A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

18

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS

Pálpebras
verdes
fechadas
sobre a íris
das águas.

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992)

*


Cisnes
de prata
lavram
a sombra
do arco-íris.

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1993)



Dorme. Sobre ti vela um dossel de flores de rododendro. Descem ainda das colinas - repara - as abelhas. Há um cortiço em cada gesto, em cada palavra. Poeira de abelhas, os teus olhos, os teus gestos. A boca. Dorme.
Rodomel. Rododendro.

(in "Rodomel Rododendro", 1989)


Albano Martins


(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas

(Romancista e também poeta)

JOÃO DE MELO


ESTE POVO DA ILHA


Este o povo que nasceu no mar. Veio-lhe o sangue
do sal. Suas veias boiaram outrora
entre cabeleiras de algas e fungos de basalto.
Abriu-se-lhe a boca no remoto esquecimento
dos búzios. Memória são as conchas desertas
o calhau rolado arenoso silêncio sobre rocha.

Gerado talvez entre o grito enfermo das baleias
e o rasto dos navios. Pois este o povo
se (re)conhece entre areia e mar
no preciso instante em que a pedra
e o corpo se tocam e amam
a água

E por isso os peixes
nos atravessam os olhos
a nado

Viajam entre nós e a certeza
do corpo.
(in "Navegação da Terra")






2 INÉDITOS




NO REGRESSO DA AMÉRICA


Eu cantarei de amor a pintura a América o Novo Mundo
Whtiman a poesia a glória e a ventura do que vi: a
Evidência da cor o azul do mapa o arco-íris a Via
Láctea para o alto do sonho e do volátil fumo.

Mas agora o regresso à origem, à fonte e ao sinal
Primeiro de vida. Vim para redimir o ouro e o mito
Aclarar a voz cantar a terra o princípio e a água.
E preparar-me como se para o silêncio e o granito.

Não serei de mais nenhum lugar, só do esquecimento
De tudo. Pois deixei para trás os nomes as cidades
As luas e as casas de ruas que ainda eram moradas.
Sentado na erva. Erva cama vinho (c)idades do vento.

Há um tormento e um logro em mim. Diz-me adeus
O desejo e dá-me um beijo de pranto à despedida.
Passar comigo o horizonte definitivo da vida
Não é estar longe nem ficar perto dos meus:

É singrar na água fecunda erguer o gesto o rosto,
Pensar que morri sorrindo no coração da mulher
E das crianças. Aqui a civilização é um desgosto.
A barbárie é um delito ainda pior se Deus quiser.

(1993)



POEMA DA MULHER


Amo a beleza clara e justa da mulher.
Amo o que nela arde a sua pele serena
o corpo liso a cabeça pousada na mão.
Amo o sorriso por vezes triste o modo
como me olha entre a dúvida e o amor.
Sobretudo amo-a por a ouvir dizer-me
olá e depois é como se a voz abrisse um
caminho entre a minha e a vida dela.
Então tudo em mim lhe comunica um mundo
que estando do lado de cá passa para
o centro dela e fica dentro da sua alma.
Amo-a afinal toda e inteira e desperta
ou adormecida no íntimo do continente
ou na parte mais alta de qualquer ilha.
A mulher que eu amo é um ser de partida
que de vez em quando regressa à minha mão.
Ela não sabe mas há em mim uma maneira
de ir com ela e uma outra de a esperar.
Parto no navio alto e branco do seu ser
espero-a à chegada do vento que a anuncia
presente sentada na bainha da minha alma.

(1998)

JOÃO DE MELO

(Os dois poemas inéditos de João de Melo fazem parte do volume
colectâneo "Ilhas Atlânticas - Antologia Contemporânea de Poetas
de Língua Portuguesa - Madeira, Açores e Cabo Verde", com organização,
prefácio & notas de José António Gonçalves, 1999, ACIA e Departamento
de Cultura da Câmara Municipal do Funchal - a aguardar edição)


(O "best-seller" de
João de Melo)

