A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

10

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


No perfil
da luz
a pauta - a flauta
de sete cores.

*
Tu que esculpes
com mãos de água o corpo
e a sombra dos dias.

*
Sabes
como se esculpe um poema
fechado a sete chaves?



Albano Martins


(in "Entre a Cicuta e o Mostor", 1992; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas


FERNANDO GRADE



O POVO MANDA NO RIO

Aqui estou, doido de gaivotas, no sítio onde
O povo manda no rio, aqui estou
Com Annie nas margens do bucólico rio Almançor.
Agora conheço, sabemos o peso do trigo,
Somos, não, sou, perdão,
Não quero ser perito em almas (em ervas),
Seremos somente, não, serei mestre em cores
E venenos.
Annie, não deixes que o tempo envelheça
Sobre os teus lábios
Que encobrem o mistério mais audaz da minha vida.

É o virar do Verão,
O acrobático cair dos gladíolos.

Todos os venenos estão contados,
Menos aqui onde o povo manda no rio Almançor:
Vieram as alfaias, os punhos de terra ocra
E na terra em sangue, entre o basalto que
Não há e os pássaros, entre as charruas vedras,
O povo mudou o trajecto das águas,
E as águas, Annie, já não são corruptas:
Cheiram a corpo descalço e a mel,
Cheiram a pão.



MEMENTO POR UM CORAÇÃO QUE LADRA



O
cão
que
mais
ganir
é
francês,
eco
nostálgico
de
uma
Bretanha
em fúria,
uvas
sangrentas,
espelho
ratado
pelo
sítio
do umbigo.
Um
bicho
que
gane
merece
os
ardis
todos
e
sulfúricas
desgraças.
Dá-se
ao
animal
o
que
vier
do
medo
(rebuçado
com
buço
de
sapo)
e
as
máscaras
do
Lácio
passam.
Então
ser
voada
flor
em chaga
ou
simples
cão

não
atrapalha
nem
é trapaça.
Um
coração
que
ladra
tem
sempre
boa
raça.


EPITÁFIO PARA UM POETA MORTO NA ALDEIA


Partiam e chegavam (aos teus versos
danados) raparigas, lábil feno;
límpido - o sangue: lesto e bem disperso
por beijos, veias, taças de veneno...

Eram moças com boca de cidreira
e raiva nos quadris curtos e ásperos,
quais potros que tivessem à lareira
razões de pássaro e cetim nos cascos.

Anjos cardados vinham nesse verbo
com que acendias luzes de erva e ácidos
britando a treva ao fundo das aldeias.

Mas contra ti, poeta, o fumo acerbo
de bestas e lacraus de mamas flácidas
não destruiu o sémem das ideias.


FERNANDO GRADE

(in Saudade Sábia sonetos edic. Mic 1979)

*
Fernando Grade, que também utiliza o heterónimo de Abel Sabaoth, nasceu no Estoril, a 1 de Abril de 1943. É Poeta e Pintor. Foi membro fundador de "Os Desintegracionistas", em 1964. O seu primeiro livro de poesia, publicado em 1962, chama-se "Sangri" e até hoje foram publicados 24 livros de sua autoria, para além das inúmeras publicações colectivas em que participou. Foram-lhe atribuidos vários prémios literários. Como crítico de arte, exerceu no “Jornal de Letras e Artes”, “Século Ilustrado” e “Diário de Noticias”. Assinou balanços anuais de artes plásticas para o jornal “o Século”, onde também, foi cronista. Foi igualmente cronista do jornal “ A Capital”. Realiza exposições individuais desde 1965 em galerias tão distintas como a de S. Francisco (Lisboa), a da S.N.B.A. (Lisboa), no Museu de Angola (Luanda), entre outras e também fez uma retrospectiva de “35 anos de Pintura” na Galeria Municipal de Sintra. Também desde 1965, participa em exposições colectivas em Portugal e no estrangeiro. Está representado, com a sua “Teoria das Multidões”, em vários Museus e em numerosas colecções particulares nacionais e estrangeiras.

**

PITADA DE SAL

o que diz:

J. H. SANTOS BARROS





(Alpendre, «fazer versos dói», recital
de homenagem a J. H. santos Barros)


