A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

20

 
 
 
 
ALBANO MARTINS



Por elas muitas vezes me perdi nos montes,
namorei os espinhos, construí pontes e jangadas,
competi em altura com as árvores.
E deixo-te as outras, todas as outras. As
glicínias e as dálias. Os lírios e os goivos. As
anémonas e os jasmins. Os crisântemos.
Todos os jardins da terra e do mar.
A morada
dos dinossauros
e dos hipocampos.


(in "Vocação do Silêncio", 1950-1985; 1990)

*

E vamos pela noite dentro, acordados, na estria
das luzes, as pálpebras adornadas, insectos de
bruma, ao encontro das lâmpadas.

*

Anunciação da guerra e da paz, na fertilidade
e na abundância das aves migradoras que
transportam nas asas uma primavera sem tempo
e sem limites.

(in "Rodomel Rododendro", 1989)


Albano Martins


(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas



(António Ramos Rosa, velho companheiro e amigo
de Albano Martins homenageou-o com um livro, até
hoje pouco conhecido, cuja publicação iniciamos hoje.
Amanhã concluí-la-emos)

ANTÓNIO RAMOS ROSA


«VINTE POEMAS PARA
ALBANO MARTINS» (1)



Gostei muito de escrever estes poemas
para si. Eles valem sobretudo como uma
homenagem fraterna, o que não é muito
frequente em Portugal.

(Carta de António Ramos Rosa
a Albano Martins, 23 de Maio de 1986)




Agora o fulgor reúne o movimento dos lábios
e os flancos fortes e os embros sem vestígios.
As portas estão abertas sobre as veias do solo.
Pronuncia-se o sal sobre as arestas da terra.
Os joelhos atravessam as sombras e as corolas.
A espuma inunda os frutos e a ferida dos sentidos.

*

Esta alegria
que de nada nasce
antes da palavra
sopro insubmisso
sortilégio do dia.

*

Um rosto emerge
de obscura espiral
e é o espaço liberto
e é o rosto liberto.

*

Em todo o corpo lúcido
a luz e a música
com o brilho da brisa
e os véus vegetais.

*

Sim, digamos sim sem o dizer
por todos os poros,
sim, este fulgor, este sopro, este jardim
que é como um barco ou um pássaro silencioso,
sim, esta única carícia sobre um corpo que flui
infinitamente.

*

Nunca será música, nunca será bosque
nem o torso de uma pomba
nem a pedra rutilante
nem uma garganta no mar.
Não, não quero mais do que a saliva do vento
e o rumor dos abismos.
Nenhuma mensagem, nenhum voo.
Apenas os inviolados signos de um fundo mágico.

*

Não fosforesce essa mão que mal se move
e quase não palpita sob a escura abóbada.
Estreitam-se os dedos de madeira transparente
e sobre o papel volante ainda acendem uma lua
que ascende vacilante sobre a cabeça trémula.

*

Dissipam-se as minhas pétalas
entre formigas e sombras.
Tudo o que me dilacera
está perto do que é minúsculo.
Pequenos fósseis brancos
dizem tudo quanto sou
no desejo de ser pedra
ou uma parede com fendas.

*

O reino está aqui
no seu rumor de oceano
no seu horizonte fundo
na sua redondez cintilante.
Mas nós perdemos as leves
sandálias do vento
já não conhecemos o gozo
vegetal
de uma nua eternidade.

*

Nasceu para ser centelha
e a sua dança fugaz
é um volume altíssimo
em que se enrola o vento
em que se ganha o dia.


(in "Vinte Poemas para Albano Martins",
ed. "exercício de dizer", fora da mercado, 1986)



***

PITADA DE SAL




o que diz: VIOLETA TEIXEIRA






Beleza precipitada e aturdida,
Esta, da eclosão
Da primavera.

Sim! Precipitada e aturdida,
com a crueza metálica
Da guerra, na pátria
Das «MIL E UMA NOITES».

E, todavia, ébria
Do vinho velho da poesia.

Dissonância cósmica
Do tempo.

Rebeldia, com
Pássaros dentro.

VIOLETA TEIXEIRA

(Inédito "DÉDALOS DE AFECTO")

*

Violeta Carmelita Teixeira dos Santos nasceu no Funchal (Madeira). Licenciada em Filologia Romântica pela Universidade de Letras de Lisboa, é professora na Escola Secundária de Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria, onde reside há cerca de trinta anos. É co-autora de manuais escolares de Português A, para os 10º., 11º., e 12º., anos e participou na colectânea "Juntos por Timor Loro Sae" (1999). É autora de cinco livros de poesia: " "Falo-vos de Silêncio" (1999), "Lânguidas Fúrias" (2000), "Afluentes Lunares" (1º. Prémio CM de Leiria, "Afonso Lopes Vieira"2001), "Partos de Pandora" (2002) e "Resinas de Abulia" (2003). Neste momento está a escrever um novo livro, "Dédalos de Afecto".



