Onde vão desaguar
estes rios de lama
vegetal, inconcreta?
Que lúbricas centopeias
devoram teus
olhos lúcidos, poeta?
(in "Vocação do Silêncio", 1950-1985; 1990)
Vou pelo rio des
folhando rosas
de água compulsiva.
(idem)
Mais verde
do que o verde
e mais líquida
- o azul.
(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992)
Albano Martins
(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
MARIA ALBERTA MENÉRES
Entre a sombra...
Entre a sombra e a noite há um submisso instante
de preparação.
Aberto espaço onde aves não cantam,
imaculado, instantâneo refúgio.
Entre a sombra e a noite, único passo!
— E é serena e frágil a presença
dos nossos vultos passageiros
isolados na própria condição.
Onde nada se move, uma estrela suspensa.
E tão inutilmente despedaço o encanto,
e tão súbita me vem uma tristeza antiga,
que entre a sombra e a noite encontro o meu refúgio
— o intocável, único espaço.
(in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Lacerda Editora,
1999 - RJ, Brasil)
Pretexto
Por que não cai a noite, de uma vez?
— Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.
Por que não cai a noite, de uma vez?
— Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.
(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)
ÁGUA-MEMÓRIA
Que súbita alegria me tortura
alegria tão bela e estranha
tão inquieta
tão densa de pressentimentos?
Que vento nos meus nervos
que temporal lá fora
que alegria tão pura, quase medo ao silêncio?
Pára a chuva nas árvores
pára a chuva nos gestos,
interiores contornos
divisíveis distâncias
ultrapassáveis gritos
que alegria no inverno,
que montanha esperada ou inesperado canto?
CÂNTICO DE BARRO
Inquieta chuva, inquieta me dispersa,
esquecida a tradição e o cansado som.
Dentro e fora de mim tudo é deserto
como se as ervas fossem arrancadas
ou se esgotasse a dor por que se chora.
Na grande solidão me basta, e a contemplo
para o sonho interior que me resolve!
Tão fácil é esperar, que já nem sinto
o que vem a dormir ou a morrer
na mesma angústia que o silêncio envolve.
MARIA ALBERTA MENÉRES
(1930)
*
Maria Alberta Menéres nasceu em Vila Nova de Gaia em 25.8.1930.
Poeta e autora de livros para a infância. Formou-se em Ciências
Histórico-Filosóficas. Professora do Ensino Técnico, Preparatório e
Secundário (1965-1973), tradutora, tem vasta colaboração em jornais
e revistas literárias. Dirigiu o Departamento de Programas Infantis
e Juvenis da Radiotelevisão Portuguesa (1975-4986).A par de uma
actividade poética de longa data, continua a desenvolver um
importante trabalho pedagógico no âmbito da educação literária
infantil e publicou vários livros para a infância e juventude
incluindo poesia, contos, teatro, novelas e adaptação de clássicos.
Ainda no âmbito da actividade dirigida à infância, foi directora da
revista Pais, entre 1990 e 1993 e trabalha actualmente na Provedoria
de Justiça, onde tem uma linha directa de atendimento às
crianças.Está representada em várias antologias nacionais e
estrangeiras de poesia portuguesa. E ainda responsável por duas
obras de referência no panorama literário contemporâneo: a versão
para português actual da famosa Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto
e a organização, com Ernesto de Meio e Castro, da Antologia da
Novíssima Poesia Portuguesa (com três edições nas décadas de 5 0/60)
e da sua actualização, em 1979: Antologia da Poesia Portuguesa
1940-1977. A sua obra para a infância, que conta no total mais de 70
títulos, é caracterizada pelo humor e pela poesia, procurando
alertar os jovens para os mais simples pormenores do quotidiano.
Alguns dos seus títulos poéticos: Intervalo (1952); Cântico de
Barro. Lisboa: Portugália Editora, 1954; A Palavra Imperceptível.
Lisboa: s.n., 1955; Oração de Páscoa. (1958); Agua Memória. Fundão:
Jornal do Fundão, 1960; Poesias Escolhidas. Covilhã: Edições Pedras
Brancas, 1962; A Pegada do Yeti. Lisboa: Moraes, 1962; Os Mosquitos
de Suburna. Edições Pedras Brancas, 1967; O Robot Sensível. Lisboa:
Plátano Editora, 1978; e O Jogo dos Silêncios. Lisboa: Hugin
Editores, 1996.
