Basta uma flor;
basta uma asa
para saber que a primavera
entrou em nossa casa.
(in "Vocação do Silêncio - 1950-1985", 1990)
*
O mel no frasco:
exposto, para consumo,
o suor da abelha.
*
Quando uma abelha
se enamora,
nasce uma flor.
Albano Martins
(in "Com as Flores do Salgueiro";
Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
JORGE DE SENA
CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós. sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
ESTÃO PODRES AS PALAVRAS....
Estão podres as palavras - de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
E podres de sonâmbulos os povos
ante a maldade à solta de que vivem
a paz quotidiana da injustiça.
Usá-las puras - como serão puras,
se caem no silêncio em que os mais puros
não sabem já onde a limpeza acaba
e a corrupção começa? Como serão puras
se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?
Estão podres: e com elas apodrece a mundo
e se dissolve em lama a criação do homem
que só persiste em todos livremente
onde as palavras fiquem como torres
erguidas sexo de homens entre o céu e a terra.
NOÇÕES DE LINGUÍSTICA
Ouço os meus filhos a falar inglês
entre eles. Não os mais pequenos só
mas os maiores também e conversando
com os mais pequenos. Não nasceram cá,
todos cresceram tendo nos ouvidos
o português. Mas em inglês conversam,
não apenas serão americanos: dissolveram-se,
dissolvem-se num mar que não é deles.
Venham falar-me dos mistérios da poesia,
das tradições de uma linguagem, de uma raça,
daquilo que se não diz com menos que a experiência
de um povo e de uma língua. Bestas.
As línguas, que duram séculos e mesmo sobrevivem
esquecidas noutras, morrem todos os dias
na gaguez daqueles que as herdaram:
e são tão imortais que meia dúzia de anos
as suprime da boca dissolvida
ao peso de outra raça, outra cultura.
Tão metafísicas, tão intraduzíveis,
que se derretem assim, não nos altos céus,
mas na caca quotidiana de outras.
CARTA A MEUS FILHOS
Os Fuzilamentos de Goya
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
JORGE DE SENA
(1919-1978)
*
Jorge Cândido de Sena nasceu em 2 de Novembro de 1919 em Lisboa.
Terminou em 1936 o seu curso de liceu (média de 13 no 5º e 6º anos,
média de 14 no 7º ano), ano em que se inscreveu nos preparatórios
para a escola naval.a Formou-se em engenharia civil na faculdade de
engenharia do Porto (licenciou-se com 13 valores). Até 1959 foi
funcionário da Junta Autónoma de Estradas, data em que se exila no
Brasil, onde conclui o doutoramento em letras e rege as cadeiras de
teoria da literatura e literatura portuguesa na Universidade de
Araquara. A partir de 1965 passa a viver nos E.U.A., acompanhado da
esposa Mécia de Sena, de quem teve nove filhos, sendo professor
catedrático na Universidade de Winsconsin e, posteriormente na
Universidade da Califórnia - Sta. Bárbara, onde dirigiu o
departamento de literatura portuguesa e espanhola. Recebeu ao longo
da sua vida vários prémios, entre eles a Grã-Cruz de Santiago.
Faleceu em 4 de Junho de 1978. Três dias depois, a Assembleia da
República exprimia pesar unânime, certamente partilhado por todos os
que tiveram a honra de o conhecer a si ou à sua obra.
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PITADA DE SAL
o que diz: FERNANDO VENÂNCIO
A linguagem humana é de uma tamanha maleabilidade, uma tamanha
capacidade expressiva, que com os meios mais humildes já se
conseguem maravilhas. As experiências deverão ser apenas isso:
«experiências». São para fazer, não para publicar. Os editores
deveriam ter mais coragem, levarem os autores a distinguir entre
divertimentos para encher o serão e o autêntico produto literário. É
coisa que muitos dos pobres autores não vêem.
*
A literatura light é sobretudo desinteressante. Não pela temática,
mas porque lhe falta inventiva e talento. Comparem-se dois livros,
ambos sucessos de vendas, A Vida Sexual de Catherine M., de
Catherine Millet, e A Casa dos Budas Ditosos, de Ubaldo Ribeiro. Nos
dois, uma mulher olha para trás e descreve uma vida de desbunda. Mas
que graça, que finura, que malícia, em cada linha de Ubaldo. E que
deslavada e pindérica a história de Millet. Os escritores light
deviam ser obrigados a estudar os dois livros.
*
A crítica asséptica e «sem dor» que se pratica nas universidades e
transborda para os jornais, para além de ser de todo inofensiva, e
praticamente inútil, para a criação do «cânone», demite-se também de
qualquer papel na orientação do leitor, e aí poderá ter culpa nesse
colossal descarrilamento. Mas não alimentemos ilusões. A imensa
maioria dos críticos «académicos» não quer, e nem saberia, julgar um
livro. E, como não quer e não sabe, diz que julgar é mau.
*
Não seria honesto eu exigir à crítica a libertação total das algemas
académicas, não a operando eu próprio. O desconforto nasce de os
estudos académicos sobre literatura contemporânea se recusarem a
assumir uma intervenção. É que essa intervenção, por fraca que seja,
e é verdadeiramente fraca, já lhes sujou as mãos. Mas não. Eles
vêem-se a flutuar num espaço de ninguém, ao abrigo de coisas tão
triviais, rasteiras, como a apreciação, as opções, as preferências.
É isso, a universidade nunca soube integrar o «gosto». Eu tento
mostrar que o gosto pode ser racionalizado.
