A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

12

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


 

O rouxinol não sabe
que o seu canto
é verde.

(in "Com as flores do Salgueiro", 1995)

*
Remos
da tarde
branca
sonolenta
- as gaivotas.

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992)

*
Para receber o orvalho
as flores abriram
as suas portas ao dia.

(in "Com as Flores do Salgueiro", 1995)



Albano Martins



(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas


ÁLAMO DE OLIVEIRA



FÁBULA DA ILHA

um bando de gaivotas em liturgia de abandono
oriente marinheiros de ignorância e cachumbo.

(o barco da cruz gramada; os pés da bússola ruindo
a mosca henriquina emigrada em sono).

na baía incendiada o grito do sossego partilha
âncoras de fundo e fumo com peixes e hortelã.

não era indício de oiro nem esfinge de sereia nem
vagabundo do sonho num deserto de cetim, era ilha!

(nas suas entranhas com vómitos de lava
sentia-se crescer a lascívia do povoamento).

........

ainda hoje se ouve a angústia do vento
percorrer as coordenadas do povo no mapa

(in "Antologia da Poesia Açoriana do Séc. XVII a 1975", Pedro da Silveira, Sá da Costa, 1977)


ONDE NÃO SE FALA DO SILÊNCIO

não amealhem versos como se fossem dólares

comprem amarelos pintem-se

de pinheiro -

são fortes dão farelo como as mulheres na cama

em dia de beber

a dança

o ventre

a espiral

do medo onde descansa a ilha. cada vez

há mais poemas na barrela: coram ao sol e

aguardente.

(a vida está tão pesada ao ar livre!)




Fechem a janela!



a cabeça tem um dente cariado e ri dos outros.

não há guerra dentro da chuva...

as nuvens são pátrias em sossego.



(in "Vértice" n.º 448 (Maio/Junho de 1982) Coimbra - (excerto) -




Álamo de Oliveira


*



Álamo de Oliveira nasceu na ilha Terceira em 1945. É técnico da Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Tem uma diversa actividade, nas áreas culturais, incluindo as de pintor de Arte. Ao longo dos anos publicou diversificada obra e colaborou na imorensa. Bibliografia: Poemas de(s)amor, ed. do autor, Angra do Heroísmo, 1973 (poesia); Fábulas, ed. do autor, Angra do Heroísmo, 1974 (poesia); Os quinze misteriosos mistérios, ed. do autor, Angra do Heroísmo, 1976 (poesia); Manuel, seis vezes pensei em ti, ed. do autor, Angra do Heroísmo, 1977 (teatro); Almeida Firmino - poeta dos Açores, ed. da SREC, Angra do Heroísmo, 1979 (poesia); Eu fui ao Pico piquei-me, ed. do autor, Angra do Heroísmo, 1980 (poesia); Burra preta-com uma lágrima, ed. do autor, Angra do Heroísmo 1982, (ficção); Itinerário das gaivotas, ed. da SREC, Angra do Heroísmo, 1982 (poesia); Uma hortênsia para Brianda (separata da revista "Atlântida"), Angra do Heroísmo, 1982 (teatro); Abordagem (teatral) a "Quando o mar galgou a terra" de Armando Cortes Rodrigues (separata da revista "Atlântida"), Angra do Heroísmo, 1982 (ensaio); Nem mais amor que fogo (de parceria com Emanuel Jorge Botelho), ed. dos autores, Angra do Heroísmo, 1983 (poesia). Está representado em: 14 poetas de aqui e de agora, Angra do Heroísmo, 1972; Antologia de poesia açoriana (do século XVIII a 1975), Lisboa, 1977; Antologia panorâmica do conto açoriano (séculos XiX e XX - Organização, prefácio e notas de João de Melo) ed. Vega, Lisboa, 1978; The sea within, U.S.A., 1983; Sempre disse tais coisas esperançado na vulcanologia - 12 poetas dos Açores (organização e notas de Emanuel Jorge Botelho).

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PITADA DE SAL

o que diz: EMANUEL FÉLIX




ELEGIA

Quando a manhã rasgou o coração do poeta

voavam pássaros dos teus ombros

e o tempo era uma laranja azul

rolando nos teus dedos meninos


Quando a manhã rasgou o coração do poeta

colhias no jardim os versos puros

da primeira canção


Quando a tarde chegou ao coração do poeta

com flores breves e conchas

desenhavas

nas horas quase brancas

teu caminho de abelha


Ah mas o sol morreu no coração do poeta

e uma andorinha tristemente vem

com um ramo de vento

pairar a tua ausência



EMANUEL FÉLIX

(1936-2004)

(in "A viagem possível", colecção Gaivota, DRAC/Açores



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UM POETA DA MADEIRA


ANTÓNIO MANUEL DE CASTRO



MÚSICA



Levantem-se as asas
Da noite
O silêncio da ilha
Tem música
E a secura
Crepita fogueiras
No areal
Onde perto os grilos
Levantam sonatas!
A chama da noite é lava
No coração do Porto Santo!
Há só o mar
E só existe a noite
E a noite faz-se música!
Abram-se as ondas...
Eu quero a ilha!