***
PITADA DE SAL
o que diz: JOSÉ REGIO
TOADA DE PORTALEGRE
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças.
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Ao vento suão queimada
(Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão...)
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisa que terei pudor
De contar seja a quem fôr,
Na tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela,
Tinha, então,
Por única diversão,
Uma pequena varanda
Diante de uma janela
Toda aberta ao sol que abrasa,
Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos e sobreiros
Era uma bela varanda,
Naquela bela janela!
Serras deitadas nas nuvens,
Vagas e zuis de distância,
Azuis, cinzentas, lilases,
Já roxas quando mais perto,
Campos verdes e amarelos,
Salpicados de oliveiras,
E que o frio, ao vir, despia,
Rasava, unia
Num mesmo ar de deserto
Ou de longínquas geleiras,
Céus que lá em cima, estrelados,
Boiando em lua, ou fechados
Nos seus turbilhões de trevas,
Pareciam engolir-me
Quando, fitando-os suspenso
Daquele silêncio imenso,
Sentia o chão a fugir-me,
- Se abriam diante dela
Daquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Na casa em que morei, velha,
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
À qual quis como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego...
Ora agora,
Que havia o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Que havia o vento suão
De se lembrar de fazer?
Em Portalegre, dizia,
Cidade onde então sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Que havia o vento suão
De fazer,
Senão trazer
Àquela
Minha
Varanda
Daquela
Minha
Janela,
O documento maior
De que Deus
É protector
Dos seus
Que mais faz sofrer?
Lá num craveiro, que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Poisou qualquer sementinha
Que o vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Achara no ar perdida,
Errando entre terra e céus...,
E, louvado seja Deus!,
Eis que uma folha miudinha
Rompeu, cresceu, recortada,
Furando a cepa cansada
Que dava cravos sem vida
Naquela
Bela
Varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tosca e bela
À qual quis como se fora
Feita para eu morar nela...
Como é que o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão,
Me trouxe a mim que, dizia,
Em Portalegre sofria
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for,
Me trouxe a mim essa esmola,
Esse pedido de paz
Dum Deus que fere... e consola
Como o próprio mal que faz?
Coisas que terei pudor
De contar seja a quem for
Me davam então tal vida
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,
Me davam então tal vida
- Não vivida!, sim morrida
No tédio e no desespero,
No espanto e na solidão,
Que a corda dos derradeiros
Desejos dos desgraçados
Por noites de tal suão
Já várias vezes tentara
Meus dedos verdes suados...
Senão quando o amor de Deus
Ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda,
Confia uma sementinha
Perdida entre terra e ceús,
E o vento a trás à varanda
Daquela
Minha
Janela
Da tal casa tôsca e bela
À qual quis como se fôra
Feita para eu morar nela!
Lá no craveiros que eu tinha,
Onde uma cepa cansada
Mal dava cravos sem vida,
Nasceu essa acaciazinha
Que depois foi transplantada
E cresceu; Dom do meu Deus!,
Aos pés lá da estranha casa
Do largo do cemitério,
Frente aos ciprestes que em frente
Mostram os céus,
Como dedos apontados
De gigantes enterrados...
Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou:
E é capaz de amar as plantas,
De esperar nos animais,
De humanizar coisas brutas,
E ter criancices tais,
Tais e tantas!,
Que será bom ter pudor
De as contar seja a quem for!
O amor, a amizade, e quantos
Mais sonhos de oiro eu sonhara,
Bens deste mundo!, que o mundo
Me levara
De tal maneira me tinham,
Ao fugir-me,
Deixando só, nulo, vácuos,
A mim que tanto esperava
Ser fiel,
E forte,
E firme,
Que não era mais que morte
A vida que então vivia,
Auto-cadáver...
E era então que sucedia
Que em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Aos pés lá da casa velha
Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- A minha acácia crescia.
Vento suão!, obrigado...
Pela doce companhia
Que em teu hálito empestado
Sem eu sonhar, me chegara!
E a cada raminho novo
Que a tenra acácia deitava,
Será loucura!..., mas era
Uma alegria
Na longa e negra apatia
Daquela miséria extrema
Em que vivia,
E vivera,
Como se fizera um poema,
Ou se um filho me nascera.
