A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

26

 
 
 
 
ALBANO MARTINS




Das estrelas só
conhecemos o nome.
A sua luz.

(in "Com as Flores do Salgueiro", 1995)

*

Reabilitar o pintassilgo, o pinta
roxo: abrir
as portas à claridade.

*

Retirar da fonte o veio - a veia
de sangue mais límpido
e escaldante.

(in "Vocação do Silêncio", 1950-1985; 1990)


*

Com a lâmpada das suas
asas acesas, a libélula
ignora a noite.


(in "Com as Flores do Salgueiro", 1995)


Albano Martins


(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas




JOSÉ SARAMAGO



RETRATO DO POETA ENQUANTO JOVEM


Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.



POEMA À BOCA FECHADA

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.



FALA DO VELHO DO RESTELO AO ASTRONAUTA

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.


(in "Os Poemas Possíveis")


JOSÉ SARAMAGO

(1922)

*
José Saramago nasceu na Azinhaga, Golegã, em 1922. Antigo jornalista, publicou como romancista, entre outras obras, "Levantado do Chão", "Memorial do Convento", "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", "Ensaio Sobre a Cegueira", tendo acabado de lançar o "Ensaio sobre a Lucidez" (Editorial Caminho). Outra das suas habituais edições são os "Cadernos de Lanzarote", onde tece uma amálgama de memórias, observações de quotidiano e notas sobre as suas experiências de andarilho de causas um pouco por todo o mundo. Casou com a jornalista militante Pilar del Rio tendo conquistado o Prémio Nobel da Literatura, em 1988, façanha de que foi o primeiro português a alcançar. Produziu e publicou, inclusivamente em livro ("Os Poemas Possíveis", "Provavelmente Alegria", "O Ano de 1993") alguma poesia, com realce para «Ouvindo Beethoven» ou «Fala do Velho do Restelo ao Astronauta» que receberam música e interpretação de Manuel Freire. Desde há vários anos que escolheu a ilha de Lanzarote, Canárias, Espanha, para viver, recusando manter residência em Portugal por motivos políticos, literários e pessoais.




***

PITADA DE SAL



o que diz: CAMÕES




SONETO



Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.

LUÍS VAZ DE CAMÕES

(in "Lírica")

***

UM POETA DA MADEIRA



J. MORNA GOMES





O VENTO


Alta noite esbraveja nos beirais
E, picando de esporas com alento,
Põe crepes nas expressão do Firmamento,
Sulca montes e fende pinheirais.

Quebra ídolos, desterra matagais,
Um roble velho, esquálido e portento;
Faz duma vela seta em andamento
E verga o aço às obras magistrais!

E, nessa cavalgada de grandeza,
Se em terra vibra o grito do tufão,
Ecoando com toda a profundeza,


No mar lança o rigor do furacão,
Que ergue colunas de água com alteza
E arranca ao nauta a última oração!

(Estreito da Calheita)




CAIS



Abre-se uma passagem num rochedo
Com asas de gaivotas e pardais,
Por onde o sol doideja num folguedo...,
Inundando de luz um velho cais.

No alto um farolim, brilhante e quedo,
Adverte o pescador com os seus sinais,
Das garras traiçoeiras dum penedo,
Em noites de cerrados vendavais!

O penedo, gigante de granito
Por sobre um oceano que seduz,
Acolhe asas com ânsias de Infinito,

Enquanto o farolim nautas conduz,
Projectando nos ares, como um grito,
O brilho salvador da sua Luz!

(Ribeira Brava)




A MINHA CASA




Adoro a minha casa tão modesta
Com o sol a brincar pela vidraça,
Por sobre tantas flores numa taça
Que dos meus bons avós ainda resta;

Com a mulher absorta em grande sesta,
Dando matiz ao linho, à simples cassa,
Para que os filhos possam ter a graça
Que traz a minha casa toda em festa!

Adoro a minha casa tão singela,
Por onde o sol mais rútilo amanhece,
Tingindo muitas flores à janela;

Por onde a lua a evolar-se em prece,
Tanto afaga a presença, doce e bela,
Daqueles que minh'alma nunca esquece!...

(Funchal)



J. MORNA GOMES

(1913-2004)




(in "Colar de Pérolas",
Sonetos, 2ª. Edição,
Funchal, 1987)

*

José Morna Gomes nasceu na freguesia de São Gonçalo, a 6 de Agosto de 1913 e faleceu a 24 de Março de 2004, no Funchal, ilha da Madeira. Possuía o Curso Complementar da já extinta Escola Industrial e Comercial António Augusto de Aguiar (Funchal)) e do Instituto Carlos Marinho Lopes, com elevadas classificações. Poeta, orador e prosador de escola clássica, foi colaborador da imprensa local, participante premiado de Jogos Florais e prolífero autor de sonetos laudatórios a pessoas e lugares, tendo recebido correspondência de agradecimentos de figuras internacionais, tais como a Rainha Elizabeth de Inglaterra e Ronald Reagan, Presidente dos Estados Unidos da América . Moura Júnior, em abordagem ao seu livro "Colar de Pérolas" (1ª. ed. 1960, 2ª. ed. 1987, Funchal), registou-lhe a entrega, mais do que "ao seu abismo interior" à "aparência aliciante e caleidoscópica da maravilhosa oaisagem madeirense", reconhecendo nos seus versos "uma espécie de panteísmo místico" e "por vezes, uns laivos de humanismo que lhe valorizam as coloridas aguarelas à Césário (Verde)". Era uma das figuras tradicionais da Madeira contemporânea, sendo muito admirado pela sua extraordinária memória, ao ponto de recitar de cor um livro inteiro, ou sonetos e poesias da sua autoria, entre as quais as mais de seiscentas quadras da obra que era a menina dos seus olhos, "Por um Mundo Melhor", estando muitas das suas poesias impressas em diferentes edições do "Jornal da Madeira".


