Na opulência
das formas, no volume
dos seios e nos bolbos
das maçãs do rosto colhe
o pintor o feitiço
da abastança. Num tempo,
diz-se, em que a única
riqueza apetecível
não vinha da matéria. Que outra
contradição maior
senão esta: vestir
o corpo
com os ouros
da alma e deixar
que a vida se cumpra
por si mesma?
Albano Martins
(in "A Voz do Olhar", 1998; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
JOSÉ FÉLIX
noite de ramadão
ou gazela do sorriso
à noite
sem shador
e a sombra no rosto
dos olhos amêndoa
dispensamos o jejum
de ramadão
pões as mãos em meu peito
do lado da oração
colhemos azeitonas
nas oliveiras
do jardim
bebemos água do oásis
pedimos desculpa a alá
e entregamo-nos à gesta
dos gestos
a saborear as tâmaras
e o corpo
lá fora
as gazelas
sombras em movimento
na tenda enluarada
esperam outro dia
ao amanhecer cobres o sorriso.
(2000.01.31)
DOIS POEMAS SOBRE GATOS
falta-me um gato
para fazer festas às palavras.
algumas chegam entre mãos
na carícia breve da madrugada.
enquanto não parto para ítaca,
viajo, aguardo circe
que me transforme em felino agudo.
depois é só encostar-me às pernas
e fitar-me
eu, nariz aquilino, olhos rasgados em mim
na verticalidade da íris;
lamber os pelos, a pele,
arquear o corpo na languidez do gesto.
ficar à espera que a palavra cresça.
abril 2002
o rabo do gato desenha
letras árabes no mosaico da sala.
arranha o tapete de arraiolos,
rasga o jornal de letras
e um verso escapa-se pela janela entreaberta
uma pétala de violeta
é o tempo das violetas
fugiu para a janela da vizinha
um andar abaixo.
talvez atraída pelo cisne de camille saint säens
no carnival des animaux
o gato enfurece-se com o silvo do vento
e quase me estraga o poema.
vale o método tradicional
um novelo de linha encanta o gato.
alguém pousa os lábios nos meus olhos.
(Abril, 2002)
Portugal
um dia disseste-me que tinhas a noite
agarrada ao peito como se acendesses
o pólen da flor, a nua madrugada
de lua e de sol no copo de gin.
procuravas a água, frágil transparência
de palavras que iam num eco de gritos,
e o gesto das mãos um longínquo tango
dançava no aplauso de raro silêncio.
disseste de ti e da natureza
da voz impossível com que te passeias
na bainha da página, numa água em gota
tão imponderável de simples beleza.
na contemplação das coisas inúteis
havia uma aurora presa no crepúsculo.
o fogo da flor no olhar e na fala.
(s.d.)
a carícia
é a sombra na face oculta
e o silêncio prende
o gesto no rosto de minha mãe.
o olhar frágil esconde-me o corpo
quando a ventania vai
e se acalma na folhagem.
aquela luminosidade
tem o caminho descoberto
a transparência da fala.
(in "Geografia da Árvore (a reinvenção da memória)",
org. e prefácio de José António Gonçalves,
Colecção "Poéticas de Lav(r)a", nº. 1,
Ed. Muchia Publicações, Lda., Funchal, 2003)
*
José Nascimento Félix (n. Luanda, Angola, 1946), é licenciado em
História pela F.C.S.H. da Universidade Nova de Lisboa. Apesar de se
ter iniciado na escrita ainda muito jovem, só vem a divulgar os seus
textos tardiamente, na Rádio Clube de Angola. Criou uma página,
assim como uma lista de discussão, na rede, destinadas à divulgação
de poetas de Língua Portuguesa, "Encontro de Escritas". Tem a sua
obra amplamente difundida na "net", assim como se encontra
representado em antologias poéticas de Portugal e Brasil.
Recentemente publicou na Madeira o seu primeiro livro , com o título
"Geografia da Árvore (a reinvenção da memória)", edição coordenada e
prefaciada por José António Gonçalves, Muchia Publicações, (2003).
***
PITADA DE SAL
O QUE DIZ: SAMIH AL-QASSIM
PÁSSARO MORTO
Durante muito tempo me interroguei
quando virás? Quando surgirás tu?
Nascerás da erva
emergirás do desconhecido
ou não és mais que um impossível amanhã?
Durante muito tempo me interroguei
e quando sondei os espelhos do tanque
dispersei-me entre os fragmentos dos espelhos
não encontrei o meu rosto em estilhaços
Vi-te a ti
e quando estendi as mãos
para tocar o teu rosto
os sinais da minha última ilusão dissiparam-se
tu dispersaste-te como os espelhos do tanque
e sobre a água ficou
um pássaro morto
SAMIH AL-QASSIM
(Tradução: Albano Martins)
(in "Pequena Antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea",
Selecção e tradução de Albano Martins, Edições Asa, Fev. 2004)
***
UM POETA DA MADEIRA
MARIA MARGARIDA
MACEDO SILVA
(MAGDA-FLOR)
DUALIDADE
Afivelei a máscara
e de tal modo me acostumei,
que nela me diluí.
