A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

19

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


E aprenderás o caminho das estrelas, as que brilham a nossos pés, as que trazemos escondidas e apagadas nas mãos desde a criação, à cabeceira do leito onde enfim diremos, sem querer, a palavra virgem, a sílaba mortal, exacta e redonda como um gume ou um substantivo epiceno.

(in "RODOMEL RODODENDRO", 1989)


*

Hoje, a noite é uma açucena, cheira a trevo e a rosmaninho.
Boca silvestre.
Sorriso adúltero.

(in "Vocação do Silêncio - 1950-1985", 1990)

*

Não permitir que a voz
corrompa os lábios: aderir
somente ao desejo.

(in "VOCAÇÃO DO SILÊNCIO", 1950-1985; 1990)


Albano Martins


(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas

BOCAGE




Importuna Razão, não me persigas

Importuna Razão, não me persigas;

Cesse a ríspida voz que em vão murmura;

Se a lei de Amor, se a força da ternura

Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;

Se acusas os mortais, e os não abrigas,

Se (conhecendo o mal) não dás a cura,

Deixa-me apreciar minha loucura,

Importuna Razão, não me persigas.

É teu fim, teu projecto encher de pejo

Esta alma, frágil vítima daquela

Que, injusta e vária, noutros laços vejo.

Queres que fuja de Marília bela,

Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo

É carpir, delirar, morrer por ela.







Sobre estas duras, cavernosas fragas

Sobre estas duras, cavernosas fragas,

Que o marinho furor vai carcomendo,

Me estão negras paixões n'alma fervendo

Como fervem no pego as crespas vagas;

Razão feroz, o coração me indagas.

De meus erros a sombra esclarecendo,

E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo

De agudas ânsias venenosas chagas.

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,

Mil objectos de horror co'a ideia eu corro,

Solto gemidos, lágrimas derramo.

Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;

Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.





A frouxidão no amor é uma ofensa

A frouxidão no amor é uma ofensa,

Ofensa que se eleva a grau supremo;

Paixão requer paixão, fervor e extremo;

Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!

Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;

Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;

Em sombras a razão se me condensa.

Tu só tens gratidão, só tens brandura,

E antes que um coração pouco amoroso

Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

Talvez me enfadaria aspecto iroso,

Mas de teu peito a lânguida ternura

Tem-me cativo e não me faz ditoso.



Liberdade querida e suspirada

Liberdade querida e suspirada,

Que o Despotismo acérrimo condena;

Liberdade, a meus olhos mais serena,

Que o sereno clarão da madrugada!

Atende à minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena;

Liberdade gentil, desterra a pena

Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem, oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais que os astros brilha;

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;

Dos céus descende, pois dos Céus és filha,

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!





Amar dentro do peito uma donzela





Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.







MANUEL MARIA

BARBOSA DU BOCAGE

(1765-1805)



(in "Rimas" e "Poesia Erótica")


*
Manuel Maria l’Hedoux de Barbosa du Bocage (n. Setúbal,1765; f. Lisboa, 1805). Correu as terras distantes do Oriente e os mares que rondam África até regressar a Lisboa e aderir à Nova Arcádia. Em pouco tempo se separou deste movimento dado o seu espírito inconformista.
Aventureiro e sedento de liberdade, sofreu as perseguições da polícia de Pina Manique. O romantismo é evidente no tom autobiográfico e confessional da sua poesia. Foi um poeta repentista e satírico, factos que fizeram dele uma figura popular do anedotário português. Obra Principal: Rimas, 3 vols., 1791, 1799 e 1804.



