A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Novembro

9

 
 

***

ALBANO MARTINS


DOIS POEMAS



A noite chega de comboio.
Sou um astro sem brilho neste cais
onde espero há vinte e quatro horas
que não voltes mais.


*


Um dia virei
colado a um verso, embrulhado
numa folha, dobrado
a um canto,


para que os teus lábios
me ciciem, os teus olhos
me beijem


e eu não saiba


e eu não sinta.



(in «Outros Poemas», 1951/52;
«Vocação do Silêncio»,
Poesia - 1950-1985,
Prefácio de Eduardo Lourenço,
Imprensa Nacional-casa da Moeda,
Lisboa, 1999)


Albano Martins


(1930)


***
Bloco Poético de Notas


VASCO GATO



BÚZIO


sei que nunca viste o oceano,
que nunca olhaste a onda sobre a onda,
que nunca fizeste castelos para o mar ser forte.


mas sei que já viste o coração das coisas,
que já tocaste a ferida nos nossos braços,
que já escreveste para sempre o nome da terra.


por isso te digo que vou levar-te o mar
na concha das minhas mãos, azulíssimo,
para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive.



SE ALGUÉM DISSER



se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas do sangue.



UM NO OUTRO


imensamente nos deitamos um no outro
e não mais nascemos para a mão escura
que tapa o sol e afoga a lua

estamos como se tudo estivesse connosco
e connosco estivessem os nomes que primeiro se deram
flor rio azul estrela terra




Vasco Gato



(De «Um Mover de Mão"
in "Anos 90 e Agora - Uma
Antologia da Nova Poesia
Portuguesa», Selecção e
organização de Jorge Reis-Sá,
edições quasi, 1ª. ed., 2001)




(1978)

*
Vasco Gato (1978) é um dos poetas da vaga dos anos noventa que se está a impôr na moderna literatura portuguesa com um assinalável ritmo de publicações. Revelado com «Um Mover de Mão» (Assírio & Alvim, 2000), edita «Imo» em 2003 nas Edições quasi
e, de seguida, ainda no mesmo ano, «Lucifer» (Ed. Alexandria). Entretanto integrou a antologia da nova poesia portuguesa «Anos 90 e Agora» (Org. Jorge Reis-Sá, quasi, 2001) e traduziu a obra «Noites de Atropelo» de Mark Kozelek (edições quasi, 2002).


***

PITADA DE SAL


o que diz:


LEONARDO BOFF



ORAÇÃO DO PRESO



Quando olhares para os que nos aprisionaram
e para aqueles que à tortura nos entregaram;
Quando pesares as acções dos nossos carcereiros
e as pesadas condenações dos nossos juízes;
Quando julgares a vida dos que nos humilharam
e a consciência dos que nos rejeitaram,

Esquece, Senhor, o mal que por ventura cometeram.
Lembra, antes que foi por este sacrifício
que nos aproximámos do teu filho crucificado:
pelas torturas adquirimos as suas chagas;
pelas grades, a liberdade de espírito;
pelas penas, a esperança do teu Reino;
pelas humilhações, a alegria de seus filhos.

Lembra-te, Senhor, que desse sofrimento brotou em nós,
qual semente esmagada que germina,
o fruto da justiça e da paz,
a flor da luz e do amor...

Mas, lembra-te, sobretudo, Senhor,
Que jamais queremos ser como eles,
nem fazer ao próximo o que nos fizeram...
AMÉM



Leonardo Boff

(1938)



*

Genézio Darci Boff, mais conhecido como Leonardo Boff, nasceu em Concórdia, Santa Catarina, no dia 14 de dezembro de 1938 e é descendente de italianos que vieram para o Rio Grande do Sul. Estudou Teologia e Filosofia, doutorando-se nessa área em Munique, na Alemanha. Em 1959, entrou para a Ordem dos Frades Menores, franciscanos. Foi professor de Teologia em vários locais do Brasil e do exterior, incluindo universidades em Lisboa (Portugal), Salamanca (Espanha), Harvard (EUA), Basel (Suíça) e Heilderberg (Alemanha), assim como defensor da causa dos Direitos Humanos, dos fracos e dos oprimidos e marginalizados. De 1970 a 1985, participou do conselho editorial da Editora Vozes. Foi redactor da Revista Eclesiástica Brasileira de 1970 a 1984, da Revista de Cultura Vozes de 1984 a 1992 e da Revista Internacional Concilium de 1970 a 1995. Sempre muito ligado à Teologia da Educação, participou de um processo de Defesa da Fé no Vaticano, em 1984. Já no ano seguinte, 1985, foi condenado a um ano de "silêncio obsequioso" e afastado da área editorial e do magistério. A pena foi suspensa no ano seguinte e Leonardo Boff retomou algumas de suas atividades. Em 1992, sofreu nova ameaça de punição, levando-o a renunciar às suas atividades de padre. Em 1993 passou a integrar a Universidade do Estado do Rio de Janeiro como professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia. Vive actualmente em Petrópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro, dividindo a vida e a tarefa de defensor da natureza com a educadora Márcia Maria Monteiro de Miranda. Adoptou uma criança e dedica-se à criação de seus "netos" Marina e Eduardo.