Por isso, ninguém me conhece.
Aparento ser Pierrot
e, por dentro, Arlequim.
A máscara é reversível,
ora sou Arlequim por fora
enquanto minh'alma chora.
Afinal, rir ou chorar
são formas de mascarar
Solidão
habitante em meu coração!
30 de Janeiro de 1996
(in "Antologia da Poesia", Vol. 6º.)
O POETA ESCORRAÇADO
O Látego-Invisível
dos cobardes
caiu, repentinamente,
sobre as costas
do Poeta-Ausente
e distante!
Mas o Poeta
se volve e seu
olhar-de-criança
atónita, enfrenta
Vingança.
O Látego-Invisível
fustiga incessantemente
os ombros, o peito
deste Poeta-Cristo.
- Eis-me aqui!
Que queres de mim?
Implacavelmente,
o Látego busca eliminar
aquele rebelde
que ousou afrontar
os omniscientes-
Omnipotentes.
Flagelado, escorraçado,
o Poeta-Profeta
sangrando
se ergueu,
quebrando
suas algemas
qual Prometeu.
Finalmente
liberto continua a caminhada
incessante
na busca de sua Pátria
distante,
onde, um dia,
em perfeita Harmonia,
seu Reino O acolherá!
(in "100 Anos de Federico García Lorca -
- Homenagem dos Poetas Portugueses
(Antologia)", coord. Ulisses Duarte,
Universitária Editora, 1998)
SINFONIA DE AMOR
Prelúdio
O mais belo poema de amor
começou quando me viste
e desejaste;
começou quando nossos olhos
se cruzaram
e se beijaram.
O mais belo poema de amor
foi escrito no silêncio
de nossos corações,
no alvoroço de nossas mãos
que se não tocaram
mas se enlaçaram.
Adágio
O mais belo poema de amor
escreveste-o tu
segurando-me em teus braços
em momentos bem escassos!
O mais belo poema de amor
nasceu de nossa sede
de ternura
e terminou em loucura.
O mais belo poema de amor
é saber que não há espaço
para este abraço
que começa em ti
e acaba em mim.
Acorde Final
O mais belo poema de amor
escrevemo-lo juntos,
quando nossas almas se beijaram
e nossos corpos se enlaçaram,
despertando em mim, em ti,
acordes vibrantes - sem - Fim
(in "Antologia da Poesia Erótica",
coordenação de Paulo Brito e Abreu,
Universitária Editora, 1999)
CAIS ESQUECIDO
Sou
cais esquecido,
onde a espuma branca
do Sonho
vem gemer...
Sou
cais perdido
na imensidão das vagas,
empedernido
por tempestades!
... ... ...
Quem me recordará?
Quem falará
de meus sonhos e anseios,
de minhas lutas e receios?
3 de Agosto de 1996
(in "Da Poesia", vol. VI)
*
Maria Margarida Macedo Silva (n. Madeira, 1931). É licenciada em
Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de
Coimbra (1953), tendo ali ainda completado o curso de Ciências
Pedagógicas (1972). Para além da portuguesa, domina as línguas
inglesa e espanhola. Foi professora do Ensino Secundário e realizou
em La Rochele um estágio de aperfeiçoamento (Universidade Poitiers.
Foi fundadora e directora das Bibliotecas "O Jardim" (crianças) e
"Árvore" (adultos). Tem desenvolvido várias actividades no campo
cultural, prefaciando e apresentando obras literárias, assim como
fazendo comunicações e conferências em diferentes instituições
nacionais e estrangeiras. Está integrada, como poetisa, em várias
antologias. Tem diversos livros publicados nos domínios da poesia,
do ensaio e da pedagogia. É a delegada no Funchal da Sociedade de
Língua Portuguesa.
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
EDMUNDO DE BETTENCOURT
NOITE VAZIA
Crescimento do silêncio a devorar as nuvens.
Voo incansável e monótono das aves brancas do cérebro.
Florida e ondulada suspensão da mágoa.
As ferocidades são ternuras desmaiando na estepe adivinhada.
O amor abre goelas bocejantes nos côncavos da ausência do espaço.
E a morte espreitando a lentidão
irradia baçamente a sua despedida.
Noite vazia.
As aves brancas do cérebro
inutilmente abatem as suas asas!
EDMUNDO DE BETTENCOURT
(1899-1973)
(in "Poemas de Edmundo de Bettencourt")
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
(Jorge Luís Borges)
BORGES VERBAL
Profecia: Assisti a uma reunião de autores de romances policiais
dos Estados Unidos. Enumeraram os prémios do ano. Primeiro
prémio, para o melhor romance policial encadernado. Segundo
prémio para o melhor romance policial brochado. Mas -, por que
não em corpo doze ou em corpo catorze? Pensei bem e perguntei
aos que estavam comigo: "Mas que se passa? Está louca esta
gente? Que importa que um livro esteja encadernado?". Aos
escritores, além disso, modificam-lhes os argumentos, mutilam-
lhes os caracteres. É incrível! Porque toda a gente o sabe. Eu
insistia, "Mas vocês têm de protestar, ridicularizar os editores".
