A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

17

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


Velozes
os cavalos
cavalgam
a fúria do vento.

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992)

*

Soltos ou não - quem pode vê-los -,
de vento são os cabelos.

(in "Vocação do Silêncio - 1950-1985", 1990)

*

Recém-nascida
trémula
lâmpada
volátil

- a noite.


(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1993)


Albano Martins


(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)
 


***

Bloco Poético de Notas


MÁRIO DIONÍSIO



Os Amigos Desconhecidos



Quando ouvi onde ouvi este rosto vulgar e fatigado

estes olhos brilhantes lá no fundo

e este ar abandonado e inconformado

que aproxima?



Quando ouvi esta voz

que se eleva em surdina em meu ouvido e diz

frases tão conhecidas?



Quando foi que senti

estes dedos amigos nos meus dedos

este aperto de mão

tão comovidamente prolongado?



Não somos nós dois homens estranhos que se cruzam

com o mesmo passado

e com a mesma féria?



Ah dois amigos velhos que se encontram

pela primeira vez


(in "As Solicitações e Emboscadas", Líricas Portuguesas, Portugália Editora)



Silenciosa Música do Cosmos




As bocas que estão fechadas
não estão caladas

Os braços que estão caídos
não estão imóveis

E os olhos que estão voltados
não estão sem ver

Homem só homem só
tu bem me compreendes quando digo
que não estás só
e bem entendes bem entendes
este longo discurso enchendo o ar
que vem de toda a parte e vai a toda a parte
eternamente
em surdina


As Solicitações e Emboscadas



Pode-se pintar com óleo
com petróleo
ou aguarrás

Mas pode-se também pintar com lágrimas
silenciosas

No desprezo das horas odiosas
tanto faz



Mil Anos Que Viva



Mil anos que viva não se apaga

a imagem sombria e vacilante

dum homem desconhecido numa esquina

com um lenço na mão manchado de sangue



uma imagem sombria e vacilante

cambaleante no regresso instável

das zonas baças onde o tempo pára

com um lenço na mão manchado de sangue



cambaleante no regresso instável

sem se lembrar da rua onde morou

só com uma ténue sombra do passado

no lenço na mão manchado de sangue



ninguém sabia a sua história

ninguém ouvira a sua voz

de seu só tinha bem pesado

um lenço na mão manchado de sangue



não tinha voz não tinha nome

não tinha pais não tinha amigos

não tinha lar só tinha um lenço

na mão manchado de sangue



(in "O Riso Dissonante", Líricas Portuguesas, Portugália Editora)




(Livro de contos)

MÁRIO DIONÍSIO

(1919-1993)

*
Mário Dionísio, poeta, ensaísta, ficcionista, romancista, artista plástico e crítico de arte teve um papel importante no neo-realismo português, surgindo como um dos principais promotores e teorizadores desta corrente. A sua poesia foi-se progressivamente afastando do neo-realismo uma vez que o autor evoluiu com o tempo e as mudanças estéticas, políticas e sociais, muito embora se tenha afirmado sempre como opositor ao regime do Estado Novo. Obras: Poesia - Poemas, 1941; Riso Dissonante, 1950; Memória Dum Pintor Desconhecido, 1965; Poesia Incompleta, 1935-1965; Le Feu qui Dort, 1967; Terceira Idade, 1982. Ficção - Dia Cinzento, 1944 (contos); Não Há Morte Nem Princípio, 1969. Ensaio - Ficha 14, 1944; Introdução à Pintura, 1963; A Paleta e o Mundo, 1956 (primeiro volume), 1962 ( nova edição em 5 volumes).


***


PITADA DE SAL

o que diz: PERCY B. SHELLEY





DEFESA DA POESIA



(...)
O mais fiel arauto, companheiro e partidário do despertar de um grande povo para operar uma benéfica mudança na opinião ou instituição, é a poesia. Em tais períodos, há uma acumulação de poder de comunicação e recepção de concepções intensas e apaixonantes que respeitam ao homem e à natureza.
As pessoas em quem reside este poder são capazes, frequentemente, no que toca a muitas parcelas da sua natureza, de manter uma escassa correspondência aparente com esse espírito do bem, do qual elas são ministros. Mas até mesmo quando negam e abjuram, elas são, contudo, compelidas a servir a potência que se senta no trono da própria alma.
É impossível ler as composições dos mais celebrados escritores modernos sem nos surpreendermos com a vida electrizante que arde no seio das suas palavras. Eles medem a circunferência e sondam as profundidades da natureza humana com um espírito compreensivo que tudo perscruta, e eles próprios são, talvez, quem mais sinceramente se surpreende com as suas manifestações; pois trata-se menos do seu espírito do que do espírito da época.
Os poetas são os hierofantes de uma inspiração inapreendida; os espelhos das gigantescas sombras que a futuridade lança sobre o presente; as palavras que exprimem o que não compreendem; as trombetas que conduzem à batalha e não sentem o que inspiram; a influência que não é movida, mas move.
Os poetas são os legisladores não reconhecidos do mundo.