JOSÉ RÉGIO
***
UM POETA DA MADEIRA
UM POEMA DE
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
PICO RUIVO
Já se ouve o tropel dos cavalos brancos sobre as
nuvens.
Os elmos refulgem e depois tombam e recolhe-os a
manhã.
Os guerreiros do sol nasciam aqui.
Era jovem quando subi as escadas da terra deixando
na pedra e na urze, um desejo, um verso que já
anunciava o terror.
Onde estavas na minha primavera?
Eu pensava tanto que já não sei se era grande o vento,
se o sol parava no coração da beleza.
Bela e dolorosa revelação -
quem me chama ao fundo da noite? -
mas a sua forma não revelava um rosto, duas mãos com
a inclinação dos girassóis que mais tarde vi.
Voltei-me de lado para não sentir a morte nos campos
da península.
Em vão, porque eras tu. Despenhei-me aqui,
despenhei-me em ti.
Já estava escrito que morria.
Subi os degraus e abracei a cruz. Feriram-me as
roseiras.
Jurei que não regressaria aos lugares do destino.
Ao abrir a porta a casa abandonava as trevas e ainda
não se ouvia nada, nem os acordes da manhã, nem as
águas despenhadas, nem os amigos, porque longa é a
melancolia sobre as montanhas.
Fui a giesta e o jasmim e o mel distante.
Não cantei porque não podia.
O que entrava em mim não tinha nome, era como a rubra,
deslumbrada luz, as cinzas no meio de tudo -
sim, porque tudo ardia.
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
(in "Canções da Terra Distante",
Assírio & Alvim, 1994)
***
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
EMILY DICKINSON
A inundação da Primavera
Engrandece a alma -
Assola as terras
Mas deixa o vazio da Água -
No qual a alma antes esquiva -
Busca debilmente a costa
Mas quando aclimatada - deixa de ansiar
Por essa Península -
EMILY DICKINSON
(1830-1886)
(in "Esta é a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas";
Tradução de Cecília Rego Pinheiro)
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
MIGUEL ESTEVES CARDOSO
Muitas coisas aconteceram quando eu e o meu whisky estávamos juntos.
Não sou pessoa de fiar e bebo o meu whisky só com gelo, num copo
curto. Mas vi uma rapariga numa cervejaria ajoelhar-se aos pés de
outra e atar-lhe os atacadores dum sapato; vi muitos casamentos
desmoronar, muitas pessoas morrer, muitos amigos esquecer, muitas
crianças fugir, muitas mulheres apaixonarem-se; enquanto bebia o meu
whisky, só com gelo, num copo curto, desobrigado de beber gin-tónico
com açucar, como tu, num copo alto, vi muitas estranhas procissões
passar, quando estávamos só os dois, contentes como se estivéssemos
com outra pessoa, embevecidos estávamos eu e o meu whisky. Dia e
noite, ao longo dos anos. Mas de preferência ao fim da tarde. O meu
whisky tinha muito vagar e tinha muito para dizer, mas era tão
inteligente que sabia que aquilo, no fundo, era tudo pressa - e
preferia não dizer nada.
MIGUEL ESTEVES CARDOSO
(1955)
(in "O Amor é Fodido")
****
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
OS OLHOS DOS INSECTOS
Os olhos dos insectos descobrem
os nódulos da lava na crosta da pele
e se pudessem lá habitavam
aquecidos pelo amor filial
do vulcão adormecido
Um dia perguntei-me pela missão na terra
dos seres invisíveis, desses fantasmas
com corpo moldado numa espiral de mudanças
e se hoje são animais brincando nos rios
amanhã estarão voando sobre as montanhas
ou rastejando no seio camuflado das ervas
ou fazendo de peixes no sonho dos mergulhadores
ou dos meninos de ambição recolhida
aos limites do mar.
Os antepassados do homem esconderam as respostas
nos códigos dos seus dialectos
e no silêncio das figuras protectoras de paredes
com o rosto claro dos dias e das noites.
Os seus herdeiros contentam-se hoje com o calor
das lareiras, umas flores de plástico nas jarras,
as alegrias das longas viagens, o crescendo das casas, a perda da
inocência e dos amores.
Nos dicionários tornam-se, afinal,
nas manhãs de ressaca e sonolência,
sinónimos de insectos, de cigarras.
José António Gonçalves
(inédito.24.03.04)