Juncos em movimento.
Os cabelos da água
penteados pelo vento.
*
No voo raso
da calhandra mede
a sua altura o sol.
*
Um mar azul
pintou de branco
o voo das gaivotas.
Albano Martins
(in "Com as Flores do Salgueiro";
Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernndo Pessoa, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
ANTÓNIO BOTTO
SONETO
Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu próprio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.
Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!
Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!
E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento.
CURIOSIDADES ESTÉTICAS
O mais importante na vidaÉ ser-se criador - criar beleza.Para isso,É
necessário pressenti-laAonde os nossos olhos não a virem.Eu creio
que sonhar o impossívelÉ como que ouvir a voz de alguma coisaQue
pede existência e que nos chama de longe.Sim, o mais importante na
vidaÉ ser-se criador.E para o impossívelSó devemos caminhar de olhos
fechadosComo a fé e como o amor.
LISBOA Lisboa, berço da força Cais das grandes aventuras Onde
embarcaram aqueles Em madrugadas escuras E em barcos de uma só verga
Navegando sem receio De que o mar na sua fúria Partisse de meio a
meio A frágil embarcação, Lisboa das Descobertas Pátria de espada na
mão! Lisboa rica de timbres Mas em que um é sempre belo: - O Sol
doirando as ameias Do seu glorioso Castelo! Ó Lisboa das fragatas E
das manhãs outonais, Dos marinheiros valentes Beijando estas e
aquelas À noite pelos portais. Lisboa desmazelada Sem garbo, sem
atitude, E sem compostura séria; Lisboa da fadistice - Senhora Dona
e galdéria! Lisboa das zaragatas Por qualquer coisa e por nada;
Lisboa dos decilitros De tasca em tasca, vadia, Complicante e à
bofetada; Lisboa da tradição - Sorriso de nostalgia! Quartel do alto
heroismo, Lisboa chorosa e forte, Saudosa, infeliz, cantando Na
plangência de um harmónio Cantigas que ouviu à morte! Lisboa dos
pátios sujos Onde se ralha e se dança Até romper a alvorada!
Descalça, de mãos na ilharga, Impetuosa, vibrante, Lisboa da
garotada Jogando a bola nas ruas. Lisboa das horas mortas Com
namoros à janela. Lisboa dos chafarizes Onde a água é um cantar De
nautas e mariantes; Lisboa das guitarradas No lirismo dos amantes!
Lisboa das melancias Descarregadas ao Sol E aos berros no Cais da
Areia. Lisboa das noites lindas E onde é oiro a lua cheia! Ó Lisboa
dos mendigos E dos velhos sem asilo; Lisboa do céu azul E onde o
Tejo é mais tranquilo. Lisboa de bairros tristes, Humilde, religiosa
Sem fundos de convicção, Lisboa do meu amor, Essa maldita paixão!
NÃO ME CHAMEM PELO NOME
Quem é que abraça o meu corpoNa penumbra do teu leito?Quem é que
beija o meu rosto,Quem é que morde o meu peito?Quem é que fala da
morteDocemente ao meu ouvido?- És tu senhor dos meus olhos?E sempre
no meu sentidoA tudo quanto me pedesPorque obedeço, não seiQuiseste
que eu cantassePus-me a cantar... e choreiNão me peças mais
cançõesPorque a cantar vou sofrendosou como as velas do altarque dão
luz e vão morrendoNão me chames pelo nomeque me deram ao nascersou
como a folha caídaque não chegou a viverMeus olhos que por
alguémderam lágrimas sem fimJá não choram por ninguém- Basta que
chorem por mimO que é que a fonte murmura?O que é que a fonte dirá?-
Ai, amor, se houver venturaNão me digas onde está.
ANTÓNIO BOTTO
*
António Botto (1897-1959), natural de Casal de Concavada, Abrantes,
viria a falecer no Rio de Janeiro. Considerado um dos heróis do
Lirismo Português moderno e conhecido fundamentalmente pela prática
da poesia de verso livre, não descurou na sua produção literária a
elegância da composição e a leveza rítmica. «As Canções de Antónnio
Botto», publicadas em 1922 pela fugaz editora de Fernando Pessoa -
Olisipo -, chegaram mesmo a ser apreendidas, o que em muito
contribuiu para a sua classificação como "poeta maldito". Tornou-se
numa figura incontornável na História da Literatura Portuguesa,
assumindo um lugar de destaque no domínio da poesia-símbolo, dada a
coragem e os riscos que correu ao tornar explícitos desejos
inconfessados ou camuflados.
***
PITADA DE SAL
o que diz: L. P. MOITINHO DE ALMEIDA
(Fernando Pessoa escreveu nesta máquina o
poema "A Tabacaria")
(...)O estar Fernando Pessoa «sozinho no escritório deserto», sem
ninguém nem nada que o perturbasse, acontecia porque o meu pai lhe
confiara uma chave precisamente para o efeito.
