A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

5

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS

 

Algumas são redondas, outras
têm a forma consolidada
dos cilindros. Umas
são óvulos
de luz e de outras
apetece dizer
que são pequenos sais
de que o pó de estrelas
se alimenta. Do amarelo
ao roxo, do branco
ao verde e ao vermelho, elas são
a múltipla paleta
do arco-íris. A paleta
da fala, quando a voz
já não tolera
as consoantes do silêncio.


Albano Martins



(in "A Voz do Olhar", 1998; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas


EDGAR ALLAN POE


O CORVO



Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais



Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais! Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
«É o vento, e nada mais.»

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome «Nunca mais».

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele «Nunca mais».

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!
EDGAR ALLAN POE



(Tradução: Fernando Pessoa)


*
Edgar Allan Poe, poeta e ficcionista norte-americano, nasceu em Boston em 1809 e faleceu em Baltimore, em 1849 (EUA). A sua vida, apesar de curta, ofereceu-lhe o tempo suficiente para produzir algumas das mais interessantes obras literárias do século XIX, nos géneros do terror e do mistério, sendo até apontado por conhecedores como o pai do conto policial, considerando-se o seu papel como de grande influência na criação do "simbolismo" em França e também no "movimento modernista", ainda alinhando fanáticos defensores pelo seu lado, mais de século e meio após a sua morte. Entre os seus acérrimos apreciadores encontrava-se o poeta luso (com larga formação em Literatura de Língua Inglesa), Fernando Pessoa, responsável pela mais conseguida e personalizada tradução para português do seu poema "O Corvo", publicado primeiro em edição de jornal e, depois, em livro. Para além deste, entre outros da sua autoria, aconselha-se "Tamerlão e Outros Poemas" (1827) e "As Aventuras de Arthur Gordon Pym" (1838), todos com deiferentes edições recentes ou presentes em antologias.


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PITADA DE SAL

o que diz:

ANTÓNIO RAMOS ROSA






NÃO POSSO ADIAR O AMOR


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


ANTÓNIO RAMOS ROSA

(in "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro", Assírio & Alvim, 2001)



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UM POETA DA MADEIRA


JOÃO LUÍS DE GOES



ESPINHOS EM FLOR


Moldemos asas de alma no silêncio
dentro da noite insone
que nos cai nas horas de cruz
- noite-mãe de escuridões
torturantes e operosas,
que a Dor é sugestiva e criadora
(e a Vida é reconstrução
num sempre labor oculto).


Roguemos flores ao Mistério e ao Sonho
e ajardinemos a prisão.
Oh! a beleza trágica e divina
da Arte de Sofrer:
por ela um cerro assim vil e de horror
se ergue em Glória de Gólgota divino!


Ah! como estão os Céus à nossa mão
desde que a cruz é espada e é escada.


Moldemos, sim, a angústia num sacrário
e a cruz, de negra, será hóstia e branca.
E a fome e a morte hão-de florir
em pão e Vida.


E a negridão será de andorinha...
e o nosso peso asas leves, leves,
a librar-se em azuis voos
vivendo longes de sonhos.


Gemidos se amoldarão
a um cantor de madrugadas
e as lágrimas vão sorrir suaves
em jorros de luar
derramando pratas por nossos rochedos.
E teremos olhos turvos a amanhecer
em azul e ouros nascentes
e cardos amaciados e floridos
em rosas na Aurora.




A FLOR É MAIS FASCINANTE
ANTES DE SER COLHIDA...



Não sei que tem o amor-adoração,
um puro enlevo que domina a gente,
que mais forte nos prende que a corrente
que prenda corações no amor-paixão...


Não sei que encantamento há na prisão
dum amor puro, amor mesmo inocente,
que nos leva a querer constantemente
os fascínios daquela aparição!


E vive a gente aquele puro ideal,
um lindamente falso bem sem mal:
sem o amargoso mal de possuir...


E o coração lá está, puro, infantil,
qual rosa virginal em seu hastil,
só na fascinação do seu florir...