*
João de Melo nasceu a 4 de Fevereiro de 1949, em Achadinha, S. Miguel, Açores. Em 1960 foi estudar para o Continente, em regime de internato gratuito e acabou por fixar-se em Lisboa. Foi mobilizado para Angola como furriel enfermeiro e aí permaneceu entre 1971 e 1974. Posteriormente, trabalhando e estudando, foi técnico sindical, aluno e monitor da Faculdade de Letras de Lisboa, director editorial, crítico literário e colaborador da imprensa cultural. Licenciou-se em Românicas em 1981. Em resultado da sua obra já recebeu diversos galardões literários entre eles o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Obras: (Ficção) Histórias da Resistência. (contos) Lisboa: Prelo, 1975.; A Memória de Ver Matar e Morrer. (romance) Lisboa: Prelo, 1977.; O Meu Mundo Não é Deste Reino (romance) Lisboa: Assírio & Alvim, 1983; 6ª ed. D. Quixote, 1989, 1998; Autópsia de um Mar de Ruínas. (romance) Lisboa: Assírio & Alvim , 1984; 4ª ed. D. Quixote, 1992, 1997; Entre Pássaro e Anjo. (contos) Lisboa: Círculo de Leitores, 1987; 3ª ed. D. Quixote, 1993; Gente Feliz com Lágrimas. (romance) Lisboa: D. Quixote 1988; 13ª ed.1995 ; Bem-Aventuranças. (contos) Lisboa: D. Quixote, 1992; 2ª ed. 1992; O Homem Suspenso. (romance) Lisboa: D. Quixote, 1996; 2ª ed. Círculo de Leitores, 1997; (Poesia) : Navegação da Terra, Lisboa, Vega, 1980; (Ensaio) A Produção Literária Açoriana nos Últimos 10 Anos (1968 / 78). Lisboa: Fund. C. Gulbenkian , 1979.Toda e Qualquer Escrita. Lisboa: Vega, 1982; 2ª ed. 1996.Há ou Não Uma Literatura Açoriana?. Separata da revista Vértice, 1982; (Viagens): Açores, o Segredo das Ilhas. Lisboa: D. Quixote, 2000.; (Crónicas): Dicionário de Paixões. Lisboa: D. Quixote, 1994; 2ª ed. Círculo de Leitores, 1996; (Antologias): Antologia Panorâmica do Conto Açoriano. Lisboa: Vega, 1978 e Os Anos da Guerra (2 vols.). Lisboa: Círculo de Leitores / D. Quixote, 1988. Note-se que o seu romance "Gente Feliz Com Lágrimas", best-seller recentemente incluído na colecção "Mil Folhas" do "Público", com uma edição de cem mil exemplares, foi traduzido e publicado em francês, castelhano, neerlandês e romeno.
***

PITADA DE SAL


o que diz:

RAINER MARIA RILKE



(Rilke correspondeu-se com um
candidato a poeta, Franz Xaver
Kappus, do que resultou um livro)


