Na harmonia
e conforto
das formas e das notas
percutidas
é que a bailarina
dança
e repousa.
Albano Martins
(in "A Voz do Olhar", 1998; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
ANTÓNIO MARIA LISBOA
Uma vida esquecida
Para o Fernando Alves dos Santos
Eu conheço o vidro franja por franja
meticulosamente
à porta parado um homem oco
franja por franja no espaço
meticulosamente oco uma porta parada.
Um relógio dá dez badaladas ininterruptamente
dez badaladas por brincadeira dança
um homem com pernas de mulher
e um olhar devasso no Marte
passo por passo uma criança chora
uma águia e um vampiro recuados no tempo
Acento
Vem dos montes friíssimos da Noruega
onde te sonhei para beberes estrelas
e caminhar a custo entre as cascatas
onde a ternura é um escadote
e o ar um caracol de planetas nas órbitas.
POEMA DO COMEÇO
Eu num camelo a atravessar o deserto
com um ombro franjado de túmulos numa mão muito aberta
Eu num barco a remos a atravessar a janela
da pirâmide com um copo esguio e azul coberto de escamas
Eu na praia e um vento de agulhas
com um Cavalo-Triângulo enterrado na areia
Eu na noite com um objecto estranho na algibeira
-trago-te Brilhante-Estrela-Sem-Destino coberta de musgo
(Desenho do poeta
dedicado a Mário
Henrique)
Projecto de Sucessão
Para o Mário Henrique
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
(in "Poesia de António Maria Lisboa"– texto estabelecido por Mário
Cesariny de Vasconcelos).
*
António Maria Lisboa (n. Lisboa, 1928). Frequenta o Ensino Técnico.
A partir de 1947 forma com Pedro Oom e Henrique Risques Pereira um
pequeno grupo à parte das actividades dos surrealistas. Em Março de
1949, parte para Paris, onde permanece por dois meses. Datam
provavelmente daí os seus primeiros contactos com o Hinduísmo, a
Egiptologia, com o Ocultismo em geral. De volta a Lisboa, colabora
com poemas e desenhos de títulos estranhos ( Pequena Históra a Mais
Fantástica dos Amorosos, Marfim Peixe, etc.) na qual se chamou «1
Exposição dos Surrealistas», do grupo dissidente. A partir dessa
altura, a amizade com Mário Cesariny acompanhá-lo-ia até aos últimos
dias. Em 1950 colabora na redacção de vários manifestos e, em carta
a Cesariny, faz as primeiras declarações com referência aos
objectivos do movimento surrealista. Apesar da aproximação, Lisboa
prefere intitular-se «metacientista», e não surrealista, porque,
argumenta, numa carta a Mário Cesariny, a «Surrealidade não é só do
Surrealismo, o Surreal é do Poeta de todos os tempos, de todos os
grandes poetas». Morreu de tuberculose com 25 anos. Obras: Ossóptico,
1952; Isso Outrem Único, 1953; Afixação Proibida (em colaboração com
Mário Cesariny), 1953; Poesia de António Maria Lisboa (edição de
Mário Cesariny), 1977.
Adaptado de «Poesia de António Maria Lisboa» – texto estabelecido
por Mário Cesariny de Vasconcelos, Lisboa, assírio & alvim).
***
PITADA DE SAL
o que diz: ELIANE ELIAS
DE REZENDE
HORIZONTES
O bosque, o riacho, a casa
Cenário simples: flores, quadros, livros
E tantos poemas
Um pequeno pote
Uma gaita
E sapatos rotos
Senta-se à varanda naquelas tardes
O sol recolhe
E a lua faz a festa
Seu coração
Uma estrada viajante
De sorrisos, de lágrimas
Da goiabeira que plantou
Dos sonhos que sonhou
Da vida que vai passando
Sonolenta e indiferente
Chegou pequenina
E queria apenas conquistar horizontes
Ela se recolhe
A lua, agora, vai brilhar no bosque
Iluminar a casa
O riacho
E seu livros
Muitos livros.
(in "Antologia Escritas", nº. 1, Direcção de Edição,
José Félix, Edição: Encontro de Escritas, Lisboa, 2004)
***
UM POETA DA MADEIRA
BALTASAR DIAS
(O POETA CEGO)
(Representação em S. Tomé e Príncipe, desde o século
XVI até aos nossos dias, da peça "Tragédia do MarquEZ
de Mantua; e do Emperador Carlos Magno", da autoria de
Baltasar Dias, o poeta cego da ilha da Madeira)
«MARQUEZ DE MANTUA»
(excerto da abertura da peça)
Diz o Marquez, fingindo ir perdido na caça:
Fortunosa caça é esta
que a fortuna me ha mostrado,
pois que, por ser manifesta
minha pena e grão cuidado
me mostrou esta floresta;
desque me acordo de mi,
eu creio que Margasi
fez esta terra Dardenha,
estes campos de Merlim.
