A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

25

 



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ALBANO MARTINS



CONCERTO PARA VIOLINO
E ORQUESTRA DE MAX BRUCH



Das cordas do violino dir-se-á
que não foram feitas
para prender. Nunca
os sons
foram tão soltos, a música
tão livre. Presos,
agrilhoados ao esplendor
do arpão sonoro, apenas
os sentidos.




AO GRILO NÃO DIGAS



Ao grilo
não digas:
não cantes! Porque
onde um grilo
canta canta
o verão, cantam
as espigas.




(in «Cástalia e Outros Poemas»,
Campo das Letras, 2001)

Albano Martins

(1930)

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Bloco Poético de Notas



Gregory Corso




CASA NATAL REVISITADA




Fico na luz escura da rua escura
e olhos para cima para a minha janela, nasci ali.
As luzes estão acesas; outra gente anda por lá.
Estou de gabardina; cigarro na boca,
cabelo para os olhos, mão na garganta.
Atravesso a rua e entro no prédio.
Os caixotes do lixo continuam a cheirar mal.
Subo ao primeiro andar; Orelhas Sujas
aponta-me uma faca...
eu tactei-o cheio de relógios perdidos.




O LAMENTO DE ZIZI



Estou apaixonado pela doença do riso
far-me-ia muito bem se a tivesse -
usei as esplêndidas cabaias do Sudão,
pus os magnificentes halivas de Boudodin Bros.,
beijei as Fátimas cantantes do chulo de Adém,
escrevi gloriosos salmos no café Hakhaliba,
mas nunca tive a doença do riso,
então para que sirvo eu?


O comerciante gordo oferece-me ópio,kief, haxixe, até suco de camelo,
tudo é insatisfatório -
Oh noite amarga e terrível! tu de novo! terei ainda
que tirar os meus dentes irreais
despir o meu irrisível eu
pôr a dormir esta cabeça melancólica?
Não sou nada sem a doença do riso.


O meu pai apanhou-a, o meu avô também;
certamente o Tio Fez há-de apanhá-la, mas eu, eu
a quem faria tão bem,
apanhá-la-ei alguma vez?




2 HAPPENINGS SOBRENATURAIS EM HAARLEM



1


Quatro moinhos de vento, conhecidos,
foram vistos uma manhã a omer tulipas,
Meio-dia
e toda a cidade se agita
a gritar: Apocalipse! Apocalipse!


2

Oh povo! meu povo!
algo sobrenaturalmente arquitectónico
como um canibal ruidoso
veio a Haarlem a noite passada
e devorou um canal!



(in «Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana»,
tradução de Manuel Seabra, Editorial Futura, 1973)



GREGORY CORSO



(1930)


*
Gregory Corso nasceu em Greenwich Village, nos Estados Unidos da América, em 1930.Membro da geração «beat», até ao seu encontro com Kerouac e Ginsberg viveu com vá-rias famílias, desempenhando o seu papel de filho adoptivo, entre passagens por orfana-tos e reformatórios. Revelou-se como poeta com o livro "The Vestal Lady on Brattle andOther Poems» (1955), seguindo-se «Gasoline» (1958) e «Bomb» (1958) ou o famoso «LongLive Man» (1962). É um poeta carismático, tornando sérios acontecimentos artísticos osseus recitais, em bares ou universidades do seu país natal.
***

PITADA DE SAL


o que diz:

Federico García Lorca






SURPRESA



Um morto caiu na rua
com um punhal no peito.
Não sabia de nada.
O candeeiro tremia!
Mãe.
Como estremecia o lampião
da rua.
Era madrugada. Nada
podia acudir aos seus olhos
abertos na rijidez do ar.
Um morto caiu na rua
com um punhal enfiado no peito
e ele não sabia de nada.




(versão portuguesa de
José António Gonçalves)



FEDERICO GARCÍA LORCA


(1898-1936)




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UM POETA DA MADEIRA




Joaquim Evónio




Poema atrevido



Já morri ali

mas os poetas não morrem
nascem sempre aqui

com a palavra atrevida
onde renasce o poema





Nada



Hoje não fiz nada
apenas pensei

exercício doloroso

consumidor
de energias cerebrais





Segredos



Vivi essa flor
disse-lhe segredos

não falou d'amor

só me disse adeus





Imortal



Dentre as rosas do jardim
gotas subiram ao céu
sem contorno

sonho imortal
de poema a respirar



SURF



Quis eu brincar com as ondas
mas não quiseram brincar...

E a praia adormeceu,
também não quis esperar.




