A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Março

9

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.


Albano Martins


(in "O Mesmo Nome", 1996; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)



***

Bloco Poético de Notas


CESÁRIO VERDE



O SENTIMENTO DE UM OCIDENTAL

I
AVE - MARIAS

Nas nossa ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés e a turba,
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetesburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio; apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



II
NOITE FECHADA

Toca-se as grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de "dom"!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos;
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos;
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas,
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados;
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.



III
AO GÁS

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cuteleiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus meclemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós de arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros,como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzimho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!



IV
HORAS MORTAS

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!"...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir estrangulados.

E nestes nublosos corredores
Nausiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando, sobre a pedra das sacadas.
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!

(in "O Sentimento de um Ocidental", 1880)




CESÁRIO VERDE

(in "O Livro de Cesário Verde", org. Silva Pinto)

*
Cesário Verde teve uma vida bastante simples, tão simples, que os actos sociais da sua vida são de pouco interesse. De nome completo José Joaquim Cesário Verde, nasceu na capital, a 25 de Fevereiro de 1855, na freguesia da Madalena, onde foi baptizado a 2 de Junho desse mesmo ano. Foi o segundo filho de José Anastácio Verde e Maria da Piedade dos Santos, e trineto de um emigrante genovês em Lisboa, Giovanni Maria Verde. Pode-se dizer que a infância deste poeta lhe foi extraordinariamente marcante, pelo que manteve durante toda a vida uma íntima e profunda lembrança daqueles tempos em que viveu na companhia constante da natureza e do campo. Na realidade, acompanhando a exploração agrícola que seu pai fazia na quinta, Cesário teve como que uma educação positivista e realista, e ao acompanhar as gentes da aldeia, desenvolve um espírito observador e atento dos pormenores do meio ambiente. Em 1874, e apesar de reduzida e dispersa, a sua obra tinha já provocado escândalo, e dois intelectuais de prestígio e identificados com as ideologias progressivas da época- Ramalho Ortigão e Teófilo Braga- acolheram severa e sarcazmente o poema "Esplêndida", publicado n'O Diário de Notícias. Estes dois poetas chegaram, inclusivamente, a aconselhar o poeta a tornar-se "menos Verde e mais Cesário". A publicação de " O Sentimento de um Ocidental", no âmbito das comemorações do tricentenário da morte de Camões, ocorre em 1880, e um ano depois, Cesário passou a conviver com pintores como Silva Porto, Malhoa, Columbano, no Grupo do Leão. "Nós" só é publicado em Setembro de 1884, no número nove de " A Ilustração". A sua saúde em declínio faz com que ele tenha procurado no campo as forças e a vitalidade perdida, e identificou-se com os trabalhadores da quinta, realçando a majestade do esforço físico que já não tinha. Na Primavera de 1886, muda-se para Caneças, gravemente doente. No Verão, transfere-se para o Paço do Lumiar, onde veio a falecer, vítima de tuberculose, em 19 de Julho; contava então com apenas trinta e um jovens anos.

***

PITADA DE SAL

o que diz: RAINER MARIA RILKE





PÓRTICO


Quem quer que sejas: Quando a noite vem,
sai do teu quarto onde tudo conheces;
a tua casa é a última ante o longe:
Quem quer que sejas.
Com teus olhos, que, de cansados, mal
conseguem libertar-se do teu limiar gasto,
levantas devagar uma árvore negra
e põe-la ante o céu: esguia, só.
E fizeste o mundo. E ele é grande
e como palavra ainda a amadurar no silêncio.
E quando o teu querer abrange o seu sentido,
teus olhos o abandonam, ternamente...




RAINER MARIA RILKE

(1875-1926)

(in "POEMAS - Elegias de Duíno - Sonetos a Orfeu",
Prefácios, Selecção e Tradução de Paulo Quintela,
Edições Asa, 4ª. Edição, 2001)





***

UM POETA DA MADEIRA


GONSALVES PRETO



AMBIENTE



Disperso,
No ruído desta sala
Pressinto que todo o verso
Não traduz a minha fala,
Nem o deste imenso ambiente
De que me sinto possesso.

Andam aos gritos em surdina:
- Café, garoto, um galão!
E escuto a minha sina
Elevar-se no salão,
Como se fosse cantiga
De doce e linda menina.

Sobre a mesa,
Repousam restos mortais
Dum veneno absorvido
Com a serena volúpia
De alguns pecados mortais.

Só apenas em meus olhos
Há névoas de nada e fumo.
- Tanta vontade perdida
Tanto desejo sem rumo.

E vejo
Que o meu desejo,
É feito desesperança
Despido de toda a fé...
Que diabo!
Estou cansado de sofrer
E sofro por não poder
Morrer aqui, no Café.



NOITE IMENSA


A sombra fátua
Duma brancura de estátua
Passou por mim no instante
Cansado
E alucinante,
Do meu sonho alucinado.

