A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

27

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS




Com flores
de espuma
é que o mar se perfuma.

(in "Com as Flores do Salgueiro", 1995)

*

Solitários, solidários
ambos - Hermes
e Afrodite.

A um passo
da luz fulguram,
grávidas, as espadas.

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992)


*

Andaimes
para o vento:

nuvens.

(in "Vocação do Silêncio", 1950-1985; 1990)



Albano Martins


(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

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Bloco Poético de Notas



REINALDO FERREIRA



A TUA MÃO É QUE DESPERTA ABRIL

A tua mão é que desperta Abril
E, só de lhe tocar, reveste a rosa
E o vento vem, à tua mão airosa,
Como o cordeiro vem ao seu redil

É a tua mão que nos ascende, às mil,
Estrela por estrela, a clara noite oleosa
E nela, a vasta vaga procelosa
Semelha avena mansa e pastoril.

Oh! mão que nos semeias maravilhas,
Afastas do naufrágio as gastas quilhas
E deténs o trovão que nos assombra!

Oh! mão de alado gesto poderoso!
Entre todos sou eu quem, mais ansioso,
Aguarda que me cubra a tua sombra!

MINHA VIDA É OBELISCO CORROÍDO


Minha alma é obelisco corroído
Ou apenas quem sabe? inacabado.
A memória dum fasto já esquecido
Ou dum outro talvez antecipado.

Só sei que lhe não sei qual o sentido;
E o erro foi, assim, ter procurado
O que tenha talvez desaparecido
Ou não fosse jamais concretizado.

Na encruzilhada, os viandantes raros,
Se os olhos para ela erguem, avaros,
Não conservam, sequer, a sua imagem.

Mas erguida, sem nexo, longa e triste,
Ela sabe que é, sente que existe,
Na dor com que ensombrece esta paisagem.

(in "Dispersos")

MEDO (QUEM DORME À NOITE COMIGO?)

Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.

(Letra do Fado cantado por Amália,
com música de Alain Oulman,
incluída no álbum "Segredo")

REINALDO FERREIRA

(1922-1959)

*
Reinaldo Ferreira, de seu nome completo Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira, era filho do jornalista Reinaldo Ferreira, o celebrado Repórter X e nasceu em Barcelona, Espanha, a 20 de Março de 1922, falecendo em Junho de 1959. Tendo-se radicado em Moçambique (Lourenço Marques) em fins do ano de 1941 e ali feito o sétimo ano dos liceus, por lá se conservou, com raras e breves escapadas à Metrópole, até ao seu falecimento (de um cancro de pulmão que quase fulminantemente o arrebatou, em Março). Não deixou obra publicada para além de alguns conjuntos de Poemas, cuja produção iniciara em 1942, reunidos com esse título em edições póstumas da Casa de Imprensa em Moçambique (1960) e numa edição restrita da Portugália (1962), para além de alguns "Dispersos". A divulgação de "Uma Casa Portuguesa", em 1950, primeiro pela voz de Sara Chaves e, mais tarde, pela de Amália Rodrigues, tornou-o conhecido, assim como a sua colaboração nalgumas revistas musicais, teatro radiofónico e pouco mais.

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PITADA DE SAL




(Pablo Neruda traduzido por Albano Martins)



o que diz: PABLO NERUDA




A LINHA DE MADEIRA


Eu sou um carpinteiro cego, sem mãos. Vivi
sob as águas, alimentado pelo frio,
não construí as caixas aromáticas, as residências
que cedro a cedro erguem a grandeza,
mas o meu canto procurou os fios do bosque,
as fibras secretas, as ceras delicadas,
e corou ramos, perfumando
a solidão com lábios de madeira.

Amei todas as matérias, cada gota
de púrpura ou de metal, a água e a espiga,
e penetrei em espessas camadas protegidas
pelo espaço e a areia trémula,
até cantar com a boca destruída,
como um morto, nas uvas da terra.

Cobriram-me a argila, o barro, o vinho,
enlouqueci ao roçar as ancas
da pele cuja flor se manteve
como um incêndio sob a minha garganta,
e os meus sentidos passearam na pedra
invadindo fechadas cicatrizes.

