De quantas notas se compõe
o corpo
da bailarina? O órgão
que se ali expande é dentro
dela que organiza
o seu teclado sonoro, o tecido
dos seus pedais de sombra. Góticos,
estes. É um realejo
de trompas e altares
de sons é a própria
catedral submersa.
Albano Martins
(in "A Voz do Olhar", 1998; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
JOSÉ RÉGIO
Cântico Negro
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
Poema do silêncio
Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...
O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.
Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!
Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.
Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!
Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...
Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...
Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.
Soneto de amor
Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
*
José Régio (pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira)
nasceu (e faleceu) em Vila do Conde (1901-1969). Escritor
injustiçado pela crítica, foi um dos maiores poetas e escritores do
seu tempo, estando a sua Obra aguardando por receber o
reconhecimento que ainda lhe falta fazer no plano da Cultura
Portuguesa. Publicou (poesia): Poemas de Deus e do Diabo" 1925;
Biografia, 1929; As Encruzilhadas de Deus, 1936; Fado, 1941; Mas
Deus é grande, 1945; A chaga do Lado, 1954; Filho do Homem, 1961; e
Cântico Suspenso, 1968. Também lançou: Jogo da Cabra-Cega, 1934, e O
Príncipe com Orelhas de Burro, 1942; novelas Histórias de Mulheres,
1946 e Há Mais Mundos, 1962; A Velha Casa (Uma Gota de Sangue),
1945, As Raízes do Futuro, 1947; Os Avisos do Destino, 1953; As
Monstruosidades Vulgares, 1960; Vidas são Vidas, 1966). Na
dramaturgia publicou as peças Jacob e o Anjo, 1940; Benilde ou a
Virgem-Mãe, 1947; El-Rei Sebastião, 1949; e Três Peças em Um Acto,
1957, Finalmente, como ensaísta, Ensaios de Interpretação Crítica,
1964 e Três Ensaios sobre Arte, 1967.
***
PITADA DE SAL
o que diz: ALMEIDA GARRETT
(Henrique Tigo: Retrato de Almeida Garrett)
MODAS
Só os nossos primeiros pais andaram perfeitamente nus. E nem issso
foi sempre; porque, de tempo por diante, cobriram-se com folhas de
árvores. - Muito económica era esta moda, não só pela facilidade de
prover do vestido, mas pela prontidão em mudar dele, apenas variasse
o gosto. Infelizmente, não pegou. Veio o Inverno; secaram as
árvores, caíram as folhas; e foi-se a moda. Voltaram-se às penas das
aves, e às peles dos animais. Esta durou mais; e ainda hoje voga: a
das peles para o Norte, e a das penas para o Sul (como não têm
chegado ultimamente figurinos da Sibéria, nem do Peru, não podemos
ter a satisfação de dar a ideia do último tom dos enfeites de urso e
papagaio. Esperamos que os nossos correspondentes naqueles países
sejam daqui em diante mais exactos).
Começou, porém, a civilização; e com ela o desejo de tornar
agradável e cómodo o que até ali não fora senão necessário. Os povos
do Meio-Dia (por onde ela principiou) debaixo de uma zona temperada,
não podiam suportar, nem o excessivo abafo das peles, nem a extrema
ligueireza das penas. Principiaram a usar-se géneros mais
acomodados, e susceptíveis de belas e engraçadas formas.
Houve pessoas que se distinguiram na invenção delas; e eis aqui a
origem das modistas. Houve nações cujo gosto particular se avantajou
neste ponto: os outros povos o imitaram; e tal foi a origem das
modas estrangeiras. Em Roma deu-se tanto peso e valor a este
importante objecto, que houve no tempo de Heliogábalo um senado de
damas, que legislava sobre as modas. Que digno não fora de imitar-se
um tão nobre exemplo! Que respeitável não seria ver um congresso de
senhoras belas e espirituosas decidindo com majestade suprema sobre
o airoso de um vestido, sobre o elegante de um toucado! E dizemos
nós que somos civilizados! Atrevemo-nos a comparar-nos com as nações
antigas, faltando-nos um estabelecimento desta importância! (...)
(in "O Toucador - Periódico sem Política - redactor Almeida
Garrett"" , Lisboa, 1822 (2ª. edição, Portugália Editora, 1957)
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UM POETA DA MADEIRA
DANIEL DA COSTA
IMPERATIVO
Oiço dentro de mim uma voz que me diz:
- «Pega na pena e escreve, agora, o que te digo».
E começa a escrever... Não penso, não reflicto,
Nem posso criticar aquilo que já fiz.
Ou de dia ou de noite, eu sinto-me feliz,
Embora nem sequer saiba o que tenha escrito,
Como se num areal, um deserto maldito,
Surgisse a um sequioso a água que bendiz.
