A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

21

 
 
 

 

***

ALBANO MARTINS






ACONTECIMENTO


Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
- riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.


Não sei se o mundo existia e nós
existiamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e
zumbiam nos meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.


Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida,
entando devagar, muito devagar e
acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti:
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.





(in «Outros Poemas» - 1951-1952;
de "Assim São as Algas»,
Poesia 1950-2000,
Campo das Letras, 2000)


Albano Martins

(1930)

***


Bloco Poético de Notas






LEONARD COHEN




LENDA



Ela disse-me que um menino construiu a sua casa
numa tarde de primavera
e que esse menino morreu
ao atravessar a rua.

Ela disse que o leu num jornal
que numa esquina da avenida tal
uma menino fora atropelado por um automóvel.

É evidente que eu não acredito nela.
Foi ela que construiu a casa
pendurou as laranjas e pintou os frisos dos vãos das portas
e desenhou flores nas paredes.
Fez para o vento objectos de papel
escolheu pedras pelas formas das suas sombras
e pendurou balões negros e amarelos no tecto.

Cada vez que a visito
repete-me a história do menino.
Nunca lhe pergunto nada. É importante
comprreender o papel de cada um na lenda.

Ocupo o meu lugar
entre peixes de papel e relógios falsos
identificando as flores que ela desenhou
sorrindo enquanto ela cinzela a minha cabeça
em grandes moedas de argila
e fazendo-a objecto de uma espécie de amor cortês
enquanto ela contempla a sua própria morte debaixo do tráfego.




A NEVE CAI



A neve cai.
Há uma mulher nua no meu quarto.
Os olhos pousados na carpete cor de vinho.

Tem dezoito anos.
E os seus cabelos são lisos.
Não falo o idioma de Montreal.

Não se quer sentar.
Não parece ter a pele arrepiada.
Ficamos os dois a ouvir a tempestade.

Acende depois um cigarro
no aquecedor a gás.
E deixa cair os seu longos cabelos para trás.





POEMA



Ouvi falar de um homem
que dizia palavras tão formosas
que só com pronunciar o seu nome
se lhe entregavam todas as mulheres.

Se fico mudo junto ao seu corpo
enquanto o silêncio floresce como tumores nos teus lábios
é porque ouço um homem subindo a escada
e clarear a voz fora da porta.




(in «Filhos da Neve", antologia
poética, Assírio & Alvim,
versões de Jorge Sousa Braga
e Carlos Tê, 2ª. edição, 1997)




LEONARD COHEN

(1934) * Leonard Cohen nasceu em Montreal, Canadá (1934) filho de um engenheiro de tecidos que morreuquando ele tinha apenas nove anos de idade. Em McGill University formou o trio "Buckskin Boys",aos dezassete anos, começando aí a escrever poesias e integrando um movimento que se tornou parteda cena literária underground, onde evidenciou alguma originalidade. "Let Us Compare Mythologies"foi o título do seu primeiro opúsculo, editado em 1956, ainda estudante, seguindo-se "The Spice Box OfEarth", em 1961, com ele alcançando divulgação internacional. Permaneceu algum tempona Universidade de Columbia, em Nova Iorque, EUA, decidindo-se por viajar até à Europa,onde escolheu a ilha de Hydra, na Grécia, para viver - lá permaneceu oito anos - com a mulher,Marienne Jenson e o filho, Alex. "Flowers For Hitler" de 1964, foi uma das muitas colectâneaspoéticas que ali produziu, assim como "Parasites of Heaven" de 1966. Interessou-se, depois,pela novela moderna, dando à estampa "The Favorite Game" (1963), baseando-se na história corrente de um jovem jornalista judeu em Montreal. A seguir editou "Beautiful Losers" (1966),um clássico sobre a desordem religiosa e suas consequências. Estas obras que venderam, nomundo inteiro, mais de um milhão de exemplares. Em Portugal, a Assírio & Alvim lançou, em1985 (2ª. ed. 1997), a colectânea de poemas «Filhos da Neve», antologia com versões dopoeta Jorge Sousa Braga e de Carlos Tê (conhecido autor de canções, parceiro de Rui Veloso). * *** PITADA DE SAL



o que diz:



