A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

24

 
 
 
 
ALBANO MARTINS



Onde vão desaguar
estes rios de lama
vegetal, inconcreta?

Que lúbricas centopeias
devoram teus
olhos lúcidos, poeta?

(in "Vocação do Silêncio", 1950-1985; 1990)


Vou pelo rio des
folhando rosas
de água compulsiva.

(idem)


Mais verde
do que o verde
e mais líquida
- o azul.

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992)

Albano Martins


(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas




MARIA ALBERTA MENÉRES


Entre a sombra...

Entre a sombra e a noite há um submisso instante
de preparação.
Aberto espaço onde aves não cantam,
imaculado, instantâneo refúgio.
Entre a sombra e a noite, único passo!

— E é serena e frágil a presença
dos nossos vultos passageiros
isolados na própria condição.

Onde nada se move, uma estrela suspensa.

E tão inutilmente despedaço o encanto,
e tão súbita me vem uma tristeza antiga,
que entre a sombra e a noite encontro o meu refúgio
— o intocável, único espaço.

(in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Lacerda Editora, 1999 - RJ, Brasil)


Pretexto

Por que não cai a noite, de uma vez?
— Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai a noite, de uma vez?
— Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)





ÁGUA-MEMÓRIA



Que súbita alegria me tortura

alegria tão bela e estranha

tão inquieta

tão densa de pressentimentos?



Que vento nos meus nervos

que temporal lá fora

que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?


Pára a chuva nas árvores

pára a chuva nos gestos,

interiores contornos

divisíveis distâncias

ultrapassáveis gritos

que alegria no inverno,

que montanha esperada ou inesperado canto?



CÂNTICO DE BARRO



Inquieta chuva, inquieta me dispersa,

esquecida a tradição e o cansado som.

Dentro e fora de mim tudo é deserto

como se as ervas fossem arrancadas

ou se esgotasse a dor por que se chora.



Na grande solidão me basta, e a contemplo

para o sonho interior que me resolve!

Tão fácil é esperar, que já nem sinto

o que vem a dormir ou a morrer

na mesma angústia que o silêncio envolve.



MARIA ALBERTA MENÉRES

(1930)

*
Maria Alberta Menéres nasceu em Vila Nova de Gaia em 25.8.1930. Poeta e autora de livros para a infância. Formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas. Professora do Ensino Técnico, Preparatório e Secundário (1965-1973), tradutora, tem vasta colaboração em jornais e revistas literárias. Dirigiu o Departamento de Programas Infantis e Juvenis da Radiotelevisão Portuguesa (1975-4986).A par de uma actividade poética de longa data, continua a desenvolver um importante trabalho pedagógico no âmbito da educação literária infantil e publicou vários livros para a infância e juventude incluindo poesia, contos, teatro, novelas e adaptação de clássicos. Ainda no âmbito da actividade dirigida à infância, foi directora da revista Pais, entre 1990 e 1993 e trabalha actualmente na Provedoria de Justiça, onde tem uma linha directa de atendimento às crianças.Está representada em várias antologias nacionais e estrangeiras de poesia portuguesa. E ainda responsável por duas obras de referência no panorama literário contemporâneo: a versão para português actual da famosa Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto e a organização, com Ernesto de Meio e Castro, da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (com três edições nas décadas de 5 0/60) e da sua actualização, em 1979: Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977. A sua obra para a infância, que conta no total mais de 70 títulos, é caracterizada pelo humor e pela poesia, procurando alertar os jovens para os mais simples pormenores do quotidiano. Alguns dos seus títulos poéticos: Intervalo (1952); Cântico de Barro. Lisboa: Portugália Editora, 1954; A Palavra Imperceptível. Lisboa: s.n., 1955; Oração de Páscoa. (1958); Agua Memória. Fundão: Jornal do Fundão, 1960; Poesias Escolhidas. Covilhã: Edições Pedras Brancas, 1962; A Pegada do Yeti. Lisboa: Moraes, 1962; Os Mosquitos de Suburna. Edições Pedras Brancas, 1967; O Robot Sensível. Lisboa: Plátano Editora, 1978; e O Jogo dos Silêncios. Lisboa: Hugin Editores, 1996.




***

PITADA DE SAL


o que diz: JOSÉ REGIO




TOADA DE PORTALEGRE



Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros

Morei numa casa velha,

À qual quis como se fora

Feita para eu Morar nela...



Cheia dos maus e bons cheiros

Das casas que têm história,

Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória

De antigas gentes e traças.

Cheia de sol nas vidraças

E de escuro nos recantos,

Cheia de medo e sossego,

De silêncios e de espantos,

- Quis-lhe bem como se fora

Tão feita ao gosto de outrora

Como as do meu aconchego.



Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De montes e de oliveiras

Ao vento suão queimada

(Lá vem o vento suão!,

Que enche o sono de pavores,

Faz febre, esfarela os ossos,

E atira aos desesperados

A corda com que se enforcam

Na trave de algum desvão...)