Como mudei sem ser, desconhecendo
o meu ofício antes de ser,

a metalurgia
destinada à minha dureza,
às serrações farejadas
pelas cavalgaduras no inverno?

Tudo se fez ternura e fonte
e servi apenas para habitante da noite.


PABLO NERUDA

(1904-1973)


(in "CANTO GERAL", Apresentação, Tradução, Glossário e Notas de ALBANO MARTINS, Campo das Letras, Março de 1999)

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UM POETA DA MADEIRA



JOAQUIM PESTANA




DEUS


Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva.
És: - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz ... e treva.
Garrett.



Que diz o queixume da vaga ondulante,

A brisa que passa, levando o perfume

De mystica flor?

Que diz o sussurro da folha da olaia,

O beijo materno, - de mãe carinhosa

Carpindo d'amor?



Que diz à fontinha no bosque distante,

Da selva o murmúrio profundo, celeste,

Da lua ao clarão?

Que diz o rochedo que s'ergue gigante,

Da lyra o som triste saudoso e querido

De pobre canção?



Que diz o aroma que exhala a florinha

Já secca, mirrada, pendida na haste

D'intenso calor?

Que diz o arroio por entre a collina,

A planta que cresce no prado viçosa,

Da luz ao albor?



Que diz a donzella n'um meigo sorriso

Fitando as estrellas, que, em noite formosa,

Scintillam nos ceus?

Que diz a procella bramindo medonha,

O raio que assola, que fende e que mata,

Que diz? não é «Deus?»



(in Diário de Notícias, 23 de Março de 1877).






O CAPTIVO



(A meu irmão Francisco António Pestana)



Corria a noite na mudez calada,

Brando sussurro na masmorra ouvi,

Era o captivo que com voz magoada

Sentidas queixas suspirava assi:



«Vergado no peso do grilhão pesado

Quem há que possa sua dor calar?

Sentir a vida n'um soffrer cançado

Quem póde um hymno de prazer soltar?



Passar os dias na prisão escura,

Na fria lagea descançar, morrer!

Não ver da lua a sua imagem pura,

Nem doce aroma dos vergeis beber!



Este ambiente que respiro agora

Tem fel amargo, como é dura a sorte!

Talvez que em breve, n'uma feliz hora,

Colha o martyrio que reserva a morte!



Não sei que enganos, que desdouro vil

Me foi doado, sem culpado ser!...

Captivo arrasto meu viver senil,

Gemendo em ferros, sem allivio ter!



Meu Deus! eu creio n'essa gloria infinda

Que dás ao ente, qu'é curvado à dôr!

Eu tenho esp'rança de gosar ainda

Na patria eterna, divinal amor!

Eu vivo exhausto, sem alento, morto;

Só vejo a crença com mortiça luz;

Essa não finda que me mostra um porto

De paz, socego: seu emblema é a cruz!



Ai! sinto um frio que me gela o seio,

A voz s'xtingue! que mortal pallor!

E dentro d'alma, tão pungida, leio

Extremo alento d'immercida dôr!»





......................................................





Findava o canto. Num momento apenas

Um corpo inerte para o chão pendeu!

Senti as portas a ranger nos quicios,

E uma voz bradava - já morreu, morreu!


(in Diário de Notícias, 23 de Março de 1877).




EU TE AMO, OH MEU DEUS!



Nas auras brandas do estio,

No vento gélido do inverno,

Em tudo, tudo; presinto,

O teu poder, Deus Eterno!.

G.M.A.A S.



Amo da vaga o bramido,

Do vulcão a lava ardente;

Amo a nota sonorosa,

Do poeta a voz ingente.



Amo o sol em dia estivo,

Do arroio o murmurar;

Amo o brilho d'alva estrella;

No silêncio o meditar!...



Amo a ave que gorgeia

No seu canto matinal;

Amo o astro que rosurge

No espaço divinal.



Amo o ermo, a solidão triste,

Da procella o seu rugir;

Amo a sombra que me segue,

Que me alenta este existir!...



Amo os sonhos do macebo,

Suas crenças, seu amor;

Amo o hymno da floresta

Do vegetal o meigo odôr.



Amo a cruz, a biblia santa,

Nivea flor, a lua e céus;

Amo tudo o que murmura,

Que me diz: — «existe Deus!».



