A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

22

 
 
 
 
ALBANO MARTINS



(...assinou o seu nome com as tintas do arco-íris...)


Eis como grávidas,
voláteis, as formas
se organizam. E a matéria
se faz seiva. E sangue.
E sal. E sol. É outra vez
manhã, primeira infância e arca
e harpa genesíacas. O homem
tirou de si as águas,
as sementes. E ao ar e ao fogo
as lançou. Terminada
a obra, assinou
seu nome com as tintas
do arco-íris.
Oitavo dia
da criação.

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992)


Albano Martins


(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas


(Antero de Quental retratado por Columbano)



ANTERO DE QUENTAL



A tristeza do tempo! O espectro mudo
Que pela mão conduz... não sei aonde!
- Quanto pode sorrir, tudo se esconde...
Quanto pode pungir, mostra-se tudo. -

Cada pedra, que cai dos muros lassos
Do trémulo castelo do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um coração aberto em dois pedaços!

(in "Odes Modernas")



Uma Amiga



Aqueles que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que à noite evoca o sentimento...

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos...que eu invejo...
Passam por mim...mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!


(in "Primaveras Românticas")



TORMENTO DO IDEAL


Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à forma, em vão, a idéia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o batismo dos poetas,
E assentado entre as formas incompletas,
Para sempre fiquei pálido e triste.

(in "Sonetos Completos)



IDEAL



Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios e nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas,
Da antiga Vênus de cintura estrita...

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...

É como uma miragem, que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do desejo...

(in "Sonetos Completos")




ANTERO DE QUENTAL

(1842-1891)

*
Antero de Quental (n. 1842 de Ponta Delgada, nos Açores, onde se suicidou, com dois tiros, em 1891). Frequentou a Universidade de Coimbra, e viveu, depois, em Paris, acabando, antes de se radicar em Lisboa, por visitar os Estados Unidos e o Canadá. Integrou a "Geração de Setenta", tendo ainda intervido nas Conferências do Casino. Eça de Queirós e Oliveira Martins contavam-se entre os seus amigos, dedicando-se literariamente à poesia e à reflexão filosófica: Raios de Extinta Luz, Primaveras Românticas, Odes Modernas, Sonetos, Prosas e Cartas. Note-se que o seu livro "Bom senso e Bom gosto", dirigido ao antigo mestre está na origem de uma das maiores controvérsias no panorama literário português: a Questão Coimbrã. Por outro lado, ficou ligado à poesia realista e simbolista com mais uma vez as Odes Modernas, 1865, que se integram no programa de modernização da sociedade da "sua" Geração de 70 mas é nos Sonetos Completos, 1886, que o melhor da sua poesia emerge, cruzando o simbolismo de timbre ainda romântico com a poesia de ideias e com a reflexão filosófica, na expressão de conflitos íntimos e sociais de que jamais recuperará, até à sua morte.