***




POEMÁRIO



Assírio & Alvim



2004




JOHN DONNE







O CRESCIMENTO DO AMOR,
OU A PRIMAVERA


Mal acredito que o meu amor seja tão puro
Como pensava que era,
Porque tem de suportar
Vicissitudes, e estações, como a erva.
Penso que menti todo o Inverno, quando jurava
Meu amor infinito, se a Primavera o aumentou.
Mas, se o amor, este remédio, que toda a mágoa cura
Com mais, não for qualquer quintessência, é mistura
De todas as matérias afligindo a alma, ou os sentidos,
E ao Sol rouba o seu vigor operativo.
O Amor não é tão puro e abstracto, como costumam
Dizer os que por amantes têm a sua Musa,
Mas como tudo o resto, sendo também elemental,
Por vezes será contemplativo, outras agirá.

Mas nem por isso maior, apenas mais eminente
Se tornou, com a Primavera
Como, no firmamento,
Com o Sol, as estrelas, se mostram mas não aumentam.
Como botões num ramo, ternos gestos amorosos,
Da despertada raiz do amor florescem agora.
Se, no agitar da água mais círculos procedem
De um, também assim o amor se acrescentará.
Esses, iguais às tantas esferas, apenas um céu formam,
Porque todos são concêntricos em ti:
Cada primavera acrescentará novo calor ao amor, e
Como os príncipes em tempo de guerra, que lançam
Novos impostos sem depois os revogar na paz,
Nenhum Inverno diminuirá o acrescento da Primavera.



JOHN DONNE


(1572-1631)


(in "Poemas Eróticos",
Tradução de Helena Barbas)



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IMAGINÁRIO



Assírio & Alvim



2004






TENNESSEE WILLIAMS






A SEMELHANÇA ENTRE UM ESTOJO DE VIOLINO E UM CAIXÃO


Com a vantagem de dois anos em relação a mim e a maturidade mais precoce das raparigas, a minha irmã foi a primeira a partir para o país das misteriosas diferenças, onde crescem as crianças. Embora continuássemos a viver na mesma casa, ela parecia não estar ali, à minha frente; era como se tivesse empreendido uma viagem. A diferença fez-se notar muito mais depressa do que se podia imaginar e era uma vasta, imensa diferença, tão grande como as duas margens do Sunflower River, que atravessava a nossa cidade. Numa delas era quase deserto, com gigantescos ciprestes que pareciam empenhados num diálogo mudo e em reverentes ritos com a margem. Via-se também a mancha brumosa de Dobyne, uma antiga plantação, agora abandonada e devastada por uma espécie de impalpável violência ainda mais feroz do que a das chamas. Por detrás dessa cortina escura os imensos campos de algodão abarcavam todo o horizonte. (...)


TENNESSEE WILLIAMS


(1911-1983)



(in "A Noite da Iguana e Outras Histórias";
Tradução de José Agostinho Baptista)


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Um poema inédito

de

José António Gonçalves





O TERRAMOTO



O amor vem fechado num envelope.
Não aconteceu nenhum terramoto.
As folhas das árvores não caíram
- lembrei-me depois: estava ainda longe o Outono.
Olhei para o céu e não vi passarinhos
nem lhes escutei chilreios distantes.
As ramagens dos jardins em volta
mantinham-se firmes como estátuas,
enfrentando o tempo e o sopro das brisas
da tarde. Ninguém se aproximou de mim
e exultou com a novidade de que o amor
me acabara de chegar num envelope branco
colado com a saliva quente de uns lábios
lânguidos e apetrechada de perfume
para a longa viagem. Só eu é que tremia,
não era o asfalto do caminho, nem o movimento
das nuvens, a algazarra dos garotos da rua,
nem os carros velozes que passavam
desaparecendo na curva da colina. Era
eu, sempre eu. Com medo de rebentar,
o vulcão que trago dentro de mim
no desconhecimento dos outros
soltava umas fumaças e espevitava-me uma lava
temente nas maçãs do rosto. Era eu, via-me
olhando o sobrescrito, reduzido a pouco menos que nada. Então acalmei a onda climatérica interior. É uma carta de amor, conheço-a,
pensei. Assim permaneceu para sempre fechada.




José António Gonçalves



(inédito.26.03.04)
 

Selecção e Montagem: JAG