Em Portalegre, dizia,

Cidade onde então sofria

Coisa que terei pudor

De contar seja a quem fôr,

Na tal casa tosca e bela

À qual quis como se fora

Feita para eu morar nela,

Tinha, então,

Por única diversão,

Uma pequena varanda

Diante de uma janela



Toda aberta ao sol que abrasa,

Ao frio que tosse e gela

E ao vento que anda, desanda,

E sarabanda, e ciranda

Derredor da minha casa,

Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos e sobreiros

Era uma bela varanda,

Naquela bela janela!



Serras deitadas nas nuvens,

Vagas e zuis de distância,

Azuis, cinzentas, lilases,

Já roxas quando mais perto,

Campos verdes e amarelos,

Salpicados de oliveiras,

E que o frio, ao vir, despia,

Rasava, unia

Num mesmo ar de deserto

Ou de longínquas geleiras,

Céus que lá em cima, estrelados,

Boiando em lua, ou fechados

Nos seus turbilhões de trevas,

Pareciam engolir-me

Quando, fitando-os suspenso

Daquele silêncio imenso,

Sentia o chão a fugir-me,

- Se abriam diante dela

Daquela

Bela

Varanda

Daquela

Minha

Janela,

Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros

Na casa em que morei, velha,

Cheia dos maus e bons cheiros

Das casas que têm história,

Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória

De antigas gentes e traças,

Cheia de sol nas vidraças

E de escuro nos recantos,

Cheia de medo e sossego,

De silêncios e de espantos,

À qual quis como se fora

Tão feita ao gosto de outrora

Como as do meu aconchego...



Ora agora,

Que havia o vento suão

Que enche o sono de pavores,

Faz febre, esfarela os ossos,

Dói nos peitos sufocados,

E atira aos desesperados

A corda com que se enforcam

Na trave de algum desvão,

Que havia o vento suão

De se lembrar de fazer?



Em Portalegre, dizia,

Cidade onde então sofria

Coisas que terei pudor

De contar seja a quem for,

Que havia o vento suão

De fazer,

Senão trazer

Àquela

Minha

Varanda

Daquela

Minha

Janela,

O documento maior

De que Deus

É protector

Dos seus

Que mais faz sofrer?



Lá num craveiro, que eu tinha,

Onde uma cepa cansada

Mal dava cravos sem vida,

Poisou qualquer sementinha

Que o vento que anda, desanda,

E sarabanda, e ciranda,

Achara no ar perdida,

Errando entre terra e céus...,

E, louvado seja Deus!,

Eis que uma folha miudinha

Rompeu, cresceu, recortada,

Furando a cepa cansada

Que dava cravos sem vida

Naquela

Bela

Varanda

Daquela

Minha

Janela

Da tal casa tosca e bela

À qual quis como se fora

Feita para eu morar nela...

Como é que o vento suão

Que enche o sono de pavores,

Faz febre, esfarela os ossos,

Dói nos peitos sufocados,

E atira aos desesperados

A corda com que se enforcam

Na trave de algum desvão,

Me trouxe a mim que, dizia,

Em Portalegre sofria

Coisas que terei pudor

De contar seja a quem for,

Me trouxe a mim essa esmola,

Esse pedido de paz

Dum Deus que fere... e consola

Como o próprio mal que faz?



Coisas que terei pudor

De contar seja a quem for

Me davam então tal vida

Em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,

Me davam então tal vida

- Não vivida!, sim morrida

No tédio e no desespero,

No espanto e na solidão,

Que a corda dos derradeiros

Desejos dos desgraçados

Por noites de tal suão

Já várias vezes tentara

Meus dedos verdes suados...



Senão quando o amor de Deus

Ao vento que anda, desanda,

E sarabanda, e ciranda,

Confia uma sementinha

Perdida entre terra e ceús,

E o vento a trás à varanda

Daquela

Minha

Janela

Da tal casa tôsca e bela

À qual quis como se fôra

Feita para eu morar nela!



Lá no craveiros que eu tinha,

Onde uma cepa cansada

Mal dava cravos sem vida,

Nasceu essa acaciazinha

Que depois foi transplantada

E cresceu; Dom do meu Deus!,

Aos pés lá da estranha casa

Do largo do cemitério,

Frente aos ciprestes que em frente

Mostram os céus,

Como dedos apontados

De gigantes enterrados...

Quem desespera dos homens,

Se a alma lhe não secou,

A tudo transfere a esperança

Que a humanidade frustrou:

E é capaz de amar as plantas,

De esperar nos animais,

De humanizar coisas brutas,

E ter criancices tais,

Tais e tantas!,

Que será bom ter pudor

De as contar seja a quem for!



O amor, a amizade, e quantos

Mais sonhos de oiro eu sonhara,

Bens deste mundo!, que o mundo

Me levara

De tal maneira me tinham,

Ao fugir-me,

Deixando só, nulo, vácuos,

A mim que tanto esperava

Ser fiel,

E forte,

E firme,

Que não era mais que morte

A vida que então vivia,

Auto-cadáver...