***

PITADA DE SAL


o que diz: AGUSTINA BESSA-LUÍS







CORTE DO NORTE



A ilha veio das entranhas do mar, como a Vénus Calipígia; despontou uma frondosa nuvem que a cobriu toda, abrigando-a do sol, chamando os nevoeiros com coroa de cabelos brancos. Era tão bela como uma mulher que estende os cabelos e os penteia, os cabelos de til, de jacarandá, de cânfora e de canela. Quando Rosalina empreendia a viagem para Ponta Delgada, a Corte do Norte, demorava-se a notar o fio dos caminhos, como riscos numa cabeleira abundante.
Outras vezes ia embarcada, com mais ligeiro andamento, acompanhada por criadas e os filhos delaas seus afilhados. As crianças ficavam no Funchal, com parentes e uma ama que os seguia por toda a parte e lhes contava histórias de corsários franceses. Como morreram homens defendendo a muralha, e como as freiras fugiram, levando consigo algumas pratas, e se recolheram num lugar chamado o Curral, que fora dote dum lavrador ditoso em empregar as filhas no serviço de Deus. Se não falarmos nos casos menos históricos em que se afirma a lenda dum território, acabam-se os sentimentos e, com eles, as vontades.
Rosalina ia dessa vez para a Corte do Norte, meio fugida ao espírito de família. Algo se deteriorara na sua relação com o marido e os filhos, sem que, aparentemente, sofressem os hábitos. A partida da comitiva da Imperatirz, que trouxera à cidade um surto epidémicos de fusão com os maiores acontecimentos da época, deixara-a suspensa de conflitos que se revelaram subitamente. Estavam ancorados no temperamento insular, misto de fluidez pátria e garantia de fidelidade que os negócios asseguravam. Mas entre uma e outra intriga nascida no continente, a ilha recebia dos seus profundos campos de acção, que eram nostalgia de aparentar-se com o mundo, um impulso novo. Na realidade, não se transpunha nenhuma barreira, a não ser a linha do horizonte através dos cargueiros na rota da América, ou dos navios que ligavam as culturas confiadas a um pequeno escol de visitantes e de políticos. A doença pulmonar foi durante algum tempo na Madeira uma forma de diminuir o carácter depressivo do insulado. Fazendo-o participar numa cura algo mágica, dando ao clima da ilha e à sua configuração oceânica uma espécie de autoridade númica, a doença pulmonar, em geral crise de abandono, efectuou um verdadeiro registo da identidade madeirense. Já por si, Madeira tem um significado materno, portanto curativo. Não foi a sua especial condição atmosférica, com os ventos temperados africanos, o que abriu perspectivas à cura da tuberculose. Foi, na verdade, uma alusão ao factor da árvore, que implica protecção e prestígio tutelar. Só depois de a cultura psíquica, que Viena arrebatou como troféu, na sua posição de muralha do Oriente, se ter pronunciado, é que essa influência do símbolo se foi apagando. (...)




(MADEIRA ...a ilha veio das entranhas do mar como a Vénus Calipígia...)


AGUSTINA BESSA-LUÍS

(in "A Corte do Norte", Romance, Guimarães Editores, 1987)

*

Agustina Bessa-Luís nasceu em Vila Meã, Amarante, em 1922. É um dos principais nomes da literatura portuguesa contemporânea. Na sua vasta bibliografia destacam-se A Sibila (l954), O Sermão do Fogo (l962), Crónica do Cruzado Osb (l976), Fanny Owen (l979), Florbela Espanca (l979), A Corte do Norte (l987), Memúrias Laurentinas (l996). Tem escrito argumentos para cinema, para Manoel de Oliveira. Recebeu vários prémios literários, o mais importante dos quais foi o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, pelo livro Os Meninos de Ouro (l984).



***

UM POETA DA MADEIRA



CARVALHO JORDÃO




(Madeira: a segunda pátria, com a estreia literária)



PLENITUDE



As palavras pervertidas, carregadas de morte,
afasto-as agora, nesta ilha de nascentes claras,
nesta ilha de neve, aonde aporto sempre.
Aparece-me, ainda em sonhos, o teu rosto imensamente belo,
entre luzes molhadas de nevoeiro,
e nele abraço ambas as vidas
que em mim correm.
As tuas mãos, nocturnas e estreitas,
ainda as possuo, quentes,
como no primeiro dia.
Nessa indevassada plenitude,
mergulho os olhos,
num calor de navios pejados,
de estações em vésperas de festa,
por onde fluem os múltiplos destinos dos homens.
Acto puro, só pensamento,
agora te aperto, mesmo assim,
vendo na chuva que cai,
e me aperta os pulsos,
nas árvores nevoentas e magras,
o teu rosto calado
como uma sombra.




PALAVRA



Aqui mesmo, na crista da onda,
havia uma palavra desenhada,
realmente nova
e pura.
A chuva iluminava-a
cada manhã,
na sucessiva música
do vento.
Ágil como a ave,
que risca o horizonte,
insondável como a pedra
que nos fecha a luz.



PRAÇA MUÁ

Ao Brasil, com Amor


Encontro do mar com o Céu,
vapor para Niterói, carregadinho de gente,
na manhã claríssima,
como a espuma da água.
Salsa - virgem
nuns olhos belíssimos de moça,
aquecida no sol.
Promessa deslizante,
enquanto a luz se esboroa
na praça geométrica,
fremente,
que à noite é pecado,
é bebida
e insulto.
Tijuca, as árvores dobradas,
estão longe,
a barra macia,
a delícia da areia
onde te encontrei.
Aqui, é o porto da cidade grande:
os mastros, as caixas,
vícios e espuma,
ao de cima do mar.



