A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

11

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


A verdadeira beleza
está no que o homem tem de semelhante
com a natureza.

*
Onde as vozes
são pequenos cristais,
translúcidos perfis.

*
O dia agora é um lençol molhado
estendido ao longo dos caminhos.

Eu sou este dia de março
a arrefecer o amor dos primeiros ninhos.



Albano Martins



(in "A Vocação do Silêncio" , 1990; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas

MARIA TERESA HORTA




POEMA SOBRE A RECUSA

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.


JOELHO

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.


POEMA ANTIGO


O homem que percorro
com as mãos

e a lua que concebo
na altitude
do tédio



o oceano
penso paralelo — ventre
à praia intacta
das janelas brancas
com silêncio


ciclamens-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo — bússola
com raiz — grito de relevo


O homem que percorro
com as mãos


a estátua que consinto


a lua que concebo.




MARIA TERESA HORTA



*
Maria Teresa Horta é natural de Lisboa (1937). Estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, enveredando depois pela carreira jornalística. Dirigiu o ABC Cine-Clube e fez parte do grupo Poesia 61. Colaborou em jornais e revistas (Diário de Lisboa, Diário de Notícias, Jornal de Letras e Artes, Hidra 1, entre outros) e foi chefe de redacção da revista Mulheres. Feminista, publicou, com Maria Velho da Costa e Isabel Barreno, as Novas Cartas Portuguesas (1971), cujo conteúdo levou as autoras a tribunal. A sua obra encontra-se marcada por uma forte tendência de experimentação e exploração das potencialidades da linguagem, numa escrita impetuosa e frequentemente sensual. Estreou-se com a obra poética Espelho Inicial (1960), a que se seguiram, Tatuagem (1961), Cidadelas Submersas (1961), Verão Coincidente (1962), Amor Habitado (1963), Candelabro (1964), Jardim de Inverno (1966), Cronista Não é Recado (1967), Minha Senhora de Mim (1971), Poesia Completa (1983, dois volumes), e as obras de ficção Ambas as Mãos sobre o Corpo (1970), Ana (1975), A Educação Sentimental (1975), Os Anjos (1983), Ema (1984), O Transfer (1984), Rosa Sangrenta (1987), Antologia Política (1994), A Paixão Segundo Constança H. (1994) e O Destino (1997). Em 1999, lançou a obra A Mãe na Literatura Portuguesa, constituída por uma longa introdução da autora, depoimentos de várias individualidades, uma antologia de poesia e prosa de escritores portugueses e no fim um conjunto de quadras e provérbios, tudo em torno da temática da mãe. Em 2001, publica Minha Senhora de Mim , mais recentemente, uma colectânea de cem poemas escolhidos por si, a qual já se encontra no mercado livreiro.


***

PITADA DE SAL

o que diz:

VASCO MIRANDA





OS DOIS POEMAS DA MINHA VIDA




1.

O meu canto é de esperança,

É de esperança sem fim...

O meu canto é de esperança

Que existe dentro e fora de mim.



Não vim a este mundo para viver só.

(O silêncio na minha boca, ainda quando o foi, foi um grito que me mordeu).

Eu vivo a dor de todos os que metem dó,

Luto por todo o que caiu na hora em que nasceu.



2.



Eu amo a tudo e a todos.

Por mim e por eles,

Por todos e por nenhum.

Eu amo a vida que nos abraça e funde

Naquele que é fonte donde ela saiu.

E eu amo assim...

Em graça e em sorrisos,

Na carne e no sangue...

Por mim e por eles:

- Por todos!...

Naquele que é em nós, naquele em que nós somos.

Porque a tragédia é esta:

- O soluço que vai da raiz que morreu

à Primavera que canta no rebentar dos pomos.


(in "Luz na Sombra")




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UM POETA DA MADEIRA

ANA BELA





Pássaro de asa ferida
teimosamente voando
sobre o deserto da vida.



MEU AMOR



Poderia chamar-te
madrugada radiosa.

Poderia chamar-te
nascente cristalina.

Poderia chamar-te
semente germinante.

Poderia chamar-te
flor preferida.

Poderia chamar-te
tudo isto
e muito mais.

Mas ao olhar teus braços
prontos a enlaçar-me
ao reconhecer neles
minha medida exacta
sem fantasia
sem poesia
apenas te posso chamar
Meu Amor.