Cartas a um Poeta


(...)
Sempre fui alheio a qualquer preocupação crítica. Para penetrar uma obra de arte, nada, aliás, pior do que as palavras da crítica, que apenas conduzem a mal-entendidos mais ou menos felizes. Nem tudo se pode aprender ou dizer, como nos querem fazer acreditar. Quase tudo o que acontece é inexprimível e se passa numa região que a palavra jamais atingiu. E nada mais difícil de exprimir do que as obras de arte - seres vivos e secretos cuja vida imortal acompanha a nossa vida efémera.
Dito isto, apenas posso acrescentar que os seus versos não revelam uma maneira sua. Contêm, é certo, germes de personalidade, mas ainda tímidos e escondidos. Senti-o, sobretudo, no seu último poema: A Minha Alma. Neste poema, qualquer coisa de pessoal procura encontrar solução e forma. E em toda a bela poesia A Leopardi se sente uma espécie de parentesco com este príncipe, este solitário. Contudo os seus poemas não têm existência própria, independência, nem mesmo o último, nem mesmo o que é dedicado a Leopardi. (...)
Pergunta-me se os seus versos são bons. Pergunta-mo a mim - depois de o ter perguntado a vários. Manda-os para as revistas. Compara-os a outros poemas e alarma-se quando certas redacções afastam os seus ensaios poéticos. De ora avante (visto que me permite aconselhá-lo), peço-lhe que renuncie a tudo isso. O seu olhar está voltado para fora: eis o que não deve tornar a acontecer. Ninguém pode aconselhá-lo nem ajudá-lo - ninguém! Há só um caminho: entre em si próprio e procure a necessidade que o faz escrever. Veja se esta necessidade tem raízes no mais profundo do seu coração. Confesse-se a fundo: «Morreria se não me fosse permitido escrever?» - Examine-se a fundo até encontrar a mais profunda resposta. Se esta resposta for afirmativa, se puder fazer face a uma tão grave interrogação com um forte e simples «Devo», então construa a sua vida segundo esta necessidade. A sua vida, mesmo na hora mais indiferente, mais vazia, deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Então aproxime-se da Natureza. Experimente dizer, como se fosse o primeiro homem, o que vê, o que vive, o que ama, o que perde. Não escreva poemas de amor. Evite, de princípio, os temas demasiado correntes; são os mais difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, por vezes brilhantes, se apresentam em grande número, o poeta só pode fazer obra pessoal na maturação da sua força. Fuja dos grandes assuntos e aproveite os que o dia-a-dia lhe oferece. Diga as suas tristezas e os seus desejos, os pensamentos que o afloram, a sua fé na beleza. Diga tudo isto com uma sinceridade íntima, calma e humilde. Utilize, para se exprimir, as coisas que o rodeiam e as imagens dos seus sonhos, os objectos das suas recordações. Se o quotidiano lhe parecer pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser bastante poeta para conseguir apropriar-se das suas riquezas. Para o criador nada é pobre, não há sítios pobres, indiferentes. Mesmo numa prisão cujas paredes abafassem todos os ruídos do Mundo, não lhe restaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa magnífica riqueza, esse tesouro de recordações? Oriente nesse sentido o seu espírito. Tente fazer voltar à superfície as impressões submersas deste vasto passado. (...)



(A obra foi traduzida para o português e
introduzida pela poetisa Fernanda de Castro)

RAINER-MARIA RILKE
(Praga, 1875; Suiça, 1926)

(in "Cartas a um Poeta", Tradução de Fernanda
de Castro, Portugália Editora, 1971)

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UM POETA DA MADEIRA


LÍLIA MATA



5 inéditos



Terra



Num punhado de terra

está guardado

o segredo.

O mistério

da minha paz.

Todo

o meu equilíbro interior

está dentro

de um punhado de terra.

Mexer na terra

revoltá-la, cheirá-la

pôr-lhe dentro do coração uma planta.

Depois regá-la

olhá-la longamente

ou talvez de relance.

Contemplá-la todas as manhãs

tocá-la ao entardecer,

de regresso a casa.

Tirar-lhe as ervas,

aconchegá-la

como se faz ao cobertor de uma criança.

Apenas isto.

Só quero isto para ser feliz.

Mas vou sendo já,

antecipadamente.

Quem dera que fosse tudo assim!

O mundo giraria melhor:

devagar e certo

como no ditado preferido

da minha avó.



(s.d.)





Medo




Tenho medo

De não ter medo.

Medo de deixar de ter

Esta ânsia medonha

Que me obriga a viver.



Tenho medo

De um dia perder

O meu sonho invisível

Do tamanho de tudo.



Tenho medo

De deixar de sentir

A vertigem de voar sem asas

E de andar sempre, sempre

À procura de mim.



Tenho medo

De morrer

Sem ter partido e ficado

Eternamente aqui.



(08.11.89)



Pequeno-Grande





Grande

É tudo o que

Mal se vê.



É grande,

Imenso,

O Sonho.



Os medos

São grandes.



Grande é

O meu Amor.



(10.02.00)






Estamos enganados.

Tudo o que parece

Ser grande

Não é.

Pequeno, afinal.

Visto de outro lado,

É tudo quase nada.

A vida é pequena

Depois de passar.



(10.02.2000)






Gente.

Barulho, carros.

Gente, cimento.

Barulho.

Máquinas, gente, máquinas.



Quis fugir.



Estava presa.