Funchal, 6 de Maio de 1972

(in "Ínclitos Ilhéus II", de José Abel O. Marques Caldeira, Funchal, 1997)


*

João Luís de Góis nasceu no sítio da Primeira Lombada, freguesia de Ponta Delgada, S. Vicente, Madeira, em 1918. Possuidor do curso teológico completo, tirado no seminário católico do Funchal, nunca chegou a exercer o múnus, por reconhecer não ter vocação suficiente para seguir a vida eclesiástica. Optou pela docência no Ensino secundário, nas disciplinas de Português, Latim e Grego. Tem colaboração dispersa por alguns órgãos de comunicação social, com realce para o "Jornal da Madeira", assim como cerca de dezena e meia de livros inéditos (incluindo prosa) organizados em volumes manuscritos.




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POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004



MÁRIO RUI DE OLIVEIRA



NUNCA MAIS DISSE


As palavras inundam as casas de neblina. Epifanias, encontro com um corpo, sede arrancada à própria sede. Como cães, nos atalhos da mata ou junto do mar, correm diante de nós.


MÁRIO RUI DE OLIVEIRA

(1963)




(in "O Vento da Noite")


*


POSTAL PARA MACHICO

Será verão ainda nessa margem do sono?
quem preferiu a distância à morte da flor?
existe esse do outro lado de ti?

a mentira da morte esquece
mãos que nos tocaram

Mário Rui de Oliveira

(Poema dedicado ao poeta madeirense,
José Tolentino de Mendonça, natural
de Machico, no dia do seu aniversário)



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IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004




PIER PAOLO PASOLINI




(...) Para me fazer compreender, tenho que referir-me à afirmação (...) de que existe antes de tudo o mais uma linguagem da acção (que dizemos assim, por analogia, semiológica, nas expressões "linguagens da moda, linguagem das flores", etc., etc.): falei já de um poema de acção a propósito de Lenine... Pois bem, talvez impelido pela grande vaga de empirismo, por um lado, e, por outro lado, de moralismo que investe o mundo dos anos presentes, quero insistir neste ponto.
A primeira linguagem dos homens parece-me, portanto, o seu agir. A língua escrito-falada não é mais do que uma integração e um meio deste agir. mesmo o grau máximo de autonomia da língua relativamente a este agir humano - ou seja: o momento puramente expressivo da língua - a poesia - não é por sua vez senão uma nova forma de acção: no momento em que o leitor a escuta ou a lê, em resumo: a percepciona, liberta-a de novo da convenção linguística e recria-a como dinâmica dos sentimentos, dos afectos, das paixões, das ideias: redu-la a entidade audiovisual, quer dizer: reprodução da realidade, acção - e eis como o círculo se fecha. (...)


(in "Emprisismo Herege";
Tradução de Miguel Serras Pereira)


***


Um poema inédito

de

José António Gonçalves



O FIM DA ESTRADA



não sei qual o fim da estrada que

se me abre perante os olhos na noite

e ri-se com um riso amarelo sempre

que se lhe pergunta para onde segue

o seu destino ou qual é o fim desta estrada



a estrada não se confina a um caminho

real dotado de todos os condimentos de

uma estrada qualquer. ilumina-se com

fósforos e canta uma música no eco dos

passos escrita por Bach numa madrugada de chuva

e serve a todos para encantar a viagem desde

os noctívagos perdidos das alegrias até aos

trabalhadores fatigados respondendo ao apelo

do descanso e ao silêncio do lar



não há um verdadeiro final nesta estrada -

penso. os abismos verdadeiros não são indicados

nas tabuletas ocultas pelas sombras

e as áreas de hospedagem poderiam ser os corações

dos viandantes. nunca estão sozinhos. são os seus

companheiros o sentido da própria jornada

a sua existência representa a explicação

porque andamos

com eles e não podemos nem sabemos como

regressar ao ponto de partida.



para onde ides? - uma voz perguntou-me certa

vez em que batia à porta das certezas. era a dúvida

que me interrogava ao ver-me desiludido com

as contingências do meu périplo pela vida. é

melhor não saber - esclareci titubeando uma

desculpa porque afinal sempre soube que a

estrada à minha frente era uma estrada sem

fim, projectada para ser não um percurso que se

pode desenhar num mapa, mas um mistério

sem regresso. é uma estrada só de ida. e nessa

noite pelo menos soube onde era a minha casa.



JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES


(inédito.5.3.04)
 

Selecção e Montagem: JAG