ESTÁS DOENTE


Se
ao olhares um peixe
só vês frito no teu prato.

Se
ao olhares uma rosa,
só consegues ver seus espeinhos.

Se
ao olhares a ave,
só te vem à mente que tens fome.

Se
ao leres poesia,
só fores capaz de procurar erros de ortografia,

foge que estás doente,
com doença incurável e danada,
foge para longe dos homens,
porque de Homem,
já não te resta nada.



AS TUAS MÃOS



Se tu soubesses

que tudo o que de mais alto
poderás ambicionar,
está ao alcance das tuas mãos.

Se tu soubesses

que a razão máxima
da existência das tuas mãos,
é encontrar outras mãos.

Se tu soubesses

quanta divindade
ganham as tuas mãos,
quando acariciam.

Se tu soubesses

compreender estas verdades
nunca vazias
tuas mãos fecharias.



OBJECTO REAL


Para além
da cinzenta
penumbra
do incerto
das incertezas
da nossa Alma

Para além
do fragmento
de vidro
translúcido
da nossa vida

Só tu surges
como objecto
real.


ANA BELA

(in "Fala a Meus Amigos", E. de A., Lisboa, 1977).

*
Ana Bela Andrade Pita da Silva é natural da ilha da Madeira, tendo nascido no Funchal "numa manhã de Maio" de 1939. Professora de Educação Física, sempre dedicou a maior parte do seu tempo ás crianças deficientes. "Escrevo o que sinto, como sinto e quando sinto" é a sua divisa poética. Publicou alguns livros, entre os quais "Fala aos Meus Amigos", Lisboa (onde reside desde há muitos anos), 1977.


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POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004






POEMAS DE AMOR
DO ANTIGO EGIPTO


São tão pequenas as flores de Seanu
Que quem as olha se sente um gigante.
Sou a primeira entre os teus amores,
Como jardim há pouco regado de ervas e perfumadas flores.

Ameno é o canal que tu cavaste
Pela frescura do vento norte.

Tranquilos os nossos caminhos
Quando a tua mão descansa na minha em alegria.

A tua voz dá vida, como o néctar.

Ver-te é mais do que alimento e bebida.



(in "Poemas de Amor do Antigo Egipto";
Tradução de Helder Moura Pereira)



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IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004



RUBEN A.



Ao fundo a Torre elevava-se no real. Vista do Jardim dos Buxos sobressaía ainda mais. A brisa corria pelas folhas vacilantes dos plátanos. O mundo da Barbela comprazia-se em contar as suas fábulas de interesse sempre constante. Aquele recorte triangular irrompendo pelo céu escuro, no contraste da pedra carcomida por um misto de líquenes vermelho-escuro, permanecia altivo como a História. Parecia que o vento procurava lá a sua direcção e que da Torre nasciam as origens do movimento do ar. Então, quando o céu se escolhia em azul, o milagre operava-se placidamente. Pássaros recolhiam aos altos da Torre amortecendo as asas num descair vagaroso, bem desenhado. Um ritmo desapaixonado embranqueia as fileiras de nuvens que em sentinela tomavam conta da rosa-dos-ventos. Aquela projecção da Torre no espaço era a sua grandeza. Mesmo São Cyro, lendo o breviário, subia o olhar para a Torre e todos se vinculavam à sua altura. Fora em torno da Torre que a família construíra poder, segura união. Tragédias ou momentos de vitória, estampados, invisíveis, permaneciam em respeito gravados nas pedras seculares da Barbela. (...)



(in "A Torre de Barbela")

 


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Um poema inédito

de

José António Gonçalves





CAVALEIRO DA BRUMA



o corpo cresce e numa madrugada

do nevoeiro sai um homem para a guerra

sem olhar para trás



o coração apressa a partida com o peso

da metralhadora nas mãos alvas

sacrário onde guarda a sua vida



ainda não se desfez a bruma e tudo

parece os liames de um sofrido pesadelo

esfiapando-se nas artes da sobrevivência



um dia regressa com lágrimas nos olhos

abraços trémulos aos filhos à mulher

e não sabe responder a perguntas



na guerra despediu-se da morte do medo

e retornou inteiro ao amorfo quotidiano.

hoje somente procura a inocência.



JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES


(inédito.11.3.04)

 

Selecção e Montagem: JAG