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ALBANO MARTINS
CONCERTO PARA VIOLINO
E ORQUESTRA DE MAX BRUCH
Das cordas do violino dir-se-á
que não foram feitas
para prender. Nunca
os sons
foram tão soltos, a música
tão livre. Presos,
agrilhoados ao esplendor
do arpão sonoro, apenas
os sentidos.
AO GRILO NÃO DIGAS
Ao grilo
não digas:
não cantes! Porque
onde um grilo
canta canta
o verão, cantam
as espigas.
(in «Cástalia e Outros Poemas»,
Campo das Letras, 2001)
Albano Martins
(1930)
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Bloco Poético de Notas
Gregory Corso
CASA NATAL REVISITADA
Fico na luz escura da rua escura
e olhos para cima para a minha janela, nasci ali.
As luzes estão acesas; outra gente anda por lá.
Estou de gabardina; cigarro na boca,
cabelo para os olhos, mão na garganta.
Atravesso a rua e entro no prédio.
Os caixotes do lixo continuam a cheirar mal.
Subo ao primeiro andar; Orelhas Sujas
aponta-me uma faca...
eu tactei-o cheio de relógios perdidos.
O LAMENTO DE ZIZI
Estou apaixonado pela doença do riso
far-me-ia muito bem se a tivesse -
usei as esplêndidas cabaias do Sudão,
pus os magnificentes halivas de Boudodin Bros.,
beijei as Fátimas cantantes do chulo de Adém,
escrevi gloriosos salmos no café Hakhaliba,
mas nunca tive a doença do riso,
então para que sirvo eu?
O comerciante gordo oferece-me ópio,kief, haxixe, até suco de
camelo,
tudo é insatisfatório -
Oh noite amarga e terrível! tu de novo! terei ainda
que tirar os meus dentes irreais
despir o meu irrisível eu
pôr a dormir esta cabeça melancólica?
Não sou nada sem a doença do riso.
O meu pai apanhou-a, o meu avô também;
certamente o Tio Fez há-de apanhá-la, mas eu, eu
a quem faria tão bem,
apanhá-la-ei alguma vez?
2 HAPPENINGS SOBRENATURAIS EM HAARLEM
1
Quatro moinhos de vento, conhecidos,
foram vistos uma manhã a omer tulipas,
Meio-dia
e toda a cidade se agita
a gritar: Apocalipse! Apocalipse!
2
Oh povo! meu povo!
algo sobrenaturalmente arquitectónico
como um canibal ruidoso
veio a Haarlem a noite passada
e devorou um canal!
(in «Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana»,
tradução de Manuel Seabra, Editorial Futura, 1973)
GREGORY CORSO
(1930)
*
Gregory Corso nasceu em Greenwich Village, nos Estados Unidos da
América, em 1930.Membro da geração «beat», até ao seu encontro com
Kerouac e Ginsberg viveu com vá-rias famílias, desempenhando o seu
papel de filho adoptivo, entre passagens por orfana-tos e
reformatórios. Revelou-se como poeta com o livro "The Vestal Lady on
Brattle andOther Poems» (1955), seguindo-se «Gasoline» (1958) e «Bomb»
(1958) ou o famoso «LongLive Man» (1962). É um poeta carismático,
tornando sérios acontecimentos artísticos osseus recitais, em bares
ou universidades do seu país natal.
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PITADA DE SAL
o que diz:
Federico García Lorca
SURPRESA
Um morto caiu na rua
com um punhal no peito.
Não sabia de nada.
O candeeiro tremia!
Mãe.
Como estremecia o lampião
da rua.
Era madrugada. Nada
podia acudir aos seus olhos
abertos na rijidez do ar.
Um morto caiu na rua
com um punhal enfiado no peito
e ele não sabia de nada.
(versão portuguesa de
José António Gonçalves)
FEDERICO GARCÍA LORCA
(1898-1936)
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UM POETA DA MADEIRA
Joaquim Evónio
Poema atrevido
Já morri ali
mas os poetas não morrem
nascem sempre aqui
com a palavra atrevida
onde renasce o poema
Nada
Hoje não fiz nada
apenas pensei
exercício doloroso
consumidor
de energias cerebrais
Segredos
Vivi essa flor
disse-lhe segredos
não falou d'amor
só me disse adeus
Imortal
Dentre as rosas do jardim
gotas subiram ao céu
sem contorno
sonho imortal
de poema a respirar
SURF
Quis eu brincar com as ondas
mas não quiseram brincar...
E a praia adormeceu,
também não quis esperar.
