A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

23

 



***

ALBANO MARTINS





ESPIGAS


Finalmente (embora
saibas que não há
nem fim nem princípio):
deves dizer ainda
que há uma rosa de espuma
no teu peito e que
o seu perfume
não se esgota. E que lá
também existe
uma fonte onde bebem
as flores silvestres. Mas não
humildes, como ias
chamar-lhes: altas
como as espigas
do vento, que no vento
se esquecem e que no vento
amadurecem.






(in «Escrito a Vermelho»
Campo das Letras, 1999)


Albano Martins

(1930)

***


Bloco Poético de Notas


AL BERTO







NÃO CANTES


olha em redor dos bosques as veredas destruídas
pela explosão devastadora das minas e ouve
as vozes límpidas morrerem no poema


antes e depois da alegria
antes e depois do pânico


grava na parede esboroada do ar
o sulco ténue da infância - e fala-me dela
aproxima-te
para veres o horror tranquilo das imagens
no fundo dos meus olhos


antes e depois da alegria
antes e depois do pânico


debruça-te naquele terraço virado ao inimigo
onde um rosto de estuque arde e
um ferro reduziu a memória a nada


antes e depois da alegria
antes e depois do pânico


em volta das casas demolidas o anoitecer
o lume incontrolável - e alguém
atravessa o deserto
com uma criança de jade nos braços


ante e depois da alegria
antes e depois do pânico
mas
sempre durante o sofrimento


não cantes



CASA


durante a noite
a casa geme agita-se aquece e arrefece
no interior frio do olho da tua sombra sentada
na cadeira aparentemente vazia


esperas acordado sem sono
que a temperatura da casa funda
com a temperatura incerta do mundo
depois
escreves exactamente isto: o horror dos dias
secou contra os dentes - e rouco
dobrado para dentro do teu próprio pensamento
ferido
atravessas as sílabas diáfanas do poema


levantas-te tarde
atordoado
para extinguires o lume ateado
junto à memória da casa - respiras fundo
para que o gelo derreta e afogue
a vulgar noite do mundo


olhas-te no espelho
atribuis-te um nome um corpo um gesto
dormes
com a árvore de saliva das ilhas - com o vento
que arrasta consigo esta chuva de fósforo e
estes presságios de tranquilos ossos



SIDA


aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem - partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz


arquivamos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias - o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas


acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trémulos confusos - a mão queimada
junto ao coração


e mais nada se move na centrifugação
dos segundos - tudo nos falta
nem a vida nem o que dela resta nos consola
a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa


assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos e não voltaram
a telefonar





(in «Horto de Incêndio»,
Assírio & Alvim, 1997)


AL BERTO

(1948-1997) *** PITADA DE SAL



o que diz:








ANTÓNIO RAMOS ROSA





A TRAVESSIA DO PERSONAGEM
(fragmento)





O personagem não existe sem paisagem.
O personagem é imponderável.


Uma conjectura, uma pergunta:
Sem um guarda-chuva e sem um rosto.


E todavia, como não
vê-lo?
Mais do que um vulto
a figura se desenha entre as palavras.


Talvez respire e ouse
e o Tempo o Espaço o configurem.


Talvez empunha enfim o guarda-chuva.


Mas se ele caminha já
(numa avenida a uma hora tal)
serei eu que o invento?


Se ele respira, se o sol o aquece já?


Eu olho-o aqui e vou com ele
no seu ténue percurso
quase intenso.


A rua em que marcha define-o.


As árvores de que ele necessita
caminham com ele
e atravessam-no.


para onde vai?
Ninguém o vê
(pois aqui o distinguimos
entre ramos claros
de palavras).


O personagem é uma travessia intensa.
Mas imperscrutável
o seu rosto,
não secreto mas aberto e vago.


A cor dos olhos, por exemplo?
Castanhos, azuis?
Só depende
de uma arbitrária palavra.


Quem o decide agora diz são verdes.


E ei-los visíveis,
ei-los transparentes.







(in «Movimento - Cadernos de Poesia e Crítica», nº1,
com Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa,
Pedro Támen, José Bento, José Agostinho Baptista,
José António Gonçalves, Gualdino Avelino Rodrigues,
A. J. Vieira de Freitas, Funchal, 1973)




ANTÓNIO RAMOS ROSA



(Faro, 1924)


***



UM POETA DA MADEIRA




EURICO DE SOUSA




(Cactos na paisagem madeirense ao sol-pôr)



POEMAS





Algures por detrás a quinta com árvores rejuvenescidas
enobrecendo-as com antecipados cortes
aos fotoperiódicos tropicais; a maiêutica na evoluta de tanques
com nenúfares; animais exóticos;
envolventes disso
nos olhos funcionais
pirâmides que sobressaem
- como cubos de vidro puro;
faces cimeiras de si presentes
onde se tem:
minúsculos pratos
assentes sobre chávenas verdes
Fumo


O volume do perfume do chá;
esse além o atraente;
e nós não encontramos nada
com o gosto
Certo algo nos
assistindo Para além de qualquer
árvore de folhas perenes
esse cubo abstraído;
prédio ou prédios -
estantes soltas que a atenção prendeu


A haver o equipamento especial inalçado; retomar
de esquinar vocacional;
um estacar que nos faça dobrarmo-nos
para o sabermos
melhor


