E aprenderás o caminho das estrelas, as que brilham a nossos pés, as
que trazemos escondidas e apagadas nas mãos desde a criação, à
cabeceira do leito onde enfim diremos, sem querer, a palavra virgem,
a sílaba mortal, exacta e redonda como um gume ou um substantivo
epiceno.
(in "RODOMEL RODODENDRO", 1989)
*
Hoje, a noite é uma açucena, cheira a trevo e a rosmaninho.
Boca silvestre.
Sorriso adúltero.
(in "Vocação do Silêncio - 1950-1985", 1990)
*
Não permitir que a voz
corrompa os lábios: aderir
somente ao desejo.
(in "VOCAÇÃO DO SILÊNCIO", 1950-1985; 1990)
Albano Martins
(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
BOCAGE
Importuna Razão, não me persigas
Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas;
Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.
É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta alma, frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo.
Queres que fuja de Marília bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.
Sobre estas duras, cavernosas fragas
Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n'alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas;
Razão feroz, o coração me indagas.
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas.
Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objectos de horror co'a ideia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo.
Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.
A frouxidão no amor é uma ofensa
A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.
Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.
Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.
Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo e não me faz ditoso.
Liberdade querida e suspirada
Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!
Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;
Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;
Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!
Amar dentro do peito uma donzela
Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:
Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:
Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:
Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.
MANUEL MARIA
BARBOSA DU BOCAGE
(1765-1805)
(in "Rimas" e "Poesia Erótica")
*
Manuel Maria l’Hedoux de Barbosa du Bocage (n. Setúbal,1765; f.
Lisboa, 1805). Correu as terras distantes do Oriente e os mares que
rondam África até regressar a Lisboa e aderir à Nova Arcádia. Em
pouco tempo se separou deste movimento dado o seu espírito
inconformista.
Aventureiro e sedento de liberdade, sofreu as perseguições da
polícia de Pina Manique. O romantismo é evidente no tom
autobiográfico e confessional da sua poesia. Foi um poeta repentista
e satírico, factos que fizeram dele uma figura popular do anedotário
português. Obra Principal: Rimas, 3 vols., 1791, 1799 e 1804.
***
PITADA DE SAL
o que diz:
ANA TERESA PEREIRA
NOSTALGIA
Se não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes (e há um quarto
e uma varanda sobre os telhados que ainda surgem nos meus sonhos),
nem para junto das pessoas com quem fomos felizes (e há um monstro
de olhos azuis que espero nunca mais encontrar), uma das formas de
felicidade em que acreditarei sempre é o regresso aos livros que num
ou noutro momento foram a minha casa: uma novela de Henry James, um
longo romance de Iris Murdoch, uma história de Truman Capote, os
vales, charnecas, quedas de água, ribeiros e passagens rochosas das
aventuras de Enid Blyton, que ainda fazem parte da minha geografia
interior. Nos últimos tempos, porque o protagonista de um conto que
nunca vou escrever era um poeta que traduzia livros russos (e
estudara o russo para descobrir o que acontecia aos lábios do menino
num poema de Tarkovski), e comecei a reler Tchekhov, Dostoievski, a
princípio algumas novelas curtas, depois as primeiras páginas de «Os
Irmãos Karamazov»... e quando me dei conta estava lá dentro, e era
bom, como chegar a casa numa noite de chuva.
É um facto conhecido que tudo o que existe está em «Os Irmãos
Karamazov». Uma outra convicção muito minha, é que nunca o lemos
pela primeira vez. É um daqueles livros que existem dentro de nós
(como «The Turn of the Screw» de Henry James, conhecemos a história
desde sempre, e é uma das razões porque tivemos medo do escuro) que
trazemos no sangue, ou na alma, não sei. (...) Vou queimar incenso
em frente do meu ícone, a Trindade de Andrei Rublev (eu sei, os
anjos deviam ser tão altos...), acender uma vela e ler um poema de
Tarkovski, há um que começa assim: Cada momento que passámos juntos
/ era uma celebração, uma epifania...
ANA TERESA PEREIRA
(1958)
(in "O Ponto de Vista dos Demónios",
Relógio d'Água, 2002)
*
Ana Teresa Pereira (n. Funchal, Madeira, 1958), Natural da ilha da
Madeira, onde reside e escreve, era estudante de Filosofia, antes de
se dedicar à Literatura, hoje autora de sucesso, com mais de duas
dezenas de obras nos escaparates. Pessoa muito intimista e amante da
sua privacidade, não é dada à luz dos holofotes, surgindo à rua
apenas nos momentos necessários à publicitação dos seus livros, mas
gostando de viajar, de ler muito, de visitar exposições de Arte e de
cultivar as aus especiais amizades. Na região, tem intervido em
algumas iniciativas da Associação de Escritores da Madeira, com
simpáticos contactos com o púlbico e nalgumas sessões de autógrafos.
Recorde-se que, quando em 1989 venceu o Prémio Policial da Caminho,
com o romance "Matar a Imagem", este foi apresentado numa iniciativa
desta Associação em conjunto com a Editorial Caminho, em Lisboa, na
Biblioteca Nacional, nos "Olhares Atlânticos, com uma intervenção de
Maria Aurora e fecho de José António Gonçalves. A partir daí começou
a lançar regularmente novos volumes, sempre com um fio de ligação,
curiosamente a identidade das personagens, as quais identificam-se
pelos mesmos nomes. Outra nota interessante da sua carreira
literária é o facto de o seu primeiro livro, "As Personagens"
(1990), ter sido publicado depois de "Matar a Imagem", estando a
envolvência da sua trama muito ligada à ilha da Madeira (sem ter
necessidade de a nomear).
Obras:" Matar a Imagem" (Prémio Policial Caminho, 1989); "As
Personagens" (1990); "A Última História" (1991), "A Casa dos
Penhascos" (1991); "A Casa da Areia" (1991), "A Casa dos Pássaros"
(1991); "A Casa das Sombras" (1991); "A Casa do Nevoeiro" (1992); "A
Cidade Fantasma" (1993); "Num Lugar Solitário" (1996); "A Noite Mais
Escura da Alma" (1997); "A Coisa Que Eu Sou" (1997); "As Rosas
Mortas" (1998); "O Rosto de Deus" (1999);
"Se Eu Morrer Antes de Acordar" (2000); "Até que a Morte Nos Separe"
(2000);"A Dança dos Fantasmas" (2001),A Linguagem dos Pássaros"
(2001),"O Ponto de Vista dos Demónios" (2002); “ Intimações de
Morte”
(2002) e "Contos de Ana Teresa Pereira" (2004).
***
UM POETA DA MADEIRA
TROILO DE VASCONCELOS
DA CUNHA
ESPELHO DO INVISÍVEL
O PRIMEIRO HOMEM
Na estátua imóvel inspirando vida,
A aura vital do soberano alento,
Ao barro a forma humana transferida
Teve o corpo insensível movimento;
E o racional, por luz n'alma influída
De quem lhe dera o ser conhecimento,
Pois o eterno poder, que ao Mundo impera,
Claramente entendeu que o ser lhe dera,
Saíu Adão formado sem defeito,
Da natureza assombro portentoso,
Nas exteriores proporções perfeito,
Nas perfeições internas prodigioso.
Influindo nos ânimos respeito
Gesto severo, aspecto decoroso,
Tanta era a majestade que exprimia,
Que a fereza dos brutos o temia.
Todos foram buscá-lo ao Paraíso,
Jardim que céu na terra se interpreta;
Como se o bruto instinto fora aviso,
Lhe tributaram sujeição discreta.
A cada espécie o nome pôs preciso,
Que a brutal propensão nunca indiscreta
Guiou aos pastos, às nativas fontes,
Aos bosques, grutas, vales, selvas, montes.