(inéditos em livro)
JOAQUIM EVÓNIO
(1938)
*
Joaquim Evónio Rodrigues de Vasconcelos (n. Freguesia de Santa Maria
Maior, Funchal, Madeira, 3.9.1938), é licenciado em Ciências
Militares (Coronel de Infantaria na situação de Reforma
Extraordinária) e em Ciências Sociais e Política Ultramarina (pela
UT de Lisboa). Auditor do Curso de Defesa Nacional (CDN 83) possui
também o "Certificado de Proficiency in English", do British
Institute em Lisboa. Neste momento é Assessor Principal do Serviço
Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC). Pertence à
Associação Portuguesa de Escritores (APE), à Associação Cultural SOL
XXI, ao Instituto Açoriano de Cultura (IAC), à Associação Escadote
Cultural (http://escadotecultural.cbj.pt e http://www.escadoteonline.planetaclix.pt
), à Associação de ex-Auditores dos Cursos de Defesa Nacional, à
Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES) e ao Núcleo de
Apoio ao Centro Desportivo Universitário de Lisboa (NACDUL). Tem um
site, «A VARANDA DAS ESTRELÍCIAS» - http://www.joaquimevonio.com - e
um blogue - http://www.joaquimevonio.blogspot.com - na internet,
estando ainda presente em: http://www.joaquimevonio.no.sapo.pt ,
estando todos estes contactos acessíveis pelos principais motores de
pesquisa. Está incluído em diversas antologias e participa em vários
grupos da rede, assim como tem poesia e ensaio distribuídos por
diferentes meios de comunicação social. Obra publicada - Poesia:
ESBOÇOS PESSOANOS - Poemas sobre desenhos de José Jorge Soares -
Ceres Editora, Lda., Ponte de Lima, 1994; ESBOÇOS PESSOANOS -
Pessoan Sketches - Poemas sobre desenhos de José Jorge Soares - 2.ª
edição bilingue, revista e actualizada, Universitária Editora, Lda.,
Lisboa, 1999. Contos: SOMBRA EM CLAVE DE SOL , Universitária Editora
Lda., Lisboa, 1999. Desenhos de José Jorge Soares. Detém variado
material literário inédito, quase todo ele preparado para edição.
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POEMÁRIO
Assírio&Alvim 2004
VINÍCIUS DE MORAES
A ANUNCIAÇÃO
Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlimtlim?
Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar para o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo desfolhava
Por cima de mim...
VINÍCIUS DE MORAIS
(1913-1980)
(in «Cancioneiro de Amigo»,
Stephen Reckert e Helder Macedo)
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POEMA INÉDITO
DE
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
A CRIANÇA TINHA UM NOVELO
ao largo do pelourinho aportavam serpenteadas as carroças
carregadas de chuva fria do norte e de sacas de semilhas
com uns meninos dormitando em cima das couves quebradas
de serem frescas e um deles trazia na mão pequena um novelo
como se fosse um tesouro cantando baixinho uma canção
de repisa pois nunca chegava a setembro e lembrava-se
dos lagares e da apanha da uva nas eternas manhãs e tardes
de festa na crença firme de que o vinho novo sairia bom
cheirando a terra ao sol dos dias compridos ao vozeirão
dos homens debruçados sobre os muros contando os cestos
e à alegria das mulheres descalças puxando com jeito os galhos
das parreiras para apanharem os cachos luzindo de maduros
sem um minuto de descanso nem para namoros endireitando
a saia de pano cru mas era dezembro era inverno e o trabalho
doía por ser duro como carregar rocha e areia no verão e ainda
estava escuro no coração da cidade do funcho desanuviando
com umas bátegas a estear devagar como os turistas passeando
as carroças chegavam ao largo do pelourinho onde os condenados
sofreram as agruras do chicote dos colonizadores em anos velhos
de fome e com a peste esgueirando-se pelas sombras das ruas
e toda a gente a morrer sem um ai nem tecto nem esperança
mas nas mãos tinha um novelo uma hortênsia da cor do céu
nas horas primaveris e dormitava com o clamor do povo rodeado
de agentes mercantis quando acordou repentinamente no eco
dum grito silenciando tudo em redor com alguém forte reclamando
serem precisos mais braços para a descarga tirem a flor do regaço
dessa criança e então soube que começava a jorna não haveria mais
escola nem amanhã nem nada apenas o largo do pelourinho e o labor
suado até à noite para se levantar novamente na próxima madrugada
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(inédito.25.03.04)
JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/
Consulta aos números anteriores:
http://www.terravista.pt/mussulo/1701/indice.html
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm