a sombra demorasse
na margem onde o mar
tremulasse entre a aragem
tão breve no ousar-se
que leve não ficasse
apenas miragem
da sombra a bordejar



Sombra oh quase solar
haste humílima e lábil
iludindo o precário
perfil de luz e ar

de brisa e tempestade
encrespando entre os lábios
do tempo pela vária
penumbra da verdade

solar oh quase sombra
haste ó mínima haste


(in «Nova Renascença»,
Revista Trimestral de Cultura,
Propriedade da Associação Cultural «Nova Renascença»,
Porto, Primavera de 1982, vol. II)


JOSÉ AUGUSTO SEABRA
(1937-2004)
*
José Augusto Seabra (n. Porto, 1937; Paris, França, 2004),poeta, ensaísta, crítico, académico e diplomata, era licenciadoem Direito, tendo-se ainda doutorado em Letras, em Paris, naÉcole des Hautes Études (com a tese « Fernando Pessoa ou oPoetodrama», defendida em 1971, tendo Roland Barthes comoorientador e publicada em 1974, no Brasil, S. Paulo, com estetítulo traduzido do francês, no original). Em França (Paris) foidocente da Universidade de Vincennes, assim como da Faculdadede Letras do Porto, tendo ainda sido, depois, professor catedráticona Sourbonne. Dirigiu a «Nova Presença» e colaborou em váriase prestigiadas revistas literáris, entre as quais a «Colóquio/Letras»,a Silex e a Vértice. Fundou e dirigiu no Porto a «Persona» e o Centrode Estudos Pessoanos (com António José Saraiva e Maria da GlóriaPadrão). Como poeta revelou-se em 1961 com o livro «A Vida Toda»,vindo a publicar um conjunto de obras que o distinguiu singularmenteentre os autores portugueses mais significativos do século XX, comrealce ainda para o Ensaio, sobretudo no universo de Pessoa. O seucargo de Embaixador na Unesco e o seu desempenho político comoMinistro da Educação lançaram-no nos braços da comunicação social,tornando-se um dos rostos populares dos tempos recentes («pós 25 deAbril») da democracia e da cultura em Portugal, a que se deve juntarum papel de intervenção como opositor ao Estado Novo.
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PITADA DE SAL


o que diz:



VICTOR HUGO







OUTRA GUITARRA



Como, diziam eles,
Com barcos sem velas,
Fugir dos aguazis?
- Remai, diziam elas.



Como, diziam eles,
Esquecer as querelas,
perigos, coisas vis?
- Dormi, diziam elas.



Como, diziam eles,
Encantar as belas
Sem filtros subtis?
- Amai, diziam elas.

18 de Julho de 1838



(in «Poemas»,
Selecção e Tradução de
Manuel Parreira da Silva,
Assírio & Alvim, 2002)



VICTOR HUGO


(1802-1885)



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UM POETA DA MADEIRA




(O Jardim Botânico, no Funchal, Madeira)



ISABEL AGUIAR BARCELOS





o que vêem os teus olhos?


a criança tirou um espelho de dentro do seu cestinho e perguntou-lhe onde estou?
o espelho mostrou-lhe uma nuvem a encolher-se para se ver ao espelho e depois um torrão de terra, ressequido da falta de água, e a criança percebeu que depois do último sono todos os lugares da terra eram o mesmo lugar.






o céu começou a escurecer e a deixar cair muito gelo. todas as pedras ficaram brancas.
o limão estava roxo, do frio.
quando o inverno aparece, é preciso vestir a saia pura de lã.


a criança contou vinte e três carneirinhos, cobertos de lã macia, para sentir menos frio a lembrar-se da mãe a tricotar umas botas de dormir cor de rosa bebé.


onde está o rosto da mãe?
o rosto da mãe está no universo e está também num cestinho com violetas.







as sandálias escorregavam nas pedras cobertas de lodo seco. dantes a ilha enchia-se de conchinhas na maré vazia, agora a lua está triste porque não há marés


a voz da mãe é um segredo que está dentro de um búzio cor de pérola


a criança encostou o búzio ao ouvido e não conseguiu saber se a voz da mãe estava triste ou contente


uma criança, um limão e uns sapatos não podem ir muito longe, por isso quase não tinham mudado de lugar.






se o fundo do mar tivesse um furinho
a água ia para o fundo da terra
uma ilha sem mar à volta deixa de ser uma ilha



agora o vestido mudou de cor
mudar de cor não é ser outro vestido
também não é ser o mesmo vestido com outra cor



a criança vestiu o vestido de algas alaranjadas e deu a mão ao limão para que nenhum dos dois tropeçasse nas rochas ainda escorregadias, cobertas de limos que lembravam o mar.