Se é certo que Fernando Pessoa deixou manuscritos elaborados no seu
quarto da Rua Coelho da Rocha, não é menos certo que a maior parte
do original da sua obra consiste em typoscritos, como ele próprio
dizia referindo-se aos originais escritos à máquina de escrever.
Eram muitas as noites que Pessoa passava sozinho, a poetar, no
escritório do meu paai, isto, bem entendido, no período
correspondente aos factos reais narrados no 1º. volume do Livro do
Desassossego. E fazia-o directamente para a máquina. Algumas vezes
sucedeu que, no dia seguinte, quando eu ia utilizar a mesma máquina
para dactilografar apontamentos de estudo, a máquina emperrava
porque Fernando Pessoa, na véspera, num momento de êxtase, havia
deixado cair a ponta de um charuto sobre o teclado.
Foi nessa mesma máquina, que conservo ciosamente, que Fernando
pessoa-Álvaro de campos escreveu, em 15 de Janeiro de 1928, o poema
Tabacaria, tomando por paradigmaa então existente Havaneza dos
Retroseiros (na Rua dos Retroseiros, no local onde é hoje a Casa das
Pampas) que logo via assomando às janelas do escritório que deitam
para a Rua dos retroseiros onde, fronteiramente, estava a
tabacaria.(...)
L. P. MOITINHO DE ALMEIDA
(in "Fernando Pessoa no Cinquentenário da sua Morte", Coimbra
Editora, 1985)
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UM POETA DA MADEIRA
VASCO DA GAMA RODRIGUES
D. HENRIQUE (Infante - o navegador)
Fitando além da linha azul distante,
Por onde a vista não alcança mais,
Ouvia atento o longe trepidante,
Ouvia o mar em loucos vendavais.
Daqui, surpreso ouvia esse gigante
Por entre duras formas colossais
Erguer furioso a sua voz tonante
Contra a terra discórdias conjugais.
Sentia o ar correr no mar imenso
Correr veloz por toda a vastidão
E um monstro de sargaços sempre adverso
Pronto a levar o nauta à perdição.
E ouvi secretas vozes e rumores
Só falarem da minha devoção
Pelo reino daqueles trovadores
Erguido pelos sonhos de João.
Se assim cresci, me fiz no que devia,
Se pude enfim mistérios conhecer;
Jamais sem minhas naus eu poderia
Achar outra razão do meu viver.
D. MANUEL I - o venturoso
Além no mar, naquele mar sem fim
Envolto de presságio e maldição
Quando buscava o reino de João
Eu vi o mundo inteiro ao pé de mim.
Em toda a parte, lá por todo o lado
Onde se aloja a Treva, a escuridão,
à terra dei o Cristo da paixão
E fiquei dela todo apaixonado.
Errando, pois, nas rotas cardeais
Levado pelas naus da redenção,
Tracei a cruz nas partes infernais
E achei sob ela o mundo em minha mão.
Depois de finda a prova da tormenta
De ter vencido o oceano tenebroso
Perdi-me nos caminhos da pimenta
Não mais fui, por desgraça, venturoso.
D. SEBASTIÃO - o «capitão de Cristo»
Por entre sombras outonais tombado
Lá vai a nossa pátria receosa,
Sem leme, pela via sinuosa,
Contra escolhos e perigos navegando.
Lá vai perplexa, inquieta e ansiosa,
E aflita pelo seu príncipe chorando.
Porém o povo aos céus amor rogando
Dalém recebe a graça generosa.
Fosse ou não por fervor da prece humana
O rei nasceu aqui naquela hora.
Mas o empíreo, a voz do céu proclama,
Que o fim 'inda não foi, começa agora.
Imerso em faustos sonhos de aventura
E pondo aos pés de deus a vida, a sorte,
O «capitão de Cristo» foi sem norte,
Não quis o céu sagrar sua loucura!
VASCO DA GAMA RODRIGUES
(in "Paul do Mar... Do nascer ao Pôr do Sol",
de Paulo Garcês e Zita Cardoso, Colecção História Local,
Edição Arguim-Madeira, 2003)
*
Vasco da Gama Rodrigues (1909-1991), era natural do Paúl do Mar,
Calheta, Madeira. Esteve radicado em Moçambique, mas acabou por
regressar a Portugal, onde ingressou na Função Pública. Aos vinte e
cinco anos era Inspector de Turismo. Colaborou literariamente em
órgãos de imprensa, vindo, já com mais de meio século de existência,
em 1961, a publicar o seu primeiro livro, "Os Atlantes" e, em 1972,
"As Três Taças". O volume "O Cristo das Nações" (sua terceira obra,
por si organizada), foi editado, postumamente, em 1995. A Câmara
Municipal de Lisboa deliberou integrar o seu nome na toponímia da
cidade, estando também patente na sua freguesia natal, na Madeira, a
homenagem que lhe foi prestada, com a inauguração de uma placa na
casa onde nasceu e passou os seus primeiros anos de vida, antes de
partir para África.