(inéditos em livro)





JOAQUIM EVÓNIO





(1938)


*

Joaquim Evónio Rodrigues de Vasconcelos (n. Freguesia de Santa Maria Maior, Funchal, Madeira, 3.9.1938), é licenciado em Ciências Militares (Coronel de Infantaria na situação de Reforma Extraordinária) e em Ciências Sociais e Política Ultramarina (pela UT de Lisboa). Auditor do Curso de Defesa Nacional (CDN 83) possui também o "Certificado de Proficiency in English", do British Institute em Lisboa. Neste momento é Assessor Principal do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC). Pertence à Associação Portuguesa de Escritores (APE), à Associação Cultural SOL XXI, ao Instituto Açoriano de Cultura (IAC), à Associação Escadote Cultural (http://escadotecultural.cbj.pt e http://www.escadoteonline.planetaclix.pt ), à Associação de ex-Auditores dos Cursos de Defesa Nacional, à Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES) e ao Núcleo de Apoio ao Centro Desportivo Universitário de Lisboa (NACDUL). Tem um site, «A VARANDA DAS ESTRELÍCIAS» - http://www.joaquimevonio.com - e um blogue - http://www.joaquimevonio.blogspot.com - na internet, estando ainda presente em: http://www.joaquimevonio.no.sapo.pt , estando todos estes contactos acessíveis pelos principais motores de pesquisa. Está incluído em diversas antologias e participa em vários grupos da rede, assim como tem poesia e ensaio distribuídos por diferentes meios de comunicação social. Obra publicada - Poesia: ESBOÇOS PESSOANOS - Poemas sobre desenhos de José Jorge Soares - Ceres Editora, Lda., Ponte de Lima, 1994; ESBOÇOS PESSOANOS - Pessoan Sketches - Poemas sobre desenhos de José Jorge Soares - 2.ª edição bilingue, revista e actualizada, Universitária Editora, Lda., Lisboa, 1999. Contos: SOMBRA EM CLAVE DE SOL , Universitária Editora Lda., Lisboa, 1999. Desenhos de José Jorge Soares. Detém variado material literário inédito, quase todo ele preparado para edição.




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POEMÁRIO
Assírio&Alvim 2004





VINÍCIUS DE MORAES





A ANUNCIAÇÃO




Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlimtlim?




Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar para o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo desfolhava
Por cima de mim...






VINÍCIUS DE MORAIS




(1913-1980)




(in «Cancioneiro de Amigo»,
Stephen Reckert e Helder Macedo)



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POEMA INÉDITO

DE

JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES




A CRIANÇA TINHA UM NOVELO




ao largo do pelourinho aportavam serpenteadas as carroças
carregadas de chuva fria do norte e de sacas de semilhas
com uns meninos dormitando em cima das couves quebradas
de serem frescas e um deles trazia na mão pequena um novelo
como se fosse um tesouro cantando baixinho uma canção
de repisa pois nunca chegava a setembro e lembrava-se
dos lagares e da apanha da uva nas eternas manhãs e tardes
de festa na crença firme de que o vinho novo sairia bom
cheirando a terra ao sol dos dias compridos ao vozeirão
dos homens debruçados sobre os muros contando os cestos
e à alegria das mulheres descalças puxando com jeito os galhos
das parreiras para apanharem os cachos luzindo de maduros
sem um minuto de descanso nem para namoros endireitando
a saia de pano cru mas era dezembro era inverno e o trabalho
doía por ser duro como carregar rocha e areia no verão e ainda
estava escuro no coração da cidade do funcho desanuviando
com umas bátegas a estear devagar como os turistas passeando



as carroças chegavam ao largo do pelourinho onde os condenados
sofreram as agruras do chicote dos colonizadores em anos velhos
de fome e com a peste esgueirando-se pelas sombras das ruas
e toda a gente a morrer sem um ai nem tecto nem esperança
mas nas mãos tinha um novelo uma hortênsia da cor do céu
nas horas primaveris e dormitava com o clamor do povo rodeado
de agentes mercantis quando acordou repentinamente no eco
dum grito silenciando tudo em redor com alguém forte reclamando
serem precisos mais braços para a descarga tirem a flor do regaço
dessa criança e então soube que começava a jorna não haveria mais
escola nem amanhã nem nada apenas o largo do pelourinho e o labor
suado até à noite para se levantar novamente na próxima madrugada




JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES



(inédito.25.03.04)


JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/


Consulta aos números anteriores:
http://www.terravista.pt/mussulo/1701/indice.html
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm




 

Selecção e Montagem: JAG