"Mas assim o livro não se publica" (responderam). E vêem tudo
como um negócio. E aqui também isto se vai passar. Porque nós
não vamos influenciá-los, são eles que nos influenciam. De modo
que isto que digo é uma profecia do que acontecerá aqui no ano
que vem. Ou do que está a acontecer (1976).
PILAR BRAVO (1966)
MARIO PAOLETTI (1940)
(in "Borges Verbal"; tradução de José Bento)
***
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
TENHO UM DIÁRIO
tenho um diário minúsculo que afinal para nada me serve. sei que se
as palavras para ele surgissem, tudo me seria muito mais fácil. ou
mais simples. para estar em paz comigo. tudo seria uma razão e um
alívio. mas as palavras deixaram de ter significado quando, meu
amor, as mutilaste. a todas. falavas, interminavelmente, e eu não
mais fazia do que me manter, embevecido, com a língua lembrando o
sabor da tua. falavas e eu tentava absorver os sons das palavras,
separá-las do seu enlace com as máscaras, isolá-las do seu sentido,
enquanto elas, imaculadas, proliferavam na tua boca, com gosto a
romãs, como sementes crescendo em terreno adubado. o tempo depois
passou muito depressa e fui descobrindo que, afinal, não eras tu
quem falava. estavas, sim, a habitar um silêncio magnífico,
revestido de luz e de paixão. as palavras apenas existiam na minha
cabeça, habituado, como sempre fui, à corrente louca do verbo
incansável. o tempo passou muito depressa, repito, até ficar só,
neste estado de ignorância e mudez. tenho na memória, facilmente o
revejo, o acto de estar a ler uma história de um cisne negro, na
altura em que esgotaste, na minha cabeça, os misteriosos termos da
língua portuguesa. o cisne aprendeu, depois de inumeráveis dias de
cativeiro, na história por mim inventada, como se encontrava a sua
liberdade à distância objectiva do seu pescoço esguio. se o
esticasse, ficava livre. no instante em que chegou a essa conclusão,
o lago mostrava-se-lhe absolutamente cercado de uma atmosfera
brilhante, como as ideias dos génios, e de um verde escuro, como a
cor das florestas mágicas, e parecia-lhe tão grande como um mar, um
oceano incontaminado pela presença do homem. então o cisne,
sentindo-se fechado, solitário, prisioneiro do espaço proporcionável
ao tamanho da sua vida insignificante, esqueceu tudo e mirou-se como
um narciso no espelho da água clara. a sua vaidade matava-o
lentamente, na aflição de contemplar a sua fealdade nua,
desprotegido pelo desconhecimento. eu inventava a história que lia e
ela não tinha importância nenhuma, mas era suficientemente
interessante para me manter ocupado, enquanto tu, desfigurada da tua
beleza sublime, por força das sombras da tarde, disfarçavas-te em
julieta e chamavas por mim, pronunciando os nomes mais doces do
mundo. davas-me beijos com um paladar a laranjas, a tamarindos.
recordo como me prostrava então, no chão do crepúsculo, para meditar
noutras coisas, sobre umas folhas de castanheiro, escutando o ruído
das fábricas ao longe, a avisar o fecho, como se brincassem
musicalmente com as suas diferenças de ritmo e de ecos. despertava
de seguida para escrever um poema sem pés nem cabeça, dizendo como
amo os teus braços níveos. escrevia a lápis faber: os teus braços
são belos como a neve quente. amo os teus braços e eles estão junto
de mim, muito perto da minha alma. depois apagava tudo, devagar, com
uma borracha azul-marinho. em cima do rasurado voltava a escrever os
mesmos versos e acrescentava: custa-me desencadear agora uma
ausência que antes me parecia necessária e via, de seguida, como
agonizava em busca da poesia, nas linhas com que enchia o texto. e
continuava: é inevitável deixar o barco do teu querer navegar pelos
montes pintados de lilás e lançar a âncora certa, no meu abrir as
portas, extasiado, ao desbravar das artes absurdas, coladas com
pólen de margaridas, nas tuas fontes de musa, ou nas palavras que
começavas a calar, inconscientemente, sempre dentro da minha cabeça.
não sei se adormeci, quando ocultei que sofria por constatar que
havia um rio, transparente, de confissões, para vestir o branco das
páginas deste meu minúsculo diário, um diário com capa marmórea que,
na verdade, não existe. mas salvei-o na mesma da sua inutilidade e
fechei-o. hoje mesmo. algures na viagem do último raio de sol,
etéreo, sobre as acácias vermelhas do dia.
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(inédito)