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
LUIZA NETO JORGE
Árvores intensas Casas de trapo
Chilreia a chuva Coxeia a cama
Frutos votivos Cal calejada
Ponte romana
LUIZA NETO JORGE
(1939-1989)
(in "Poesia")
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IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
FERNANDO DE ROJAS
Celestina - Conjuro-te, triste Plutão, senhor da profundidade
infernal, imperador da corte danada, capitão soberbo dos anjos
condenados, senhor do fogos sulfúricos que o fervente monte Etna
mana, governador e vedor dos tormentos e atormentadores das almas
pecadoras, comandante das três fúrias, Tisifone, Megera e Alecto,
administrador de todas as coisas negras do reino de Estige e Dite,
com todas as suas lagunas, sombras infernais e litigioso caos,
sustentador das harpias voadoras, com toda a restante companhia das
hidras medonhas e pavorosas. Eu, Celestina, a tua mais conhecida
súbdita, conjuro-te pela virtude e força destas letras vermelhas;
pelo sangue daquela ave nocturna com que estão escritas, pela
gravidade destes nomes e signos que neste papel se contêm, pela
áspera peçonha das víboras de que este óleo foi feito, com o qual
unto estes fios; que venhas sem demora obedecer à minha vontade e
envolver-te neles e com eles fiques, sem te afastar um momento, até
que Melibeia, na oportunidade que for preparada, o compre e com ele
de tal modo fique enredada que quanto mais o olhar tanto mais o seu
coração se abrande para conceder o que peço, e o abras e firas com o
cruel e forte amor de Calisto; tanto que, repelida toda a
honestidade, a mim se descubra e premeie os meus passos e a minha
mensagem; e isto feito, pede e dispõe de mim à tua vontade. Se com
pronto movimento não fizeres o que te peço, ter-me-ás por capital
inimiga; ferirei com luz tuas prisões tristes e escuras; denunciarei
cruelmente as tuas contínuas mentiras; oprimirei com as minhas
ásperas palavras o teu nome horrível. E outra vez e outra te
conjuro; e assim, confiando no meu muito poder, parto para lá com os
meus fios, onde creio te levo já envolvido.
FERNANDO DE ROJAS
(1470?-1541)
(Espanha: "A Celestina")
(in "A Celestina";
Tradução de José Bento)
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Um poema inédito
de
José António Gonçalves
EXÍLIO DESTE LUGAR
exílio, voz presa no corpo, esperando o grito para a liberdade.
silêncio na pele, na boca fechada para a ilha deserta, habitada por
um verde seco, negro, por ventos rasteiros, cruéis, comidos pelo
sol, acordado no inverno natural, fervendo de máscaras vivas-rostos
da estranja, comungada de peixe e milho, de apupos pela manhã, nos
olhos dos vilões plantados ao longo dos vales e dos montes,
trabalhada em palavras ou em pastel, no caos da criação, brotando da
violência da imagem serena, adormecida na madeira, fresca,
empresepiada, subindo ofegante as montanhas do seu corpo formoso.
exílio voluntário do som detido na garganta rouca, apagada de
palavras, primitivas, forjadas nos olhos inchados, semi-cerrados,
esmigalhados nas pálpebras queimadas, nos cabelos húmidos da
proximidade do mar. exílio nos lamentos repetidos das ondas, da água
magoada batendo o sal nas rochas, nos punhos fechados, esculpindo no
sangue faces insulares, encardidas, fornicadas pelos bois
sonolentos, embarcando a distância dos continentes, construindo no
âmago dos gestos inesperados, cheirando a sol e a sal, a vinho e ao
amor, no rumor das vagas subindo pela vinha e pelas paredes,
castanhas, deste punhado de terra limado no oceano, fundeado no olor
da agricultura, o sentimento dos homens sós, deixados neste refúgio
do tempo, neste paraíso nado das mulheres chorosas e brancas, nesta
fonte elaborada, caiada nas mãos nascidas no ilhéu, derramando a
seiva, sugada nos braços duros do inconquistado lugar perdido, deste
refúgio extinto dentro de nós - exílio deste lugar crescendo na
língua seca, formando-se no grito abafado, fugindo devagar nos
sopros mansos, crianças sem idade nem língua, escapando-se pelas
frestas dos dentes luminosos dos indígenas calados, debruçados nas
canoas, a ver a lua morrer.
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(inédito.1972.Funchal)