A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

6

 
 
 
  
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ALBANO MARTINS
 


Onde é mais surda
a floresta
aí te penso
e escuto.


Albano Martins


(in "Vocação do Silêncio - 1950-1985", 1990; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

***

Bloco Poético de Notas


FLORBELA ESPANCA

A nossa casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onte está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Costrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jadim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


Mais Alto

Mais alto, sim! mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que se não encontra! Aquela a quem

O mundo nao conhece por Alguém!
Ser orgulho, ser águia na subida,
Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém!

Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível
Turris Ebúrnea erguida nos espaços,
A rutilante luz dum impossível!

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!


Ser Poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!



FLORBELA ESPANCA

*

Florbela de Alma Conceição Espanca (1894-1930) é natural de Vila Viçosa, mas finou-se em Matosinhos. Estudou em Évora, onde concluiu em 1917 o curso liceu, matriculando-se, de seguida, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, altura que publica as suas primeiras poesias. Contraíu matrimónio por várias vezes, não alcançando jamais a felicidade conjugal que almejava, virando-se então para o uso de estupefacientes. A consagração do seu nome e da sua obra literária sobreveio ao seu falecimento, especialmente com a edição da Charneca em Flor (1930) pelo professor italiano Guido Batelli. Bibliografia em destaque: Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923), Charneca em Flor (1930), Relíquia (1931), A Máscara do Destino (1931) e Dominó Negro (contos, 1931). Na Enciclopédia Larousse, é definida como «parnasiana, de intenso acento erótico feminino, sem precedentes na Literatura Portuguesa. A sua obra lírica, iniciada em 1919, com o Livro das Mágoas, antecipa em seu meio a emancipação literária da mulher»


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PITADA DE SAL

o que diz:
NICOLAU TOLENTINO




A dois velhos jogando o gamão


Em escura botica encantoados,
Ao som da grossa chuva que caía,
Passavam de Janeiro um triste dia
Dous ginjas, no gamão encarniçados.

- Corra vizinho, corra-me esses dados -
Gritava um deles, que nem bóia via;
De sangue frio, o outro lhe dizia
Mil anexins naquele jogo usados.

Dez vezes falha o mísero antiquário;
E, ardendo em fúria, o trémulo velhinho
Atira c'uma tábula ao contrário.

O mal seguro golpe erra o caminho:
Quebra a melhor garrafa ao boticário,
Que foi só quem perdeu no tal joguinho.


NICOLAU TOLENTINO

Nicolau Tolentino (1740-1811) frequentou o Curso de Direito da Universidade de Coimbra. Era filho de um advogado da Casa da Suplicação. Conseguiu obter a carta de um professor régio, de Retórica e de Poética. Em 1783 foi nomeado oficial ordinário da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, constatando não ter vocação para a advocacia, nem para o ensino. A sua escrita, toda acentuada pela sátira e pela mordacidade, distinguiu-o com um caso singular no género, para alguns irrepetível na Literatura Portuguesa.


***

UM POETA DA MADEIRA



ABEL MARQUES CALDEIRA




À TARDINHA


Quando a tarde declinava
- Era tão londo o poente -
Na marquesa em minha frente,
Uma pequena bordava


Um leve olhar se trocava
e nada mais entre a gente.
Pois a minh'alma descrente
só junto dela ficava


Não sei o que ela via
que logo se aborrecia...
Então eu buscava as flores


Que as quero taanto, tanto,
Acompanham o meu pranto,
dão alívio às minhas dores...

Jardim de São Francisco, 1943



MÁGOA



Água pura, cor de neve,
em fios de espuma branca
Ao vê-la cair, encanta
pela rocha a deslizar
Quantas vezes a mágoa
vai na corrente da água
e torna a voltar.



O MELRO



O melro salta,
pousa, canta e voa
e vai percorrendo os trigais à toa
fazendo ninho no beiral.
É tão alegre o passarinho
como lindo o rosmaninho
da aldeias de Portugal.



A MINHA ANONEIRA



À sombra da minha anoneira
onde a brisa suave passa
eu nada vejo que me encante
a não ser no teu rosto a graça.

Andam os suspiros na sombra
dessa minha anoneira opada
De mãos dadas estão as mágoas
que o vento leva de abalada.



NOCTURNO



A calmaria noctívaga perturbava
os próprios barulhos do silêncio...
O galo acordado e altivo que cantava,
os grilos palradores que velavam
e os cães medrosos que ladravam
ram heróis apagados nessa noite...
Argênteo era o luar, branco luar,
e safirado o céu, céu constelar,
as silhuetas pardas e negras dos arbustos
e as águas caladas das correntes.
Mas o encanto dessa noite de Verão
não vinha da perturbação
que até o próprio silêncio calou!
O fluido nocturno de vida
que tornou essa noite preferida
vinha das almas que se amaram
e do amor sincero que se trocou.