MANUEL MACHADO










REFLEXOS DE CIDADE SATÉLITE





Astrid foi comprar shampoo. Na rua encontrou umaamiga que julgava morta há já muitos dias. Espantadade a ver ainda viva, Astrid nem lhe falou, mas olhou pa-ra ela com um olhar desconfiado logo que a morta esta-cou e lhe disse bom dia. Era já Primavera. Ainda gemidos de Abril, mas tempolindo e limpo que os turistas haviam começado a invadiros cemitérios. Os últimos assinalados, tinham perdido arespiração num acidente de Ford, mesmo a Oeste do ce-mitério da cidade. E é entre esses que a amiga de Astriddeveria encontrar-se - segundo notícias recentes no jor-nal de sábado: «antes de explodir, o carro atropelou umasenhora de nome Bjorg Nilsen, que perdeu o pio a cami-nho da morgue. - Mas não, estás tola! Era minha mãe! E ambas riram muito, de pé num passeio da baixa. Contentes de se reencontrarem, lançaram-se em con-versa profunda acerca da cor do cabelo nas diversas fa-ses da existência humana. E cansadas de estarem de pé,foram tomar chá na pastelaria do canto. Demoraram-sebastante e falaram muito - naturalmente! - Bem, tenho de ir embora. O meu marido espera pormim. Mas foi maravilhoso voltar a ver-te depois de tantotempo! Lembras-te quando éramos vizinhas naquele pré-dio enorme de Stovner, cidade satélite? Durante tantosanos! É incrível como é que nunca nos falámos, morandoaté no mesmo andar! Bjorg não respondeu. - Mas tu não me ouves, Bjorg?! Não dizes nada! E os clientes da pastelaria olhavam assustados Astrid,aquela mulher ainda nova e sempre bela falando sozinha- duas taças de chá sobre a mesa! Oslo, Maio de 1977 (In «Enquanto os Coveiros Dormem»,Colecção Gaivota/22,Secretaria Regional de Educação e Culturados Açores, 1981)
MANUEL MACHADO



*
Manuel Machado, natural dos Açores, é um escritor prestigiado na
Noruega, onde tem lançado algumas obras de ficção, as chamadas
«short-stories», género em que se tornou um autor exímio, como o
demonstra o seu volume «Enquanto os Coveiros Dormem», editado
pela Secretaria Regional da Educação e Cultura daquele Região Au-
tónoma, em 1981, na colecção Gaivota.



***


UM POETA DA MADEIRA



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA











DESPEDIDA




Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das
ruínas,
nunca se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
Não vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro da cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta música é quase o vento.






O VERÃO




Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.




(in «Poemas de Amor»,
Antologia de Poesia Portuguesa,
org. e pref. de Inês Pedrosa,
Publicações Dom Quixote, 2002)






JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA


(1948)


*

José Agostinho Baptista nasceu no Funchal (Madeira), a 15 de Agosto de 1948. Colaborou na imprensa, nomeadamente no Comércio do Funchal e, mais tarde, no República e no Diário de Lisboa, cujo suplemento "O Juvenil" o tornou conhecido como poeta. Desde então e ao longo dos doze livros já publicados (os primeiros dez foram reunidos no volume "Biografia", Assírio & Alvim, 2000, a que juntou «Anjos Caídos» em 2003), a sua poesia vem sendo reconhecida como uma das mais originais e importantes na actualidade, como bem assinalaram, entre outros, António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral ou Joaquim Manuel Magalhães nos ensai os que lhe dedicaram. Simultaneamente, José Agostinho Baptista tem vindo a assinar diversas traduções de autores como Walt Whitman, W.B. Yeats, Tennessee Williams, Paul Bowles, Enrique Vila-Matas, Rabindranath Tagore, Robert Louis Stevenson, Oliverio Macías Álvarez, entre outros.Condecorado pelo Presidente da República com as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Funchal, 1 de Julho de 2001.





***


POEMA INÉDITO

DE

JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES







(Foto de Misha Gordin)





PERSIGO OS SONS




Persigo os sons, os ecos, os melodramas
por dentro das folhas dos jornais matinais.
Ouço as lágrimas, os tiros e os gritos, o roçar
de uma mulher no muro do outro lado da rua
e a libélula acasalando no alto de uma corriola.




Acordo com o ruído da luz combatendo o impulso
de se acender na escuridão, os líquidos que se abrem
nas goteiras do espírito durante os pesadelos, o sol
se movimentando devagar na pista dos crepúsculos,
o barulho que as sombras imitam nos passos dos homens.




Sinto o calcitrar das formigas no seu empenhamento
operário quotidiano e o incómodo das palavras nos livros
reclamando pela leitura que o abra e o liberte da sua prisão
de objecto decorativo nas estantes, o evoluir do luar,
as confissões dos pássaros no segredo dos seus ninhos.




Às vezes descubro que guardei o retinir dos beijos longos,
jamais dados na bruma das esplanadas, para os escutar
no mármore do futuro, na terra adocicada dos evangelhos,
como se eles cantassem um hino de salvação assegurada
e eu, com a ânsia de os ter para sempre, os ignorasse.



É a sina dos descontentes. Escapam da claridade
para se ocultarem baços, sobressaltados, infelizes,
no lado escuro dos espelhos. Assim, como a vela, dá-se
a combustão no amplexo do fogo ao pavio, devorando
a cera. Mas ela é a única a conhecer a eternidade.




JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES


(inédito. 21.03.04)



JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/


Consulta aos números anteriores:
http://www.terravista.pt/mussulo/1701/indice.html
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm


 

Selecção e Montagem: JAG