***

UM POETA DA MADEIRA




AVELINO F. COSTA




(RUGE-ME O PEITO)



ruge-me o peito
uma geração de aves
sai-me dos olhos

encaremos o colo
como o eterno descanso
carícia e plumagem
de ave rara


de ave em ave o voo acaba
voa o acabar e voa num começo
de voar
de voo em vooo
é um voar num nunca acabar
como se os voos não fossem
findar com uma sede
de deserto e solidão desmesurada




(HÁ SILVADO MADURO)



há silvado maduro pelas coxas
tardes de tacto vulvas roxas
e o afundar dos membros seguros
enquanto os seios reflectem frutos maduros

os símbolos do cosmos num sopro
convergem para teu corpo
enquanto a cabeça desarruma
teorizações quando a carne espuma

corvo da noite clarão e brilho
o corpo é um trilho
sempre que me esteja perto

passeio o tacto pela enseada
o quadril mulher deitada
com o porto da nudez aberto





(EM CÍRCULOS DE EMBRUXAMENTO)




em círculos de embruxamento
eis-me mago supremo
neste promontório áureo em desabamento
de lasca a lasca erva sem termo

e pela orla azul mais cores em sedimento

eis a desagregação estática
peneira de mar.




(in «Noção»,
edição Espaço xx1,
Funchal, 1999)




Avelino F. Costa



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POEMÁRIO
ASSÍRIO&ALVIM2004




JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA




CRATO E ZENÓFILO




Como resguardar o escrúpulo neste mundo
e defender o direito a não ter opinião,
perseguido pela admoestação de contas-correntes
e a unanimidade dos juros,


como julgar um Deus omnipresente?
Pela razão afluente ou por um gosto
caduco? Antes ruas atropeladas de gente,
uma indústria de olhos desatentos.


Presságios que rachavam árvores pelo meio
e contemplavam o estupro de vacas
- exegetas menos hábeis que séculos
de exílio e meditação anunciavam,
argumentos torcidos pelos nervos,


mistérios rendidos à razão prática:
ressuscitar um touro seria de somenos,
se nos fosse dado entrever
a fórmula luminosa que o matara.



José Alberto Oliveira


(1952)


(in "Peças Desirmanadas e Outra Mobília»)



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imaginário
assírio&alvim 2004



CURT NIMUENDAJÚ




(...)
Calixto é hoje o último Tukúna brasileiro que ainda entende de fabricação do curare na qual a tribo tanto se celebrizou. Pedi-lhe que fizesse curare para mim, calculando que isto seria uma boa maneira de prendê-lo à casa e uma óptima ocasião para fazê-lo contar histórias, mas quanto a isto me enganei muito: Calixto cozinhando o seu veneno parece não enxergar outra coisa senão as suas panelas; outrossim, contando, ele parece reviver as histórias que conta e se esquece de tudo o mais. A consequência foi que durante um mito tukúna a panela de veneno rachou, e 4/5 de xarope precioso cairam dentro do fogo! Durante 17 dias ele tinha trabalhado na fabricação (tirando três dias de caxirí!) e agora o que se salvou não daria para encher uma caixa de fósforos!
(...)


Curt Nimuendajú



(1883-1945)



(in «Cartas do Sertão»)


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POEMA INÉDITO

DE

JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES



O PODER DOS BARCOS





disseste-me que as rochas vulcânicas

me perseguiriam nos caminhos do dia

e que então de nada valeria tentar fugir



convenceste-me da força do pesadelo

e obrigaste-me a conhecer as escarpas

onde a natureza criou os seus abismos



fizeste questão de deixar claro como são

as casas com a sua condição de templos

o único lugar onde os homens estão a salvo



avisaste-me dos perigos que por aí vinham

a invadir o meu espaço de erva e de musgo

e apontaste o mar como a linha de escape



nem viraste o corpo em direcção à luz do sol

quando o contraste das palavras aprisionou

à terra a vontade de ficar - indo sem partir



é a ilha vociferou ao longe um indígena branco

e desenhou na terra com um pau seco de urze

um mapa acabado de pisar por navegadores



era de certeza o horror da visão doutras épocas

uma aparição em caravela do reino lusitano

com o peso da autoridade das armas e da fome



invadiam nas manhãs de penumbra o horizonte

e traziam novas encantadas sob a cruz de cristo

e levavam o vinho o açucar o cereal a madeira



até que uma noite chegaram os ingleses e a voz

de um comando que ninguém por ali compreendia

a aniquilar defesas e a escravizar o povo sem nome



afinal hoje tudo continua igual ao que foi no passado

excepto que quem manda agora são os filhos os netos

dos que sendo subjugados jamais olvidaram o sonho



remédio tardio para o sangue perdido nas levadas

e nos poios do arquipélago virgem ainda por desbravar

mas por ora já são os barcos ilhéus quem sai a navegar



José António Gonçalves

(inédito 09.11.04)



JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves/


Consulta aos «Calendários» anteriores:
http://escritas.paginas.sapo.pt//indice.html

http://members.netmadeira.com/jagoncalves/calendario.htm



 

Selecção e Montagem: JAG