Um pássaro
no ninho: uma gaiola
perfeita.
Albano Martins
(in "Com as Flores do Salgueiro", 1995; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
CARLOS OLIVEIRA
CARTA DA INFÂNCIA
Amigo Luar:
Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te ouço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.
(in "Trabalho Poético", Sá da Costa, 1998)
MAPA
I
O poeta
[o cartógrafo?]
observa
as suas
ilhas caligráficas
cercadas
por um mar
sem marés,
arquipélago
a que falta
vento,
fauna, flora,
e o hálito húmido
da espuma,
II
pensando
que
talvez alguma
ave errante
traga
à solidão
do mapa,
aos recifes desertos
um frémito,
um voo,
se for possível
voar
sobre tanta
aridez.
seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor.
(in "Micropaisagem", 1969)
Aço na forja dos dicionários
as palavras são feitas de aspereza:
o primeiro vestígio da beleza
é a cólera dos versos necessários.
(in "Mãe Pobre")
É toda cheia de tonturas esta mágoa.
Hoje, dentro de mim, ouvi o meu filho chorar,
não por fome de pão, nem por sede de água,
- por fome e sede da "Sonata ao Luar".
Isto das grades é decerto um pesadelo...
Filho, meu filho, nós iremos passear
pelo campo florido... E hei-de soltar o cabelo,
hei-de solá-lo na "Sonata ao Luar".
Pesa-me o corpo. Não quero ver as grades...
Quero passar as mãos por veludos macios,
suaves como lembranças de saudades...
Mas na prisão só há sombras, calafrios,
lábios mordidos porque não querem gritar...
Os minutos de calma são raros, tão raros...
Dêem-me... dêem-me a "Sonata ao Luar",
para que o meu filho tenha os olhos claros.
(in "Canto da Prisioneira Grávida")
*
O poeta Carlos Oliveira (1921-1981) nasceu em Belém do Pará
(Brasil), e faleceu em Lisboa. Licenciou-se na Universidade de
Coimbra em Ciências Histórico-Filosóficas. A sua obra poética e
ficcional centra-se na vida campestre. Obras poéticas: Turismo
(1942), Mãe Pobre (1945), Descida aos Infernos (1949), Terra de
harmonia (1950), Cantata (1960), Sobre o Lado Esquerdo (1968),
Micropaisagem (1969), Entre Duas Memórias (1971), Trabalho Poético
(2 vols., 1977-1978), Pastoral (1977). Obras de ficção: Casa na Duna
(1943), Alcateia (1944), Pequenos Burgueses (1948), Uma Abelha na
Chuva (1953), Finisterra (1978). Crónicas: O Aprendiz de Feiticeiro
(1971).
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PITADA DE SAL
O QUE DIZ - JÚLIO POMAR
Tombe a casa, seja
esta sombra princípio ou fim do dia,
indizível o silêncio, ou o tremor
alvorace os lábios.
Também da memória
nada venha, halo ou escora
para o momento seguinte.
O espaço diante
da casa, jardim, terreno vago,
esperança de visita. A quebra
dos segredos.
Pedra, senão pedras.
JÚLIO POMAR
(1958)
(in "Alguns Eventos", Publicações Dom Quixote, 1992)
*** *
UM POETA DA MADEIRA
EMANUEL JOSÉ FARIA GOMES
ALGUNS SENTIMENTOS DESALINHADOS
Há em cada uma das minhas palavras
Um sorriso triste por inventar
Um bailarino sem palco a bailar
Ultrapassando as grades de todas as madrugadas
E o vento chora as mutiladas
asas de um pássaro querendo voar
Renega o meu corpo e me faz amar
deixando cair lágrimas revoltadas
Quebra-se o silêncio da paisagem
por entre as árvores que tombam ao luar
vai um pobre mendigo de viagem
E as minhas palavras já não correm
Já não são palavras das que fazem chirar
são rios de pranto que morrem
ESPERANÇA NA SORTE
Quando a vida se mantém em esperança
numa ilha pequena rodeada por mar
nós sentimo-nos aves a voar
ao vento... De mãos dadas com uma criança
E a fragilidade dos poemas como vingança
surge connosco como agonias
entre as pedras de terras luzidias
serão no futuro breve apenas lembranças
E esperamos a tal hora de partir a cantar
porque quando ela chegar haverá felicidade
Sorriremos então até que os olhos queiram chorar
A espera é curta e deixa-me sorridente
Por agora vou vivendo de saudade
Em breve... Em breve estarei ausente
AO POETA QUE ESTÁ DENTRO DE MIM
Estas lágrimas desbotadas
Em branco papel de martírio
Sãoas ondas revoltadas
De uma noite invernosa de frio
Neste grande caudal de rio
Uma lágrima se perdeu
E como uma velha ave sem pio
O poeta também morreu
Ao encontro da triste sorte
De pela vida combater
o poeta sorriu à morte
E com laivos de revolta
A terra o viu desaparecer
num sussurro de lágrima morta.