PERCY B. SHELLEY

(1792-1822)

(in "Defesa da Poesia", Introdução, Tradução
do inglês e notas de J. Monteiro-Grilo,
Guimarães Editores, 2001)


***

UM POETA DA MADEIRA


MANUEL TOMÁS


«INSULANA»


MACHIM E ANA D'ARFET




Como engolfada em mar, nau duvidosa,
Que combatida de contrários ventos
Na tormenta cruel e procelosa
Não sabe aonda guie seus intentos,
E com temor de gente receosa
Em vão intenta vários pensamentos,
Té que alijando os bens ao mar, alcança
De salvação certíssima esperança,



Assim a bela Arfé, que combatida
De seus parentes e de amor estava,
Em tormenta em que quase vê vencida
A esperança maior que a sustentava,
Duvidosa de achar o bem da vida
Se contrários intentos intentava,
os novos pensamentos de si lança,
Slvando de Machim só a esperança.



Com ela mais de amor novo obrigada,
Lhe pediu que em secreto a visitasse
Antes que perseguida e maltratada
Em contrário poder se sepultasse,
Que posto que está firme e desculpada
Do mal que em dano seu Juno ordenasse,
teme, como quem ama, ver perdida
A vida por quem só sustenta a vida.



Já levava aos antípodas o dia
O carro de Tritão com luz dourada
E tirava do mar a noite fria
A cabeça de estrelas coroada,
Com sono e com silêncio descobria
De que a falta da luz tudo sentindo
Ia a forma das cousas encobrindo,



Quando Machim famoso, que de Marte
Então seguia o amoroso intento,
Apercebido e posto de tal arte
Que se devia a tal atrevimento,
Entra a buscar a glória que reparte,
Glória a seu bem e bem ao pensamento,
Que já por esperar no amor mostrava
Ser Hero de Leandro que aguardava.



Achou o céu de amor triste e mudado
E do Sol claro a pura luz perdida,
O coração de Fénix abrasado
No fogo em que pretende nova vida;
De Cíntia o rosto achou quase eclipsado
E em lágrimas a Aurora convertida,
Que então era em que triste o bem que adora
Céu, Fénix, Cíntia, Sol, Amor e Aurora.



As primeiras razões foram suspiros
Com que os amantes dous se saudaram,
Em tal princípio vigorosos tiros
Que os corações amando ali provaram;
De soluços e penas vários giros
O colóquio primeiro dilataram,
Té que Machim não vendo neles pausa
Assim de tanto mal procura a causa.



Fermosos olhos, cuja luz fermosa
Para ter luz o mesmo Sol procura,
E porque mais no mundo milagrosa
Possa mostrá-la em vossa fermosura,
Que pena tão cruel e rigorosa
Contra tanta beleza se conjura?
Se sempre alegres por meu bem me vistes,
De que estais por meu mal agora tristes?



Qual áspide cruel, que tigre hircana
Entre rosas ofende a pura neve
Desse angélico rosto, donde emana
Quanta glória no mundo a amor se deve?
Anfisibena vil, víbora humana
Deve de ser, que compaixão não teve,
de ver chorar ao Sol resplandecente,
Ou devera nscer na Líbia ardente.



Que causa há de temor tão poderosa
Que seu prazer alegre ponha em calma?
Que prive desse dol a luz fermosa
Que de tantas estrelas leva a palma?
Se a fortuna, do bem sempre invejosa,
Obstáculos de penas te põe n'alma
E quer que possa em ti mais tristeza
Do que o prazer que é teu por natureza.



Por aqui, meu bem, me tens enternecido
Pera dar qual pelicano amoroso
No aberto peito desse amor ferido,
Por ti o vital sangue venturoso,
A remediar-te venho oferecido,
Seja o trabalho humilde ou prodigioso,
Que nem os grandes Hércules na fama
Os intentos impedem de quem ama.



As penas que Ixião por atrevido
Entre serpes padece voltas dando,
As que Tício, no Érebo punido,
Das aves que famintas vão cevando,
As que com pedra Sísifo subido
No monte, por falar, anda pagando,
Não penas para mim serão notórias
Mas sofrida por ti me serão glórias.

CANTO II, 28 a 39.



(in "Poemas Narrativos Portugueses",
Comentários, Enumeração e Excertos de
Cabral do Nascimento,
Minerva, Lisboa, 1949)


MANUEL TOMÁS

(1585-1655)


*

Manuel Tomás (1585, Guimarães- 1665, Madeira)escreveu o poema épico, ao estilo de Luiz Vaz de Camões, "Insulana" (publicada em Antuérpia, em 1635), com o intuito de cantar em verso a lenda da descoberta da Madeira (redescoberta por Gonçalves Zarco em 1419) pelo casal de amantes ingleses Machim e Ana D'Arfet. Sendo comum que o poeta teria morrido assassinado, há a prática certeza de que a sua poética era apreciada por D. Francisco Manuel de Melo, tendo beneficiado de ocasião de ver a sua obra publicada na capital portuguesa e até no estrangeiro. Impressionado pela escrita camoniana, compôs ainda em oitava rima "Vida de S. Tomás de Aquino (Lisboa, 1926). Outros tos seus títulos são "Rimas Sacras Dedicadas a Todos os Santos (Antuérpia, 1635), "O Fénix da Lusitânia ou Aclamação do Sereníssimo Rei D. João IV" (Ruão, 1649), e os romances "União Sacramental" (Ruão, 1650) e "Tesouro de Virtudes" (Antuérpia, 1661). Deixou inéditos vários vilancetes, canções, romances, cinco comédias, para além dos quatro autos sacramentais "Panegírico em Louvor da Rainha da Suécia Cristina Alexandra, Abraçando a Fé Católica, Solidão de Nossa Senhora Descrita em 650 Interrogações Filosóficas.


