A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

14

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


Basta uma flor;
basta uma asa
para saber que a primavera
entrou em nossa casa.
(in "Vocação do Silêncio - 1950-1985", 1990)

*

O mel no frasco:
exposto, para consumo,
o suor da abelha.

*
Quando uma abelha
se enamora,
nasce uma flor.


Albano Martins


(in "Com as Flores do Salgueiro";
Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas

JORGE DE SENA


CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS


Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós. sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

ESTÃO PODRES AS PALAVRAS....


Estão podres as palavras - de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
E podres de sonâmbulos os povos
ante a maldade à solta de que vivem
a paz quotidiana da injustiça.
Usá-las puras - como serão puras,
se caem no silêncio em que os mais puros
não sabem já onde a limpeza acaba
e a corrupção começa? Como serão puras
se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?
Estão podres: e com elas apodrece a mundo
e se dissolve em lama a criação do homem
que só persiste em todos livremente
onde as palavras fiquem como torres
erguidas sexo de homens entre o céu e a terra.

NOÇÕES DE LINGUÍSTICA


Ouço os meus filhos a falar inglês
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
o português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguez daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na caca quotidiana de outras.

CARTA A MEUS FILHOS

Os Fuzilamentos de Goya


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.


JORGE DE SENA

(1919-1978)

*
Jorge Cândido de Sena nasceu em 2 de Novembro de 1919 em Lisboa. Terminou em 1936 o seu curso de liceu (média de 13 no 5º e 6º anos, média de 14 no 7º ano), ano em que se inscreveu nos preparatórios para a escola naval.a Formou-se em engenharia civil na faculdade de engenharia do Porto (licenciou-se com 13 valores). Até 1959 foi funcionário da Junta Autónoma de Estradas, data em que se exila no Brasil, onde conclui o doutoramento em letras e rege as cadeiras de teoria da literatura e literatura portuguesa na Universidade de Araquara. A partir de 1965 passa a viver nos E.U.A., acompanhado da esposa Mécia de Sena, de quem teve nove filhos, sendo professor catedrático na Universidade de Winsconsin e, posteriormente na Universidade da Califórnia - Sta. Bárbara, onde dirigiu o departamento de literatura portuguesa e espanhola. Recebeu ao longo da sua vida vários prémios, entre eles a Grã-Cruz de Santiago. Faleceu em 4 de Junho de 1978. Três dias depois, a Assembleia da República exprimia pesar unânime, certamente partilhado por todos os que tiveram a honra de o conhecer a si ou à sua obra.

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PITADA DE SAL


o que diz: FERNANDO VENÂNCIO





A linguagem humana é de uma tamanha maleabilidade, uma tamanha capacidade expressiva, que com os meios mais humildes já se conseguem maravilhas. As experiências deverão ser apenas isso: «experiências». São para fazer, não para publicar. Os editores deveriam ter mais coragem, levarem os autores a distinguir entre divertimentos para encher o serão e o autêntico produto literário. É coisa que muitos dos pobres autores não vêem.


*

A literatura light é sobretudo desinteressante. Não pela temática, mas porque lhe falta inventiva e talento. Comparem-se dois livros, ambos sucessos de vendas, A Vida Sexual de Catherine M., de Catherine Millet, e A Casa dos Budas Ditosos, de Ubaldo Ribeiro. Nos dois, uma mulher olha para trás e descreve uma vida de desbunda. Mas que graça, que finura, que malícia, em cada linha de Ubaldo. E que deslavada e pindérica a história de Millet. Os escritores light deviam ser obrigados a estudar os dois livros.

*

A crítica asséptica e «sem dor» que se pratica nas universidades e transborda para os jornais, para além de ser de todo inofensiva, e praticamente inútil, para a criação do «cânone», demite-se também de qualquer papel na orientação do leitor, e aí poderá ter culpa nesse colossal descarrilamento. Mas não alimentemos ilusões. A imensa maioria dos críticos «académicos» não quer, e nem saberia, julgar um livro. E, como não quer e não sabe, diz que julgar é mau.

*

Não seria honesto eu exigir à crítica a libertação total das algemas académicas, não a operando eu próprio. O desconforto nasce de os estudos académicos sobre literatura contemporânea se recusarem a assumir uma intervenção. É que essa intervenção, por fraca que seja, e é verdadeiramente fraca, já lhes sujou as mãos. Mas não. Eles vêem-se a flutuar num espaço de ninguém, ao abrigo de coisas tão triviais, rasteiras, como a apreciação, as opções, as preferências. É isso, a universidade nunca soube integrar o «gosto». Eu tento mostrar que o gosto pode ser racionalizado.