(in "Periférica", 3, Outono 2002,
registo de Rui Ângelo Araújo e Carlos Chaves,
Vila Pouca de Aguiar, Portugal, 2002)
FERNANDO VENÂNCIO
Fernando Venâncio nasceu em Mértola, Portugal, em 1944. Em 1970,
fixou-se em Amsterdão, na Holanda, onde se doutorou, em 1995, com a
tese "Estilo e preconceito. A língua literária em Portugal na época
de Castilho". Escritor, crítico literário e professor de Literatura
Portuguesa em algumas Universidades (por exemplo, na Faculdade de
Letras de Amsterdão), colabora regularmente nas mais importantes
publicações literárias portuguesas, incluindo a Ler, o JL-Jornal de
Letras, o semanário Expresso. Publicou alguns livros, entre os quais
os ensaios "José Saramago: a luz e o sombreado" (2000), "Objectos
Achados - Ensaios Literários" e "Maquinações e Bons Sentimentos"
(2002), os romances "Os Esquemas de Fradique" (1999) e "El-Rei no
Porto" (2001) e traduções do neerlandês para português de uma
antologia de poetas e de uma novela de Gerrit Komrij, "Um Almoço de
Negócios em Sintra" (1998).
***
UM POETA DA MADEIRA
CLEMENTE TAVARES
BAÚ
Eu tinha uma mala grande
Onde metia tudo o que era meu
E a mala não levava tudo.
Agora tenho uma mala pequena, de mão,
Onde meto tudo o que tenho
E a mala fica sempre vazia.
E VOU POR AÍ A VER SE ME ENCONTRO
Na porta do guarda-fato há um espelho
que acusa a presença de alguém
dentro do meu quarto.
E eu, como a criança ingénua,
abri a porta do guarda-fato
para ver quem lá estava,
e os seus olhos foram enganados.
Mais uma vez, a ânsia de encontrar-me,
contou, naquele dia, com mais uma derrota.
TRÊS POEMAS A TEIXEIRA DE PASCOAES
1
OSCILO
Nunca acreditei numa pedra do caminho.
Uma árvore, para mim,
foi sempre uma sombra.
os montes foram os monstros
que a vida pôs à minha frente.
As aves nunca cantaram aos meus ouvidos.
Porque eu era essa pedra do caminho,
a árvore da floresta,
o monte da serra,
e a ave do céu.
Porque eu agora já não sou
a pedra do caminho,
nem a árvore da floresta,
nem o monte da serra,
nem a ave do céu.
Oscilo entre a pedra e o caminho
entre a árvore e a floresta,
entre o monte e a serra,
entre a ave e o céu.
Vivo pendurado.
Agora não sei qual será melhor:
ou despenhar-me do monte
e ser pedra,
ou abandonar a árvore
e ser ave.
Ou deixar a ave e entrar no céu.
Porque eu não sei qual será mais fácil,
Nem sei qual será melhor...
2
SECRETÁRIO
Quando eu morrer,
que todos chamem por mim.
Se eu não responder,
escutai alguma árvore,
que então ela responderá por mim.
3
DO SENSO COMUM
As árvores são sempre nossas companheiras.
mas quando nós nos despedimos,
elas é que ficam...
nós é que vamos...
A TUA ESTÁTUA
A estátua que te vou erguer,
será uma árvore que vou
plantar.
Mas uma árvore
que não tenha folhas,
Porque agora vivo no outono
dos dias tristes que vieram
depois que me negaste a tua sombra.
CLEMENTE TAVARES
(in "E a Vida Continua Assim", Poemas da Juventude II,
Depositários: Editorial Inquérito, Lda., Lisboa,
1ª. edição 1959, 2ª. edição, Editorial Eco do Funchal, 2001)
*
José Clemente Tavares (n. Gaula, Santa Cruz, Madeira, 1933), é
licenciado em Filosofia pela Universidade de Salamanca (Espanha),
tendo sido professor em estabelecimentos e colégios do Ensino
Secundário, no Funchal, de Português e História. Leccionou também
psicologia e Filosofia, no Liceu Jaime Moniz. Foi eleito Deputado à
Assembleia Legislativa Regional, pelo PSD, em 1984, pelo Círculo
Eleitoral de Santa Cruz. Ainda estudante universitário publicou
"Treze" e "A Vida Continua Assim", tendo ainda publicado algumas
obras sob o pseudónimo de Visconde das Águas Mansas. Recentemente
reuniu em diversos volumes as suas intervenções no Parlamento
Madeirense, assim como vários títulos de poesia, estando alguns
outros em preparação, em diversos géneros literários, com realce
para "Etimognose. Pensamentário - I; "Pensamentos Falsos de
Pensadores Famosos" e "A Verdade e o Erro de Immanuel Kant".
****
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
AVE DE DOIS BICOS
alumia-me a ida do sopé aos píncaros
da montanha e acompanha-me na solidão
guarda no peito um ramo de flores
brancas alvas como a alma das mães
afasta as heras que me ensombram
os passos e gera a noite do meu descanso
encanta-me o sol com palavras soltas
em honra das cicatrizes do tempo e vai
onde chegares estarei contigo atrás das árvores
no silêncio dos pássaros e na sensatez da chuva
segue em frente e nomeia-me aos peregrinos
com as coordenadas do coração brando
prova que somos forasteiros na fronteira
e deixa-me ficar depois na contemplação do dia
do outro lado morro e temo o biombo da margem:
da bruma virá o novo incêndio em naus de madeira
então alumia-me a ida do sopé aos píncaros
e protege-me com as tuas asas ave de dois bicos
com uma defende-me a liberdade de poder partir
e com a outra a de regressar ao lugar
de onde nunca cheguei a sair
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(inédito.14.03.04.Funchal)