A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

16

 
 
 
  
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ALBANO MARTINS


Pirilampos - acrí
licas vozes do sono

("Vocação do Silêncio" - 1950-1985; 1990)

*
Amor-perfeito
lhe chamam, e imperfeito
é até no perfume.

(in "Com as Flores do Salgueiro", 1995)

*
E no limite, soprado
por um vento de pedra,
um papagaio azul.

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992)


Albano Martins


(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernndo Pessoa, 1999)

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Bloco Poético de Notas



JOSÉ BLANC DE PORTUGAL


CAMÕES
Passaste fome,
Dizem alguns que de tua vida comem
Vermes parasitas que vivem de inventar as tuas histórias...
Talvez um dia neles a mutação se opere
Quando os bichos mudem de alimentação e
Passem a roer a tua obra
E não a tua morta vida terreal.

Ah Camões! Luís Vaz, se visses
Como os vermes pastam tua glória!
Por um que ame apenas tua obra
Quantos te inventam a vida passada
P'ra explicar versos que não sentem
Ou sentem tão à epiderme
Que precisam de outra história
Que não a das palavras que escreveste!

Também eu li demais a tua inventada vida:
Tudo quero esquecer p'ra mais lembrar
Que poesia é só a tua glória
Eterna vida é só tua Poesia
E a vida que viveste é morta história.

(in Descompasso, Círculo de Poesia, Nova Série, Lisboa, Moraes Editores, 1986)


Epigramática



Vermes da epigeia somos

Nos poemas doutros astros;

Nem lá novos parecemos...


Como a velha burguesia dos actores

Perdido do teatro o sacro antigo,

Por demónios-animais nos tomam...


Um dia será vulgar pedir

O poeta pobre dois versos emprestados...



MORTE NA NEVE



Na vida em extremo

Nem suplicou...


Um instante mais e,

Olhos parados

Ossos alongados


Um túmulo na terra figurou:

Sem epitáfio,

Sem carpideiras.


Marcas não ficaram

Só repouso:


Nem a cor difere

Igual ao cristal que a terra cobre.



Só montículo insólito abaula

Como ventre pejando a terra sob a neve.






JOSÉ BLANC DE PORTUGAL

(1914-2001)

*

José Bernardino Blanc de Portugal (n. Lisboa, 1914 e f. em 2001). Licenciou-se em Ciências Geológicas pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que lhe concedeu o título de Assistente-extraordinário. Cursou História da Música e Língua e Literatura Árabe, frequentando também cadeiras de Psicologia. Meteorologista da Pan American Airwais passou ao Serviço Meteorológico Nacional onde desempenhou cargos directivos na Sede, Açores, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Representou o país em reuniões técnicas da Organização Mundial de Aviação Civil e da Organização Meteorológica Mundial em que foi vice-presidente da Associação Regional I (África). Nomeado Adido Cultural junto da Embaixada de Portugal em Brasília, pediu exoneração do cargo para assumir a vice-presidência do Instituto da Cultura Portuguesa. Leccionou particularmente, a partir dos quinze anos, todas as cadeiras do curso liceal e algumas universitárias. Foi professor de Integração Cultural e Sociologia da Informação nos cursos de Formação Artística da Sociedade Nacional de Belas Artes. Desde os vinte anos que exerce crítica musical, eventualmente de bailado, sendo actualmente crítico musical do Diário de Notícias. Membro do Conselho das Ordens Nacionais, do Conselho Português da Música e do Conselho Português da Dança filiados nos respectivos Conselhos Internacionais da UNESCO, era Comendador da Ordem do Infante D. Henrique e medalha Oskar Nobiling da Sociedade Brasileira de Língua e Literatura (Mérito Linguístico e Filológico). Fundador dos Cadernos de Poesia, com Rui Cinatti e Tomaz Kim, aos quais, mais tarde, se associaram Jorge de Sena e José Augusto França. Obras – Poesia: Parva Naturalia (Prémio Fernando Pessoa), 1960; O Espaço Prometido, 1960; Odes Pedestres, (Prémio Casa da Imprensa), 1965; Descompasso, 1986; Enéadas, 1959. Prémio do P.E.N. Club Português, pelo livro e pelo conjunto da obra. Ensaio: Anticrítico, 1960; Quatro Novíssimos da Música Actual, 1962. Traduções: de Shakespeare; T.S. Eliot, Christopher Fry, (Teatro); Pratolini, Coccioli, Truman Capote e Fernado Pessoa (The Mad Fiddler). Tem poemas seus traduzidos em (por ordem de publicação) francês, espanhol, inglês, alemão e sueco.