***

UM POETA DA MADEIRA



Três poemas de «Baldios"





JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA





Os versos



Os versos assemelham-se a um corpo

quando cai

ao tentar de escuridão a escuridão

a sua sorte



nenhum poder ordena

em papel de prata essa dança inquieta



A voz solitária do Homem



Há palavras que escrevemos mais depressa

o terror dessas palavras derruba

o passado dos homens

são tão pouco: vestígios, índices, poeira

mas nada lhes é desconhecido

as horas em que vigiamos o escuro

os sítios nenhuns das imagens

a ligeira mudança que resgataria

o abandono, todo o abandono



Na Honoured Guest



"Earth, receive and honoured guest" W. H. Auden



Nos autocarros cheios, nos corredores do metropolitano

que as pessoas de condição desconhecem

ali muitas vezes a vida lhe devolveu

o espaço ocupado por desculpas



quando do seu rosto a outro rosto

quase nada se esbatia na distância

nem a intensidade, nem o espanto

nem até a infâmia

de modo improvável como nos damos



ali muitas vezes se sentiu o tempo

de perder uma ilusão




JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA






(in "Baldios", 1999)




*

José Tolentino de Mendonça (nascido em Machico, Madeira,

1965), sacerdote católico e docente da Universidade Católica

Portuguesa, foi colaborador do "Diário de Notícias" (Funchal)

e do "Jornal da Madeira", do JL-Jornal de Letras, Artes & Ideias,

e coordenou a revista de poesia "Salém". Está representado,

entre outras, nas antologias organizadas por José António

Gonçalves "O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses" (1989)

e "Poet'Arte 90" (1990) e na "Poeti Contemporanei dell'Isola

di Madera", coordenada e traduzida (bilingue) por Giampaolo

Tonini (Itália, 2001). Eis alguns dos livros que publicou: "Os Dias

Contados" (1990), "Longe Não Sabia" (1997), "A Que Distância

deixaste o Coração" (1998), "Baldios" (1999) e "De Igual para

Igual" (2001).


***




POEMÁRIO



Assírio & Alvim



2004





HOLDERLIN





DE HIPÉRION PARA BELARMINO



Entre as flores o seu coração estava em casa, como se fosse
uma delas.
A todas chamava pelo nome, por amor dava-lhes novos nomes
mais belos e sabia exactamente a duração da vida de cada uma, na
alegria.
Como uma irmã, de quem, a cujo encontro vem, a cada canto,
um ser amado, e cada um deles gostaria de ser o primeiro a ser sau-
dado, assim aquela serena criatura se ocupava, absorta na sua felici-
dade, com o olhar e com as mãos, quando íamos passear ao prado
ou à floresta.
E tudo isto não era absolutamente nada estabelecido, cultivado,
mas simplesmente desenvolvido à medida que ela crescia.
Trata-se, pois, de uma certeza eterna, por todo o lado compro-
vada: quanto mais inocente e bela é uma alma, tanto mais familiar
ela é às outras vidas felizes, a que chamamos inanimadas.



HOLDERLIN


(1770-1843)


(in "Hipérion ou o Eremita da Grécia",
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado)



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IMAGINÁRIO



Assírio & Alvim



2004



NATHANIEL HAWTHORNE




("The Scarlet Letter" é um dos mais conhecidos livros
do escritor, romancista e contista norte-americano)



(...)
Uma coisa havia que muito me servia para reconstruir e recriar
o soldado desempenado da fronteira do Niágara - o homem de
energia verdadeira e simples. Era a lembrança daquelas suas palavras
memoráveis - «Vou experimentar!» - ditas um momento antes de
uma empresa arriscada e heróica, e respirando a alma e o espírito da
bravura da Nova Inglaterra, consciente de todos os perigos e a todos
afrontando. Se, no nosso país, a coragem recebesse um prémio herál-
dico, esta frase - que parece tão fácil de dizer, mas que só ele, tendo
diante de si uma tarefa de tal risco e glória, efectivamente disse -
seria a melhor e a mais bela das divisas para o escudo de armas do
General.
(...)


NATHANIEL HAWTHORNE



(1804-1864)



(in "A Letra Encarnada"
Tradução de FERNANDO PESSOA)


****


Um poema inédito

de

José António Gonçalves





(...o Vincent Van Gogh sabia que a noite
conservava o cheiro da terra)



OS CIPRESTES


Os côrregos traziam a água no avanço
do regadio com o brilho da noite a estender-se
por dentro da escuridão, borbulhando sobre
a terra e saltando de socalco em socalco,
ensopando as mantas e cantando uma canção igual
aos cânticos escutados nas madrugadas dos druídas.
O passado é a estampa que se alarga na paisagem
e assenta no desenho de cada manta, um pedaço
de alimento esperando crescer no silêncio
das pedras, como se esse fosse o seu permanente
afã, o corolário de um irremediável destino. Tudo
tem o fulgor escuso da prata polida, dos pés frios,
molhados pelos tumultos da obra dedicada
ao aproveitamento da levadia, largando um cheiro
misturado de ervas e adubos. Escreve-se na liquidez
delicada, na história de cada gota, a projecção
de um recordar para toda a vida, acompanhando
a memória do neto a do avô. É uma fotografia banhada
pelas lágrimas que só os ciprestes observam na última
chamada, sabendo-se que se repetirá tudo no calendário
quando a manhã terminar e anunciar a do dia seguinte,
com a falta de chuva e um carrossel de lamúrias
a encher a base chã dos quotidianos castanhos e verdes.
A fome dos camalhões sufocará a garganta dos heréus,
com a sede dos plantios a acordar o movimento da lua
e de nada servindo a esperança, nem as orações ou o inverno
tardio. É o apelo das sementes a morder o coração, aí
inventava que o Vincent Van Gogh sabia que a noite
conservava o cheiro da terra. Os ciprestes esperavam
pela hora certa e com o ruído da água tudo se repetia,
abrindo as comportas ao desabafar do coro das levadas.
Era a visita do vento, o choro ausente, longínquo,
soprado por canaviais, bruxas velhas e feiticeiras novas,
os dedos hirtos, passando na superfície da testa,
o pachorrento aguardar pelo apagar das lanternas
no regresso a casa com o medo no corpo e a preparação
da fuga só por se contar os segredos das sombras
e dos seus contornos. Para trás deixaram os anos,
as regas, os cantares. Ficou o cheiro da terra
e o terror da descoberta do rosto das almas penadas,
os pássaros mais antigos dos ciprestes.



JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES


(inédito. 20.3.04)


JAG
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Selecção e Montagem: JAG