O tempo da «insularidade como desculpa», em termos literários, para nos autodesculpabilizarmo-nos e para que outros nos desculpabilizem pela mediania ou mediocridade dos textos açorianos chegou ao fim. O homem das ilhas pequenas que expira também (se) inspira. Ao acto de escrever «inspirado» há que aliar o trabalho de o fazer, o sentido profissional responsável pelo «bem feito» (o talento). Os atributos do artífice capaz, o fim do amadorismo. E o acréscimo de responsabilidades de exibir no texto as marcas duma originalidade.
Tudo isto é, demais, quando sabemos que se alguém tentasse viver entre nós apenas e só daquilo que escreve, certamente morreria de fome. Sem isto, sem o sentido do profissionalismo, todavia, não há literatura. Há talvez jogos florais, forma aparentada e longínqua do literário, mas sem dúvida espécime menor que, por mais espremida e desenvolvida, o máximo que dá são as telenovelas.
Ponto Um - «Trabalho», «bem fazer», «originalidade», três tópicos por onde passa hoje a avaliação de qualquer texto que se nos proponha oriundo seja donde for; no caso da açorianidade, pois que se mostre digno do povo de que emana. Não é um critério moral que se propõe mas o leitor pode muito bem ir por aí, se assim o entender (...).



(in "O Lavrador de Ilhas-I", Colecção Gaivota/24, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1981)




***

UM POETA DA MADEIRA


LUCÍLIA JARDIM






Brancos lírios
Abrandam suspiros
Na secura do tempo

Na agrura da paisagem
Raivas contidas
Secam na melancolia
do tempo

2000.05.01



NO FUNDO DO MAR...



Sou sereia
das águas profundas
do mar


Sou guia de marinheiros
e peixes
tresloucados


Sou sonho ausente
dos incrédulos
refúgio seguro
para ingénuos
e crentes



VACUIDADE




Voo
na vaga
da onda
na plenitude
da mente
na sombra
do pensamento


Resvalo
na carícia
do mar
na brancura
da espuma




BRANDO VIVER



Entardece.

A chuva cai
de mansinho
e o mar calmo
sussurra
uma canção singela;

invoca tardes quentes
de verão,
brisas marítimas
e gaivotas
que pairam
sobre as águas...

Passos solitários
ecoam no cimento
do cais
e um banco vazio
convida-nos
ao aconchego brando
de solidões perdidas

Perdem-se os passos
na lamentação
da partida
encontra-se
no mar
o cofre forte
das lágrimas ardentes
de tanta saudade


LUCÍLIA JARDIM

(in "Perplexidades", prefácio de Cecília Barreira (Docente na Universidade Nova de Lisboa), E. da A., Porto Santo, 2000)




*

Lucília Jardim, natural da ilha do Porto Santo, Região Autónoma da Madeira, onde é a responsável pela Biblioteca Municipal. É licenciada pela Universidade Nova de Lisboa, tendo sido sua professora a crítica literária, ensaísta e poeta Ceccília Barreira que, sobre o seu livro "Perplexidades" (Porto Santo, 2000), escreveu no prefácio que o seu "universo poético (...) é a resolução da (in)felicidade e nisso reside a sua beleza perversa. Perversidade inocente com laivos de sensibilidade amorosa e onírica. A rima desprende-se em ritmo; estamos a falar de uma poesia que gosta de se submeter ao espartilho da estrofe solta, legitimada pelo pendor de um lirismo ancestral que emana de um povo maravilhado pela quadra, pela redondilha, pela poesia. Lucília Jardim: uma poeta a descobrir, para além da suspeição da felicidade por reencontrar".


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POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004




UMBERTO SABA





MULHER



Quando tu eras
rapariguinha picavas
como a amora silvestre. Até o pé
era em ti uma arma, ó bravia.

Eras difícil de apanhar.
Ainda
nova, ainda
és bela. Os sinais
dos anos, e os das dores, unem
as nossas almas, fundem-nas. E atrás
dos cabelos negríssimos, que enrolo
nos meus dedos, jão não temo a pequena
branca, pontiaguda orelha demoníaca




UMBERTO SABA


(1883-1957)


(in "Mesa de Amigos", versões de poesia por Pedro da Silveira)



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IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004



HUGO VON HOFMANNSTHAL



A medida
do decoro
é dada
pela realidade.



Hugo von Hofmannsthal

(1874-1929)

(in "Livro dos Amigos",
Tradução de José A. Palma Caetano)


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Um poema inédito

de

José António Gonçalves






O BARCO É A PAISAGEM





eu sempre soube: o barco é a paisagem

que se desdobra mansamente na nuvem

e navega sem ruído ao sabor do vento



se o barco estivesse sobre a mesa

seria o pão escuro à espera da faca

nos olhos da criança adormecida



com o olor da côdea fresca acorda

e o sorriso no rosto sacia a fome

estendida pelo mar na manhã branca



outro dia poderia ser um mistério

de água ao espelho do horizonte

cativo da sua transparência de cristal



é um barco com a sua vela à distância

iluminando de sonhos a tarde do ilhéu

esse habitante do mundo na sua errância



é apenas um barco e mais nada

uma ideia vogando como uma pétala

sem destino no fogo da sua miragem



JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES


(inédito.10.3.04)




 

Selecção e Montagem: JAG