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CÂMARA DE LOBOS: PONCHA, NIKITA E PÉ-DE-CABRA Ao José António Gonçalves e ao Mateus Gouveia
Que diferença existe entre poncha, nikita e pé-de-cabra? Entre lume e labareda, estrela e nebulosa, mar e maresia? Tudo isso é para beber em transe: em copos de deslumbre, em cálices de amizade, em taças de euforia.
Bebo nikita como quem bebe leite pelos úberes, fulvos, de um animal mais quente. Bebo pé-de-cabra como quem sorve o dia desfraldado em sol, em colorida bandeira. E bebo poncha como num prado velido beijando a eternidade ou o pé de uma donzela.
Bebo poncha (e nikita e pé-de-cabra) no desarmado gesto de quem corre pelas pastagens do fulgor e da luz ou por um céu excessivo, portentoso, ou por uma praia límpida, extensíssima, sem nada que a conscurpe ou perturbe.
Bebo - por vezes com assomos de uma jovial e trémula confusão - péde-cabra e poncha, poncha e nikita, nikita e pé-de-cabra. Isto é, já em voo rasante às nuvens e à brisa, aos arvoredos, pétalas e navios, seguindo bem na pista de uma águia em busca do seu poiso e dos irmãos.
Bebo - e porque não havia de beber nestas margens amenas, atlânticas, minha raiz de fogo, azul e brumas? - nikita, poncha e pé-de-cabra com o gosto de quem sobe altos rochedos ou diz um estranho adeus ao fundo das ravinas.
Bebo poncha e nikita - enquanto não me servem, prestantes, outro pé-de-cabra, enquanto Glenn Miller toma, noutra mesa, o seu licor de mel, o seu mais destro e compassado líquido de revolver os sonhos e as emoções: as vozes e os olhares sentimentais de imagens tão presentes, tão outrora.
Bebo pé-de-cabra. E poncha. E nikita. Bebo com os amigos-conterrâneos bem à vista, cicerones das luas mais incríveis. Bebo quase a noite ou o resto dos dias que são berços de afecto, cordas divididas entre ficar-partir, frementes asas de uma saudade já, de despedida.
Bebo. E rebebo. E sou um trevo a beber - meus senhores - copos de vida.
JOÃO RUI DE SOUSA (in "O Escritor", APE-Associação Portuguesa de Escritores, nº. 7, 1996).
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