Janelas verdes da prevenção
sobre os contrários crus e amarelos
Como uma pele da infinita astúcia dos outros
tudo a querer banhar-nos nesse azul inefável
À escala de um desprazer diário com que se vá desembocar
extensíssimos jovens que vão adornando
os exteriores da casa (para fora das
coxas como captados em idosos visores)


«+»


Começassem eles então esse determinar mesmo
a partida - estas partidas quase fantásticas
Quer-se então a dar a volta a tudo;
subir mesmo a descuidada rampa


No estampido da passagem no calcáreo
devers-e-ia ser norte-sul e não apenas passagem
Quase é este cair na secura que desde a memória - porque
ausente;
este vaivém como o descer algures de montacarga
de tantas destas montanhosas
torres
Então quanto a vacilação interessar:
correr isso em negro de alumínio;
marafolhos em opções com a aresta metálica da grafite;
é como levar a alguma boca o laxativo na barra de chocolate.








(in «Disgrafia Florestal»,
DRAC, Funchal, 1995)


EURICO DE SOUSA


(1933)



*
Eurico de Sousa (n. Funchal, 1933). Arquitecto. Professor aposentado
do Ensino Secundário. Incluído nas colectâneas «O Natal na Voz dos
Poetas Madeirenses» (1989), «Poet'Arte 90» (1990), «Poesia da Ilha»
(1991), «Ilha 4" (1994) todas organizadas por José António Gonçalves
e «Poeti Contemporanei dell' Isola di Madera" (org., trad. e prefácio
de Giampaolo Tonini, bilingue, Itália, 2001). Publicou "A Festa Sendo
em Agosto" (com ilustrações de Alice de Sousa, 1980) e «Disgrafia
Florestal» (1995).


***

POEMÁRIO
Assírio&Alvim 2004




JOHANN WOLFGANG GOETHE












EM HONRA E MEMÓRIA DE HOWARD





Quando Camarupa, a deusa, em seu altar
Atravessa, leve e grave, o ar,
Do véu as pregas juntando, desfazendo,
Com a mudança das formas se alegrando,
Parando, rígida, qual fumo se esfumando,
Não crê um homem no que os olhos estão vendo.


Já a força se agita que é capaz
De ao que é informe forma dar, e faz
Nascer no ar um leão, um elefante,
Do camelo sai dragão flamejante,
Chega um exército, mas não logo a vitória,
Na alta escarpa tem fim sua glória;
Já o fiel arauto da nuvem se dissipa,
Seu fito é o horizonte, mas aqui abdica.


Mas ele, Howard, homem clarividente,
Com a sua doutrina ensinou toda a gente.
O que o céu não retém e o sentido não vê,
Ele primeiro o fixa, e enfim o lê;
Dá forma ao informe, seu domínio estreita,
Com o nome certo - honra lhe seja feita! -
A nuvem sobe, adensa, esgarça, desce,
E o mundo pensa em ti e agradece.




(in «O Jogo das Nuvens»,
tradução de João Barrento)




JOHANN WOLFGANG GOETHE



(1749-1832)


***


imaginário
Assírio&Alvim 2004



MABEL COLLINS







Há quatro verdades certas e provadas com respeito à entrada
para o ocultismo. As Portas de Ouro vedam aquele limiar; mas
alguns há que transpõem essas Portas e descobrem o sublime
e o ilimitável que está para além delas. Em épocas ainda muito
longe no Tempo todos passarão essas portas. Mas sou um dos
que deseja que o Tempo, o grande enganador, não fosse tão
despótico. Para aqueles que o conhecem e o amam não tenho
palavras a dizer; mas para os outros - e não são tão poucos co-
mo alguns podem imaginar - para quem a passagem do tempo é
como um golpe de um camartelo, e o sentimento do espaço co-
mo os varões de uma gaiola de ferro, traduzirei, e tornarei a tra-
duzir, até que eles compreendam bem.






MABEL COLLINS


(1851-1927)



(in «Luz Sobre o Caminho»,
tradução de Fernando Pessoa)




***


POEMA INÉDITO

DE

JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES



(Gado nas serras da ilha da Madeira, recentemente retirado por decisão oficial)


A SEMENTEIRA


saberei no momento da sementeira
até onde pode ir a força real
da palavra arremessada
para o centro do poema



não se dispensa a água nem o amor
com que os dedos acarinham a terra
e seguem o seu curso até ao mar



nem há vontade de virar as costas
aos penhascos que lançam as vozes
para a profundeza dos abismos



os homens chegam a solo firme e cantam
na linha do horizonte em que viajaram
na sede de toda uma vida sem respostas



não havia perguntas dizem alguns ao luar
imaginando fogueiras e florestas junto aos riachos
desmemoriados do passado e do futuro



depois recordamos como as eiras precisam do sal
com que se abençoa cada gota de suor
guardado num verso ainda por escrever



e lá seguimos viagem com a luz do coração
às vezes despedaçado pelas distâncias
em busca da casa guardada na lembrança
de outro dia dentro de nós a escurecer




JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES



(inédito.23/03/04)




JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/


Consulta aos números anteriores:
http://www.terravista.pt/mussulo/1701/indice.html
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm





 

Selecção e Montagem: JAG