O TRIGO


À margem dos caminhos
em espigas doiradas
tão loirinhas
e arumadas
a tombarem no chão
o trigo
após a desfolhada
corre de abalada
p'ra o moinho.
Do trigo vem a farinha
da farinha vem o pão.

Mãos rudes de ceifeiras
estendem o trigo nas eiras
a cantarolar
Desde a Alva ao Sol posto
consola vê-las trabalhar
de vermelhão no rosto.

Voltam por rústicos caminhos
a andar
de lés a lés
descendo os bardos
correndo valados
sem fatigar os pés.

Que belo é o trigo
a branca farinha
que entra em casa
pela tardinha.

Camacha, Julho de 1957


(in "Poesia e Prosa - Recolha Póstuma", Eco do Funchal, 2000)

*

Abel Marques Caldeira (1896-1965), era natural do Funchal, Madeira. Durante mais de trinta anos foi redactor do "Jornal da Madeira e colaborador de diversos órgãos de comunicação social. Foi publicamente homenageado em 1957, na capital madeirense, pelos jornalistas profissionais filiados na "Tertúlia sem Título", tendo sido o primeiro na ilha a receber a respectiva carteira profissional.Era um apaixonado pelas ilhas dos Arquipélagos da Madeira e dos Açores, organizando grupos de viagem, inclusivamente familiares, a partir do início dos anos trinta. Foi editor, proprietário e coordenador do "Almanaque Madeirense" que se publicou ente 1936 e 1960. Deixou alguns livros em verso e prosa inéditos, tendo publicado "Falares da Ilha", "O Funchal no 1º. Quartel do séc. XX", "Da Madeira ao Norte de Portugal" e o "Almanaque Madeirense". Os seus filhos prosseguem as actividades tipográficos e editam um periódico, o semanário "Eco do Funchal".


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POEMÁRIO


Assírio & Alvim


2004



RUY BELO


METAMORFOSE




Ó homem que passas tranquilo na rua
atrás de qualquer próximo perfume
e chegas a casa sem incidentes
ó homem que tens à espera de ti
virada a esquina da rua e do tempo o teu próprio rosto
não tenhas pena de quem morre
de árvore para árvore
e é diferente no princípio e no fim da rua


RUY BELO

(1933-1978)



(in "Todos os Poemas"")


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IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004




CURT NIMUENDAJÚ




(...) Em pedreiras tive de demorar-me outros seis dias, completamente perdidos. Os Timbira que eu julgava encontrar pouco abaixo deste lugar se mudaram para longe, para as bandas do Rio Grajaú. Terras pretas não existem. "Pedras de raios" e "oriscos" etc., caem naturalmente aqui também de vez em quando. Ouvi de diversos machados que foram encontrados ns roças, mas já tinham jogado fora todos. Só consegui um pequeno mó de pilão já bastante mutilado. Outro mais bonito não pude adquirir porque servia de peso de quilo. Não encontrei animais para alugar nem para comprar. Finalmente chegou uma lanchinha arrastando um enorme batelão e nela consegui uma passagem para Barra do Corda. A distância em linha reta entre Pedreiras e Barra do Corda é de 120 km que vencemos em 6 dias, porque estivemos a maior parte do tempo parados, ou para consertar a máquina da lanchinha ou para remover os obstáculos do rio que estava extremamente baixo. Diante de certo pau caído perdemos 20 horas, não porque tanto fosse preciso para remover o obstáculo, mas porque não houve quem dispusesse o pessoal para os trabalhos necessários. Primeiro levaram todos horas a discutir, depois cansaram as línguas e deitaram-se desanimados em pleno dia durante outras tantas horas. Finalmente descarregaram o batelão e puxaram-no por cima do pau. (...)

CURT NIMUENDAJÚ

(1883-1945)


(in "Cartas do Sertão")


 

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Um poema inédito

de

José António Gonçalves





A MÁSCARA DO VENTO



Havia um dia dedicado a todos os pássaros

independentemente das suas luminosas plumagens.

Havia um dia para os pássaros

em consideração aos limites

das suas margens.





Era apenas um dia

com o cheiro e a cor cinza dos outros

dias esquecidos.

Habitavam-no poucas aves,

solstícios e tempestades,

árvores, ninhos e pequenas paisagens

ou talvez seres desconexos e difusos

abraçados aos dilemas dos seus sonhos e rezas,

redistribuindo ambições, uma nesga de sol, um rasgo de lua,

na proporção exacta

das suas magníficas idades.





Nesse dia especialmente

dedicado aos pássaros

ninguém adormece

no embalar arfado das asas em movimento.

No céu

apenas sobrevive um suspiro

mascarado de vento.




José António Gonçalves




(in "Esquivas São as Aves",

Colecção "Cadernos Ilha", nº. 11,

Editorial Correio da Madeira, 2001)




 

Selecção e Montagem: JAG