Fui procurar o motio
Daquele mistério vivo
Que passou fosforescente,
Sobre o instante expressivo
Desse momento presente.

E a sombra fátua
Mantinha precisamente
Sua brancura de estátua.

A insónia que me seguiu
Foi tão fria como o frio
Da Senhora Dona Morte.
E na sombra da parede
O recorte
Da minha mágoa feita febre e sede
Projectou-se doidamente.

E a sombra fátua
Mantinha precisamente
Sua brancura de estátua.

Clareou,
O dia branco chegou
Envolvido em algodão.
Por cima da minha cama
Aquele algodão em rama
Cresceu
Num alvo montão.

E a sombra fátua
Desfaleceu
Numa brancura de estátua.


POEMA SEM NOME

A morte passou por cima
Do corpo da minha amada.
Beijei-lhe a boca e o beijo
Ficou a saber-me a nada.
Morreu a luz em seus olhos
Ao nascer da lua cheia,
Como se o vento beijasse
A chama duma candeia.

Sobre o seu corpo de neve
O luar bateu em cheio,
Para mirar o maior
Motivo do meu anseio.
E ajagou num lindo jeito
Sua pele de cetim
E o amor que eu concebera
Sem ter princípio nem fim.

Lá passa o vento a entoar
A litania da morte.
Brilha ao longe a minha estrela,
A estrela da pouca sorte.
Quero chorar e a tristeza
Não me alaga os olhos de água.
de luto cresceu a noite,
Senhora da minha mágoa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
A lua desfaleceu,
Desmaiou na claridade,
E a minha amada, de branco,
Está mais branca que a saudade.
Agora tudo acabou
- Mundo vazio, sem nada.
A morte passou por cima
Do corpo da minha amada.



GONSALVES PRETO

(in "Versos de Gonsalves Preto",
edição de João Miguel Rodrigues,
com capa de Jorge Freitas; Oficinas
do "Re-nhau-nhau", Funchal, 1955)

*
Pedro Gonçalves Preto (n. Freguesia da Sé, Funchal, 1907-1973), foi o fundador e director do jornal ""Re-nhau-nhau", órgão de comunicação social satirizador da sociedade madeirense e que contou com colaboradores (ocultos no anonimato) de escritores como Herberto Helder e Jorge Freitas, entre outros, assim como de cartoonistas que fizeram furor no seu tempo. Com o curso licelal ainda chegou a frequentar a Universidade de Coimbra, mas desistiu dos estudos para dedicar-se ao jornalismo e à literatura, para além de se ter tornado funcionário público. Usava frequentemente o pseudónimo (por ser uma pessoa de cor, assumidamente) "Gonçalves de Cor Ausente", subscrevendo textos hilariantes, críticos e sátiros do quotidiano e das personalidades madeirenses. Escreveu a peça teatral "O Fim do Mundo", levada à cena no teatro Municipal de Baltazar Dias (1933). Deixou inédito um seu livro de "Memórias" e publicou "Versos de Gonsalves Preto", em 1955.


***




POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004


RUY CINATTI




(Timor-Leste: paixão do poeta)


(...)


«I weep for Adonais
because he is dead».

Eu choro por Adonais
porque morreu.

Não está mal... a tradução,
mas tens razão!
Eu sou português e não
falo com a boca cheia.
Esta mania lusíada
de cuspir no chão é feia.
Nós não vivemos na selva.


E ela, tola-lograda:
- Don't be silly. Há o fado!
I like Fado. Não gostas!
Tu tens a melena cheia
de brilhantina. You look
al most like a fadista!


Passei a mão pela testa
e desgrenhei a madeixa,
dizendo: - Queres morangos,
figos amoras ou beijos...
(...)

RUY CINNATI

(1915-1986)

(in "Manhã Imensa")
 



***
Um poema inédito

de

José António Gonçalves







UM RISCO DE CARVÃO




há um risco de carvão na paisagem

multiplicado num prolongamento triangular

quase fazendo a vez duma esquadrilha de bombardeiros

em disciplinada formação bélica

para cumprir com o seu destino

voando por sobre os pinheiros inocentes





ninguém sabe a que apelo longínquo respondem

nem a razão porque se repete sempre a viagem

na mudança tumultuosa das estações

mas nos céus há riscos revoadas de pontos negros

abrindo brechas nos ocasos distantes

no deslumbre das suas desconhecidas missões







na mansidão do olhar dos pássaros

que ficam prisioneiros das mesmas geografias

há um risco em progressão no firmamento

e por um inexplicável momento sonham

como poderiam um dia renascerem como gansos

ou noutra manhãzinha

integrarem um bando na sua emigração

no suspiro breve das estrelas

onde se repetem as noites

e as tardes

não





José António Gonçalves


(inédito.04.09.99)




 

Selecção e Montagem: JAG