NÃO HÁ GRANDES DIFRENÇAS ENTRE UM LUGAR
E NENHUM LUGAR



também a menina que existe e sonha

é quase a mesma menina que não sonha e por isso não existe





ISABEL AGUIAR BARCELOS


(1958)






(in «Nunca se Regresa ao mesmo Lugar»,
Colecção "Uma Existência de Papel", 35,
Edições quasi, 2003)



*

Isabel Aguiar Barcelos nasceu no Funchal em 1958. Licenciada em

Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras de Lisboa,

é professora de Português do Ensino Secundário, tendo primeiramente

dado aulas em Machico (Madeira) e, depois, na Amadora, radicando-se

no Continente. Em 1990 conquistou o "Prémio Revelação" da Associação

Portuguesa de Escritores (APE) com "Sandálias do Tempo", publicado

em 1991 pela "Editorial Escritor", com introdução de Urbano Tavares

Rodrigues. Integrou o "Contoário" (antologia de contos, ed. Escritor,

1993), e editou, na "Preto no Branco", o conto "Revelações", com desenhos

de Mário Rita (1994). Com "Cristais do Tempo", participou na "ILHA 4",

colectânea poética madeirense dirigida por José António Gonçalves (com

prefácio de Ernesto Rodrigues e edição da Câmara Municipal do Funchal,

1994), assinando ainda os livros "Anjos de Asas Verdes" (poesia, 1995),

"Viagens no País do Sonhos" (contos infantis, 1998), "O Mar na Poesia

da América Latina" (antologia, com tradução de José Agostinho Baptista,

Assírio & Alvim, 1999). Em 2001 obteve a Bolsa de Criação Literária/Poesia,

do Ministério da Cultura, dando como resultado o seu novo título, "Nunca

se Regressa ao Mesmo Lugar" (edições/quasi, 2003). É co-autora (com Isabel

Rodrigues Konrad) do livro infantil «A Burrinho Anastácio», assim como dos

títulos "O Cordeirinho Tomé", "O Cão Farrusco" e "O Gato Pompom" (Verbo,

2003). Traduziu "O Movimento ds Coisas", de Gérard de Constanze (Prémio

Charles Vidac, Ed. Campo das Letras, 2002). Colaborou no volume «Portugal

- The Book" (ao lado, entre outros, de João de Melo, Fernanda Botelho e ainda

Manuel Alegre) e está a prestar apoio a Urbano Tavares Rodrigues na antologia

"O Algarve em Poemas", com lançamento para breve.



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POEMÁRIO
Assírio & Alvim 2004



ANÓNIMO (CHINA)







CANÇÃO DE BATER NO CHÃO



Nasce o sol trabalhamos.
Põe-se o sol descansamos.
Cavamos um poço, para beber,
Lavramos um campo, p'ra comer:
O Imperador e o seu poder
- Queremos lá saber!



ANÓNIMO (CHINA)


(Séc. III a. C.)


(in «Rosa do Mundo - 2001
Poemas para o Futuro»,
tradução de Gil Carvalho)

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Um poema

de

José António Gonçalves




(Ilustração: António Folli)


A VENTANIA NASCE
DENTRO DE MIM

lembrando Lord Byron

A ventania nasce dentro de mim
e solta-se por aí encantando os montes
como só o roçar das bailarinas nos palcos
é capaz de fazer lembrar

Tem a figura iluminada dos santos
e adora as rezas como os deuses solitários
e espalha as suas boas e más novas em segredo
no crepitar das lareiras nos invernos

É uma revolução de ventos molhados
pelas chuvas de outros séculos de antigas lágrimas
de esquecidas alegrias e de algumas tristezas
em junção para preitear a terra nomeando-a

É a ventania das urzes e nasce dentro de mim
e esconde-se nos cabelos enchendo rostos
enlouquece Lord Byron em passeios pelos telhados
e às vezes transforma-se em trovoadas e gritos

É uma praga inenarrável de maldições e de sons
ocupando os intervalos entre as árvores e as flores
abraçando as plantas dos jardins e beijando as águas
transfigurando-se em versos para dar corpo
às palavras no poema

José António Gonçalves


(inédito.15.06.04)



JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/


Consulta aos números anteriores:
http://www.terravista.pt/mussulo/1701/indice.html
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm



 

Selecção e Montagem: JAG