(in "Corpo sem Abrigo", Ed. Direcção Regional
dos Assuntos Culturais, Funchal, 1982)
*
Emanuel José Faria Gomes nasceu na freguesia da Sé, Funchal, em
1962. detentor do Curso Complementar de Ciências, licenciou-se como
Psicólogo, exercendo o seu múnus na Madeira. Foi o vencedor, em
1980, do Concurso Literário promovido pelos Serviços Culturais da
Câmara Municipal do Funchal,
aquando da realização da VI Feira do Livro, tendo conquistado
também, no mesmo ano, com "Corpos sem Abrigo" (publicado em 1982) o
Prémio Revelação da Secretaria Regional da Educação e Cultura,
Direcção Regional dos Assuntos Culturais.
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
ROBERT LOWELL
NOSSA SENHORA DE WALSINGHAM
Aí, em tempos idos, os penitentes descalçavam-se
E, de pés nus, percorriam então a derradeira milha:
E as árvores baixas, o leito de um rio e as filas de sebes,
Lentamente, através das rumorosas azinhagas inglesas,
Como vacas em direcção ao velho altar, até perder
O rastro do sofrimento que os tomara.
O leito corre sob a árvore do druida,
Os redemoinhos de Siloé gorgolejam e alegram
O castelo de Deus. Marinheiro, sentias-te feliz
E junto a esse leito em vão desejaste Sião. Mas repara:
A Nossa Senhora, demasiado pequenas para o seu dossel,
Está sentada junto ao altar. Não há graciosidade
Nem encanto nesse rosto
Inexpressivo com suas pálpebras pesadas. Tal como antes,
Est rosto, há séculos uma memória,
Non est species, neque decor,
Inexpressivo, expressa Deus: vai,
Para além das muralhas de Sião. Ela conhece o que Deus conhece,
Não a cruz do Calvário, nem a manjedoura em Belém,
Agora, e o mundo virá até Walsingham.
ROBERT LOWELL
(1917-1978)
(in "Aos Mortos da União e Outros Poemas", Tradução de Mário Avelar)
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IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
J. M. G. LE CLÉZIO
Estou no molhe à hora marcada, após um dia passado a flanar
na ilha sul, do campo à ponta leste, do hospital ao cemitério.
Aguardo impacientemente o momento de estar de novo a bordo
do Zeta, navegando rumo a Rodrigues.
No bote que se afasta, parece-me que todos os homens sentem o
mesmo, este desejo do alto mar. Desta vez, é o próprio capitão que
vai ao leme do bote. Eu sento-me à proa. Vejo o aproximar da
barra, as longas ondas que ao desfazer-se erguem um muro de
espuma. O fragor da ressaca ensurdece-me, assim como os gritos
das aves que evoluem no céu. "Alley-ho!", grita o capitão quando
a vaga se retira, e sob o impulso de oito remos o bote se precipita
no estreito entre os recifes. O bote dir-se-ia que salta por cima
das
ondas, e nem uma gota de água lhe cai dentro! Deslizamos agora
sobre o azul profundo, a caminho da silhueta negra do Zeta.
Mais tarde, a bordo do navio, enquanto os homens estão
instalados no porão para jogar ou dormir, eu olho a noite. Na
ilha, cintilam fogos, indicando o campo. depois a terra fica às
escuras, desaparece. Só resta o nada da noite, a rebentação das
vagas no quebra-mar.
(...)
J. M. G. LE CLÉZIO
(1940)
(in "O Caçador de Tesouros", Tradução de Ernesto Sampaio)
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Um poema inédito
de
José António Gonçalves
A PALAVRA CEM
a Ernest Hemmingway
ao chegar
à palavra noventa e nove
detive-me
com medo de ultrapassar
a palavra cem
viajando em excesso de velocidade
pelos corredores áridos
do papel branco
surpreendido pela descoberta
de encontrar-se despido
das outras noventa e oito
palavras
no labirinto infinito do verbo
os minotauros confundem-se
com os touros esbaforidos
nas vastas arenas das cidades
os toureiros lêem hemmingway
e encantam os espectadores
no sítio mais claro da terra
esperando
pelo sol dos gritos e das flores
na magia controlada
das verónicas
a escuridão desperta
para o dia
contra o silêncio das sombras
onde se escondeu
iluminada
a palavra
cem
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(inédito.1998)