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PITADA DE SAL

o que diz: JÚLIO CÉSAR MONTEIRO MARTINS



Porque começou a escrever?



(Natural de Niterói, 1955, reside em Itália.)


Comecei a escrever os meus primeiros poemas quando houve aqueles massacres dos negros nos Estados Unidos, por volta de 1967. Eu via aquelas notícias na televisão e aquilo me chocava tremendamente, porque, no Brasil, nós temos essa tradição de uma certa democracia racial e meu irmão de criação era negro, o João Carlos. Então eu, pela força da indignação, que era imensa, e na minha impotência de intervir, porque era criança, comecei a escrever poemas contra o racismo. Foram os meus primeiros poemas, ainda de uma forma muito primária, românticos, bastante rimados. Isso foi por volta dos 12 anos de idade. E consegui publicar os meus primeiros poemas, em alguns jornais locais. Aos 17 anos, eu tinha vários amigos músicos. A música popular estava num "boom". Eu seguia esses amigos em vários concertos no interior do Brasil. Um dia, um desses músicos, a quem eu admirava muito, me deu a entender que eu era uma espécie de parasita, que eu não era capaz de criar nada, que eu só servia para carregar os instrumentos. Isso mexeu muito com os meus brios. Eu me perguntei: «O que é que eu sei fazer? O que é que eu realmente sei fazer? Eu acho que eu sei escrever». Ainda em Ouro Preto, nessa mesma cidade em que o grupo se apresentava, escrevi o meu primeiro conto, que logo foi publicado em vários suplementos literários do país. Um ano depois, eu já tinha escrito o meu primeiro livro, Torpalim...


JÚLIO CÉSAR MONTEIRO MARTINS


(in "ESCREVER - Origem, manutenção, Ideologia",
Giovanni Ricciardi, Libreria Universitaria, Bari, 1988)


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UM POETA DA MADEIRA


WILLIAM HENRY CLODE






AZUL



Visão ultrapassada
de um além
que aqui está!

Azul de azuis,
tons fulgurantes,
desejos imaginantes
em cor
que se repete
vezes sem fim...

Azul dos sentidos,
do sabor,
melódico,
do odor,
palpável.

Azul sentido,
vivido,
querido,
sonhado, azul inacabado,
azul em mim!

Janeiro de 1984





QUANDO O TEMPO PAROU...




No instante onde as almas se conheceram,
no plasma universal dos seres sem matéria,

encontrei-me!...
Parara o Tempo...

Na loucura doce do tempo sem Tempo,
num fragmento de Tempo intemporal,
repousei para sempre...

Fevereiro de 1984





DESEJOS




Se os meus poemas
fossem de pedra,
queria-os mais duros que o diamante!
Com eles gravaria distante
o doce e o amargo do ser
onde a vontade,
rutilante,
tem desejos, sem poder.

Fevereiro de 1984.





O LEÃO




Na selva,
é leão.
Na jaula,
é leão.
Morto,
é leão.
O domador
domina o leão,
vivo sim,
morto não!

Fevereiro de 1984.





ENVELHECER




O barro de que sou feito
é cerâmica com vida,
vidrada de mil cores!

Que bela Obra de Arte
desejo construir,
onde as formas não têm contornos
e o espaço que me circunda
é a própria matéria de que sou feito!

Barro? Pó de fantasia? Vidrado de mil cores?
O Ser que não se molda,
embriagado de Energia e ávido de viver,
envelhece,
e não vai morrer!

Julho de 1988.



ESTRELA QUE SOU...


Ondas do meu ser,
expressão contínua do existir...