Depois, surpreendido, o que escrevi eu leio,
Pois explicar não sei como a ideia me veio,
E se cristalizou, em verso tomou vida.
E sem o comparar, vem-me à comparação
De ter o Apocalipse escrito S. João,
Por odem duma voz também ouvida.
DESENGANO
Como o barco vai veloz
Por sobre as ondas do mar!
Parece até que uma voz
Está por ele a chamar.
Um ano e um dia após,
Volta, mas tão devagar,
Que alguém, em terra o supôs
Um fantasma branco a andar.
Partiu de enfunadas velas,
Mas agora vem sem elas
E com os mastros caídos.
Tão alegre na partida,
Volta assim a Nau da Vida...
- Todos os sonhos perdidos!
AMPLIDÃO
Da casa onde nasci que largos horizontes!...
- Avistava-se, ao longe, o ciclópico mar,
A rebrilhar ao sol, planícies e altos montes,
Tão altos que no céu pareciam tocar;
Fundos vales, nos quais iam juntar-se as fontes,
Que desciam, correndo, entre terras sem par,
A reflectir o azul, as árvores, as pontes,
E, nas noites de lua, os raios do luar.
Gravou-se-me na alma esta visão do imenso,
Para sempre odiando os estreitos espaços,
Queimem neles embora a toda a hora incenso.
Nunca andei a medir a Ideia com compassos,
E, se em rude voz digo aquilo que penso,
Jamais eu por ninguém acertei meus passos.
(in "Asas Quebradas", 2ª. Edição, DRAC-Direcção Regional dos
Assuntos Culturais, Madeira, 1988)
*
Daniel da Costa (n. Funchal, 1892; f. Lisboa, 1971), cursou Medicina
em Coimbra e exerceu funções públicas em Lisboa. Colaborou em
jornais da ilha da Madeira e do Continente português. Obras: "Cá
está o Visconde" (co-autor, 1929) e "Asas Quebradas" (1ª. ed., 1950,
2ª. Edi., DRAC, 1988).
****
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
TEIXEIRA DE PASCOAES
Adão e a sua Eva já desciam
As abruptas vertentes do Tabor.
E, viva, caminhava diante deles
A saudade do Éden.
E passaram regatos, vales, rios;
Atravessaram manchas de desertos,
Com palmeiras, em grupos fraternais.
Negras aves nocturnas palpitavam
Na prateada, fluida cinza aérea;
E seus lúgubres pios solitários
Tornavam mais profundo
O silêncio espetral das horas mortas.
Parando, enfim, surpresos, conheceram
A paisagem edénica e feliz.
E uma tristeza estranha,
Emanada da terra abandonada,
Errava na penumbra; e, penetrando
Nas almas, ao luar, de Adão e Eva,
Fazia-se visível; tinha a forma
daquele outeiro, deste vale antigo
E daquela planície que branqueja,
E deste cerro em onda... mas no tempo
Da bem-aventurança florescida,
Das árvores em flor, do céu em flor,
E do cântico em flor dos passarinhos,
Ao sol, a eterna flor aberta em oiro!
E Adão e Eva olhavam, no silêncio,
A tristeza infinita que os cercava,
E era o próprio fantasma do passado...
(...)
TEIXEIRA DE PASCOAES
(1877-1952)
(in "Regresso ao Paraíso")
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
FERNANDO PESSOA
Para que possa ser arte, não se lhe exige uma sinceridade absoluta,
mas algum tipo de sinceridade. Um homem pode escrever um bom soneto
de amor sob duas condições - porque está consumido pelo amor, ou
porque está consumido pela arte. Tem de ser sincero no amor ou na
arte; não pode ser ilustre em nenhum deles, seja no que for, de
outro modo. Pode arder por dentro, sem pensar no soneto que está a
escrever; por arder por fora, sem pensar no amor que está a
imaginar. Mas tem de estar a arder algures. De contrário, não
conseguirá transcender a sua inferioridade humana.
FERNANDO PESSOA
(1888-1935)
(in "Heróstrato e a Busca da Imortalidade")
*
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
O MAPA DA FLOR
para Rosa Pena
haverá um mapa para encontrar a flor
do amor
como há mapas para conduzir o homem
ao desgosto?
aposto que os mapas são como a fonte
no horizonte
de todas as vidas em combustão lenta
até à morte.
é a sorte dos audazes que sempre os salva
na fresta alva
pura e imaculada como as asas dos arcanjos
nos crepúsculos?
usam os músculos da sobrevivência terrena
na arte plena
de avançar sem olhar para trás para as sombras
dos abandonos
ignoram sonos canseiras cicatrizes todas as marcas
das suas parcas
existências e lá vão na pesquisa instante dolorosa
do amor
no peito levam uma rosa
- no corpo todo
a dor
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(inédito.3.3.04)