(in Diário de Notícias, 15 de Maio de 1877).


JOAQUIM PESTANA

(1940-1909)


*

Joaquim Pestana nasceu em 1840, em Câmara de Lobos e faleceu em 1909, no Funchal, ilha da Madeira. Colaborador frequente e prestigiado de almanaques e da imprensa, tanto em Portugal como no Brasil, onde adquiriu merecida fama de poeta romântico, filiava-se na corrente literária conhecida na época como "Novo Trovador", escola fundada pelo poeta português Soares dos Passos. Está representado na colectânea "Flores da Madeira" (2 vols. 1871 e 1872) e foi antologiado por José António Gonçalves em "O Poeta Faz-se aos Dez Anos" (Funchal, 1989). O seu nome foi integrado na toponímia camaralobense por decisão da sua Edilidade. O médico e investigador madeirense Manuel Pedro de Freitas, ex-director da revista cultural "Girão", tem levado a cabo um levantamento global da sua obra, o qual, aos poucos, vai tomando forma para uma futura publicação, entre poesias e textos em prosa. O plumitivo, que assim tem regressado ao convívio intelectual dos seus conterrâneos, deixou inédito um livro de poemas, "Espinhos e Flores", a qual será levada ao prelo com o apoio da Câmara Municipal do Funchal.


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POEMÁRIO


Assírio & Alvim



2004


SANTA TERESA DE ÁVILA







PARA PEDIR PACIÊNCIA NAS ADVERSIDADES



Nada te inquiete,
nada te assuste;
pois tudo passa,
Deus nunca muda.
A paciência
alcança tudo.
Quem Deus possui
nada lhe falta.
Só Deus nos basta.



SANTA TERESA DE ÁVILA

(1515-1582)


(in "Seta de Fogo",
Tradução de José Bento)



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IMAGINÁRIO



Assírio & Alvim



2004






O LIVRO DOS MORTOS DO ANTIGO EGIPTO







CAPÍTULO 77

Fórmula para tomar o aspecto de um falcão de ouro

Palavras ditas por N.:



Eu apareci como grande falcão que sai do seu ovo; eu voo e pouso como falcão cujo dorso é de quatro côvados, e cujas asas são em feldspato verde. Eu saí da cabina da barca da noite, e o meu coração foi-me trazido, à montanha do Oriente. Eu desço na barca do dia; os deuses dos tempos primordiais são-me trazidos, respeitosamente inclinados, e eles rendem-me homenagem enquanto eu apareço e me estabeleço como um belo falcão de ouro com cabeça de fénix; - é escutando a sua voz, que Ré entra, cada dia. - Eu sento-me entre estes deuses antigos do céu; o duplo Campo das Felicidades é preparado para mim; alimento-me dele, tiro proveito dele, em opulência, segundo aquilo que o meu coração deseja. Os cereais foram-me dados, e o meu é isto que está preso em minha cabeça.


(in "O Livro dos Mortos do Antigo Egipto",
Tradução de Maria Helena Trindade Lopes)


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Um poema inédito

de

José António Gonçalves





AINDA NÃO CONSTRUÍ O BARCO

Não construí ainda o barco negro
para atravessar o mar dos peixes azuis
quando chegar a hora.

Confesso que vai para além do adro
da minha igreja preferida
o tamanho do cais em que prevejo
partir um dia.

Irei trazer as melhores madeiras
antigas, umas velas de tecido forte
com a Cruz de Cristo pintada ao centro,
umas cordas experimentadas pelas velhas
travessias atlânticas e os mapas
de Colombo que Zarco usou antes,
para estudar todas as rotas possíveis.

Ainda não construí o barco.
Apenas sei que partirei um dia
ao encontro do outro lado do mundo
onde acabam de vez os oceanos.

Espera-me o lugar onde descansam
as almas e que os homens temem,
como já vi escrito em tantos livros.
Eu confesso que não me mete medo
o destino. Apenas sei que partirei
um dia e tenho medo da viagem.

Por isso abraça-me, meu amor,
a noite está a chegar ao telhado
da nossa casa e pode ser hoje
o dia escolhido para a partida.


José António Gonçalves


(inédito.27.03.04)


JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/

 

Selecção e Montagem: JAG