E era então que sucedia

Que em Portalegre, cidade

Do Alto Alentejo, cercada

De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros

Aos pés lá da casa velha

Cheia dos maus e bons cheiros

Das casas que têm história,

Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória

De antigas gentes e traças,

Cheia de sol nas vidraças

E de escuro nos recantos,

Cheia de medo e sossego,

De silêncios e de espantos,

- A minha acácia crescia.



Vento suão!, obrigado...

Pela doce companhia

Que em teu hálito empestado

Sem eu sonhar, me chegara!

E a cada raminho novo

Que a tenra acácia deitava,

Será loucura!..., mas era

Uma alegria

Na longa e negra apatia

Daquela miséria extrema

Em que vivia,

E vivera,

Como se fizera um poema,

Ou se um filho me nascera.

JOSÉ RÉGIO


***

UM POETA DA MADEIRA


UM POEMA DE
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA




PICO RUIVO


Já se ouve o tropel dos cavalos brancos sobre as
nuvens.
Os elmos refulgem e depois tombam e recolhe-os a
manhã.
Os guerreiros do sol nasciam aqui.

Era jovem quando subi as escadas da terra deixando
na pedra e na urze, um desejo, um verso que já
anunciava o terror.
Onde estavas na minha primavera?
Eu pensava tanto que já não sei se era grande o vento,
se o sol parava no coração da beleza.

Bela e dolorosa revelação -
quem me chama ao fundo da noite? -
mas a sua forma não revelava um rosto, duas mãos com
a inclinação dos girassóis que mais tarde vi.
Voltei-me de lado para não sentir a morte nos campos
da península.
Em vão, porque eras tu. Despenhei-me aqui,
despenhei-me em ti.
Já estava escrito que morria.
Subi os degraus e abracei a cruz. Feriram-me as
roseiras.
Jurei que não regressaria aos lugares do destino.

Ao abrir a porta a casa abandonava as trevas e ainda
não se ouvia nada, nem os acordes da manhã, nem as
águas despenhadas, nem os amigos, porque longa é a
melancolia sobre as montanhas.

Fui a giesta e o jasmim e o mel distante.
Não cantei porque não podia.
O que entrava em mim não tinha nome, era como a rubra,
deslumbrada luz, as cinzas no meio de tudo -
sim, porque tudo ardia.



JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA



(in "Canções da Terra Distante",
Assírio & Alvim, 1994)



***




POEMÁRIO



Assírio & Alvim



2004








EMILY DICKINSON



A inundação da Primavera
Engrandece a alma -
Assola as terras
Mas deixa o vazio da Água -


No qual a alma antes esquiva -
Busca debilmente a costa
Mas quando aclimatada - deixa de ansiar
Por essa Península -


EMILY DICKINSON


(1830-1886)


(in "Esta é a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas";
Tradução de Cecília Rego Pinheiro)



***





IMAGINÁRIO




Assírio & Alvim



2004





MIGUEL ESTEVES CARDOSO



Muitas coisas aconteceram quando eu e o meu whisky estávamos juntos. Não sou pessoa de fiar e bebo o meu whisky só com gelo, num copo curto. Mas vi uma rapariga numa cervejaria ajoelhar-se aos pés de outra e atar-lhe os atacadores dum sapato; vi muitos casamentos desmoronar, muitas pessoas morrer, muitos amigos esquecer, muitas crianças fugir, muitas mulheres apaixonarem-se; enquanto bebia o meu whisky, só com gelo, num copo curto, desobrigado de beber gin-tónico com açucar, como tu, num copo alto, vi muitas estranhas procissões passar, quando estávamos só os dois, contentes como se estivéssemos com outra pessoa, embevecidos estávamos eu e o meu whisky. Dia e noite, ao longo dos anos. Mas de preferência ao fim da tarde. O meu whisky tinha muito vagar e tinha muito para dizer, mas era tão inteligente que sabia que aquilo, no fundo, era tudo pressa - e preferia não dizer nada.



MIGUEL ESTEVES CARDOSO


(1955)



(in "O Amor é Fodido")




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Um poema inédito

de

José António Gonçalves





OS OLHOS DOS INSECTOS


Os olhos dos insectos descobrem
os nódulos da lava na crosta da pele
e se pudessem lá habitavam
aquecidos pelo amor filial
do vulcão adormecido

Um dia perguntei-me pela missão na terra
dos seres invisíveis, desses fantasmas
com corpo moldado numa espiral de mudanças
e se hoje são animais brincando nos rios
amanhã estarão voando sobre as montanhas
ou rastejando no seio camuflado das ervas
ou fazendo de peixes no sonho dos mergulhadores
ou dos meninos de ambição recolhida
aos limites do mar.


Os antepassados do homem esconderam as respostas
nos códigos dos seus dialectos
e no silêncio das figuras protectoras de paredes
com o rosto claro dos dias e das noites.


Os seus herdeiros contentam-se hoje com o calor
das lareiras, umas flores de plástico nas jarras,
as alegrias das longas viagens, o crescendo das casas, a perda da inocência e dos amores.
Nos dicionários tornam-se, afinal,
nas manhãs de ressaca e sonolência,
sinónimos de insectos, de cigarras.



José António Gonçalves



(inédito.24.03.04)


 

Selecção e Montagem: JAG