Pálpebras
verdes
fechadas
sobre a íris
das águas.
(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992)
*
Cisnes
de prata
lavram
a sombra
do arco-íris.
(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1993)
Dorme. Sobre ti vela um dossel de flores de rododendro. Descem ainda
das colinas - repara - as abelhas. Há um cortiço em cada gesto, em
cada palavra. Poeira de abelhas, os teus olhos, os teus gestos. A
boca. Dorme.
Rodomel. Rododendro.
(in "Rodomel Rododendro", 1989)
Albano Martins
(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
(Romancista e também poeta)
JOÃO DE MELO
ESTE POVO DA ILHA
Este o povo que nasceu no mar. Veio-lhe o sangue
do sal. Suas veias boiaram outrora
entre cabeleiras de algas e fungos de basalto.
Abriu-se-lhe a boca no remoto esquecimento
dos búzios. Memória são as conchas desertas
o calhau rolado arenoso silêncio sobre rocha.
Gerado talvez entre o grito enfermo das baleias
e o rasto dos navios. Pois este o povo
se (re)conhece entre areia e mar
no preciso instante em que a pedra
e o corpo se tocam e amam
a água
E por isso os peixes
nos atravessam os olhos
a nado
Viajam entre nós e a certeza
do corpo.
(in "Navegação da Terra")
2 INÉDITOS
NO REGRESSO DA AMÉRICA
Eu cantarei de amor a pintura a América o Novo Mundo
Whtiman a poesia a glória e a ventura do que vi: a
Evidência da cor o azul do mapa o arco-íris a Via
Láctea para o alto do sonho e do volátil fumo.
Mas agora o regresso à origem, à fonte e ao sinal
Primeiro de vida. Vim para redimir o ouro e o mito
Aclarar a voz cantar a terra o princípio e a água.
E preparar-me como se para o silêncio e o granito.
Não serei de mais nenhum lugar, só do esquecimento
De tudo. Pois deixei para trás os nomes as cidades
As luas e as casas de ruas que ainda eram moradas.
Sentado na erva. Erva cama vinho (c)idades do vento.
Há um tormento e um logro em mim. Diz-me adeus
O desejo e dá-me um beijo de pranto à despedida.
Passar comigo o horizonte definitivo da vida
Não é estar longe nem ficar perto dos meus:
É singrar na água fecunda erguer o gesto o rosto,
Pensar que morri sorrindo no coração da mulher
E das crianças. Aqui a civilização é um desgosto.
A barbárie é um delito ainda pior se Deus quiser.
(1993)
POEMA DA MULHER
Amo a beleza clara e justa da mulher.
Amo o que nela arde a sua pele serena
o corpo liso a cabeça pousada na mão.
Amo o sorriso por vezes triste o modo
como me olha entre a dúvida e o amor.
Sobretudo amo-a por a ouvir dizer-me
olá e depois é como se a voz abrisse um
caminho entre a minha e a vida dela.
Então tudo em mim lhe comunica um mundo
que estando do lado de cá passa para
o centro dela e fica dentro da sua alma.
Amo-a afinal toda e inteira e desperta
ou adormecida no íntimo do continente
ou na parte mais alta de qualquer ilha.
A mulher que eu amo é um ser de partida
que de vez em quando regressa à minha mão.
Ela não sabe mas há em mim uma maneira
de ir com ela e uma outra de a esperar.
Parto no navio alto e branco do seu ser
espero-a à chegada do vento que a anuncia
presente sentada na bainha da minha alma.
(1998)
JOÃO DE MELO
(Os dois poemas inéditos de João de Melo fazem parte do volume
colectâneo "Ilhas Atlânticas - Antologia Contemporânea de Poetas
de Língua Portuguesa - Madeira, Açores e Cabo Verde", com
organização,
prefácio & notas de José António Gonçalves, 1999, ACIA e
Departamento
de Cultura da Câmara Municipal do Funchal - a aguardar edição)
(O "best-seller" de
João de Melo)
*
João de Melo nasceu a 4 de Fevereiro de 1949, em Achadinha, S.