Quero tocar a buzina
por ver se algum me ouvirá,
mas cuido que não será,
porque minha grã mofina
comigo começou já.
Todavia quero ver
se mora alguém nesta serra,
que me diga desta terra
cuja é para saber,
que quem pergunta não erra.
Por demais é o tanger
em lugar deshabitado
onde não há povoado
nem quem possa responder
ao que lhe foi perguntado.
Grão mal é o caminhar
por tão fragosa montanha
cansado assim sem companha
nem tendo onde repousar,
nesta terra tão estranha.
Vejo o mato tão serrado,
que fiz bem de me apear,
o meu cavalo deixar,
porque estava tão cansado
que já não podia andar.
Agora vejo-me aqui
nesta tão grande espessura,
que nem eu me vejo a mi,
nem sei de minha ventura,
nem menos será cordura.
VALDOVINOS
Ó virgem minha senhora,
madre do rei da verdade,
por esta grã piedade
sejais minha intercessora
em tanta necessidade.
Ó summa Regina pia,
radiante luz Phebêa,
custodia anima meae,
pois está na terra fria
a alma de pezar chêa,
pois és amparo dos teus,
consola os desconsolados,
Rainha dos altos ceos
e roga a meu Senhor Deos
que perdoe os meus pecados.
MARQUEZ
Não sei quem ouço gemer
e chorar de quando em quando:
alguém deve de aqui estar...
Segundo se está queixando,
deve ter grande pezar.
VALDOVINOS
Domine, memento mei
lembrai-vos de minha alma,
pois que sois da glória rei,
nascido da flor da Palma,
remédio da nossa lei.
MARQUEZ
Segundo dele se espera
aquele home anda perdido,
ou porventura ferido
de alguma besta fera.
Quero ver este mistério
que a fala me dá ousadia,
porque dois em companhia
terão grande refrigério
para qualquer agonia.
(...)
(in "Marquez de Mantua", Lisboa 1737)
«MALÍCIA DAS MULHERES»
Começa-se a obra
Senhor, o vosso conselho
tão conforme ao meu desejo
sempre por ele me rejo,
porque ele é um espelho
em que contino me vejo.
Desejo de me casar
para tomar meu estado;
mas temo de ser casado
porque os vejo queixar
e viver em grão cuidado.
Bem sei que esse é o demónio
que faz aos nascidos guerra:
eu temo o peso da serra
da carga do matrimónio
que dará comigo em terra.
Em as leis podereis ler,
assim dizem o antigos,
se nelas o quereis ver
que tem trabalhos e perigos
quem tem filhos e mulher.
Marco Aurélio afamado
falando dos casamentos
dizia em Roma ao Senado:
seis anos que fui casado
me pareceram seiscentos.
trinta e seis que fui solteiro
me pareceram seis dias,
meu amigo verdadeiro
é muito grande matreiro
casar por todas as vias.
Um decreto singular
diz um douto mui sabido,
não combate tanto o mar
as naos no seu navegar
como a mulher ao marido.
Se os navegantes, coitados,
vêm o perido correr,
mais é muito o dos cazados,
com os filhos e mulher,
com a fazenda e criados.
É cousa mui perigosa
guardar jóia tão prezada:
porque a mulher cazada,
maiormente se é fermosa,
é de muitos desejada.
É forçado que a vejam,
que não se pode encerrar,
se nisto quereis olhar
cousa que muitos desejam,
é muito má de guardar.
Se é fêa, está sabido
que tem vida muy penosa;
porque pede ao marido
cada dia um vestido
porque pareça fermosa.
Se vê trazer um calçado,
ou um vestido à vesinha,
é o coitado esfolado
porque logo muy azinha
outro lhe há-de ser dado.
Querem mais do que convém
donde mostram sua míngua
deshonrarão a quantos vêm
então dizem que não têm
outra arma, senão a língoa.
Elas buscam arruídos
sempre á cêa e ao jantar,
nunca cessam de bradar
posto saibam que os maridos
por isso as hão-de matar.
Não as castiga o parir,
nem tão pouco o criar,
para as poder emendar
a tudo querem acudir,
em tudo querem mandar.
Não sei quem casar-se quer
em este mundo dagora:
pois sabe quem tem saber
que se muda a mulher
trinta vezes cada hora.
