Inclina-te: cede
ao poder
do orvalho.
(in "Uma Colina nos Lábios", 1993)
*
Estão ali, sobre a mesa, as toalhas, o linho
maduro, os unguentos e os óleos.
Instrumentos do árduo e conivente ofício da
sobrevivência e da morte.
(in "Vocação do Silêncio", 1950-1985; 1990)
*
De que meandros de luz
intemporal se molda
esta cegueira?
Para
que vértice ou plano
inclinado apontam
estas rosáceas?
Que
pálpebras ali
nos vêem? Que
lânguidas pupilas?
(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992)
Albano Martins
(in Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert,
ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
NUNO JÚDICE
PLANO
Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.
NUNCA SÃO AS COISAS MAIS SIMPLES
Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
GOSTO DAS MULHERES QUE ENVELHECEM
Gosto das mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caidos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterraneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.
NUNO JÚDICE
(1949)
*
Nuno Júdice, escritor, poeta e ensaísta português, natural de
Mexilhoeira Grande, Portimão. Estudou Filologia Românica na
Universidade de Lisboa, vindo depois a ser professor do ensino
secundário. Actualmente, é professor da Universidade Nova de Lisboa,
onde se doutorou em 1989 com uma tese sobre Literatura
Medieval.Publicou o primeiro livro de poesia em 1972: A Noção do
Poema. Seguiram-se Crítica Doméstica dos Paralelipípedos (1973), O
Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975), O Voo de Igitur Num Copo
de Dados (1981), A Partilha dos Mitos (1982), Lira de Líquen (1985,
Prémio Pen Club Português), A Condescendência do Ser (1988),
Enumeração de Sombras (1989), As Regras da Perspectiva (1990), Um
Canto na Espessura do Tempo (1992), Meditação sobre Ruínas (1994,
Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores,
1995), O Movimento do Mundo (1996), A Fonte da Vida (1997), Raptos/Enlévements/Kidnappings
(1998, poemas escolhidos, com ilustrações de Jorge Martins), Teoria
Geral do Sentimento (1999), Linhas de Água (2000) e A Árvore dos
Milagres (2000). Recebeu os mais importantes prémios de poesia
portugueses: Pen Clube (em 1985), D. Dinis da Fundação Casa de
Mateus (1990) e da Associação Portuguesa de Escritores (1994), este
último com o livro Meditação sobre Ruínas que foi finalista do
Prémio Europeu de Literatura, Aristeion. Nuno Júdice recebeu ainda o
Prémio de Poesia Pablo Neruda e o Prémio da Fundação da Casa de
Mateus.
Em 2001, publicou Pedro, Lembrando Inês e Cartografia de Emoções, um
livro de poesia. No mesmo ano, Rimas e Contas, integrada na
colectânea Poesia Reunida 1976/2000, foi reconhecida com o Prémio
Crítica 2000, pelo Centro Português da Associação Internacional dos
Críticos Literários (AICL). Tem obras publicadas noutros géneros
literários e está traduzido em diferentes línguas.
***
PITADA DE SAL
(O grande poeta da
"Invenção do Amor")
o que diz: DANIEL FILIPE
SOBRE UM VERSO TOMADO DE EMPRÉSTIMO
É no verão que o fruto amadurece,
claro final do tempo definido.
E a cada passo o sol-aranha tece,
em cor, as frágeis malhas do vestido.
É no verão também que somos mais
da terra onde nascemos e esperamos
o barco que nos leve e o próprio arrais:
pelo sonho é que vamos.
Bagagem: esta esperança merecida
com sua cor de sangue verdadeira.
E é quanto basta, ó companheira,
para ser nossa, a vida!
DANIEL FILIPE
(1925-1964)
(in "Pátria Lugar de Exílio", Colecção Forma, Editorial Presença,
1974)
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UM POETA DA MADEIRA
(...que nome darei às pedras onde dorme Federico?)
DOIS POEMAS DO "MOVIMENTO" DE
A. J. VIEIRA DE FREITAS
«RENTES QUE AVES SÃO...»
rentes que aves são o grito alucinado
deste inverno de carumas frias
roçando o fumo das leiras em fermento
gritos que aves rentes despedaçam
deste frio que o inverno roça
pelos ossos de brancura consumidos.
aves que o espaço habita de viagem
de rumor secreto de olhar ferido
este é o inverno que vos dou
na pureza do sal e das carumas
GRANADA
a José Bento
áspero lume a neve intacta
visão azul ou fragor de orvalho
invenção de junho
cisterna de evasão
- que nome darei às plantas
imersas na água
que nome darei às pedras
onde dorme Federico?
o sangue vibra
no calor da ferida
que Espanha abriu...
áspero lume a neve intacta
visão azul ou fragor de orvalho
A. J. VIEIRA DE FREITAS
(1940-1982)
(in "Movimento - Cadernos de Poesia & Crítica", nº. 1,
coord. A. J. Vieira de Freitas, com António Ramos Rosa,
Eugénio de Andrade, Pedro Támen, José Bento,
José Agostinho Baptista, José António Gonçalves
e Gualdino Avelino Rodrigues, Funchal, 1973)
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Um poema inédito
de
José António Gonçalves
O FUNDO DAS RAVINAS
Sirvam-me a cabeça de João Baptista
e o cálice de vinho no Santo Graal
limpem-me com os melífluos óleos
e despeçam-se dos pecados perdidos
no fundo indescortinável das ravinas.
Dispenso as flores, as avencas e os lírios
mas aceito o madeirame e o sangue puro e sagrado
os votos de fidelidade e o pão branco e quente
da refeição silenciosa os passos à volta da mesa
a gargalhada do néscio e o mistério do perdão.
Adeus. Nesta cadeira de vimes o mundo é pequeno
e o céu cai sobre mim. Afinal o universo escreve-se
e afasta-se na dor. O deserto vem dormir a casa
e busca a água, o sal, as tâmaras e a sombra das pálpebras
onde dormem os meus olhos. Não vou mais além.
Fico por aqui. Toda a terra é um cerco com os seus dois polos
do tamanho exacto dos meus dedos mindinhos
esperando crescer no tempo na extremidade
da lágrima, do arado, dos calos auríferos escondidos
na palma dura de cada mão. Adeus. Guardem-me
o corpo, a alegria da calçada de minha casa. É nela
que pulsa ainda a vida oculta no bater ritmado
e prisioneiro da minha condição atlante. É este o lenço,
o vento, o alcançar dos olhos até onde pode ir
o meu coração.
José António Gonçalves
(inédito.28.03.04)
JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/