Miguel, Açores. Em 1960 foi estudar para o Continente, em regime de
internato gratuito e acabou por fixar-se em Lisboa. Foi mobilizado
para Angola como furriel enfermeiro e aí permaneceu entre 1971 e
1974. Posteriormente, trabalhando e estudando, foi técnico sindical,
aluno e monitor da Faculdade de Letras de Lisboa, director
editorial, crítico literário e colaborador da imprensa cultural.
Licenciou-se em Românicas em 1981. Em resultado da sua obra já
recebeu diversos galardões literários entre eles o Grande Prémio de
Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Obras:
(Ficção) Histórias da Resistência. (contos) Lisboa: Prelo, 1975.; A
Memória de Ver Matar e Morrer. (romance) Lisboa: Prelo, 1977.; O Meu
Mundo Não é Deste Reino (romance) Lisboa: Assírio & Alvim, 1983; 6ª
ed. D. Quixote, 1989, 1998; Autópsia de um Mar de Ruínas. (romance)
Lisboa: Assírio & Alvim , 1984; 4ª ed. D. Quixote, 1992, 1997; Entre
Pássaro e Anjo. (contos) Lisboa: Círculo de Leitores, 1987; 3ª ed.
D. Quixote, 1993; Gente Feliz com Lágrimas. (romance) Lisboa: D.
Quixote 1988; 13ª ed.1995 ; Bem-Aventuranças. (contos) Lisboa: D.
Quixote, 1992; 2ª ed. 1992; O Homem Suspenso. (romance) Lisboa: D.
Quixote, 1996; 2ª ed. Círculo de Leitores, 1997; (Poesia) :
Navegação da Terra, Lisboa, Vega, 1980; (Ensaio) A Produção
Literária Açoriana nos Últimos 10 Anos (1968 / 78). Lisboa: Fund. C.
Gulbenkian , 1979.Toda e Qualquer Escrita. Lisboa: Vega, 1982; 2ª
ed. 1996.Há ou Não Uma Literatura Açoriana?. Separata da revista
Vértice, 1982; (Viagens): Açores, o Segredo das Ilhas. Lisboa: D.
Quixote, 2000.; (Crónicas): Dicionário de Paixões. Lisboa: D.
Quixote, 1994; 2ª ed. Círculo de Leitores, 1996; (Antologias):
Antologia Panorâmica do Conto Açoriano. Lisboa: Vega, 1978 e Os Anos
da Guerra (2 vols.). Lisboa: Círculo de Leitores / D. Quixote, 1988.
Note-se que o seu romance "Gente Feliz Com Lágrimas", best-seller
recentemente incluído na colecção "Mil Folhas" do "Público", com uma
edição de cem mil exemplares, foi traduzido e publicado em francês,
castelhano, neerlandês e romeno.
***
PITADA DE SAL
o que diz:
RAINER MARIA RILKE
(Rilke correspondeu-se com um
candidato a poeta, Franz Xaver
Kappus, do que resultou um livro)
Cartas a um Poeta
(...)
Sempre fui alheio a qualquer preocupação crítica. Para penetrar uma
obra de arte, nada, aliás, pior do que as palavras da crítica, que
apenas conduzem a mal-entendidos mais ou menos felizes. Nem tudo se
pode aprender ou dizer, como nos querem fazer acreditar. Quase tudo
o que acontece é inexprimível e se passa numa região que a palavra
jamais atingiu. E nada mais difícil de exprimir do que as obras de
arte - seres vivos e secretos cuja vida imortal acompanha a nossa
vida efémera.
Dito isto, apenas posso acrescentar que os seus versos não revelam
uma maneira sua. Contêm, é certo, germes de personalidade, mas ainda
tímidos e escondidos. Senti-o, sobretudo, no seu último poema: A
Minha Alma. Neste poema, qualquer coisa de pessoal procura encontrar
solução e forma. E em toda a bela poesia A Leopardi se sente uma
espécie de parentesco com este príncipe, este solitário. Contudo os
seus poemas não têm existência própria, independência, nem mesmo o
último, nem mesmo o que é dedicado a Leopardi. (...)