Quando no Tejo não houver
ágoa, e toda se secar,
nem o mar peixes tiver,
então faltará à mulher
malícia para enganar.
Eva enganou Adão,
crendo mundanos prazeres,
e por esta tal rezão
quem se confia em mulheres
tem o engano na mão.
E se quiseres saber
sua maldade notória
escutai-me esta história
que agora quero dizer,
que é para ter na memória.
(...)
(in "Malícia das Mulheres", Lisboa, 1659)
(in " BALTASAR DIAS - Autos, Romances e Trovas",
introdução, fixação de texto, notas e glossário por
Alberto Figueira Gomes, Impensa Nacional-Casa
da Moeda, 1984)
*
Baltasar Dias, poeta e dramaturgo, popularizado pelo "Poeta Cego",
cujo nome foi dado ao teatro Municipal do Funchal, era natural da
Madeira (provavelmente do Concelho de Santana, primeira metade do
século XVI, tendo vindo a falecer no Continente português). Cego,
era autor de romances e autos que recitava, ganhando assim a vida.
Os seus textos eram frequentemente inspirados nas vidas de santos ou
no romanceiro espanhol, tendo grande sucesso popular na altura, o
que se veio a comprovar pelas sucessivas edições como literatura de
cordel e pela sua permanência no folclore brasileiro e africano,
nomeadamente em S. Tomé e Príncipe. Em 1537, obteve privilégio real
de impressão e venda das suas obras, cujas edições foram
sucessivamente realizadas, com evidente êxito junto do público,
entre as quais se contam Auto Breve da Paixão de Cristo (1613), Auto
da Malícia das Mulheres (1640), História da Imperatriz Porcina
(1660), Auto do Nascimento (s/d), Auto de Santa Catarina (s/d), Auto
de Santo Aleixo (s/d), A Tragédia do Marquês de Mântua (s/d) e
Conselhos Para Bem Casar (s/d), assim como uma série de obras
entretanto perdidas: Auto do Príncipe Claudiano (figurava no Index
de 1624), Trovas de Arte Maior à Morte de D. João de Castro (1548) e
o Auto da Feira da Ladra.
****
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
RAMÓN GÓMEZ DE LA SERNA
Nos mármores
ficou solidificada
a espuma
e o arabesco
de uma última onda pré-histórica.
RAMÓN GÓMEZ DE LA SERNA
(1888-1963)
(in "Greguerías", tradução de Jorge Silva Melo)
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
POMBO-TORCAZ
Embora como nidificante seja uma espécie relativamente escassa no
Baixo Sado, por finais de Outubro, fugidos ao frio das altas
latitudes europeias, começam a chegar aos montados cada vez mais
pombos-torcazes. Ave corpulenta com grande necessidade energética,
encontra nas gordas bolotas o alimento de que desesperadamente
carece. Durante todo o Inverno vêem-se dispersos pelos montados, o
progredirmos por entre os sobreiros, vom dois ou três de cada árvore
em cujas ramagens digerem tranquilos o fruto que, generosamente, ela
lhes deu. Porém, as observações mais espectaculares registam-se
antes do pôr do sol, quando dezenas de milhares de pombos-torcazes,
vindo, de todas as direcções, se concentram nos pinhais situados na
Herdade do Pinheiro para passarem a noite.
(in "Percursos, Paisagens e Habitats de Portugal", coordenação de
João Carlos Farinha).
*
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
FALANDO DE INJUSTIÇAS
eis aí que alguém surge
brandindo o gládio da injustiça
abatendo cabeças a eito
sem cuidar de saber quem é o culpado
será porque as flores não nascem
nos invernos hipotéticos
ou devagar
as formigas conquistaram os castelos
de madeira
onde os sonhos já não fazem ninho?
talvez seja fácil
resolver as palavras cruzadas
colocar amor no lugar onde se diz
que apenas duas sílabas assumem
o significado da eternidade
mas a verdade
é que os sentimentos
rejeitam os enclausuramentos
e o perfume das rosas liberta-se
nos amanheceres de todas as promessas
enquanto se reclama por outro destino
aos cobradores dos autocarros
pode ser que na ponta do pargo
a namorada não se importe pelo futuro
dependurado na construção civil
e algum advogado garanta que a sina
das mulheres jovens e belas
seja o pesadelo da indiferença
ao som do desalento do fado
alguém grita numa praça vazia
tentando acordar
as consciências escondidas
no silêncio madrugador da cidade
ao longe um detective
prende um inocente
na televisão
a cores
só para provar que os tribunais
são mais importantes
do que os homens
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(inédito.1986)