(in "Periférica", 3, Outono 2002,
registo de Rui Ângelo Araújo e Carlos Chaves,
Vila Pouca de Aguiar, Portugal, 2002)


FERNANDO VENÂNCIO

Fernando Venâncio nasceu em Mértola, Portugal, em 1944. Em 1970, fixou-se em Amsterdão, na Holanda, onde se doutorou, em 1995, com a tese "Estilo e preconceito. A língua literária em Portugal na época de Castilho". Escritor, crítico literário e professor de Literatura Portuguesa em algumas Universidades (por exemplo, na Faculdade de Letras de Amsterdão), colabora regularmente nas mais importantes publicações literárias portuguesas, incluindo a Ler, o JL-Jornal de Letras, o semanário Expresso. Publicou alguns livros, entre os quais os ensaios "José Saramago: a luz e o sombreado" (2000), "Objectos Achados - Ensaios Literários" e "Maquinações e Bons Sentimentos" (2002), os romances "Os Esquemas de Fradique" (1999) e "El-Rei no Porto" (2001) e traduções do neerlandês para português de uma antologia de poetas e de uma novela de Gerrit Komrij, "Um Almoço de Negócios em Sintra" (1998).
***


UM POETA DA MADEIRA


CLEMENTE TAVARES



BAÚ


Eu tinha uma mala grande
Onde metia tudo o que era meu
E a mala não levava tudo.

Agora tenho uma mala pequena, de mão,
Onde meto tudo o que tenho
E a mala fica sempre vazia.



E VOU POR AÍ A VER SE ME ENCONTRO


Na porta do guarda-fato há um espelho
que acusa a presença de alguém
dentro do meu quarto.

E eu, como a criança ingénua,
abri a porta do guarda-fato
para ver quem lá estava,
e os seus olhos foram enganados.

Mais uma vez, a ânsia de encontrar-me,
contou, naquele dia, com mais uma derrota.



TRÊS POEMAS A TEIXEIRA DE PASCOAES

1

OSCILO


Nunca acreditei numa pedra do caminho.
Uma árvore, para mim,
foi sempre uma sombra.
os montes foram os monstros
que a vida pôs à minha frente.
As aves nunca cantaram aos meus ouvidos.

Porque eu era essa pedra do caminho,
a árvore da floresta,
o monte da serra,
e a ave do céu.
Porque eu agora já não sou
a pedra do caminho,
nem a árvore da floresta,
nem o monte da serra,
nem a ave do céu.
Oscilo entre a pedra e o caminho
entre a árvore e a floresta,
entre o monte e a serra,
entre a ave e o céu.
Vivo pendurado.
Agora não sei qual será melhor:
ou despenhar-me do monte
e ser pedra,
ou abandonar a árvore
e ser ave.
Ou deixar a ave e entrar no céu.
Porque eu não sei qual será mais fácil,
Nem sei qual será melhor...

2

SECRETÁRIO

Quando eu morrer,
que todos chamem por mim.
Se eu não responder,
escutai alguma árvore,
que então ela responderá por mim.

3

DO SENSO COMUM

As árvores são sempre nossas companheiras.
mas quando nós nos despedimos,
elas é que ficam...
nós é que vamos...


A TUA ESTÁTUA

A estátua que te vou erguer,
será uma árvore que vou
plantar.

Mas uma árvore
que não tenha folhas,

Porque agora vivo no outono
dos dias tristes que vieram
depois que me negaste a tua sombra.




CLEMENTE TAVARES



(in "E a Vida Continua Assim", Poemas da Juventude II,
Depositários: Editorial Inquérito, Lda., Lisboa,
1ª. edição 1959, 2ª. edição, Editorial Eco do Funchal, 2001)



*
José Clemente Tavares (n. Gaula, Santa Cruz, Madeira, 1933), é licenciado em Filosofia pela Universidade de Salamanca (Espanha), tendo sido professor em estabelecimentos e colégios do Ensino Secundário, no Funchal, de Português e História. Leccionou também psicologia e Filosofia, no Liceu Jaime Moniz. Foi eleito Deputado à Assembleia Legislativa Regional, pelo PSD, em 1984, pelo Círculo Eleitoral de Santa Cruz. Ainda estudante universitário publicou "Treze" e "A Vida Continua Assim", tendo ainda publicado algumas obras sob o pseudónimo de Visconde das Águas Mansas. Recentemente reuniu em diversos volumes as suas intervenções no Parlamento Madeirense, assim como vários títulos de poesia, estando alguns outros em preparação, em diversos géneros literários, com realce para "Etimognose. Pensamentário - I; "Pensamentos Falsos de Pensadores Famosos" e "A Verdade e o Erro de Immanuel Kant".


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Um poema inédito

de

José António Gonçalves




AVE DE DOIS BICOS


alumia-me a ida do sopé aos píncaros
da montanha e acompanha-me na solidão

guarda no peito um ramo de flores
brancas alvas como a alma das mães

afasta as heras que me ensombram
os passos e gera a noite do meu descanso

encanta-me o sol com palavras soltas
em honra das cicatrizes do tempo e vai

onde chegares estarei contigo atrás das árvores
no silêncio dos pássaros e na sensatez da chuva

segue em frente e nomeia-me aos peregrinos
com as coordenadas do coração brando

prova que somos forasteiros na fronteira
e deixa-me ficar depois na contemplação do dia

do outro lado morro e temo o biombo da margem:
da bruma virá o novo incêndio em naus de madeira

então alumia-me a ida do sopé aos píncaros
e protege-me com as tuas asas ave de dois bicos

com uma defende-me a liberdade de poder partir
e com a outra a de regressar ao lugar
de onde nunca cheguei a sair





JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES


(inédito.14.03.04.Funchal)

 

Selecção e Montagem: JAG