Pergunta-me se os seus versos são bons. Pergunta-mo a mim - depois
de o ter perguntado a vários. Manda-os para as revistas. Compara-os
a outros poemas e alarma-se quando certas redacções afastam os seus
ensaios poéticos. De ora avante (visto que me permite aconselhá-lo),
peço-lhe que renuncie a tudo isso. O seu olhar está voltado para
fora: eis o que não deve tornar a acontecer. Ninguém pode
aconselhá-lo nem ajudá-lo - ninguém! Há só um caminho: entre em si
próprio e procure a necessidade que o faz escrever. Veja se esta
necessidade tem raízes no mais profundo do seu coração. Confesse-se
a fundo: «Morreria se não me fosse permitido escrever?» - Examine-se
a fundo até encontrar a mais profunda resposta. Se esta resposta for
afirmativa, se puder fazer face a uma tão grave interrogação com um
forte e simples «Devo», então construa a sua vida segundo esta
necessidade. A sua vida, mesmo na hora mais indiferente, mais vazia,
deve tornar-se sinal e testemunho de tal impulso. Então aproxime-se
da Natureza. Experimente dizer, como se fosse o primeiro homem, o
que vê, o que vive, o que ama, o que perde. Não escreva poemas de
amor. Evite, de princípio, os temas demasiado correntes; são os mais
difíceis. Nos assuntos em que tradições seguras, por vezes
brilhantes, se apresentam em grande número, o poeta só pode fazer
obra pessoal na maturação da sua força. Fuja dos grandes assuntos e
aproveite os que o dia-a-dia lhe oferece. Diga as suas tristezas e
os seus desejos, os pensamentos que o afloram, a sua fé na beleza.
Diga tudo isto com uma sinceridade íntima, calma e humilde. Utilize,
para se exprimir, as coisas que o rodeiam e as imagens dos seus
sonhos, os objectos das suas recordações. Se o quotidiano lhe
parecer pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser
bastante poeta para conseguir apropriar-se das suas riquezas. Para o
criador nada é pobre, não há sítios pobres, indiferentes. Mesmo numa
prisão cujas paredes abafassem todos os ruídos do Mundo, não lhe
restaria sempre a sua infância, essa preciosa, essa magnífica
riqueza, esse tesouro de recordações? Oriente nesse sentido o seu
espírito. Tente fazer voltar à superfície as impressões submersas
deste vasto passado. (...)
(A obra foi traduzida para o português e
introduzida pela poetisa Fernanda de Castro)
RAINER-MARIA RILKE
(Praga, 1875; Suiça, 1926)
(in "Cartas a um Poeta", Tradução de Fernanda
de Castro, Portugália Editora, 1971)
***
UM POETA DA MADEIRA
LÍLIA MATA
5 inéditos
Terra
Num punhado de terra
está guardado
o segredo.
O mistério
da minha paz.
Todo
o meu equilíbro interior
está dentro
de um punhado de terra.
Mexer na terra
revoltá-la, cheirá-la
pôr-lhe dentro do coração uma planta.
Depois regá-la
olhá-la longamente
ou talvez de relance.
Contemplá-la todas as manhãs
tocá-la ao entardecer,
de regresso a casa.
Tirar-lhe as ervas,
aconchegá-la
como se faz ao cobertor de uma criança.
Apenas isto.
Só quero isto para ser feliz.
Mas vou sendo já,
antecipadamente.
Quem dera que fosse tudo assim!
O mundo giraria melhor:
devagar e certo
como no ditado preferido
da minha avó.
(s.d.)
Medo
Tenho medo
De não ter medo.
Medo de deixar de ter
Esta ânsia medonha
Que me obriga a viver.
Tenho medo
De um dia perder
O meu sonho invisível
Do tamanho de tudo.
Tenho medo
De deixar de sentir
A vertigem de voar sem asas
E de andar sempre, sempre
À procura de mim.
Tenho medo
De morrer
Sem ter partido e ficado
Eternamente aqui.
(08.11.89)
Pequeno-Grande
Grande
É tudo o que
Mal se vê.
É grande,
Imenso,
O Sonho.
Os medos
São grandes.
Grande é
O meu Amor.
(10.02.00)
Estamos enganados.
Tudo o que parece
Ser grande
Não é.
Pequeno, afinal.
Visto de outro lado,
É tudo quase nada.