FOLHA SOLTA




Uma faixa de mar
a baloiçar
ao vento.
Neste momento,
é a única nota de vida
perdida
no horizonte.
No céu, a flutuar, uma gaivota
sem rota.
Desprende-se do cenário toda a frescura
da manhã leve e pura.
Apetece-me gritar, rezar a Deus.
Hoje, Senhor, estes versos são teus.



CARVALHO JORDÃO


(in "POEMAS", 1958-1984, DRAC,
Prefácio de Maria Aurora, 1984)



*

Carvalho Jordão (Carlos Alberto Rosa de), nasceu em 1937 em S. Tomé e Príncipe, tendo adoptado a Madeira, desde 1977, como a sua "segunda pátria", radicando-se, depois, em Portugal Continental. Licenciado em Ciências Jurídicas, na Faculdade de Direito de Lisboa (1958), exerceu a Magistratura Judicial, desempenhando diversos cargos no Continente, em Angola e na Madiera, onde foi Director Regional da Administração Pública. Tem colaboração em verso e em prosa, de incidência literária e também em forma de artigos e estudos de carácter jurídico e administrativo, dispersa pela imprensa de Portugal e Espanha, tendo reunido alguma dela em opúsculos. Conquistou o II Prémio da "Exposição de Poesia Ilustrada" da Faculdade de Direito (Lisboa, 1958). Na Madeira, publicou o seu primeiro livro de poesia "Poemas 1958-1984", em edição da DRAC-Secretaria Regional do Turismo e Cultura. No prefácio, a escritora Maria Aurora Homem saudou o aparecimento desta colectânea poética, afirmando que ela "vem enriquecer o panorama cultural da Ilha, também presente nesta obra, e à qual o poeta se sente intimamente ligado". Da sua autoria, recentemente, deu a lume outros estudos, tais como: Tutela Administrativa dos Governos Regionais sobre as Regiões Autónomas, Braga, (1980); Administração Regional Autónoma. Um Percurso ao redor da Própria Dinâmica Evolutiva da Autonomia, Funchal, (1983). Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma da Madeira, Funchal, (1999).

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POEMÁRIO



Assírio & Alvim



2004





PRINCESA SHÍKISHI



PRIMAVERA

Isola a minha vida.
Isola-a com camadas de neblina,
densa,
no sopé da Colina da Saudade.



PRINCESA SHÍKISHI


(1153-1201)


(in "Rosa do Mundo
- 2001 Poemas para o Futuro";
Tradução de Stephen Reckert)



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IMAGINÁRIO



Assírio & Alvim



2004






EUGEN HERRIGEL



«Compreendo perfeitamente que a mão não se deve abrir de forma brusca, para não comprometer o tiro, mas faça o que fizer, sai sempre mal. Se fecho a mão com todas as minhas forças, o estremecimento ao abri-la é inevitável. Se me esforço por deixá-la relaxada, a corda liberta-se ainda antes de atingir a tensão máxima, inesperadamente, é certo, porém cedo demais. Oscilo entre estes dois tipos de fracasso e não encontro solução.»
«Tem que se segurar a corda do arco como um bebé aperta o dedo que se lhe estende. Segura-o com tanta firmeza que a força daquele punho minúsculo é sempre motivo de admiração. E quando o solta, fá-lo sem a menor sacudidela. E sabe porquê? Porque a criança não pensa: agora vou largar o dedo, para agarrar nesta outra coisa. Sem reflectir, sem intenção nenhuma, vai de um objecto ao outro, e dir-se-ia que brinca com eles, se não fosse mais exacto achar que são os objectos que brincam com a criança.»



EUGEN HERRIGEL

(1869-1966)




(in "O Zen e a Arte do Tiro com Arco";
tradução: Patrícia Lara)




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Um poema inédito

de

José António Gonçalves






NA MORTE DO POETA



Todos rumamos para a mesma saída...
Grãos sagrados... Grãos de vida perdida...
Temos nosso tempo e nossa hora...
Aqui aportamos... Daqui se vai embora...



Francisco José Tricerri
(Vô Fernando)




Uma nuvem de tristeza
invadiu o céu do meu deserto.

Há mais lágrimas para contar
com a viagem eterna
de um amigo à distância.

O meu coração vestiu-se de negro
e escondeu-se nos raios de sol
dos dias por vir.

O poeta vai cuidar de passarinhos
brancos
no sítio onde afinal
os poetas são deuses.



José António Gonçalves



(inédito.22.03.04)


JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/

 

Selecção e Montagem: JAG