Cimento, grades, cimento.

Gente, barulho, máquinas, carros.



Sentei-me

Dentro do feio

Para morrer.



Não consegui.



No último minuto,

Olhei para cima.

Vi um Sorriso.



(27.02.2000)



*



Lília Mata, (n. Caniço, Santa Cruz, Madeira, 1967), iniciou a sua carreira profissional de jornalista no "Diário de Notícias" do Funchal (1987), integrando depois (1989) os quadros do Centro Regional da RDP-Madeira. Colaborou, entretanto, com revistas e jornais, na sua vertente literária ("Tribuna da Madeira", "Islenha", "Margem"). Ao longo da sua actividade como escritora tem conquistado vários prémios, com realce para o da Câmara Municipal "Cidade do Funchal/Edmundo de Bettencourt" (1997), atribuído ao seu manuscrito "Histórias de Bertoldinho" (1998) e "Escritor Dr. Horácio Bento de Gouveia" a "Contos de Embarcar" (Ed. Arguim.Madeira, 2002), da Câmara MUnicipal de S. Vicente, assim como em concursos da internet, dentro e fora do país. A sua poesia ainda não foi reunida em opúsculo, mantendo-se inédita.





***



POEMÁRIO


Assírio & Alvim


2004




STÉPHANNE MALLARMÉ





BRISA MARINHA




Triste carne, ai de mim! Já li os livros todos.



Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modo



De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus!



Nada, nem os jardins espalhados nos meus



Olhos, o coração retém quase afogado,



Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade



No branco do papel que o vazio rejeita



E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita.



Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga



As amarras, demanda outra exótica plaga!



Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,



Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!



E ralvez que esses mastros atraindo os presságios



Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios



Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus...



Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!





STÉPHANNE MALLARMÉ


(1848-1898)



(in "Stéphanne Mallarmé - Poemas

Lidos por Fernando Pessoa",

Tradução de José Augusto Seabra)






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IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004



HEINRICH ZIMMER





(...) Enquanto símbolo da energia criadora masculina, o linga é frequentemente combinado com o símbolo primário da energia criadora feminina, a yoni, que forma a base da imagem de cujo centro o primeiro se eleva. Esta serve como representação da união criadora que gera e mantém a vida do universo. Linga e yoni, Siva e a sua deusa, simbolizam as forças antagónicas, embora cooperantes, dos sexos. O seu Matrimónio Sagrado (em grego: hieròs-gámos) é figurado de maneiras muito diferentes nas várias tradições da mitologia mundial. São os pais arquétipos, o Pai e a Mãe do Mundo, os próprios primogénitos dos pares opostos, a primeira bifurcação da realidade cosmogónica primordial, agora reunida em harmonia produtiva. Sob a forma de Pai-Céu e Mãe-Terra, eram conhecidos pelos gregos como Zeus e Hera, Urano e Gaia, e pelos chineses como Tien e Ti, Yang e Yin. (...)





HEINRICH ZIMMER



(1890-1943)



(in "Mitos e Símbolos na Arte e Civilização Indianas",

Tradução de Manuel João Ramos e Ana vasconcelos e Melo)



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Um poema inédito

de

José António Gonçalves





AS PERGUNTAS, MEU AMOR





as perguntas que nunca farei

penduram-se nos galhos da anoneira

guardadas para o tempo da colheita



porque é que Kappus aconselhado

por Rilke em dezenas de cartas

nunca chegou a bom poeta




o que escondia de daVinci o sorriso

melancólico e arguto de Mona Lisa

plantado no centro do seu olhar



e o que fez Mallarmé com o ptix

senão rimá-lo com Phoenix e onix

esquecido de lhe descobrir um lugar




porque não gritou Moisés ao martelo

de Miguel Ângelo e para onde aponta

o David na sua brancura marmórea




e como fazer novas guerras amanhã

para repôr a velha paz de anteontem

sem reunir tudo na mesma história?





ah, como me delicio na sombra da anoneira

pensando em perguntas, meu doce amor,

para esconder-te em silêncio na segunda-feira





José António Gonçalves

(inédito.18.03.04)

 

Selecção e Montagem: JAG