A vida é pequena
Depois de passar.
(10.02.2000)
Gente.
Barulho, carros.
Gente, cimento.
Barulho.
Máquinas, gente, máquinas.
Quis fugir.
Estava presa.
Cimento, grades, cimento.
Gente, barulho, máquinas, carros.
Sentei-me
Dentro do feio
Para morrer.
Não consegui.
No último minuto,
Olhei para cima.
Vi um Sorriso.
(27.02.2000)
*
Lília Mata, (n. Caniço, Santa Cruz, Madeira, 1967), iniciou a sua
carreira profissional de jornalista no "Diário de Notícias" do
Funchal (1987), integrando depois (1989) os quadros do Centro
Regional da RDP-Madeira. Colaborou, entretanto, com revistas e
jornais, na sua vertente literária ("Tribuna da Madeira", "Islenha",
"Margem"). Ao longo da sua actividade como escritora tem conquistado
vários prémios, com realce para o da Câmara Municipal "Cidade do
Funchal/Edmundo de Bettencourt" (1997), atribuído ao seu manuscrito
"Histórias de Bertoldinho" (1998) e "Escritor Dr. Horácio Bento de
Gouveia" a "Contos de Embarcar" (Ed. Arguim.Madeira, 2002), da
Câmara MUnicipal de S. Vicente, assim como em concursos da internet,
dentro e fora do país. A sua poesia ainda não foi reunida em
opúsculo, mantendo-se inédita.
***
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
STÉPHANNE MALLARMÉ
BRISA MARINHA
Triste carne, ai de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modo
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus!
Nada, nem os jardins espalhados nos meus
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade
No branco do papel que o vazio rejeita
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita.
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga
As amarras, demanda outra exótica plaga!
Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E ralvez que esses mastros atraindo os presságios
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus...
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!
STÉPHANNE MALLARMÉ
(1848-1898)
(in "Stéphanne Mallarmé - Poemas
Lidos por Fernando Pessoa",
Tradução de José Augusto Seabra)
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
HEINRICH ZIMMER
(...) Enquanto símbolo da energia criadora masculina, o linga é
frequentemente combinado com o símbolo primário da energia criadora
feminina, a yoni, que forma a base da imagem de cujo centro o
primeiro se eleva. Esta serve como representação da união criadora
que gera e mantém a vida do universo. Linga e yoni, Siva e a sua
deusa, simbolizam as forças antagónicas, embora cooperantes, dos
sexos. O seu Matrimónio Sagrado (em grego: hieròs-gámos) é figurado
de maneiras muito diferentes nas várias tradições da mitologia
mundial. São os pais arquétipos, o Pai e a Mãe do Mundo, os próprios
primogénitos dos pares opostos, a primeira bifurcação da realidade
cosmogónica primordial, agora reunida em harmonia produtiva. Sob a
forma de Pai-Céu e Mãe-Terra, eram conhecidos pelos gregos como Zeus
e Hera, Urano e Gaia, e pelos chineses como Tien e Ti, Yang e Yin.
(...)
HEINRICH ZIMMER
(1890-1943)
(in "Mitos e Símbolos na Arte e Civilização Indianas",
Tradução de Manuel João Ramos e Ana vasconcelos e Melo)
***
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
AS PERGUNTAS, MEU AMOR
as perguntas que nunca farei
penduram-se nos galhos da anoneira
guardadas para o tempo da colheita
porque é que Kappus aconselhado
por Rilke em dezenas de cartas
nunca chegou a bom poeta
o que escondia de daVinci o sorriso
melancólico e arguto de Mona Lisa
plantado no centro do seu olhar
e o que fez Mallarmé com o ptix
senão rimá-lo com Phoenix e onix
esquecido de lhe descobrir um lugar
porque não gritou Moisés ao martelo
de Miguel Ângelo e para onde aponta
o David na sua brancura marmórea
e como fazer novas guerras amanhã
para repôr a velha paz de anteontem
sem reunir tudo na mesma história?
ah, como me delicio na sombra da anoneira
pensando em perguntas, meu doce amor,
para esconder-te em silêncio na segunda-feira
José António Gonçalves
(inédito.18.03.04)