PRETEXTO



As lapas serviram-se
Em violetas de calma!
Ilha ao contrário
Em vegetação de musgo!
Saciámos as horas
De ilha
Onde o mar balança!
Se o relógio limita amanhã
Porque somos ilha agora
As lapas vieram
Como onda do mar
Perdida no escuro
Que a vontade recusa!



MARÉS DE DESEJO



Se a maré da tua boca
Viesse mais vezes
Ao cais da minha voz calada
haveria festa no mar
Quando a alga da tua mão aberta
Fizesse espuma no meu ombro!
E só uma barbatana nos guiaria
Aos mistérios que do sal se erguem!
Os meus lábios de concha
Abrir-se-iam mais leves
E o teu arco-íris tocaria no meu
Todos os dias!



PRISIONEIRO DO MAR



Sou o desenho
De corpos de água
Infinitos de oceano
Onde não posso voar!
E nas desertas desta ânsia
De barco
Parto em busca
De ventos favoráveis
Onde marinheiros de palavras
Possa cantar!
E são quentes os destinos
De certezas
E são vida as ternuras
A escapar...
Sou prisioneiro do oceano
Onde este destino de espírito
Tem um corpo para amar!



ILHA COR


A ilha é branca
Quando as gaivotas
Abrem as manhãs
E pousam no sorriso
Dos que amam!
A ilha é verde
Quando o ar das montanhas
Constrói telas nos olhos
Dos que vêem!
A ilha é azul
Se os peixes encantam pescadores
Na cumplicidade de uma noite!
A ilha é cinza
Se a luz dos teus olhos
Me queima as pálpebras
Naquele instante mágico
Que é prenúncio de tristeza!
Mas a ilha é arco-íris
Se as avenidas do teu sorriso
Me entram no coração!
Ou se os olhos querem ver
Ou se a boca quer amar...
A ilha é arco-íris
Se sou verdadeiramente Homem
Para sonhar!




ANTÓNIO MANUEL DE CASTRO

(in "Mar Amor Ilha", ed. Jornal da Madeira, 1989)


*
António Manuel de Castro, poeta madeirense de quarenta e cinco anos de idade, é licenciado em História pela Faculdade de Letras do Porto e possui o Diplôme D'ètudes Françaises pelo Instituto Francês e o Curso Superior de Italiano, tendo frequentado a Universidade Italiana de Perugia. É professor na Madeira. Escreveu o seu primeiro livro de poesia aos catorze anos de idade, sendo hoje um autor premiado com trabalhos em festivais da Canção Infantil na Região Autónoma da Madeira, onde também é membro da organização do Festival Internacional da Canção do Faial (Santana). Algumas das suas obras: "Poemas" (1974), "Cântico Poético" (com outros autores), Articiência, Lisboa, 1984; "Ser Criança", Ed. SRTC da Madeira, 1988 (Prémio "Lauro d'Argento" na XXIII Selecção Mundial de Literatura e Arte, Itália, 1989, "Viaggio All'amore Universale" (edição bilingue da colecção "Orchidee", Nápoles, 1989) e "Mar Amor Ilha", Jornal da Madeira, 1988.



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POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004




JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA



VIDA INTENSA E BREVE



Vida intensa e breve, pensou a lebre, correndo sobre as ervas do mundo.


JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA




(in "Biografia")




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IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004







DON JUAN MANUEL




(...) «E como o Diabo sabe todas as coisas passadas, e sabia o cuidado em que aquele homem vinha, perguntou-lhe porque vinha tão triste. E o homem disse-lhe que de nada valia dizer-lhe, pois ele não poderia aconselhá-lo naquela tristeza que havia.
«E o Diabo disse-lhe que se ele quisesse fazer o que lhe dissesse, poria cobro ao cuidado que havia; e para ele entender que assim poderia fazer, diria qual o cuidado em que vinha e a razão por que estava tão triste. Contou-lhe então toda a sua fazenda e a razão da sua tristeza, como se tudo soubesse mui bem sabido. E disse-lhe que se quisesse fazer o que tinha para dizer, o haveria de arrancar de toda aquela miséria e o faria mais rico do que jamais fora homem algum da sua linhagem, pois ele era o Diabo e tinha poder para o fazer.
«Quando o homem ouviu dizer que era o Diabo, tomou-se de mui grande arreceio, mas pela grande coisa e grande míngua em que estava, disse ao Diabo para lhe dizer a maneira de ser rico, que ele faria tudo o que quisesse. (...)»



DON JUAN MANUEL

(1282-1348)




(in "O Conde Lucanor",
Tradução de José Domingos Morais)



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Um poema inédito

de

José António Gonçalves




PRINCESAS BRASILEIRAS



(Poema dócil, ingénuo e ferido de defeito,

escrito num guardanapo de restaurante,

dedicado a três jovens turistas brasileiras)



Podiam ser quatro. São três

as princesas brasileiras

- anjos brancos que têm vez

nas leves tardes, inteiras.



Em cada uma nasce a tez

das noites mornas das beiras

em que os amantes talvez

morrem no frio das eiras.



São mulheres sãs e belas

feitas à medida do sol

abandonado p'las luas.



Eis-nos sós. E é por elas

que adoramos o lençol

onde dormem. Puras. Nuas.



JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES


(inédito.0911.96.Restaurante Caravela, Funchal)

 

Selecção e Montagem: JAG