Fumega o invisível
pulsar da matéria viva
que força à continuidade!

Como eu outros se expressaram
no plasma universal
que regista as ondas
débeis da existência...

Registos de vida
são a perenidade
do fervilhar individual,
ondulação de quem
cintilou o existir,
como as estrelas
que depois de o serem
ainda e sempre o serão!

Agosto de 1991.




WILLIAM HENRY CLODE


(in "Bolhas de Água a Ferver",
Edição: Secretaria Regional do
Turismo e Cultura, Madeira, 1996)



*

William Henry Clode (n. Funchal, 1927). Licenciado em Medicina. Especialista em Radioterapia e Medicina Nuclear, foi Chefe do Serviço Hospitalar do Instituto Português de Oncologia (Lisboa). Com a categoria de Medical Research Associate, esteve durante um ano na Brokheven National Laboratory, nos Estados Unidos da América. Publicou quase uma centena de trabalhos, sobre temas da sua especialidade, em revistas nacionais e estrangeiras. Dedica-se à Poesia e à Pintura. "Bolhas de Água a Ferver" foi editado em 1996, numa iniciativa apoiada pelo também poeta João Carlos Abreu, Secretário Regional do Turismo e Cultura da Madeira.

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POEMÁRIO



Assírio & Alvim



2004



- Canção -



(Tlinkites)




Se eu pudesse morrer como quisesse,
era fácil morrer com uma mulher-loba.
Era doce.



HERBERTO HELDER


(in "Poemas Ameríndios,
poemas mudados para português
por Herberto Helder)

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IMAGINÁRIO



Assírio & Alvim



2004





YUKIO MISHIMA




(...) Lentamente Tsukasaki desabotou a camisa e depois despiu-se com facilidade. Embora devesse ser da mesma cidade que a mãe de Noboru, o seu corpo parecia mais jovem e mais sólido do que o de qualquer homem da terra: devia ter sido vazado no molde dos marinheiros. Os seus ombros largos eram quadrados, como as traves do telhado dum templo, o peito queria romper uma espessa almofada por todo o corpo: a sua carne parecia uma cota de armas que ele pudesse tirar quando queria. Então Noboru, pasmado, viu irromper através dos pêlos espessos do fundo do ventre a lustrosa torre do templo triunfantemente erecta.
Os pêlos do peito espalhavam sombras dispersas sob a luz ténue, ao ritmo da sua respiração; o olhar cintilante, de perigo, não se desprendia da mulher enquanto ela se despia. O luar que iluminava o plano de fundo traçava um veio de ouro a toda a largura dos ombros dele e transformava também em ouro a artéria palpitante do pescoço. Autêntico ouro de carne, de luar e suor lustroso. A sua mãe a levar muito tempo a despir-se. Talvez estivesse a demorar-se propositadamente. (...)



YUKIO MISHIMA


(1925-1970)



(in "O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar",
tradução de Carlos Leite)

 


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Um poema inédito

de

José António Gonçalves





DESPEDI-ME DOS PÁSSAROS



estou indo ao teu encontro

sem parar por dentro do silêncio

que me vai roendo na alma



ontem pensei em ti no ruído

doce da cidade deserta

e despedi-me lentamente dos pássaros



agora não tenho a certeza

de nada nem do tempo mas cá estou

caminhando nas nuvens em direcção a ti



talvez pudesse regressar à partida

rever os papéis as rotas os rostos

e trocar os desgostos pela alegria



dizem-me que esta viagem não é

inocente é o expiar das flores sofridas

por as ter ignorado no meu jardim



serei interrogado de novo exaurido

já pelas questões de consciência

e pouco terei para esclarecer nesta hora



é por isso que temo prosseguir e tanto

ando como me sento à beira do caminho

no desconhecimento da próxima curva



e vou de olhos fechados todos os dias

sem me lembrar do que fica para trás

voltando ao mesmo amanhã: em silêncio



é meio dia ou meia-noite pela noite fora

protegida fica a biblioteca nas mãos das crianças

- eu já disse que me despedi dos pássaros?



JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES



(inédito.16.03.04)





 

Selecção e Montagem: JAG