***




POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004


TONINO GUERRA



FOLHAS DE CEREJEIRA

A André Tarkovsky



Por cima de Casteldeci há uma igreja sem tecto e as paredes têm entre os braços uma cerejeira que cresceu no chão e cujos ramos tocam o céu.
Em Abril floresce e a brancura desliza da árvore até ao fundo do vale, depois nascem os frutos e comem-nos os melros e os pássaros bravos; entretanto as folhas ficam vermelhas e uma de cada vez caem ao chão.
Se alguém assoma àquelas paredes com o desejo de pedir um milagre e há uma folha que cai nesse momento é sinal que de lá de cima terá uma resposta boa.
Tarkovsky passou lá em Novembro e precisava de fazer um pedido grande, mas as folhas já tinham caído todas e serviam de cama a duas ovelhas que dormiam.



TONINO GUERRA

(1920)

(in "O Livro das Igrejas Abandonadas",
Tradução de José Colaço Barreiros)



***



IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004



NIKOLAI GÓGOL




«O Ópio...»



(...)
- Para que queres o ópio? - perguntou.
Piskariov contou-lhe que sofria de insónias.
- Está bem, ópio dou-te, e beldade tu desenha. Uma boa beldade! Preta sobrancelha, olho grande de azeitona; e eu própria deitada ao dela dela fuma cachimba! Ouviste? Que seja boa! Que seja beldade!
Piskariov prometeu. O persa saiu e voltou com um frasquinho cheio de um líquido escuro, verteu cuidadosamente uma parte para outro frasco e deu-o a Piskariov, avisando que não utilizasse mais do que sete gotas de cada vez, diluídas em água. O pintor agarrou avidamente no frasco precioso que não cederia nem por um montão de ouro, e correu a sete pés para casa.
Em casa, pôs várias gotas num copo de água, engoliu tudo e deitou-se a dormir. (...)



NICOLAI GÓGOL

(1809-1852)


"in ""Avenida Névski", Tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)



****


Um poema inédito

de

José António Gonçalves






A HORA DA CHEGADA DA POESIA





não conseguirei

jamais saber

a que horas a poesia chega

para me preparar

convenientemente

para recebê-la



se houvesse uma maneira de saber

a que horas a poesia chega

eu ensinava-a nas escolas

e pedia aos alunos

e aos professores

para escreverem na palma das mãos

sobretudo a hora

porque a poesia nesse momento

visitaria a sala de aulas

voando por sobre as nossas cabeças

e nós desejaríamos que ela

jamais fosse embora



existe uma forma de adivinhar

a hora da visita da poesia

aos campos de flores

e às estradas usadas

por crianças e por soldados

ou às igrejas e às cidades

onde os poemas são dados

a quem os querendo tanto

se esquece do sofrimento da espera

e os guarda dentro de si

em livros tão gastos tão velhos

que devem ter origem noutros povos

e se destinam a outra era

a um tempo que decerto existe

à vista de todos

por aí



basta que se peça ao papel branco

para nos dar a poesia que nele se esconde

e gentilmente ficarmos à espera da ocasião

em que tudo se revelará

perante os nossos olhos

ainda estonteados de esperança

no ansiar por esse momento

de deslumbramento



e é então que a poesia chega

um pouco antes

ou mesmo muito depois

da hora prevista

e risca palavras soltas nas folhas de papel

e alcança o branco da cal nas paredes

e vai por esse mundo fora

pinta o sol com tinta Quink

e agasalha-se à sombra do luar

isto porque à poesia

são sempre garantidas

todas as hipóteses de ser ela própria

a escolher o lugar onde descansa



agora vou confessar o meu

segredo de poeta

que oculto a toda a gente

desde os meus dias de criança:

é que se a poesia hoje

chegar até minha casa

eu não vou estar lá à espera dela

nem estarei em qualquer outro lugar

porque à hora a que ela me chega

estarei eu procurando por ela



no lugar onde ela descansa

estarei congeminando

se nesse deslumbre

sou eu quem busca pelo remanso

doutro papel branco que seja meu

vestindo um pedaço de céu

ou um punhado de terra



e então

para minha própria surpresa

saberei a hora a que a poesia me visita

e em que lugar ela encerra

o poema que sempre foi meu



e nele finalmente

composto o calendário

trazendo tudo do passado

para a leitura do presente

eu me deito e descanso

como se sempre tivesse estado

de tudo isto ausente







José António Gonçalves



(20.01.04.inédito)





 

Selecção e Montagem: JAG