***


PITADA DE SAL


o que diz:
ANA TERESA PEREIRA



NOSTALGIA


Se não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes (e há um quarto e uma varanda sobre os telhados que ainda surgem nos meus sonhos), nem para junto das pessoas com quem fomos felizes (e há um monstro de olhos azuis que espero nunca mais encontrar), uma das formas de felicidade em que acreditarei sempre é o regresso aos livros que num ou noutro momento foram a minha casa: uma novela de Henry James, um longo romance de Iris Murdoch, uma história de Truman Capote, os vales, charnecas, quedas de água, ribeiros e passagens rochosas das aventuras de Enid Blyton, que ainda fazem parte da minha geografia interior. Nos últimos tempos, porque o protagonista de um conto que nunca vou escrever era um poeta que traduzia livros russos (e estudara o russo para descobrir o que acontecia aos lábios do menino num poema de Tarkovski), e comecei a reler Tchekhov, Dostoievski, a princípio algumas novelas curtas, depois as primeiras páginas de «Os Irmãos Karamazov»... e quando me dei conta estava lá dentro, e era bom, como chegar a casa numa noite de chuva.
É um facto conhecido que tudo o que existe está em «Os Irmãos Karamazov». Uma outra convicção muito minha, é que nunca o lemos pela primeira vez. É um daqueles livros que existem dentro de nós (como «The Turn of the Screw» de Henry James, conhecemos a história desde sempre, e é uma das razões porque tivemos medo do escuro) que trazemos no sangue, ou na alma, não sei. (...) Vou queimar incenso em frente do meu ícone, a Trindade de Andrei Rublev (eu sei, os anjos deviam ser tão altos...), acender uma vela e ler um poema de Tarkovski, há um que começa assim: Cada momento que passámos juntos / era uma celebração, uma epifania...


ANA TERESA PEREIRA

(1958)




(in "O Ponto de Vista dos Demónios",
Relógio d'Água, 2002)

*

Ana Teresa Pereira (n. Funchal, Madeira, 1958), Natural da ilha da Madeira, onde reside e escreve, era estudante de Filosofia, antes de se dedicar à Literatura, hoje autora de sucesso, com mais de duas dezenas de obras nos escaparates. Pessoa muito intimista e amante da sua privacidade, não é dada à luz dos holofotes, surgindo à rua apenas nos momentos necessários à publicitação dos seus livros, mas gostando de viajar, de ler muito, de visitar exposições de Arte e de cultivar as aus especiais amizades. Na região, tem intervido em algumas iniciativas da Associação de Escritores da Madeira, com simpáticos contactos com o púlbico e nalgumas sessões de autógrafos. Recorde-se que, quando em 1989 venceu o Prémio Policial da Caminho, com o romance "Matar a Imagem", este foi apresentado numa iniciativa desta Associação em conjunto com a Editorial Caminho, em Lisboa, na Biblioteca Nacional, nos "Olhares Atlânticos, com uma intervenção de Maria Aurora e fecho de José António Gonçalves. A partir daí começou a lançar regularmente novos volumes, sempre com um fio de ligação, curiosamente a identidade das personagens, as quais identificam-se pelos mesmos nomes. Outra nota interessante da sua carreira literária é o facto de o seu primeiro livro, "As Personagens" (1990), ter sido publicado depois de "Matar a Imagem", estando a envolvência da sua trama muito ligada à ilha da Madeira (sem ter necessidade de a nomear).
Obras:" Matar a Imagem" (Prémio Policial Caminho, 1989); "As Personagens" (1990); "A Última História" (1991), "A Casa dos Penhascos" (1991); "A Casa da Areia" (1991), "A Casa dos Pássaros" (1991); "A Casa das Sombras" (1991); "A Casa do Nevoeiro" (1992); "A Cidade Fantasma" (1993); "Num Lugar Solitário" (1996); "A Noite Mais Escura da Alma" (1997); "A Coisa Que Eu Sou" (1997); "As Rosas Mortas" (1998); "O Rosto de Deus" (1999);
"Se Eu Morrer Antes de Acordar" (2000); "Até que a Morte Nos Separe"
(2000);"A Dança dos Fantasmas" (2001),A Linguagem dos Pássaros"
(2001),"O Ponto de Vista dos Demónios" (2002); “ Intimações de Morte”
(2002) e "Contos de Ana Teresa Pereira" (2004).



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UM POETA DA MADEIRA

TROILO DE VASCONCELOS
DA CUNHA





ESPELHO DO INVISÍVEL


O PRIMEIRO HOMEM




Na estátua imóvel inspirando vida,
A aura vital do soberano alento,
Ao barro a forma humana transferida
Teve o corpo insensível movimento;
E o racional, por luz n'alma influída
De quem lhe dera o ser conhecimento,
Pois o eterno poder, que ao Mundo impera,
Claramente entendeu que o ser lhe dera,


Saíu Adão formado sem defeito,
Da natureza assombro portentoso,
Nas exteriores proporções perfeito,
Nas perfeições internas prodigioso.
Influindo nos ânimos respeito
Gesto severo, aspecto decoroso,
Tanta era a majestade que exprimia,
Que a fereza dos brutos o temia.