Adão, como entendido, de enlevado
Na alta contemplação da eterna essência,
Da terra e céu no movimento e estado
Se transportou, por alta providência.
De suave Morfeu arrebatado,
Infuso por divina inteligência,
Se rendeu ao primeiro êxtasis forte
Que a vida alenta, figurando a morte.
CANTO X, 82 A 85
TROILO DE VASCONCELOS
(1654-1729)
(in "Espelho do Invisível, em que se expoem a Deos,
Hum e Trino, no throno da eternidade, as Divinas Ideas,
Christo, & a Virgem, o Ceo & a terra", 1714, citado em
"Poemas Narrativos Portugueses", Cabral do Nascimento,
Minerva, Lisboa, 1949)
*
Troilo de Vasconcelos da Cunha nasceu no Funchal em 1654 e faleceu
em Lisboa em 1729. Filho do Governador e capitão general da ilha da
Madeira e Porto Santo, foi fidalgo da Casa Real e secretário da
Junta dos Três Estados. Culto e versado em línguas (latim e grego),
é autor de uma tradução de Justino, assinando alguns trabalhos
poético-filosóficos, entre os quais um de raiz popular, o "Espelho
do Invisível" (1715), escrito de uma penada em apenas três meses. A
obra recebeu o beneplácito de insignes professores de Poética e
Teologia, o que não evitou ser desdenhada por alguns críticos da
época; alguns deles fizeram-no até dois séculos depois da sua
publicação. Trata-se de "um poema sacro - segundo o poeta - com
todas as características do poema heróico: divisão em cantos, oitava
rima e até argumentos em verso".
***
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
MANUEL DE FREITAS
COIN, 1994
Gostava de poder dizer não
ao ruído do mundo.
Mas já recolhem o lixo, choveu demasiado,
e eu aperto sem convicção
o cinto verde que me cala o estômago.
Estaríamos, até, a falar da morte
- não fosse este o vigésimo
domingo a seguir à Trindade.
Tronos e dominações mo dizem,
numa rua de Lisboa que
fica, às vezes, tão perto de Leipzig.
Não abdicarei, é claro,
«dos escuros abismos do pecado»
- que em alemão se dizem doutra maneira.
Pecado, maior, é tentar traduzir a música.
MANUEL DE FREITAS
(1972)
(in "Buchlein Fur Johann Sebastian Bach")
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
BRUNO SCHULZ
Esta aventura de meu pai com os pássaros foi a mais brilhante
contra-ofensiva que o incorrigível improvisador, o estratega da
imaginação, lançou contra as muralhas de um estéril e vazio Inverno.
Só hoje lhe entendo o heróismo: solitário, fez guerra ao tédio
infinito que deixava a cidade entorpecida. Sem nenhum apoio nem
compreensão da nossa parte, este homem extroardinário levava a cabo
uma defesa sem esperança da causa da poesia. Nas rodas deste moinho
mágico afundavam-se as horas vazias para de lá saírem cheias de
perfume e cor.
(...)
BRUNO SCHULZ
(1892-1942)
"in "As Lojas de Canela",
Tradução de Aníbal Fernandes)
****
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
NÃO ME ESQUECEREI DO MAR
não me esquecerei do mar
e das suas profundezas
das falésias vulcânicas e das ervas secas
ainda com vontade de respirar
apaguem da memória que as distâncias
têm alguma importância num caderno
rasurado de apontamentos
como se fossem barómetros de tardes
inteiras escutando os pássaros
brincando com os ventos
sigam em frente nos navios brancos
galgando milhas no horizonte
e desenhem-me postais de exílio
onde o prisioneiro ilhéu se confunde
e os peixes aprendem a voar
para vencerem a solidão
o melhor mesmo é seguirem viagem
sempre em frente
por aqui saberemos amar os abismos
replantar as árvores polir os frutos
em suma cuidar da ilha
e do seu vulcão
José António Gonçalves
(inédito. 19.03.04)