Todos foram buscá-lo ao Paraíso,
Jardim que céu na terra se interpreta;
Como se o bruto instinto fora aviso,
Lhe tributaram sujeição discreta.
A cada espécie o nome pôs preciso,
Que a brutal propensão nunca indiscreta
Guiou aos pastos, às nativas fontes,
Aos bosques, grutas, vales, selvas, montes.


Adão, como entendido, de enlevado
Na alta contemplação da eterna essência,
Da terra e céu no movimento e estado
Se transportou, por alta providência.
De suave Morfeu arrebatado,
Infuso por divina inteligência,
Se rendeu ao primeiro êxtasis forte
Que a vida alenta, figurando a morte.

CANTO X, 82 A 85


TROILO DE VASCONCELOS


(1654-1729)

(in "Espelho do Invisível, em que se expoem a Deos,
Hum e Trino, no throno da eternidade, as Divinas Ideas,
Christo, & a Virgem, o Ceo & a terra", 1714, citado em
"Poemas Narrativos Portugueses", Cabral do Nascimento,
Minerva, Lisboa, 1949)



*

Troilo de Vasconcelos da Cunha nasceu no Funchal em 1654 e faleceu em Lisboa em 1729. Filho do Governador e capitão general da ilha da Madeira e Porto Santo, foi fidalgo da Casa Real e secretário da Junta dos Três Estados. Culto e versado em línguas (latim e grego), é autor de uma tradução de Justino, assinando alguns trabalhos poético-filosóficos, entre os quais um de raiz popular, o "Espelho do Invisível" (1715), escrito de uma penada em apenas três meses. A obra recebeu o beneplácito de insignes professores de Poética e Teologia, o que não evitou ser desdenhada por alguns críticos da época; alguns deles fizeram-no até dois séculos depois da sua publicação. Trata-se de "um poema sacro - segundo o poeta - com todas as características do poema heróico: divisão em cantos, oitava rima e até argumentos em verso".

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POEMÁRIO



Assírio & Alvim



2004




MANUEL DE FREITAS




COIN, 1994


Gostava de poder dizer não
ao ruído do mundo.
Mas já recolhem o lixo, choveu demasiado,
e eu aperto sem convicção
o cinto verde que me cala o estômago.

Estaríamos, até, a falar da morte
- não fosse este o vigésimo
domingo a seguir à Trindade.
Tronos e dominações mo dizem,
numa rua de Lisboa que
fica, às vezes, tão perto de Leipzig.

Não abdicarei, é claro,
«dos escuros abismos do pecado»
- que em alemão se dizem doutra maneira.

Pecado, maior, é tentar traduzir a música.



MANUEL DE FREITAS


(1972)

(in "Buchlein Fur Johann Sebastian Bach")



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IMAGINÁRIO



Assírio & Alvim



2004



BRUNO SCHULZ





Esta aventura de meu pai com os pássaros foi a mais brilhante contra-ofensiva que o incorrigível improvisador, o estratega da imaginação, lançou contra as muralhas de um estéril e vazio Inverno. Só hoje lhe entendo o heróismo: solitário, fez guerra ao tédio infinito que deixava a cidade entorpecida. Sem nenhum apoio nem compreensão da nossa parte, este homem extroardinário levava a cabo uma defesa sem esperança da causa da poesia. Nas rodas deste moinho mágico afundavam-se as horas vazias para de lá saírem cheias de perfume e cor.
(...)



BRUNO SCHULZ

(1892-1942)


"in "As Lojas de Canela",
Tradução de Aníbal Fernandes)




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Um poema inédito

de

José António Gonçalves





NÃO ME ESQUECEREI DO MAR





não me esquecerei do mar

e das suas profundezas

das falésias vulcânicas e das ervas secas

ainda com vontade de respirar





apaguem da memória que as distâncias

têm alguma importância num caderno

rasurado de apontamentos

como se fossem barómetros de tardes

inteiras escutando os pássaros

brincando com os ventos





sigam em frente nos navios brancos

galgando milhas no horizonte

e desenhem-me postais de exílio

onde o prisioneiro ilhéu se confunde

e os peixes aprendem a voar

para vencerem a solidão





o melhor mesmo é seguirem viagem

sempre em frente

por aqui saberemos amar os abismos

replantar as árvores polir os frutos

em suma cuidar da ilha

e do seu vulcão




José António Gonçalves


(inédito. 19.03.04)


 

Selecção e Montagem: JAG